Nº 2565 - Outubro de 2015
As Memórias do Capitão António Joaquim Henriques – Recordações da Grande Guerra de 1914-1918 (III)
Mestre
Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de Menezes
Dr.
Emanuel Luís de Oliveira Morão Lopes da Silva

 

 

Muito simpático… mas muito bem morto

Depois do “9 de Abril” a frente alemã começou a desmoronar-se e não tardou a retirada geral. Na guerra, mesmo em retirada combate-se sempre e não seriam os alemães, como mestre de mão beijada deixariam espaço livre tranquilamente aos perseguidores. Deixavam as suas unidades incumbidas de retardar o nosso avanço e algumas surpresas desagradáveis isso nos causou.

Estamos já em território belga, perto da cidade de Tournai e por sinal num avanço um tanto calmo e cauteloso por causa das tais surpresas, quando isoladamente sem motivo aparente, um soldado do meu pelotão disparou um tiro. Naturalmente indaguei do que se passava e qual não foi a minha surpresa ao verificar que o tiro disparado foi sobre o cadáver de um soldado alemão, dos que iam caindo na retirada. Não me pude conter que não repreendesse o soldado pelo seu procedimento, que me causou repulsa.

Perto de mim, marchava o oficial inglês de ligação – em cada batalhão português prestava serviço um oficial inglês, como intérprete e oficial de ligação entre a tropa inglesa e portuguesa – que também se aproximou. Depois de saber do que se tratava, junto do alemão morto e quando eu esperava que o homem tivesse a mesma repulsa que eu, saiu-se com esta “soldado alemão ser muito simpático, mas morto, muito bem morto”.

E daí, ele que o dizia, talvez lá tivesse as suas razões…

 

Foi por um triz…

O Corpo Expedicionário Português era constituído por duas divisões: a 1ª e a 2ª. O meu batalhão (do RI nº 28) era o 4º, da 1ª Brigada que faria parte da 1ª Divisão comandada pelo glorioso e valente General Gomes da Costa, por quem os ingleses tinham uma admiração extraordinária por seu aprumo e valentia. E não só os ingleses, mas toda a tropa portuguesa admirava e estimava o seu heróico comandante. Nós, os que estávamos na frente comandados por ele havia muitos meses, ouvíamos falar numa outra Divisão Portuguesa – a 2ª – mas ela dava a impressão de não existir.

Só a tropa portuguesa constituída pela 1ª Divisão não era rendida ao fim de tantos meses de frente a exemplo dos ingleses e franceses que tinham as suas licenças e rendições quanto possível em períodos mais ou menos fixos. E como tudo isto era do conhecimento de todos, compreende-se a razão de certas coisas bastante desagradáveis que por lá se passavam. Que não havia barcos para levar a tropa de Portugal, diziam uns; que o Governo não enviava mais ninguém diziam outros.

O certo é que o CEP, velho, como já os soldados designavam a tropa da 1ª Divisão por ser ela só que guarnecia a 1ª linha de trincheiras, se achava bastante desfalcado, devido às baixas causadas durante um ano em que se encontrava na frente de combate. Mas enfim, antes tarde que nunca, e então lá apareceu um dia a 2ª Divisão a render-nos. Fomos então para uma região onde ficamos constituindo reserva, ocupando uma povoação em ruínas chamada Epinete (Lestrem). Passou-se isto nos primeiros dias de Abril de 1917.

Como não havia casas, adoptou-se o estacionamento de bivaque. Cada companhia alinhou as suas tendas o mais possível ao abrigo das vistas do inimigo. A minha Companhia camuflou as suas ao longo duma vala, com bastantes arbustos. Antes houve troca de impressões entre os oficiais para a escolha do local. Prevaleceu a opinião do capitão Toscano, comandante da Companhia contra a dos subalternos. E foi essa a nossa salvação. Nestes estacionamentos todo o cuidado é pouco para nos livrarmos das vistas dos balões cativos que existiam a grandes alturas, sempre alerta atrás das linhas das linhas inimigas. Na aproximação deste bivaque, que foi de dia, fomos descobertos, porque depois de tudo arrumado e concluído, começou um feroz bombardeamento de artilharia pesada, e outra não podia ser, dada a distância a que nos encontrávamos do front.

Logo numa das primeiras granadas caiu sobre uma barraca dos soldados matando não só os que estavam dentro dela, como também os que se encontravam próximos, que o deslocamento do ar atirou a grandes distâncias. Um dos soldados que estava perto do local onde caiu a granada, foi localizado pela trageteria que seguiu, deixando preso a umas pernadas de árvore, um bocado do seu vestuário, tendo ido cair no meio dum trigal, a uma distância de 10 ou 20 metros. Estava inteiro mas todo moído pelo grande choque que sofreu. Deve ter sido morte instantânea como se apanhasse em cheio uma granada.

Os restantes – morreram ao todo oito – foram feitos em bocados que ficaram espalhados pelo terreno. Soldados munidos de pás, depois do bombardeamento, reuniram esses despojos, aqui uma cabeça, ali uma perna, acolá qualquer outro bocado, que foram juntando em oito serapilheiras, tantos quantos os soldados esfacelados e depois de enrolados, lá seguiram o caminho do cemitério mais próximo, mais parecendo trouxas de roupa, que os restos de soldados mortos pela Pátria. E foi por um triz que a tenda dos Oficiais não ficou colocada exactamente no sítio onde caiu a granada.

A inspiração do capitão Toscano, contrariando a opinião dos outros oficiais, fez mudar o rumo da tragédia. Se não fosse a persistência dele a impor a sua vontade, pobres de nós, lá íamos todos enroladinhos para a eternidade.

 

Um quadro impressionante

O avanço dos aliados em perseguição do Exército alemão em retirada, não foi positivamente um passeio em terra conquistada. Caiam os que avançavam e recuavam. Os serviços de saúde em cumprimento da sua humanitária missão, prestavam aos feridos os socorros compatíveis com as circunstâncias, tratando-os e evacuando-os, na medida do possível, pois que em tal situação, isto é com as tropas em movimento, tal missão é desempenhada através de imensos riscos. O fogo é mais ao acaso, mais… à doida. Não pode haver sinalização dos serviços médicos e por isso a sua tarefa torna-se complicada e perigosa. E assim, muitos feridos por lá ficaram no campo sem providências no meio dos destroços, arrastando-se até onde podiam ou até ao esgotamento das forças, até ao fim… do fim.

Todo o indivíduo em guerra sem dúvida, perde muito dos acontecimentos humanitários. Pelo que tenho presenciado, quer nas revoluções em que, por dever de ofício é bom esclarecer, fui obrigado a tomar parte activa – 1 de Fevereiro de 1908, 5 de Outubro de 1910, Campanha do Norte de Portugal em 1912 e 14 de Maio de 1915 – quer na Grande Guerra de 1914-1918, convenci-me que o homem perde muito do seu equilíbrio, bestializa-se mesmo, desde que lhe metam uma arma na mão.

No terreno que o inimigo ia cedendo, ficavam muitos dos seus defensores, como aliás era natural, dando ao campo de batalha, já bastante desolador, um aspecto ainda mais macabro. Os que tombaram nos caminhos ou estradas, eram empurrados por misericórdia para as valetas, par não serem esmagados pelas viaturas, que não podiam perder tempo nos seus movimentos, que tinham que ser condicionados às necessidades dos reabastecimentos. Mas todos eram revistados, virados e revirados pelos primeiros que chegavam, que se infiltravam pelos grandes intervalos das unidades que avançaram, com curiosidade tétrica de quem pretende encontrar algum tesouro nos bolsos dos pobres mortos. Tive ocasião de ver alguns soldados alemães, completamente nus. Informaram-me depois que eram os civis franceses, que depois de passar a tropa procedia a essa fúnebre e repugnante tarefa de pilhagem.

No dia 8 de Setembro de 1918, avançava a minha unidade pelos arredores de Cornet Malo. Estendidos junto um do outro, dois soldados alemães mortos, reflectindo bem a angustia dos últimos momentos, apresentavam um quadro de certo modo impressionante: um devia pertencer ao Serviço de Saúde, pois ainda tinha junto das mãos uma ligadura com que pretendia socorrer o camarada ferido e ambos já com os bolsos revirados. Abandonado junto do bolso de um, estava o papel que junto, onde se verificava que pertencia ao Regimento de Granadeiros de Reserva n.º 100 alemão e que era condecorado com a cruz de ferro de 2ª classe alemã.

 

Dois valentes – o 320 e o 464

Os comandos, à falta de outros assuntos, mandavam bastas vezes para as tropas da 1ª linha, uns papelinhos-sustos em que se recomendava aos filhos da… trincheira para estarem atentos porque segundo informações de prisioneiros inimigos, estava eminente grossa bordoada às nossas tropas. Os nossos alferes – personagem com a maior responsabilidade na 1ª linha – percorriam imediatamente os seus postos a recomendar às sentinelas, a máxima vigilância e à noite e de madrugada, que eram as horas mais próprias para o inimigo atacar, redobrava essa vigilância, postando-se nos alertas todo o pelotão de baioneta armada atrás do parapeito da trincheira.

A cada posto (havia postos de granadeiros nos flancos do sector do pelotão, além de outros postos de metralhadoras e fuzileiros) os comandantes de pelotão fariam as suas recomendações especiais. Os soldados ao ouvirem estas constantes recomendações, quase sempre faziam os seus graciosos comentáriositos, e até com certo espírito, embora a puxarem a tétricos. Os nossos soldados são valentes e humildes nas suas exigências. Estão sempre prontos, e o comando pode contar com eles até para as missões mais arriscadas. Mas sendo todos bons, há sempre alguns melhores e entre estes, é me agradável destacar dois: o 464 da 2ª Companhia do R. I. 28 José Maria Pereira, natural de Santo Varão – Montemor-o-Velho e o 320 Manuel Antunes das Neves (o Barriguinha), julgo que da Figueira da Foz.

O primeiro (464) era das metralhadoras e pertencia-lhe a vigilância de determinado ponto no posto Farm Corner. A uma das tais recomendações que lhe fiz para estar atento, porque havia informação que os alemães iam atacar, respondeu: “meu alferes, enquanto houver balas e esta metralhadora funcionar, aqui não entram eles”. Aproveitei tais informações para lhe dirigir algumas palavras de estímulo. Quis o destino que não passasse muito tempo que os alemães não nos mimoseassem com um violentíssimo ataque. E quando eles atacavam a coisa era séria. Começava por um forte bombardeamento sobre o objectivo, não só para imobilizar a guarnição e evitar reforços, como também para desmoralizar. Seguidamente atacava a infantaria com os granadeiros à frente.

Pois bem, num destes ataques que era o pão nosso de cada dia, quando os alemães atacavam fortemente com morteiros e artilharia, o posto Farm Corner, que parecia o fim do mundo, tive ocasião de observar que as palavras do soldado 464, que eu injustamente julguei um pouco de bazófia, correspondia absolutamente à verdade.

Se quando havia calma as guarnições se conservavam abrigadas com o parapeito porque seria temeridade exporem-se sem motivo justificado, sendo mesmo proibido, neste combate o soldado 464 de pé, com o peito descoberto, direito, modestamente firme, era um gosto vê-lo com a sua metralhadora a cumprir o que tinha prometido: “meu alferes aqui não entram”. E não entraram! Levaram que contar os que voltaram.

Comandava eu a companhia pouco depois e com muito gosto beneficiei este soldado com uns dias de licença a Portugal. Perdi um bom soldado mas era justo o prémio. O 320 era igualmente um soldado destemido, embora um pouco indisciplinado, e eu dava-lhe a honra de comandar um posto de granadeiros num dos flancos do pelotão, lugar que normalmente era desempenhado por um cabo ou sargento. Quando os alemães atacavam enquanto os caixotes tivessem granadas, não era no posto que ele guarnecia que entravam. Apoderava-se de tal nervoso, que às vezes mesmo depois do assunto liquidado, isto é depois de repelidos os alemães, ainda o 320 agarrado às granadas continuava na sua sementeira na terra de ninguém, sendo preciso intimá-lo para evitar desperdício de munições.

 

Uma tesoura de 200 metros

As patrulhas, como já referi, eram destinadas a várias missões. Prender alemães, inquietar o inimigo por todos os meios, fazer uma descrição da terra de ninguém no caminho percorrido e que era indispensável para futuras operações, indicar no relatório se os arames inimigos estavam colocados sobre estacas de madeira, de ferro, qual a altura, etc. Para a operação de cortar o arame tornavam-se necessárias as respectivas tesouras, objectos que existiam nas unidades. As patrulhas eram geralmente comandadas por oficiais, mas também algumas se enviavam ao comando de sargentos.

Escusado será dizer que estes serviços eram bastante arriscados, e quando a nomeação calhava a qualquer, fosse graduado ou soldado, não deixava de ser uma coisa um tanto emocionante, porque todos sabiam os tombos e perigos porque se passava naquela nesga de terra tão martirizada e também muitos dos que lá iam não voltavam. Mas a rapaziada nem sempre encarava estas coisas pelo lado pessimista, pelo pior, e tinha sempre qualquer piada a jeito, mesmo nas ocasiões de maior apuro.

Pertenceu um dia a patrulha ao segundo-sargento Marçal, e era dos tais que tinha por missão cortar arame…. nas trincheiras inimigas. Para tal, tornava-se necessário cada homem levar consigo, além do respectivo material de guerra, a competente tesoura. O sargento Marçal depois dos homens nomeados e equipados procedeu à distribuição das tesouras. E a uma certa altura sai-se com esta: “Oh me alferes, falta uma tesoura para mim. Ora essa, então não tem aí bastantes [respondi-lhe]”. Tenho mas são muito pequenas, não servem. Eu preciso de uma de 200 metros de cumprimento, porque escusava de lá ir, cortava o arame daqui!

 

Um cão a fazer manteiga

O nosso soldado embora numa razoável percentagem de analfabetos, é inteligente, facilmente adaptável a novos costumes e não se atrapalha com facilidade seja com o que for. Assim era em um gosto vê-lo conversar com as francesas. Entendiam-se às mil maravilhas. Apenas chegavam a França começavam logo a manobrar estas palavras: Vou jolies, mim faince de vous promenade avec móis, marie avec vous apres guerre finis, etc., acompanhados dos correspondentes gestos em que eram artistas, completavam todas as conversações e serviam par a um entendimento completo.

De resto também as francesas por inteligência e até homenagem por quem de tão longe ia defender a sua Pátria depressa entravam na compreensão do arrazoado e mímica dos serranos. Quando lhes pertencia a semana da 3ª linha, a da “recóca”, que era a linha de aldeias (pobres aldeias quase todas destruídas), logo se espalhavam pelas fermes (quintas) vizinhas, a contar as suas historietas de onde não poucas vezes resultavam namoricos.

Recado que se recomendasse a “madame”, “monsieur” ou “mademoiselle”, por mais complicado que fosse, tinha-se a certeza que era dado e compreendido com todos os pormenores. Onde faltava o “latim” começava a mímica e tudo era esclarecido. Para apreciar e comentar graciosamente tudo o que via de novidade e que não era pouco, também não lhe faltava espírito.

Um dia em marcha à vontade nos arredores de qualquer povoação francesa fui lobrigado um cãozito que marcando passo dentro de uma grande roda adaptada a uma parede, a fazia andar sem ele passar do mesmo sítio. Ninguém percebia do que se tratava. Então diz um soldado para outro: Eh pá que vem a ser aquilo? Sei lá, o que vejo é que nesta terra nem cão se pode ser, respondeu outro. Era um cão a fazer manteiga.

Na verdade em França os cães são aproveitados ao máximo, merecem bem o que comem. Várias vezes os vi atrelados por debaixo de pequenas carroças carregadas que os donos se limitavam a guiar. E os cães, pela maneira como puxavam, mostravam que estavam amestrados no ofício. Outro vi eu guardando um rebanho de ovelhas em constante vaivém ao longo de uma linha de propriedade, não permitindo que qualquer ovelha tocasse no prado do prédio vizinho, para o que não tinha qualquer momento de descanso.

 

A morte do alferes Pinhol

O alferes Pinhol era um oficial disciplinador e valente. Comandava no dia 25 de Julho de 1917 o posto “Farme Corner”, com uma guarnição de aproximadamente de 40 soldados. Na noite desse mesmo dia fui nomeado para comandar uma patrulha de combate que devia sair exactamente no referido posto, a qual tinha o efectivo de 12 soldados e de um sargento.

As patrulhas têm que tomar todas as precauções no desempenho da sua missão porque o inimigo está sempre alerta. Assim desde o ponto da partida, até ao de saída na trincheira a marcha tem que ser cautelosa. Chegada a este ponto mais cautela tem ainda que ter na saída para a terra de ninguém. Ia eu com os meus homens já bastante próximo do posto de alferes Pinhol, quando o inimigo começou um terrível bombardeamento e ataque de infantaria a esse posto. Pela violência e a maneira como decorria o ataque, não restava dúvida que era daqueles raids destinados a obter elementos de informação, principalmente prisioneiros vivos ou mortos custasse o que custasse.

De facto não se passou muito tempo que não tivesse a certeza que assim era. Os alemães como de costume, ao mesmo tempo que metralhavam a guarnição para desmoralizar, batiam com morteiros todo o terreno à retaguarda para evitar reforços ou retirada enquanto a sua infantaria atacava. Muitas vezes os atacantes alemães quando lhes era possível se abrigavam na terra de ninguém atrás dos nossos parapeitos para tornarem mais fulminante o ataque e tirarem melhor efeito da surpresa e ainda, o que é de grande importância evitar o perigo dos tiros da nossa artilharia e de outras armas na travessia da terra de ninguém, porque nos ataques como este o S.O.S. entra logo em acção e a nossa vigilante e certeira artilharia avisada varre imediatamente a terra de ninguém em frente do posto que pede socorro e a 1ª linha inimiga. De maneira que era de grande vantagem a patrulha atacante estar já postada junto do objectivo, no começo do bombardeamento. Assim deve ter acontecido no ataque ao posto do alferes Pinhol.

Pouco tempo depois de ter começado o bombardeamento alguns soldados recuavam desnorteados e aflitos lastimando-se que já não tinham comandante. Ouvi mesmo no meio da escuridão um soldado dizer: “o nosso comandante abandonou-nos, merecia um tiro! Os alemães já entraram?” Senti calafrios do que via e ouvia. Veio-me à ideia como remédio mais rápido, e para evitar maior desvairamento, substituir o alferes Pinhol e tomar o comando do posto atacado.

Resolvi então suster o melhor que pude os soldados que recuavam animando-os e juntos aos que restavam da minha patrulha, porque alguns se transviaram no meio da escuridão, ordenei o contra ataque que felizmente foi bem-sucedido. Os meus homens portaram-se muito bem e os alemães foram repelidos para as suas posições depois de violento combate, mas não sem deixarem assinalada a dureza do ataque. Houve mortos e feridos que fiz evacuar logo que alcancei o posto de que tomei o comando o que consegui superiormente.

Do alferes Pinhol encontrei na trincheira uma polaina furada por estilhaços de granada de mão e a pistola com o cordão partido. Foi levado ferido pelo inimigo, porque se via nitidamente o rasto de sangue que deixou no parapeito, que apresentava aspecto de ter sido arrastado. Nunca mais se soube parte dele.

Estes combates eram observados e seguidos atentamente pelos quartéis-generais porque ninguém sabe o objectivo do inimigo nem a extensão que poderão tomar. Depois o alto comando manda proceder a rigoroso inquérito para saber como tudo se passou. Desse inquérito averiguou-se que uma guarnição de metralhadora ligeira que se manteve sempre no seu posto de combate, ouviu o alferes Pinhol dizer durante o combate: “cobardes que me abandonaram”. Basta um soldado julgar que o alferes tinha abandonado o seu posto para outros repetirem a calúnia. É assim a multidão!

O alferes Palma Mestre comandava o posto à esquerda (Boars Head) por intermédio e ajuda do qual os feridos foram evacuados para a retaguarda. No seu relatório referiu-se o alferes Mestre a este combate nos seguintes termos: “o alferes António Joaquim Henriques tendo sido nomeado para sair com uma patrulha no posto Farm Corner, foi surpreendido a meio da trincheira morta pelo bombardeamento tendo guarnecido a linha com a patrulha. Como porém ouviu perto soldados aflitos que espavoridos vinham daquele posto dizendo: Estão os alemães no posto e já não temos comandante, dirigiu-se para lá com a patrulha onde encontrou poucos soldados alguns dos quais feridos os quais fez transportar para o meu posto com o auxílio da patrulha, animando os homens que estavam no posto atacado”.

Desse inquérito resolveu também o alto comando condecorar com a cruz de guerra de 4ª classe nos termos seguintes que constam da Ordem do Exército n.º 15 – 2ª Série – de 14 de Setembro de 1920, pagina n.º 670 com o seguinte louvor: “Tenente do Regimento de Infantaria n.º 28, António Joaquim Henriques, porque, comandando uma patrulha na noite de 25 de Julho de 1917 e tendo notado que um posto que se achava próximo estava sendo atacado por uma patrulha inimiga, para lá se dirigiu imediatamente com grande coragem e decisão debaixo de forte bombardeamento socorrendo as forças que tinham sido feridas”.

 

Vinte dias de licença (passaporte diplomático)

No final do ano de 1917, quase com um ano de trincheiras em cima do corpinho, já o pessoal do C.E.P. se ia concedendo alguns dias de licença, que as informações dos chefes diziam em todas as pretensões ser muito justo, mas que raros apanhavam e os que tinham essa boa sorte só de facto a gozavam quando não fizessem falta ao serviço. Ora falta ao serviço fazia-se quase sempre, principalmente os que estavam na 1ª linha. De maneira que um comandante de pelotão já sabia que só abichava a licença quando estivesse com a sua unidade em repouso, de maneira que a vinda a Portugal só tinha lugar em prejuízo de seus dias relativamente bem passados em França, quando em repouso já se vê. Na verdade nesta situação já se via e apreciava hum pouquito de França e por isso alguns houve que preferiram não aceitar a licença.

 

Fotografia n.º 8: Passaporte diplomático de António Joaquim Henriques (1889‑1979), Capitão em 1917

Dos que vinham, raros voltavam e lá tinham as suas razões. Havia muito que fazer em Portugal. Cá também se defendia a Pátria de alguma invasão do inimigo e porque não deitar abaixo a tirania sidonista, defender a democracia e a liberdade… por cá ficavam com essa sacrificada missão? Eu vim com os meus 20 diazitos de licença em 3 de Outubro de 1917 e, como não podia fugir à regra, só os consegui quando o batalhão ficou em repouso em Crecques, porque quando estava em 1ª linha e que eles saberiam muito melhor, fazia falta ao serviço.

Acabados os dias de licença que pareceram foguetes, entendi bem ou mal que em França é que era o meu lugar e fui dos raros que regressaram, apresentando-me lá novamente em 23 do referido mês de Outubro. Confronte-se a fotografia do passaporte, uma perfeita “cara de guerra”, na qual estão bem estampados os maus bocados passados, com a do grupo da página 122, tirada 4 ou 5 meses de terminada a guerra. Já é uma “cara de paz”. É bem certo: “elas não matam mas moem”.

 

A sapa Duckes Bill (Bico de Pato)

A sapa “Duckes Bill” era uma espécie de cratera ou cratera mesmo, escavada na terra de ninguém. Era constantemente assediada pelo inimigo, porque dada a sua posição, mais fácil se lhes tornava levar dali prisioneiros e outros elementos de informação como algumas vezes aconteceu. O posto “Bico de Pato” era considerado por toda a tropa como coisa antipática, temerosa, porque era bastas vezes teatro de grossa borrasca, e por isso todo aquele a quem a sua defesa competia, já sabia que naquela semana, naqueles sete longos e agitados dias (nos de 24 horas), dificilmente os vizinhos da frente deixariam de lhe apresentar… o “cartão de boas vindas”.

Aquilo estava de tal maneira ao alcance do inimigo, que as possibilidades do sucesso no ataque convidavam. E então ali faziam de preferência a qualquer outro ponto, todas as tentativas para a colheita dos elementos de que a guerra necessita (prisioneiros, etc.). A táctica era simples: umas granadas de morteiro ou mesmo de mão em cima da guarnição para desmoralizar, ao mesmo tempo que cortavam as comunicações com a retaguarda.

Sabido é, que quem vai à guerra dá e leva, e não era de mão beijada que o inimigo conseguia, quando conseguia, o seu objectivo. Devo salientar que era uma posição de difícil defesa e nem se compreendia qual o interesse que havia em manter aquela “travanca”, lá tanto para dentro, tanto à mão do inimigo. A tão pequena distância da trincheira inimiga que os soldados trocavam dichotes como: mééé… (em piada às peliças e safões de pele de ovelha que lá usávamos), “portuguaise três bourre”… “bonne guerre finis”…”voulez vous cigarrete ?”…Isto acontecia principalmente nos dias de nevoeiro, porque em dias claros todos os variadíssimos observadores estavam atentos e a coisa era mais séria.

Não faltavam também em todos os postos os papelinhos espetados em paus ou nos arames farpados ou ainda atados a granadas de morteiros que não rebentavam, para nos informarem do que se ia passando sobre a guerra em Portugal. Claro que a manobra dos papelinhos espetados era feita de noite e de noite também os íamos buscar. Como não podia deixar de ser lá me chegou a vez da defesa do malfadado “Bico de Pato”. Foi em Dezembro de 1917.

A guarnição da Sapa era composta de uns vinte e tal homens e dois sargentos. Coloquei uma patrulha de escuta de dois soldados à frente do posto, nomeei um sargento para cada um dos flancos e ordenei à rapaziada que estivessem atentos. De resto todos eles já sabiam o que se costumava passar, mas um homem prevenido vale por quatro.

Os restantes soldados do 2º e 3º pelotões, postados no flanco da Sapa ao longo da trincheira (o 2º comandado por mim e o 3º pelo valente alferes José Joaquim Gomes), completavam a defesa do pequeno mas perigoso sector. A disposição de toda a tropa e a moral apresentavam-se boas e por isso alma até… Almeida e seja o que Deus quiser. Corria a noite de 15 de Dezembro quando os alemães resolveram atacar.

A táctica como já disse era sempre a mesma, simples mas a de melhores resultados: metralhava para cima das guarnições, comunicações cortadas (para não se poder receber reforços (de resto não cabiam lá), nem retirar e avanço fulminante dos atacantes contornando o posto. Dos dois homens da patrulha de escuta um morreu logo no princípio do ataque. O outro teve ocasião de lutar e portou-se de tal maneira que foi promovido a cabo por distinção.

O ataque foi duro e renhido, mas os sargentos nos flancos com os seus homens, os granadeiros e metralhadoras, varriam à metralha todo o terreno da frente. Dava gosto vê-los! A nossa artilharia que o SOS avisou completou a tremenda lição que os alemães apanharam. Todos trabalharam bem. O inimigo, depois de várias investidas, foi repelido sem conseguir o seu objectivo, ficando apenas com a recordação dos seus mortos e feridos. Da nossa parte também houve baixas, e milagre seria se não as tivéssemos, numa chuva de metralha daquelas, mas há que salientar que o inimigo ficou derrotado embora empregasse efectivos vantajosos, sem conseguir o que desejava e atendendo à nossa desvantajosa situação, não pode deixar de se reconhecer que o pessoal se portou optimamente e conseguiu uma vitória.

Do inquérito que o comando procedeu resultaram os seguintes louvores publicados na Ordem n.º 230 da 1ª Brigada de Infantaria do dia 16 de Dezembro de 1917:

Louvor aos alferes José Joaquim Gomes e António Joaquim Henriques, de Inf.a 28, pela elevada compreensão dos seus deveres como comandantes de pelotão na defesa da Sapa “Ducks Bill” pelas 17h30 de dia 15 do corrente, repelindo os ataques de forças inimigas em elevado número lançado em seguida a um violento bombardeamento de morteiros, dando ainda ao seu inteligente e resoluto procedimento acertado complemento da constituição imediata duma patrulha de sargento para exploração do terreno de combate (este louvor foi publicado também na Ordem do Exército n.º 15 – 2ª Série – de 14 de Setembro de 1920, pagina 670 e seu direito a 2ª condecoração com a Cruz de Guerra de 4ª classe).

Louvor aos postos de fuzileiros de granadeiros e metralhadoras dos 2º e 3º pelotão da 2ª Companhia do Batalhão d` Infantaria 28 pela decisão e firmeza com que repeliram pelas 17h30m de 15 do corrente um forte ataque inimigo à Sapa “Ducks Bill”, precedido dum intenso bombardeamento de morteiros.

 

Um mês numa escola inglesa

Os graduados antes de irem para a trincheira com responsabilidade eram instruídos numa escola dirigida pelo Capitão Bento Roma na povoação de Marthes. Nem todos os oficiais instrutores dessa escola tinham a prática da guerra embora profissionalmente competentes para desempenharem as funções de instrutores. Isto não caia bem na rapaziada que, depois de vários meses nas trincheiras, por ali tinha que passar visto que, mesmo durante o repouso, as tropas recebiam instrução porque a inacção não faz bem ao moral dos militares. Mas achavam humilhante receber instrução de oficiais que não tinham ido ainda à trincheira.

Um certo dia 13 de Outubro de 1918, apareceu uma ordem do Quartel-General mandando-me apresentar na “Infantry School XIª Corps” (Escola de Infantaria do XIº Corpo). Tal nomeação foi motivo de grande surpresa e só no Quartel-general, por onde passei me informaram do seguinte: a Escola de Instrutores ia ser reorganizada. Para isso iam dois oficiais por cada brigada, no total de doze, receber instrução na dita escola inglesa, com sede na povoação de Linghen. A nomeação tinha recaído nos oficiais com mais tempo de trincheira, condecorados ou louvados por feitos de combate, sem prejuízo já se vê, das condições físicas e outras que se tornam necessárias para as funções de instrutor. A apresentação na escola foi no dia 14-10-1918.

O CEP tinha novo comandante que era o General Garcia Rosado, que toda a gente conhecia por competentíssimo e justo e por isso as causas de justiça estavam a ter um novo rumo. Era Director da Escola Inglesa um tenente-coronel britânico, um herói ferido e condecorado. Cada oficial, digo dois oficiais portugueses tinham um oficial inglês como intérprete para traduzir as provas orais e escritas. O meu companheiro de especialidade de granadas era o cap. Mota, e o intérprete o oficial inglês marcado com o número 11. Vivia no Brasil e por mais que se mascarasse mostrava que não morria de simpatia pelos portugueses. Por isso pouca conversa se lhes dava. Os restantes eram razoáveis. Faziam o possível por agradar. De resto a missão destes oficiais era simples. Limitavam-se a traduzir perante os professores as provas orais e escritas dos oficias portugueses, visto que os instrutores não conheciam a língua portuguesa.

 

Fotografias n.º 9 e 10: Ordem N.º 230 do Corpo Expedicionário Português

1ª Divisão – Quartel da 1ª Brigada de Infantaria de 16-12-1917

 

Os oficias instrutores não familiarizavam com os intérpretes, apesar de seus compatriotas, nem com os oficiais portugueses e mais oficiais ingleses que também se encontravam a receber instrução. Com os seus braçais distintivos de lentes, constituíam uma casta e só conversavam com o tenente-coronel director e muito cerimoniosamente. Este era um oficial muito competente e um extremo disciplinador. Não dava tolerância de um minuto que fosse nem nas refeições. Era realmente uma verdadeira pontualidade britânica. Cinco minutos antes das refeições apresentava-se com os oficiais instrutores numa barraca que servia de sala de espera, onde nós já devíamos estar e que ficava junto ao refeitório que era outra barraca.

A todos dizia uma palavra sobre qualquer assunto, mostrando especial interesse em conhecer as medalhas que correspondiam às fitas que alguns oficiais traziam e um ou dois minutos antes do começo das refeições, avançava à frente do cortejo para o refeitório. O sargento encarregado da messe junto à porta do lado de dentro, parecendo uma verdadeira estátua, fazia enérgica continência acompanhada do clássico toque de tacões, em cumprimento ao seu director. Seguidamente dirigia-se ao seu lugar na presidência da mesa onde se conservava de pé. Depois de todos os comensais estarem em seus lugares bem perfilados e tudo em silêncio, sentava-se no que era seguido por todos.

Começavam então as refeições sendo o presidente o primeiro servido. A comida era boa e não é preciso grande memória para em todo o tempo se saber qual foi o menu diário: em trinta dias cada comensal ingeriu trinta linguados, trinta pratinhos de papa, trinta bolinhas de manteiga, trinta meios pães e assim por diante, tudo aos trinta. O estômago não se dilatava à portuguesa, andávamos bem leves, parecendo que nele alguma coisa faltava, mas a disposição era cada vez melhor parecendo até haver um certo rejuvenescimento na rapaziada, o que prova que o saber comer não é coisa tão fácil como muitos julgam.

Terminada a refeição era o mesmo cerimonial do começo, ao contrário. Ninguém se mexia dos seus lugares enquanto durava a refeição, e quando ela acabava o presidente da mesa retirava-se sendo seguido por todos os comensais até à porta. Se as refeições metiam disciplina, a instrução então era de um rigor extraordinário. Mas tudo isto afinal parecendo que daria desânimo pelo contrário, gerava boa vontade, dava energia, dava vida, boa disposição. Entretanto veio o armistício e não se tornou necessária a organização da escola de instrutores como estava projectado. Ainda fizemos o exame final.

Recolhemos às unidades em 14 de Novembro de 1918, três dias depois de acabado o armistício, digo a guerra, com os nossos diplomas de “lentes” que felizmente para nada serviram!

 

“Roullement”

Esperançosa palavra esta [roullement] que os comandos inventaram para acalmarem os anseios de justiça daqueles que se encontravam havia longos meses nas trincheiras sem jeitos de rendição. Aquela doce palavra tudo resolvia e daí todos começavam a fazer os seus cálculos, e segundo eles o dia da substituição estava perto. Somavam-se os dias de trincheiras, os louvores e condecorações, porque eram preferências segundo o regulamento do tal “roullement”, e pronto. Os que estavam nas bases, e que eram em abundância, fresquinhos que nem alfaces, e que nada disto tinham, iam passar à frente e os filhos da… trincheira, vinham para as bases. Mas… é o vais!

Se um ou outro menos seguro, ou mesmo por questão de brilho se deixava empurrar até à trincha, e já não digo a substituir algum camarada, mas simplesmente a preencher algum lugar vago, que os havia, do que certamente resultava um alivio dos que lá estavam, a maioria não era de fácil manobra nesse sentido. Tinha os seus créditos bem firmes… nas bases.

Costume dizer-se que antes tarde que nunca, e na verdade nunca melhor apropriada tal frase. Um dia chegou mas foi um passeio… Mas pessoalmente não tenho razão de queixa, ora vejamos: a guerra todos sabem acabou em 11 de Novembro de 1918. Pois bem o tal roullement, foi inventado para inglês ver, como um calmante aos ingénuos, que nisso viam um acto de justiça, foi-me aplicado a mim, que não pertencia ao número dos que não acreditava em tal coisa, em 30 de Novembro de 1918, exactamente vinte dias depois de terminar a Guerra! Custa acreditar, e até a mim me custou bastante, mas não podia duvidar que foi assim mesmo.

No tal dia 30 de Novembro, fui chamado à secretaria do comandante de batalhão, que era o Major Pires do Carmo, que me diz: o Sr. alferes Henriques vai em diligência para o Porto de Embarque (Cherburg) afim de auxiliar o enquadramento dos prisioneiros regressados da Alemanha. Recalcitrei, porque não era o alferes mais moderno, que são os primeiros nomeados, como também porque tinha feito guerra em 1ª linha, não desejava, nem era justo, ir para um serviço de base antipático como este, e ficar ainda por cima a fazer figura de cachapim.

Pois tinha que ir exactamente por ser o alferes com mais tempo de trincheira e com louvor, de harmonia com o regulamento do roullement, respondeu o comandante. E fui mesmo!

 

fotografia n.º 11: Oficias em serviço no porto de embarque em 1919 – sentados na 1ª fila da esquerda para a direita: Capitão Almeida; Major (?); e Capitão Brites; na 2ª fila da esquerda para a direita: Alferes Mantinho; Capitão Marques; Alferes António Joaquim Henriques; e Capitão Glória; na 3ª fila da esquerda para a direita Alferes Massa; Alferes Sousa; e Alferes Figueiredo

 

Fotografia n.º 12: Ordem N.º 94 do Batalhão de ciclistas n.º 1 de Estremoz, de 4-4-1938

 

 

No porto de embarque

Como a guerra tinha acabado, necessário se tornava o enquadramento dos prisioneiros que estavam regressando da Alemanha, estando indicada a cidade de Cherburg como local mais próprio. Até esta cidade tive a boa companhia do cap. Almeida (o tal crente) lembrando-me que também outro cap. de apelido Esteves e o alferes Martins fizeram parte dessa diligência, representando outras unidades, não sei se obediência ao regulamento do roullemet!

O Comandante do PE (Porto de Embarque) era o coronel de artilharia Veríssimo de Azevedo, oficial enérgico e disciplinado e na verdade só com o seu pulso de ferro foi possível manter aquela gente em ordem. Os prisioneiros regressados da Alemanha vinham indisciplinados. Só conheciam direitos! Com este moral encontraram como abrigo um campo cercado de arames farpados cheio de lama e neve na próxima povoação de Tourlaville, onde tinham que viver protegidos apenas por tendas até ao embarque, que ainda assim demorava bastantes dias. Nós os oficiais vivíamos nas mesmas condições. Já não acontecia o mesmo com os cachapins de carácter permanente, que estavam instalados nos hotéis, talvez como prémio de nunca terem visto uma trincheira! De mais a mais passava isto em Dezembro.

Fui comandante do 2º Grupo do VII Contingente (aproximadamente 1.000 soldados) de 17 Janeiro a 25 de Fevereiro, data em que o referido contingente embarcou para Portugal. Comandei o destacamento de Polícia, de 6 a 19 de Abril, data em que passei a comandar a Secção de Adidos, até 29 do referido mês. Finalmente entrei em licença de campanha por dez dias em 21 de Junho de 1919, já com ordem de repatriamento que aproveitei para visitar Paris, Lourdes, Biarritz, Madrid, San Sebastian e Irun, passeio este bastante agradável.

Lourdes é na verdade deslumbrante. A sua cruz iluminada a uma altura de 1000 metros, a catedral, as capelinhas, a gruta que guarda dezenas e dezenas de muletos dos crentes que milagrosamente se curavam, tudo isto reunido à encantadora paisagem que a cerca, forma um conjunto de enternecedora e divina beleza!

 

Bibliografia

Ministério da Defesa, Arquivo Geral do Exército:

Processo Individual do Capitão António Joaquim Henriques, n.º 6/79 IND, Caixa 3/HIST;

HENRIQUES, António Joaquim – Memórias [manuscrito], [Lisboa?], 1940.

 

 * Recordações da Grande Guerra de 1914-1918, na qual tomei parte como Alferes comandante de um pelotão do RI n.º 28, da Figueira da Foz, de 26 de Fevereiro de 1917 a 1 de Julho 1919 (a Guerra terminou em 11 de Novembro de 1918, mas só regressei a Portugal em 1 de Julho de 1919).

 **    Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Curso de Especialização em Ciências Documentais, na opção de Documentação e Biblioteca pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Documentalista no sector Audiovisual.

***    Licenciado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa “Luís de Camões”. Curso de Pós Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Curso de Pós Graduação em Profissionalização de Docentes na Escola Superior de Educação de Lisboa. Professor em Lisboa.

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2015-12-14
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Mestre

Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de Menezes

Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Documentalista e bibliotecário do sector audiovisual.

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Dr.

Emanuel Luís de Oliveira Morão Lopes da Silva

Licenciado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa “Luís de Camões”. Curso de Pós Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Curso de Pós Graduação em Profissionalização de Docentes na Escola Superior de Educação de Lisboa. Professor em Lisboa.

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