General José Luiz Pinto Ramalho*
Nas últimas semanas, mais precisamente a partir de 27 de Setembro do corrente ano, temos vindo a assistir à confrontação militar entre a Arménia e o Azerbaijão a propósito do território de Nagorno-Karabakh (N-K) e Distritos circundantes, controlados pelas forças armadas da Arménia, desde o cessar-fogo estabelecido em 1994, que pôs termo ao conflito com o Azerbaijão, o qual, durante quase quatro anos, provocou cerca de 30 000 mortos e mais de um milhão de deslocados.
Durante o período soviético, o território de N-K era parte do Azerbaijão, que, por sua vez, integrava a URSS. Com o desaparecimento desta, a maioria arménia (cristã) procurou uma união com a Arménia ou mesmo a independência, o que levou aos confrontos internos com a minoria Azery (muçulmana, étnica e culturalmente próxima dos turcos) e com o Azerbaijão, tendo o cessar-fogo atribuído à Arménia, o controlo dos distritos circundantes de N-K.
A situação no terreno teve o apoio da Rússia, que tem um Tratado de Defesa Mútua com a Arménia, embora a ocupação não seja internacionalmente reconhecida, considerando que os territórios dos Distritos continuam a fazer parte do Azerbaijão. Desde aquela data, a situação não se alterou. Passaram já mais de 25 anos e o controlo dos Distritos circundantes de N-H tem-se vindo a consolidar, como forma de garantir a ligação, cada vez mais
estreita, com a Arménia, embora, ao longo deste tempo, se assistisse, continuadamente, a esporádicas escaramuças militares. A situação agudizou-se com as declarações e diversas ações internacionais encetadas pelo PM da Arménia, Nikol Pashinyan, no sentido da unificação de N-K com a Arménia. A reação do Presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev foi escalar a gravidade dos acontecimentos, recorrendo ao emprego de forças militares.
Os combates têm-se intensificado e os observadores e organizações no terreno apontam para centenas de mortos com bombardeamentos à principal cidade de N-K, Stepanakert, e à segunda maior cidade do Azerbaijão, no norte, Ganja. Do lado azery, há a referência da ocupação de mais de uma dezena de zonas populacionais no distrito de Jabrayil, que faz fronteira com o Irão e um dos sete que servem de “anel de segurança” ao enclave de N-K. O equilíbrio militar inicial, com umas forças armadas mais capazes e profissionais do lado arménio, tem vindo a ser alterado com a intervenção da Turquia, apoiando o Azerbaijão em meios militares, designadamente com drones e com a presença de centenas de mercenários provenientes da Síria, situação documentada na comunicação social.
Ambos os países declararam a mobilização geral, sendo que do lado arménio esta foi assumida como um desígnio nacional e com a adesão da população à participação no recrutamento, com o sentimento de que a defesa de N-K é inseparável da sua sobrevivência como país independente. No caso do Azerbaijão, a mobilização não tem tido o mesmo impacto, designadamente, junto das camadas mais jovens, que consideram a situação como uma “questão de recuperação, pelos mais velhos, do orgulho nacional ferido”, pela perda de uma zona montanhosa, que não conhecem e que ocorreu quase há trinta anos; esta realidade tem igualmente sido apontada, como uma das razões para a necessidade da participação dos mercenários sírios, patrocinada pela Turquia, como forma de ultrapassar as dificuldades encontradas na mobilização.
A presente melhoria da qualidade tecnológica da capacidade militar do Azerbaijão deve-se à aquisição de sistemas de armas à Rússia, a Israel e ao fornecimento de drones turcos (BT 2), já utilizados na Síria e que, para além da destruição que provocam, fazem o seu registo fotográfico, com tremendo impacto psicológico na guerra de informação sobre o conflito. Os riscos de internacionalização do conflito em termos regionais é real, os combates têm ocorrido na fronteira com o Irão e posto em risco a segurança dos “pipeline”, de petróleo e gás natural, que partem do Mar Cáspio e chegam à Turquia através da Geórgia. Em termos internacionais, temos assistido às declarações da ONU, da UE, da OTAN, dos EUA e da Rússia para que parem as hostilidades, mas sem interlocutor convicto, nem grande empenhamento dos dois últimos, por razões distintas e, no caso da Turquia, a um incentivar do Azerbaijão a continuar e intensificar as ações militares, com Erdogan a “garantir total apoio aos seus irmãos azerys, na sua luta sagrada, até à vitória final”.
Relativamente aos EUA, a situação eleitoral atribui a esta questão “uma não prioridade” e a Rússia, embora pretenda ter uma intervenção visível o mais tarde possível, não deixará de honrar o seu compromisso político para com a Arménia, na altura que considerar inevitável, mas, entretanto, vai deixando tornar evidente a incapacidade da UE para ter qualquer tipo de intervenção na resolução do conflito, para além das declarações políticas que produz e, também, a demonstração da manifesta paralisia da OTAN para refrear os comportamentos belicistas e de afirmação de poder regional de um seu país membro, com uma agenda expansionista do que considera ser o seu interesse nacional, mesmo à margem do direito internacional que, no mínimo, perturba a coesão política e militar da Aliança.
Quanto à ONU, sem o apoio e envolvimento dos grandes poderes (neste caso, da Rússia e dos EUA), dificilmente concretizará qualquer Resolução, que imponha uma solução para o diferendo, solução cujo primeiro esboço aponta para um N-K autónomo, com um estreito corredor de ligação à Arménia e a devolução ao Azerbaijão dos Distritos circundantes, proposta que nenhuma das partes está, nesta data, disponível para discutir ou sequer ouvir.
Por razões de política de poder, a nível interno na Turquia, Erdogan tem vindo a jogar um perigoso exercício de afirmação de poder regional, confrontando a Rússia, na Síria e na Líbia, e, agora, no Cáucaso, desafiando e ignorando as críticas da UE e da OTAN; o próximo passo a que poderemos assistir poderá ser em Chipre, com o reinício das prospeções de hidrocarbonetos nos mares daquela ilha e da Grécia, a par de uma eventual resposta musculada à crescente atitude de líderes políticos na República Turca de Chipre, favoráveis à reunificação, descontentes com a assimetria de desenvolvimento e que encaram a presença dos cerca de trinta mil soldados turcos não como uma garantia de segurança, mas sim como uma força de ocupação.
O Presidente da Turquia, Erdogan, irá continuar o seu projeto pessoal de poder, utilizando a religião e o nacionalismo, prosseguindo publicamente a desconsiderar as críticas da UE e da OTAN, a menos que estas organizações tenham a coragem política para assumir atitudes mais firmes, sem receio das continuadas ameaças relativas ao “abrir das portas para a Europa” aos imigrantes retidos e de reiterar ações contrárias ao direito internacional e a colocar em risco a estabilidade regional, fruto de declarações da possibilidade de uma atitude militar agressiva, relativamente à Grécia. Esta é uma situação internacional que importa ser acompanhada com a maior atenção.
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* Presidente da Direção da Revista Militar.
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1. História Militar
General António Eduardo Queiroz Martins Barrento
Através de uma parábola, utilizando a apresentação do livro “História Concisa”, do general Loureiro dos Santos, efetuada há dez anos, o autor defende que o conhecimento da história militar pode ajudar-nos a compreender o presente e a guiar as nossas ações para melhor agir no futuro.
2. A crise da Covid-19 e o futuro das finanças públicas portuguesas: A necessidade de um círculo virtuoso entre retoma económica e condições favoráveis de acesso a financiamento
Prof. Doutora Nazaré da Costa Cabral
Sendo Portugal uma pequena economia aberta ao exterior, está naturalmente mais exposto aos efeitos nefastos da crise pandémica, em consequência de algumas importantes e subsistentes fragilidades estruturais – fraca diversificação económica, débil qualificação dos recursos humanos, reduzida dimensão das empresas nacionais e a fraca capitalização – está naturalmente mais exposto aos efeitos nefastos da crise. O artigo procura destacar os efeitos que condicionam diretamente as finanças públicas portuguesas.
3. O aquecimento global e a geopolítica do Árctico
Tenente-general PilAv Eduardo E. Silvestre dos Santos
Considerando os seus relevantes aspetos geopolíticos, o Ártico tomou, nos últimos anos, uma importância estratégica, principalmente, em consequência das alterações climáticas, que o autor julga estarem a conduzir as decisões políticas para a região.
4. Disputas marítimas no séc. XXI
Capitão-de-mar-e-guerra Nuno Sardinha Monteiro
Apesar da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982) procurar regular o regime de utilização do mar, os estados costeiros sempre ambicionaram estender os seus espaços, beneficiando dos recursos, tanto inertes como biológicos, do leito e do subsolo marinhos.
5. África Subsaariana: Projeto Groupes D’action Rapides – Surveillance et Intervention au Sahel
Coronel Tirocinado Paulo Jorge Alves Silvério
A Guarda Nacional Republicana participa no Projeto da União Europeia – Groupes d’Action Rapides-Surveillance et Intervention au Sahel – evidenciando o esforço de Portugal, numa perspetiva estratégica, com o objetivo de garantir a segurança nacional, nas vertentes de defesa nacional, de segurança interna e do espaço europeu.
6. Papel de Angola na geopolítica regional: o caso da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (2011-2017)
Doutor Leonardo Tuyenikumwe Pedro
Tenente-coronel Francisco Proença Garcia
Este estudo descreve e analisa os fatores que configuram a Região dos Grandes Lagos como uma região importante na geopolítica da África Subsariana, analisa a estrutura e política da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (CIRGL) e procura compreender o papel que Angola tem desempenhado naquela região, no quadro da CIRGL, na vertente da defesa; procura ainda compreender os contributos de Angola para o estabelecimento e manutenção da paz, segurança e estabilidade na região, enfatizando a presidência daquele país na CIRGL e o seu projeto estratégico.
7. Angola um estado ribeirinho: Do conceito operacional de segurança marítima, ao exercício da autoridade do estado no mar
Doutor Damião Fernandes Capitão Ginga
Este artigo parte de uma análise profunda ao actual contexto de insegurança marítima continental, de uma maneira geral e local no sentido mais restrito da abordagem, fazendo um enfoque a questão conceptual, enquanto matriz de formação doutrinária sobre o leque de questões ligadas à segurança marítima. Paralelamente, faz-se uma reflexão sobre as missões e os desafios do Estado angolano no Mar, sublinhando as principais ameaças locais e os riscos globais que são transferidos através dos oceanos, num contexto em que se exige uma renovação nos dispositivos e meios conducentes ao exercício da autoridade do Estado no mar, garantindo assim a presença permanente do Estado, nos espaços marítimos nacionais. Em suma, o Controlo do Mar deverá ser assumido, quer de forma isolada como de forma integrada e coordenada, em benefício do interesse nacional.
8. Elementos de informação constantes dos capítulos das crónicas:
a) Crónicas Bibliográficas:
• A Guerra Civil Portuguesa (Lutas de irmãos na região de Santarém, D. Pedro e D. Miguel)
Major-general Manuel de Campos Almeida
• Marquês de Sá da Bandeira – O Homem, o Militar e o Político
Tenente-general Alexandre de Sousa Pinto
• A Frente Interna da Grande Guerra
Major-general João Vieira Borges