Nº 2567 - Dezembro de 2015
Editorial
General
José Luiz Pinto Ramalho

Constituindo a edição de Dezembro a última deste ano e tendo sido realizada a 2ª Assembleia Geral de 2015, parece ajustado salientar o que de mais relevante foi concretizado, o que se programou para 2016 e, também em termos editoriais, o que nos parece ser importante acompanhar no âmbito da segurança e defesa, quer em termos nacionais quer em termos internacionais.

Em relação ao primeiro ponto, merece especial referência a concretização da digitalização e disponibilização pública através da internet de todos os exemplares da Revista Militar, desde a sua fundação, assim como a realização dos VII Encontros da Revista, subordinados ao tema “A Centralidade Geoestratégica de Portugal”, em parceria com o Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que pontuou tanto pela qualidade das apresentações como pela afluência dos assistentes. No princípio do próximo ano, será lançada uma edição com todos os textos das comunicações apresentadas e as conclusões do colóquio.

Em 2016, para além da rotina editorial, está programado um número temático, em parceria com a Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da I Guerra Mundial, sobre a participação das forças nacionais no Teatro de Operações Europeu, naquele conflito, assim como a realização dos VIII Encontros, com um Tema a definir.

Quanto aos Temas da segurança e defesa, que afectam ou podem afetar, as nossas Forças Armadas aguardamos, com expectativa positiva a ação da nova tutela, tendo em conta os diversos constrangimentos que se verificaram nos últimos quatro anos, nos domínios financeiros, organizativos, dos efetivos e do reequipamento, a par das quebras no apoio social e na saúde, que igualmente aconteceram.

Em termos internacionais, o ano de 2015 não parece estar a acabar bem; por um lado, mantêm-se os problemas económicos que afectam o crescimento e o emprego no espaço europeu, a instabilidade do Euro e as continuadas dívidas soberanas, a par da crise dos migrantes, que mostra tendência para não abrandar. Paralelamente, os reflexos dos atos de terrorismo em Paris e fora da Europa têm vindo a pôr em causa conquistas europeias, materializadas no nosso estilo de vida, favorecendo o autoritarismo, o pendor securitário e o reforço das alternativas políticas radicais, obrigando ao bom senso na procura de decisões equilibradas.

Contudo, por mais problemático, o agravamento da tensão entre a Rússia e a Turquia, fruto do abate por esta de um caça russo, por alegada incursão de dezassete segundos no seu espaço aéreo nacional, não pode deixar de levantar interrogações, quanto ao procedimento turco, tanto mais que violações do espaço aéreo entre turcos e gregos, no mar Egeu, são frequentes e recíprocos, sem que se atinjam aqueles efeitos; por outro lado, as denúncias russas quanto à permissividade das fronteiras turcas, ao contrabando de petróleo, por parte do DAESH, introduzem um factor que fragiliza a posição turca e o seu procedimento.

As consequências do acontecimento, porventura não estarão ainda totalmente avaliadas e ultrapassadas e será conveniente que setores mais aventureirístas não venham a assumir atitudes idênticas, provocando incidentes, por exemplo, no espaço aéreo dos países bálticos. Seria conveniente ponderar o interesse do rápido seguidismo da OTAN, relativamente à atitude turca, mesmo antes de uma total clarificação do incidente e numa altura em que ainda existiam pilotos mortos no terreno.

O atual excesso de protagonismo da Turquia na OTAN e as exigências no seio da UE, por força da incapacidade europeia em lidar com a problemática dos migrantes, a par do convite ao Montenegro, agravam o “nervosismo” russo e o seu carácter desafiante, o que não ajuda, quer ao desanuviamento na área da Ucrânia e Crimeia e sanções económicas associadas, quer na Síria, quanto ao futuro de Bashar al Assad e à estabilização política e militar do país; paradoxalmente, a manutenção da atual situação naquele país corresponde igualmente à manutenção do fluxo de migrantes, em direção à Europa e à pressão sobre a Grécia e a Turquia, neste domínio.

Já se referiu que esta pressão migratória no espaço europeu coloca em causa, em primeira mão, o espaço Schengen, mas também os líderes dos vários países, designadamente na Alemanha, que começou por aplaudir a chegada dos primeiros migrantes, mas que, hoje, questiona internamente as propostas de Merkel, críticas também externas, designadamente britânicas e do centro europeu.

O ano de 2016 poderá trazer a antecipação do referendo no Reino Unido, relativo à permanência na UE, fruto das eleições na França e na Alemanha, em 2017, e de, em termos de rotação normal, caber ao Reino Unido, a presidência da UE, no 2º semestre daquele ano. O arrastar do referendo para 2017, a par de uma eventual instabilidade política europeia, em função de resultados eleitorais, menos europeístas, poderá ainda levar a que outros referendos se sucedam, com um consequente enfraquecimento da UE; no caso concreto do Reino Unido, o dar mais tempo aos eurocéticos poderá tornar mais incerto o seu resultado, com implicações imediatas nos desenvolvimentos políticos na Escócia.

Estamos assim perante um ano de 2016 desafiante, que nos obriga também a olhar para o comportamento económico da China e as suas implicações na economia mundial, a par dos “casos” políticos Marie Le Pen, em França, e Donald Trump, nos EUA. Quanto ao futuro muito próximo, a Direção da Revista Militar deseja um Feliz Natal e um Excelente Ano de 2016, a todos os Sócios, Assinantes e Colaboradores.

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2016-01-11
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General

José Luiz Pinto Ramalho

Nasceu em Sintra, em 21 de Abril de 1947, e entrou na Academia Militar em 6 de Outubro de 1964. 

Em 17 de Dezembro de 2011, terminou o seu mandato de 3+2 anos como Chefe do Estado-Maior do Exército, passando à situação de Reserva.

Em 21 Abril de 2012 passou à situação de reforma.

Atualmente exerce as funções de presidente da Direção da Revista Militar.

REVISTA MILITAR @ 2017
by CMG Armando Dias Correia