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2631 - Abril de 2021

Editorial


General José Luiz Pinto Ramalho*

 

Em 2014, o Departamento de Defesa dos EUA produziu um estudo, relativamente aos conceitos de Liderança, Chefia e Comando alertando para os efeitos perniciosos daquilo que designaram por “Líder Tóxico” e correspondente tipo de liderança, pelas consequências que essa circunstância poderia provocar, quer nas organizações quer nos comportamentos individuais.

A Revista Militar, na sua edição de dezembro daquele ano, fez eco das considerações desse estudo, designadamente, a referência a que esse tipo de chefia “era caracterizado por atos marcados pelo interesse ou projeto pessoal, por agendas próprias, desinseridas das realidades ou necessidades das organizações ou instituições, que se assumem tutelar ou dirigir, por um fraco processo de decisão, pela vacuidade da argumentação, de opção pelo acessório em detrimento do fundamental, que aposta no “micro-management”, na obtenção da informação para esse processo fora da estrutura formal das organizações, na falta de transparência das opções e das decisões, inversão de prioridades e por uma ausência ou fraca preparação e cultura organizacional”.

Acrescenta, também, que estes comportamentos assentam no “imediatismo das decisões, na ignorância e no preconceito, no deslumbramento por soluções desinseridas das realidades circunstanciais, pelo provincianismo e que provocam nas organizações e instituições, prejuízos profundos, com repercussões que perduram no tempo e introduzem entropias no seu normal funcionamento, afetando a produtividade, a adequabilidade e a flexibilidade da sua resposta aos desafios do futuro e, em particular, às situações inesperadas, assim como perturbam a coesão e moral do pessoal, com inequívocos efeitos negativos na eficácia e eficiência nos desempenhos que se prospectivam”.

Quando se analisam os conceitos referidos no início deste texto, no quadro da condução das instituições, se nos servirmos dos múltiplos manuais de chefia e liderança, são constantes os alertas para a necessidade de não se comprometerem princípios gerais, que têm a ver com o relacionamento do topo da hierarquia com as bases, o clima de confiança e transparência na tomada das decisões, a audição, mas, sobretudo, a participação, a coordenação e a ponderação e rigor das características intrínsecas das instituições e/ou organizações, assim como para com o respeito pela teoria e doutrina organizacional das mesmas.

Se de uma forma mais simples e direta se recorrer ao Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, para encontrarmos palavras-chave para caracterizar aqueles conceitos, de uma forma sucinta, surge-nos para “Liderança” – capacidade de exercer influência, ter carisma, ser competente; para “Comando” – exercer um mandato, dirigir como superior, ter autoridade sobre; para “Chefia” – poder de decidir, ser competente, ter capacidade para coordenar e influenciar. Esta diferenciação permite-nos comparar cada um deles e refletir sobre a qualidade do seu exercício, incluindo a opção por qual das práticas somos confrontados.

Desse exercício ressalta que, por vezes, as circunstâncias e características pessoais conduzem à eleição de uma das formas de condução das organizações/instituições; na situação de falta de aptidão, para chefiar ou liderar, a solução encontra-se no comando e na ampliação do mandato, de forma a garantir um objetivo estabelecido, seja ele qual for, seja pessoal, tido como institucional, político, económico ou outro qualquer.

Estas situações decorrem ainda, também, por fragilidades e incompetência das tutelas, umas vezes por convergência de personalidades, ou por se tornarem atrativas pela possibilidade da transferência de responsabilidades que deveriam ser suas, esquecendo, normalmente e em simultâneo, a atribuição daquilo que deveriam ser os correspondentes recursos, mas igualmente tranquilizadas e iludidas pela convicção de que se “os problemas não me forem colocados, deixam de existir”. É uma verdadeira ilusão, porque os problemas não só não desaparecem, como em devido tempo vão mesmo surgir, mas de forma caótica, urgente e mais exigente.

A bem da sanidade organizacional seria bom que este tipo de líderes ou de liderança não existissem. Contudo, a realidade contemporânea mostra-nos que elas persistem, surgem ocasional e periodicamente, sendo importante para as Instituições que têm de perdurar para além de uma gestão conjuntural que, mais do que minorar danos se consiga impedir, seja pela pedagogia seja pela demonstração da sua evidência e pela responsabilização das anomalias provocadas, que possam continuar a acontecer, designadamente aos níveis mais elevados da Administração do Estado.


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* Presidente da Direção da Revista Militar.

 

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Resumo do Acervo Articular da Revista


 

1. O Processo de Decisão Militar e o Apoio Militar de Emergência: adaptar processos e técnicas

    Coronel Luís Barroso

 

O objetivo deste texto é propor uma adaptação ao processo de tomada de decisão militar em vigor (EP 2007) para as operações de Apoio Militar de Emergência (AME), tendo como referência a resposta a dar pelo Exército através da Unidade de Apoio Militar de Emergência (UAME) e das restantes unidades do dispositivo que têm responsabilidades de aprontamento de módulos de AME. A análise será efetuada na perspetiva do comandante da UAME, mas é também válida para qualquer comandante de unidade a quem é solicitado apoio militar de emergência, ou para qualquer outra situação tática.

 

2. Ciberdefesa – Uma componente de Segurança

    Capitão-de-mar-e-guerra Helder Fialho de Jesus

 

O ciberespaço tem mudado a forma como nos relacionamos na sociedade dos dias de hoje, seja no contexto do indivíduo, das organizações, das empresas ou do Estado. Por outro lado, também eliminou diversas barreiras, como a geográfica, pois as distâncias físicas são irrelevantes, ou a temporal, onde a questão dos fusos horários perderam relevância. Daí a expressão “à distância de um clique”.

 

3. A Cooperação de Defesa na CPLP: O mecanismo de resposta a catástrofes e a constituição de uma Força Humanitária Lusófona

   Tenente-coronel Flávio Luíz Lopes dos Prazeres

   Tenente-coronel Luís Manuel Brás Bernardino

 

Uma das principais críticas a que a CPLP tem sobrevivido nos últimos anos, nomeadamente na vertente da cooperação de Defesa, é o seu desajustamento organizacional e a falta de uma capacidade operacional. Estas críticas surgem como paradoxo de um certo imaginário luso que nos impulsiona a acreditar que a criação e operacionalização de uma “Força Militar Lusófona”, para emprego no espaço da Comunidade em defesa dos interesses da organização, pode ser uma realidade no futuro próximo. Será mesmo assim?

 

4. O Conflito entre a China e Portugal (1521-1522). A importância da Artilharia

   Tenente-coronel Pedro Marquês de Sousa

 

A presença dos portugueses no Oriente após a conquista de Malaca (1511) alterou a geopolítica da Ásia, prejudicou os canais de comércio de produtos chineses para o Índico e reduziu o poder da China na região. Entre 1521 e 1522, na costa sul da China, portugueses e chineses envolveram-se num conflito resultante do choque entre a política expansionista do Rei D. Manuel I e o protecionismo da Dinastia Ming.

 

4. Hospital Militar do Porto, mais de 150 anos de história

   Major Raquel Santos


No próximo dia 22 abril de 2021, completam-se 159 anos desde o assentamento da primeira pedra deste lindo edifício histórico, localizado em pleno coração da cidade do Porto. Em jeito de comemoração e homenagem à sua mais recente colaboração nesta “guerra” contra a pandemia, o presente artigo tem como objetivo partilhar convosco um pouco sobre o percurso do apoio sanitário, prestado pelo Hospital Militar do Porto, aos portugueses, ao longo dos seus mais de 150 anos de existência.

 

5. Elementos de informação constantes dos capítulos das crónicas:

    Crónicas Bibliográficas:

 

  • Memórias de um Militar e Engenheiro Antes e depois do 25 de Abril

            Major-general Adelino de Matos Coelho

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