Nº Nº Temático - Maio de 2016
Episódios da guerra actual: O ataque alemão ao sector português, na batalha do Lys
General
José Estevão de Moraes Sarmento

RM, 70, 8, Ago, 1918, pp. 451-476 *

 

Não é ocioso repetir, ser ainda inoportuno o momento para dar notícia precisa e profissionalmente autorizada ácêrca dos factos, que vão ocorrendo nos vários teatros da guerra, porque, para isso, não só não existem os documentos e depoiementos contraditórios, que tanto concorrem para explicar e esclarecer os acontecimentos, mas porque as próprias informações, que partem de qualquer dos exércitos contendores, são de sua natureza excessivamente concisas, e, as mais das vezes, transmitidas por correspondentes alheios à profissão das armas, que por esta causa as erram inconsideradamente.

Agrava o maI o modo como a censura exerce a sua missão, em alguns dos países directamente interessados na sorte da guerra, por isso que não permite a publicação de quaisquer episódios, em que a sorte tenha corrido desfavorável mente para os próprios compatriotas, sem considerar que o primeiro elemento para manter ardente a fôrça moral dos combatentes lhes provirá sempre da própria Pátria, consistindo nos estímulos para o proseguimento da luta, quer nos momentos de glória, quer nos do infortúnio. E a qualidade desses estímulos não pode ser a mesma em qualquer das duas opostas hipóteses. Para que êles brotem coerentes e intensos, provocando devidamente as energias peculiares do carácter da raça, torna-se indispensável que a dedução dos fados ocorridos seja exposta com a melhor arte e a maior fidelidade e energia, para assim fazer brotar oportunamente nas massas populares ou o entusiasmo, que deriva do triunfo, ou o espírito de resistência, que reclamam as vidas perdidas, o terreno cedido e o sangue derramado nos campos de batalha.

Não é simplesmente com apodos, injúrias ou logares comuns contra o inimigo, que se mantém intensamente vívido o espírito bélico de uma nação durante a guerra. A imaginação popular, para que se exalte, necessita conhecer com a adequada precisão o desenvolvimento de todas as principais peripécias da luta, sem o que se conservará como que alheia ao que ocorre longe de suas vistas, por mais trágicas que hajam sido as ocorrências.

Nos dias em que vivemos, para que a guerra se torne um elemento vivificador das nacionalidades, é indispensável que ela haja tido por fundamento, ou a realização de uma aspiração patriótica, devidamente preparada por longa e tenaz propaganda dos oradores e escritores mais notáveis, (1) ou a reacção contra o propósito de afronta ou conquista do torrão pátrio, evidenciado por outro país. E, para que o espírito de combatividade, assim despertado, se mantenha depois sempre ardente, indispensável se torna que seja incessantemente alimentado, não já por bailais palavras, mas pela própria evidência dos factos, ou triunfais ou desastrosos, que são os que têm o poder de exaltar a psicologia da raça, acordando os adormecidos caracteres ancestrais. A transformação moral a empreender na estrutura mental do pôvo, importa então uma evolução regressiva, tendente a neutralizar a que rege no estado de paz, que é de natureza ascendente, mais adequada à cultura das doutrinas pacifistas. E uma reacção de tal natureza só se consegue fazendo vibrar intensamente as paixões, as quais, melhor e mais profundamente do que por simples palavras, se excitam pela invocação dos actos que representam glória ou infortúnio, nas nações sãs e onde o patriotismo tem sido devidamente cultivado, quer nas escolas, quer no lar doméstico, como a primeira das forças sociais (2).

Não foi encobrindo as violências exercidas e os triunfos obtidos pelos granadeiros de Napoleão, que os herois da guerra peninsular conseguiram libertar as nações portuguêsa e espanhola por aquêles esmagadas e escravizadas. Ao contrário, foi revelando êsses actos de barbárie e despotismo, que se conseguiu o despertamento da alma popular nas duas nacionalidades peninsulares. Circunscrevendo as presentes considerações ao nosso país, recordaremos que, emquanto o govêrno do Príncipe Regente escondia a notícia da marcha invasôra das tropas do General Junot, ou mandáva que estas fôssem recebidas como amigas. a alma nacional presistia em tal estado de desânimo, que foi lícito àquêle caudilho atravessar as ruas de Lisboa, no dia da sua chegada, escoltado pelos soldados nossos compatriotas, visto como êle se havia adiantado, quási isolado, às tropas do seu próprio comando. No dia, porém, em que os cidadãos portugueses viram os seus lares invadidos, os seus campos talados, a sua liberdade oprimida e ameaçada a vida dos pais, filhos, irmãos e amigos, desprezaram inteiramente as proclamações pacifistas, que o reinante lhes havia deixado, para se lançárem no campo da luta com o vigôr e a ardência que sempre haviam distinguido e nobilitado os ancestrais. Havia-se operado a evolução regressiva na alma nacional, e a alavanca que havia conseguido realizar êsse grandíssimo esfôrço não foi o silêncio, mas a evidenciação dos factos, que representávam para a nossa nacionalidade a hora trágica, e, em vez de promoverem desalento, causaram a irritação e a sêde ardente de desforço.

A guerra afastada do sólo pátrio, se tem vantágens materiais de subida importância, em contraposição, sob o ponto de vista do desenvolvimento das fôrças morais pátrias, possue assinalados inconvenientes. Se fôsse mister apresentar um exemplo comprovativo da verdade, condensada em tal asserção, fácilmente êle poderia ser encontrado, tambêm, na nossa história militar moderna, examinando o sucedido com a Legião Lusitana, mandada saír por Junot de Portugal, em 1808, sob o comando do tenente general Marquês de Alorna. A organização e partida dessa legião, comoveu indubitávelmente a alma nacional, e foi uma das causas do seu ressurgimento, mas essa página da nossa história é das menos vulgarizadas, por que não conseguiu suscitar a atenção pública, que não foi despertada pela publicidade, como sucedeu com outros fados militares de mais reduzida importância, mas que sobrelevaram àquêle por haverem ocorrido no próprio sólo nacional, pelo que podéram sêr devidamente apreciados por todos os cidadãos.

Ora, reconhecido o inconveniente, torna-se indispensável reduzir-lhe o alcance por meio de adequada propaganda, não de simples palavriado, mas consistente em reproduzir fielmente perante os que aqui ficaram, não só os heroísmos, mas os perigos e desventuras sofridas pelos que, em terras longínquas, se constituíram os dignos representantes das glórias pátrias. Raça essencialmente sentimentalista, como a nossa é, torna-se indispensável interessá-Ia na sorte da guerra, não só despertando-lhe as virtudes altruístas, o que é muito, mas mais larga e intensamente ainda as paixões varonis que são as unicas que asseguram a victoria. Para a expansão daquelas, tem a mulher a missão principal, com as inúmeras festividades em que éla se constitui como atrativo predominante, seja pelas graças com que a natureza a dotou, seja pelas artes com que a educação ainda mais a tenha valorizado.

Ao homem fica naturalmente reservada a missão de despertar as paixões varonis, de manter vivos e ardentes os sentimentos patrióticos, de prégar a cruzada bélica, enquanto o triunfo final não tem engrinaldado de louros as bandeiras e estandartes nacionais.

O primeiro elemento, que se lhe toma essencial para desempenhar inteligente e proveitosamente êste dever, é adquirir notícia precisa e ampla do que vai ocorrendo no teatro da guerra.

Com êste fim se facilitam nos exércitos, em que a questão moral assim é compreendida, as visitas dos correspondentes dos jornais aos vários teatros da guerra, comunicando-lhes tudo quanto seja conducente ao fim exposto, interceptando-lhes a vista, ou comprometendo-os a guardar silencio, apenas sôbre os factos de que podem resultar perigos para a segurança das tropas ou para a execução de planos preconcebidos.

No nosso país, não só a censura da imprensa tem sido mais apertada, dificultando a publicidade de fados largamente reproduzidos nos jornais, opúsculos e livros das outras nações combatentes, mas não tem sido ráras as queixas dos correspondentes de guerra ácêrca dos impedimentos, que lhes são postos para o exercício das suas missões, referindo que nada de análogo encontráram nos países e acampamentos aliados que visitáram. Não temos escrúpulo em admitir que a restrição haja sido fundada em motivos suasórios, que aliás desconhecemos, mas isso não impede que lamentemos a ocorrência das circunstâncias, que obrigáram a tal procedimento, não nos inspirando em tal sentir motivos pessoais, fundados em paixões de qualquer natureza, mas restritamente a convicção de que só é forte o exército que julga consubstanciada em si a alma nacional, para o que se torna indispensável estabelecer a mais perfeita comunidade nos espíritos dos que ficaram nos seus lares com os dos que combátem nas regiões longinquas, comunidade que só se tornará real quando aquêles tiverem o conhecimento fiel dos fados, que vão ocorrendo no teatro da guerra.

As reservas impostas até possuem o inconveniente de cercear o brilho aos actos mais valorosos. Nos diferentes «Quadros de honra» regista a imprensa diáriamente casos, que não só enobrecem as individualidades, que os têm praticado, mas o exército de que elas fazem parte. Mas esses fados assumem a aparência de simples télas às quais faltem as molduras, que lhes dariam o devido realce. Referimo-nos, na omissão apontada, á descrição dos episódios bélicos em que esses diferentes actos de heroísmo foram exercidos, os quais devem constar de relatórios de combate, prescritos pelo respectivo regulamento de serviço de campanha, mas inteiramente desconhecidos. Como notas para lançar nos registos individuais, aquelas descrições satisfazem ao seu fim; como elementos destinados a emocionar a alma nacional, não conseguem atingir o alvo vizado. Porquê? Porque a nação desconhece inteiramente o episódio bélico em que cada um desses rasgos de heroísmo deve ser integrado, cuja narrativa fica sepultada no pó dos arquivos.

Para melhor evidenciar o nosso pensamento, vamos tentar dar uma pálida ideia do mais cruento e trágico dos episódios dessa natureza, em que o Corpo Expedicionário Português se tem encontrado, desde que piza o sólo da França. «Pálida ideia», escrevemos, porque não encontramos, no presente momento, outra fráse que, mais apropriadamente, possa representar quanto as nossas modestas palavras estão longe de reproduzir a magestade dos factos ocorridos. Em primeiro logar, exigiam êles, para serem convenientemente descritos, uma dessas penas brilhantes que honram a literatura de uma nação e glorificam o espírito humano. Seguidamente, necessitávam a meditada consulta de lodos os documentos oficiais relativos ao caso, bem como informações pessoais dos camaradas, que se encontráram no terrivel lance. Como se não bastasse, porém, a modéstia de recursos próprios para dificultar o desempenho da missão, que nos propuzémos executar, nenhum documento oficial, e só poucas informações pessoais, nos foi possível obter para melhor esclarecimento do episódio visado. Mão amiga, mas desconhecida, nos enviou o jornal publicado em Boulogne-sur-mer (3) e intitulado Le Telégramme, n.º 7:706 de 4 de maio último, no qual sob o título de «Os exércitos de Portugal. Quatro brigadas heróicas. Os artilheiros lutáram à baioneta», vem descrito o referido episódio. O remetente fez justiça ao nosso carácter, supondo que não ficaríamos silenciosos ao lêr essa descrição, em que tanto se dignifica o heroísmo dos nossos camaradas, lançando para o lado com indiferença, após a sua leitura, o jornal que a continha. Se na mocidade o merecimento alheio só nos serviu para lhe render culto, não seria agora, em plena decadência da vida, que renegariamos tal passado, que tão justo orgulho e tranquilidade nos causa ao espírito, seguindo por caminho diferente. Assim, apoiado naquêle documento e no artigo precedentemente aludido do sr. General Gomes da Costa, do qual só tivemos conhecimento quando o presente escrito estava em provas, auxiliado por curtas mas prestimosas noticias, a cujos autores aqui deixâmos consignado o nosso agradecimento, bem como em dados colhidos em um ou outro jornal estrangeiro, vamos procurar descrever a acção de 9 de Abril, sem lhe garantir, porém, a mais perfeita autenticidade, vistas as razões precedentemente alegadas.

Antes, porém, para melhor elucidação do assunto, convém apresentar alguns esclarecimentos ácêrca da situação militar criada no teatro da guerra ocidental. Mas tentaremos fazê-lo sempre com as devidas reservas, sem aventar hipóteses que não sejam justificadas pelos princípios da boa razão, e sem pretender aduzir concepções ou doutrinas estratégicas ou tácticas, que a crueza dos factos se encarregaria de destruir de um momento para o outro. Como sensata e doutamente escrevia bem recentemente um distinto escritor militar do país vizinho, a característica da presente guerra é a negação constante das antigas doutrinas e a contradição das teorías sancionadas pela experiência. A retirada de qualquer dos exércitos jámais é explorada pelo adversário; todas as facilidades que á guerra prestam os progressos das sciências e das indústrias, mais parecem tendentes a dificultar as soluções, eliminando-lhes todo o carácter resolutivo, do que auxiliares para o comando na realização dos seus planos. Os exércitos perderam a sua elasticidade, à sua mobilidade; são máquinas de tal potência e peso, que ao generalissimo se torna da maior dificuldade movê-Ias rápidamente, como outrora.

É assim que sucede nada deter o primeiro impulso dos ataques: mas, consumados estes, torna-se certa uma acentuada pausa. Se as ofensivas representassem, como nos tempos históricos anteriores, uma sucessão ininterrupta de actos equivalentes áquêles primeiros impulsos, a guerra já estava terminada. Mas, não é assim que tem sucedido, e não é apenas à reacção atribuída ao valôr e heroísmo desenvolvidos nos adversários, ou ás dificuldades do transito, devidas á completa destruição e revolvimento do terreno pelos projecteis da artelharia de grosso calibre, que o facto deve ser atribuído. Os actuais maquinismos militares, denominados exércitos, ao contrário dos empregados nas industrias, que uma creança movimenta, possuem dificuldades insuperáveis de manobra, devidas às massas consideráveis de pessoal, animal e material de que são compostos, tornando mais aplicável, do que no tempo em que foi pronunciada, a seguinte asserção de Frederico Il, que ainda recentemente éxpozémos nestas colunas (4): «Dêsde que a arte da guerra se aperfeiçoou, e que a política soube organizar o equilíbrio de fôrças entre os príncipes, as grandes emprezas só ráramente conseguem atingir os efeitos, que délas se aguardavam. Com forças iguais de ambos os lados, e a correlativa alternativa de revézes e triunfos, sucede que, no fim da guerra, por mais encarniçada que éla seja, os adversários se encontram quási que no estado em que estavam, quando éla teve começo. O esgotamento das finanças acaba por conseguir a paz, que deveria ser motivada pelo espírito humanitário, e não pelas exigências de tal fado».

Bem recentemente, quando no Reichstag se discutia o tratado de paz com a Roménia, o ministro dos negócios estrangeiros alemão, von Kuhlmann, confirmou, no discurso que então pronunciou (5), a presente doutrina em mais breves palavras, dizendo estar convencido não haver procedimento militar que, por si só, consiga terminar a presente guerra. E Kuhlmann, o notável autor da famosa obra Mitteleuropa (6), acrescentou em outro discurso, que o referido ministro dos negócios estrangeiros mandou telegrafar na íntegra para Amsterdam, afim de ser devidamente conhecido no estrangeiro, «ser partidário de uma paz necessária, visto compreender a impossibilidade de uma completa vitória alemã», acrescentando que centenas de milhares de soldados alemães pensavam como Kuhlmann, e já estavam descontentes de tantas promessas da "vitória para breve», como as que lhes haviam sido feitas.

Não obstante, por motivos de ordem diferente, que se tornaria prolixo expôr no presente momento, mas que são de fácil intuição para quem fizer uma ideia clara da presente situação interna dos dois Impérios aliados, a Alemanha necessita terminar a guerra o mais brevemente possível, com uma vitória formal ou, quando menos, colocando a França e a Inglaterra em transes da maior dificuldade, antes da anunciada entrada em acção do grosso das tropas americanas. Se assim não suceder, as dificuldades com que o Império terá a lutar serão insuperáveis, tanto mais que a Áustria-Hungria cada dia se mostra mais trabalhada pelas paixões políticas adversas à guerra.

Dois recursos, parece, se oferecem à Alemanha para conseguir o fim exposto: aniquilar os exércitos francês e inglês, impondo-lhes à força o tratado de paz, ou construir um baluarte defensivo, perante cuja sólida resistência hajam de ficar, senão destruídas, pelo menos esgotadas as legiões, que a América se prepara a expedir sucessivamente para a França, e já atingem mais de um milhão de homens.

Os factos ocorridos na presente guerra, e designadamente nos últimos combates, devem ter convencido, porém, os alemães de que, a não concorrerem circunstâncias imprevistas, não lhes será fácil destruir os exércitos inimigos, e que, a cada esfôrço para esse fim produzido, o esgotamento das próprias fôrças sobrelevará ao dos adversários. As palavras citadas de duas autoridades, como Kuhlmann e Naumann, são uma revelação dêste sentir.

Não obstante, antes de usar o segundo recurso, e enquanto não actuarem em cheio as legiões americanas, os alemães, conhecendo bem o imutável princípio estratégico de ser mais fácil bater o inimigo por esforços parciais do que em conjunto, têm empregado sempre, desde o começo da presente guerra, o processo de fazer frente ao avanço do adversário em determinado teatro da guerra, construindo e defendendo nêle uma forte linha de posições, enquanto noutro teatro concentram as suas principais fórças no intuito de aniquilar o inimigo, que o ocupa, por uma enérgica ofensiva. Assim procederam em França, quando procurávam esmagar a Rússia; na Rússia, quando intentáram destruir a Sérvia e o Montenegro.

A análogo processo recorrem agora para procurar vencer as tropas aliadas, que ocupam a frente do teatro ocidental da guerra. Ao longo dessa linha, ora num ponto, ora noutro, vão despedindo golpes titânicos sucessivos, tendentes a esmagar cada um dos exércitos aliados, que a ocupam.

Seriamos, como já fizemos compreender ao leitôr, sôbre petulantes, insensatos, se pretendessemos convencê-lo de que havíamos devassado os intentos do plano do Estado Maior General alemão, na sequência das batalhas feridas na frente ocidental, desde a do Somme, ou de lpres, como alguns a denominam, travada de 21 a 31 de março do corrente ano. Mas, colocando-nos no grupo dos observadores, que julgam haver sido o intento do referido Estado Maior fazer uma incursão no território francês, em direcção a Amiens, com o fim de cortar aquéla frente, por modo a arrojar o exército inglês sôbre a costa, separando-o assim inteiramente do exército francês, crêmos não cometer heresía estratégica, incompatível com a elevação de critério do referido Estado Maior. Realizado êste plano, o exército anglo-Iuso-belga ficaria em uma situação grave, por ser tão estreito o espaço compreendido entre a sua frente e a costa, que dificilmente permitiria uma retirada ordenada. Logo a seguir, tentaria o invasor aproximar-se de Paris, colocando-se em situação de acometer vantajosamente os exércitos incumbidos da defesa desta capital (7). Se foi efectivamente êste o plano concebido, os factos provam que a sua execução falhou inteiramente.

Os alemães conseguiram, efectivamente, produzir duas grandes mossas na frente dos aliados, mas o que não realizaram foi a consumação do fim principal a que mirávam: abrir uma solução de continuidade entre os exércitos adversários. Demais, Amiens tinha para os generais alemães um grande excitativo da sua cobiça, qual o encerrar nos seus depósitos todo o centro de abastecimento inglês. O primeiro escalão dêste serviço reside no porto de Boulogne-sur-mer, que é considerado a séde do motôr da corrente administrativa da frente anglo-belga-portuguêsa. Mas Calais não lhe cede na riqueza de material armazenado e Dunkerque é quási o Gibraltar das costas francêsas do norte. Se houvesse vingado, o que supômos ser o plano alemão, a sorte da guerra apresentaria nêste momento uma terrível fase para os aliados. Pois ainda esta segunda miragem, como as do Grande Sahara, desapareceu como por encanto. A resistência empregada pelo general Douglas e as prontas e adequadas providências do general Foch, não permitiram aos alemães a realização do seu intento. E, êstes viram que o seu esfôrço conseguira, uma grande vantagem para os aliados, a qual estas não haviam obtido, durante quatro anos, com as mais pertinazes diligências diplomáticas: estabelecer a unidade de comando nos respectivos exércitos. Foi só perante a gravíssima situação, criada pelas grandes batalhas feridas pelos alemães, que tivéram princípio em 21 de março, que todos os governos interessados acordáram em confiar ao general Foch as funções de generalíssimo dos exércitos aliados. É avaliado em 1.500;000 homens, por autorizados críticos franceses, o efectivo reunido pelo invasôr no seu flanco direito, dotado de material de artilharia tão numeroso como poucas vezes tem sido constituido, destinado a produzír a rutura da frente anglo-francesa. Graças a tais recursos, conseguiu aquêle, na batalha do Somme, travada de 21 a 29 de março, levar as avançadas a mais de 50 quilómetros, termo médio, das suas bases de abastecimento. Mas êste violento esfôrço só foi conseguido à custa de perdas por tal modo numerosas, que não falta quem eleve de 50 a 70 % as baixas ocorridas em muitas unidades. Êste facto, a dispersão das tropas, natural em refrega tão grandiosa, as dificuldades de provêr à subsistência dos sobreviventes áquêle famoso morticínio, vista a distância a que haviam ficado os centros de aprovisionamento e o revolvimento do terreno, como se um formidavel vulcão houvesse surgido inopinadamente, inundando a terra de lavas e precipicios colossais, obrigaram os invasôres a fazer um compasso de espera no terreno conquistado. Após essa batalha de larga envergadura, entendeu o Estado Maior General, conveniente prosseguir na execução do seu plano, mas em sectores diferentes e mais limitados, sem diminuir, contudo, a violência do ataque, nem alterar o objectivo visado (8). Á ala direita dos exércitos do comando do príncipe da Baviera foi incumbida a direcção da nova operação, executada na batalha denominada do Lys (9), que durou de 9 a 19 de abril. Parece que o plano, a que êsse movimento era subordinado, consistia em abrir uma larga clareira entre Béthune e Ypres, na direcção de Hazebrouck-Saint-Omer. Se a exploração estratégica o aconselhasse, seria ainda tentada a conquista do famoso saliente de Ypres e a repulão das forças luso-anglo-belgas sôbre Dunkerque e Calais, colocando-as nas já aludidas condições críticas. Depois, por uma conversão à esquerda, o ataque pronunciar-se-ia sôbre Béthune-Lille, assegurando o domínio da região carbonífera do Passo de Calais (10).

A execução dêste plano foi iniciada por um violento ataque entre Armentières e o canal de La Bassée, zona esta na qual estava constituído o sector português. Houve quem dissésse na imprensa estrangeira, que presidira ao facto a ideia de que os portugueses oporiam menor resistência do que os ingleses, mas esta injusta e desagradável insídia foi logo repelida pelo esclarecido redactor militar de um jornal espanhol de larga circulação (11), que honrando o valôr, caracteristico dos portugueses, sustentou a boa doutrina táctica, a qual é a de que os alemães não escolhem o adversário, mas sim o adequado logar topográfico adaptado para os seus ataques. Cometeriamos, porém, grave omissão se não deixássemos exarado nestas páginas o reconhecimento devido ao esclarecido jornalista, pela sua intervenção em sustentação da honra e brio dos soldados portugueses. E, encetando a descrição do episódio, que constituíu o início, em 9 de abril, da batalha do Lys, seguiremos agora, tão fielmente quanto nos seja possível, a exposição feita por M. Edmundo Equoy, no artigo citado do jornal Le Telegramme (12).

Logo ao alvorecer daquêle dia, encontrávam-se guarnecendo as trincheiras do sector português, que se estendia de Laventie a Richeburgo, quatro brigadas de tropas nacionais, das quais três em primeira linha e a restante na segunda. Segundo narra o sr. General Gomes da Costa no interessante artigo precedentemente referido, a frente portuguesa, que se estendia por 12 quilómetros, era guarnecida pela 2.ª divisão do C. E. P., no seguinte dispositivo:

1.ª linha:

Infantaria: 8, 20, 2, 1, 17 e 10;

Apoio: inf. 29, 11 e 14;

Reserva: inf. 3, 5 e 13.

Linha de Aldeias: inf. 9, 12, 14 e 13, que constituíam a 3.ª brigada, a qual fôra rendida no sector de Fauquissart, no dia 8, pela 6.ª, de forma que nem esta conhecia bem o seu sector, nem a 3.ª a Village Une. A este inconveniente acrescia estar a divisão para ser rendida por outra britanica, o que a todo o momento se aguardava, pelo que a situação tinha caracter muito instavel.

O ataque foi iniciado, às 20 horas do dia 8, suspenso á 1 hora de 9, e logo continuado ás 4 e 15min, por uma formidável preparação de artilharia, que os técnicos asseveraram ter sido ainda superior à realizada na batalha do Somme. Mais de 30:000 granadas de gazes, tornaram a atmosféra do campo da luta absolutamente irrespirável. A nossa artilharia correspondeu com o costumado brio, mas a superioridade da do inimigo era dez vezes maior, inutilizando a maioria das nossas peças, tornando impossível o remuniciamento das restantes e batendo por tal modo as duas primeiras linhas de entrincheiramentos da infantaria, que, ás 7 horas, aquelas estavam convertidas em massas de escombros.

Estando assim chegado o momento, que reputaram oportuno, os alemães lançáram contra as nossas posições não menos de quatro das suas melhores divisões, constituindo o que êles denominam «vagas de assalto». Contra essas formidáveis avalanches humanas resistiram as nossas tropas, empregando fogos certeiros e mortíferos. Por cima dos adversários, que caíam sem vida, surgiam outros e outros, sempre em avanços contínuos, até chegarem à luta corpo a corpo, verdadeiramente selvágem, em que a baioneta desempenhou a função principal.

Para que os defensores das trincheiras as abandonassem, foi necessário que os alemães os houvessem flanqueado, atacando-os, não sómente pela frente, mas pela direita e pela esquerda (13).

A resistência empregada avalia-se devidamente pelo conhecimento das baixas sofridas. Houve batalhões que se bateram emquanto tiveram oficiais para dirigir a luta e munições para consumir (14).

Companhias inteiras, como a 9.ª e 10.ª de infantaria 11 e outras, bateram-se, mesmo depois de envolvidas, até não restar um homem de pé. Aquélas unidades, e até pelotões isolados e dizimados, contra-atacaram á baioneta com fúria, na ancia desesperada de abrir caminho atravez das massas alemãs, segundo afirma o Comandante da divisão de que tais forças faziam parte.

O batalhão n.º 2, que tinha a séde em Lisboa, ficou reduzido apenas a algumas praças; todos os oficiais haviam ficado mortos, ou feridos, figurando entre os primeiros, o capitão Américo Olavo, deputado, que sucumbiu como um heroi à frente da sua companhia (15).

O batalhão n.º 17, cujo quartel era em Beja, perdeu, como aquêle, além de todos os oficiais, mortos ou feridos (16), as metralhadoras, depois de haver produzido formidáveis baixas nas fileiras inimigas.

O batalhão n.º 15, aquartelado em Tomar (17), e o n.º 13, em Vila Real, fizeram-se igualmente massacrar, para deter o avanço do inimigo, levando o seu heroísmo aos últimos extremos. Depois de gravemente ferido, ainda o comandante do 13 (18) matou com uma espingarda o seu agressôr e três ou quatro soldados que o ladeavam, sucumbindo sómente na terrível luta corpo a corpo, que se travou. As companhias dêste batalhão, que ocupávam La Couture, e cuja bravura foi exaltada pelo Times (19), combatiam ainda às 15 horas do primeiro dia da batalha.

Esgotadas as munições, o capitão Roma, que comandava o 2.º batalhão (20), depois de dirigir aos subordinados uma breve alocução, determinou-lhes uma carga à baioneta. Partiram como leões, cometendo grande número de baixas nas fileiras inimigas. Só regressáram dois oficiais desse bravo batalhão (21), sendo o primeiro, um capitão que se encontrava com as praças da sua unidade em localidade diferente, juntando-se por tal motivo às tropas escocesas, em cuja companhia se bateu durante dois dias e duas noutes com as praças, que lhe restávam. O segundo oficial era um bravo alferes, que um alemão a curta distância não alvejou devidamente, e ao qual aquêle fez pagar caro a sua temeridade.

No entanto, a artilharia, que restava depois do terrivel bombardeamento que precedera o ataque, procurava deter o avanço das ondas inimigas por um fogo tão certeiro quão intenso. É caso absolutamente confirmado, que algumas peças ainda faziam fogo quando a primeira e segunda vagas de assalto do adversário já haviam transposto as primeiras linhas.

A resistência das nossas tropas foi tal, que os alemães enfurecidos, não tratáram de fazer prisioneiros, exercendo as maiores crueldades sôbre os próprios feridos. As suas principais ví- timas fôram os artilheiros, que defenderam os canhões, que guarneciam, com fogos de fuzilaria e à baioneta. Diz o articulista que os alemães tivéram nesse transe a prova do que valia o 75 francês nas mãos de portugueses.

São estas as informações prestadas ácêrca daquêle famoso episódio, que constitue o ataque ao sector português descrito pelo jornal Le Telegramme, as quais por deverem ser consideradas incompletas, as procurámos esclarecer, entermiando-as com outras da autoria do sr. General Gomes da Costa, mas cuja proviniencia tivémos o cuidado de citar.

A parte restante do artigo é destinada a comemorar a gloriosa participação militar tomada por Portugal na guerra actual, servindo ao autor para tal fim, o que a Revue Militaire Suisse havia referido, como constituindo o nosso esfôrço nacional. É dispensável a reprodução dessa parte do artigo, porque nestas mesmas colunas (22) fôram expostas com não menor desenvolvimento, posto que com inferior brilho, quantas informações a referida Revista mencionou no assunto. O que não devemos calar é o epílogo do artigo do Telegramme, que consubstancia pelo seguinte modo, o juízo formado acerca das tropas Portuguesas por aquêles que presenciáram o seu procedimento: «São tropas explêndidas mas modestas; provaram ser dignas do tributo de admiração que esta região do Norte da França, tão dolorosamente ferida, mas sempre ardente, tributa áquêles que defendem o seu sólo e inscrevem com o seu sangue uma impericivel história de sacrificios e de glória».

Os leitôres, que têm seguido com o coração repleto de amargura, mas com o espírito exaltado pela sêde de desforço, a breve, mas trágica, descrição do que foi o ataque ao sector português no dia 9 de abril último, digam-nos agora se os vários lances de heroísmo, que registam os «Quadros de honra», recentemente publicados e referentes a essa batalha, não se engrandeceriam, glorificando mais os seus autores, e o exército que se honra de os contar nas fileiras, quando enquadrados na anterior moldura, representativa do episódio em que êles fôram actores sublimes, embora ela seja pobre e desataviada de primôres de estilo, visto o cinzel do escultôr se não prestar a trabalho mais delicado e ostentôso.

A narrativa do aludido episódio deve necessáriamente constar de relatório do comandante do C. E. P. e a sua publicação deveria ter sido levada ao conhecimento público, para o fim precedentemente referido, embora houvesse de ser eliminado um ou outro trecho, que as circunstancias de momento determinassem (23). Porque não sômos pessimista, apraz-nos reconhecer, que devem ter subsistido fortes razões para que assim se não haja procedido. A crítica é fácil, mas a arte difícil. Há situações na vida, em que por vezes se tomam atitudes que desagradam, mais do que a outros quaisquer, aos próprios que se veem obrigados a segui-las.

No emtanto, convém recordar que pelo modo preconizado se procede na Inglaterra, onde a nação tem geralmente conhecimento dos vários transes da guerra, em que figuram as forças nacionais, pela publicação imediata dos relatórios do respectivo comando superior. Por êste processo, e pelas facilidades concedidas aos correspondentes militares, tem conseguido o govêrno inglês trazer sempre emocionada a alma nacional, que é o sólido apoio da larga e fecunda acção patriótica, que o dito govêrno tem desenvolvido em favôr dos interêsses da Pátria (24). Na França, tambêm se tem procedido análogamente, e recordados devem estar os leitôres de que, em momento no qual o desânimo parecia ter invadido as fileiras do exercito, foi o general Petain, que então exercia o comando supremo, quem contrariou esse desalento, pela publicação de um documento, por êle próprio assinado e inserto no jornal oficial, em que fazia franca referência às condições subsistentes da guerra. O seu intento logrou pleno exito, tão certo é que, melhor do que nos tempos de paz, se colhem nos de guerra optimos frutos da adequada prática do jámais esquecido prolóquio latino: Audacia fortuna juvat.

Regressando, porém, ao combate encetado em 9 de abril, pouco mais poderemos acrescentar, que se relacione directamente com o episódio, cuja breve descrição constituiu a razão de ser do presente artigo. As quatro brigadas portuguesas não poderiam, por maiores heroicidades que houvessem sido as praticadas, resistir às famosas e frescas divisões alemãs! (26), algumas chegadas ao teatro da luta na véspera do ataque. Na guerra, o número continúa ainda a ter notável preponderância na decisão das batalhas. Não obstante, a reacção empregada foi tal que Le Telegramme afiança haverem sido elevadíssimas as perdas sofridas pelo inimigo, tendo ficado absolutamente aniquilada a primeira divisão de ataque, constituida especialmente por tropas bávaras.

Efectivamente, como bem assegurou o articulista, os soldados portugueses bateram-se heroicamente; tão heroicamente como os franceses e ingleses, e só poderam ser vencidos por motivo de circunstancias imperiosas.

A primeira, seguidamente aludida, foi devida á desvantagem oferecida pelo terreno, que ocupavam. As trincheiras alemãs, fronteiras ao sector português, escalonavam-se ao longo da encosta oeste da crista Aubers-Fromelles, onde se encontravam já as primeiras avançadas da defesa de Lille. Embora a cota dessa crista não exceda 40 metros, superior apenas de 20 metros á do terreno, que os nossos ocupavam, o facto é que, sendo esta diferença de nivel vencida em menos de 2 quilometros (inclinação de 1 %), todo o sector dela era inteiramente dominado e batido até á distancia de mais de 30 quilometros. Corria entre os defensores do referido sector, e o facto parece verificar-se pelo exame das magnificas cartas coloridas insertas na Ilustração Espanhola La Guerra, que os ingleses, durante o avanço na acção de Neuve-Chapelle, em 1915, chegaram a tomar posse da referida crista, retirando seguidamente, porém, para o vale da ribeira de Laies, logo que nesta organisaram as suas trincheiras, as quais, dois anos volvidos, as tropas portuguesas foram mandadas guarnecer.

Em fins de 1917, o C. E. P. recebeu ordem para proceder aos trabalhos preparatorios para realizar o ataque ás trincheiras inimigas em toda a frente do seu respectivo sector, ataque que visava á conquista da aludida e incomoda crista. A ordem determinava, porém, que não se ultrapassasse a segunda linha inimiga, o que colocaria as nossas tropas em circunstancias ainda mais criticas, do que aquelas em que já se encontravam. No entretanto, fizeram-se os necessarios reconhecimentos, elaborou-se o projecto de ataque, prepararam-se as instruções, etc., e tudo estava pronto para a execução da ordem recebida, quando ela foi mandada suspender, talvez por haver sido reconhecido o inconveniente de não ultrapassar a segunda linha inimiga.

A segunda circunstancia, foi o haver sido a primeira linha inteiramente envolvida, talvez pela carencia da devida ligação entre as divisões inglesas e a nossa, em razão da deficiencia de efectivos desta e da extensão da linha a guarnecer, mas mais certamente pelo intenso nevoeiro reinante.

A terceira e proponderante circunstancia consistiu na enorme desproporção entre as forças atacantes, que se elevavam a quatro divisões, e as tropas portuguesas, que apenas constituiam uma divisão, depauperada pelas baixas devidas a crueis sofrimentos e incessantes raids, bombardeamentos e ataques parciais. Bem mais numerosas do que as nossas, eram as tropas inglesas e, não obstante, não lográram, naquela batalha melhor resultado.

A defesa de Armentières, que esteve a seu cargo, foi um episódio mais bizarro do que o da defesa das posições ocupadas nos flancos das nossas tropas, não por evitar que a povoação caísse em poder dos atacantes, mas por haver permitido a retirada ordenada e metódica do grosso das tropas para Bailleul, que está situada em uma elevação e, portanto, apropriada para nela estabelecer um forte escalão, destinado a assegurar a continuação da retirada. A fôrça deixada em Armentières cumpríu tão honrosamente, porém, a sua missão, que os próprios alemães citam o seu heroísmo na parte oficial da batalha. Emquanto foi possível aos que a constituíam, pelejáram, e entre as fumegantes ruínas das habitações que defendiam, é que os alemães fôram aprisionar os sobreviventes, mas já sem munições.

Equivalentemente sucedeu com os portugueses. Mas, o procedimento inglês teve larga publicidade, o que não sucedeu ao dos nossos compatriotas. Por isso, mui justamente escreveu o redactor militar de El Imparcial, o seguinte comentário, que reproduzimos no próprio idioma espanhol, para lhe conservar todo o brilho e vigôr:

«Por qué habían los portugueses de resistir menos que los britanos? Su alma en su almario tíenen nuestros vecinos y heranos de raza pera resistir como el que más resistia; han cejado, és cierto, pero – es que no cejaron los ingleses desde la primera fase de Ia grande batalla y quando aun la moral del frente aliado estaba incólume ?…

Triste ejemplo para los pueblos débíles! Ni su sacrificio se estima cuando la adversidad les acompaña! Hubieran los portugueses resistido, y no faltaria ocasión para demonstrar que lo hicieron merced aI apoyo y la cooperacion de Ias fuerzas estrañas que les ayudaban.

Esa y no outra (que los portugueses ocupavan posiciones dominadas por el enimigo), seria la razón deI ataque por aquellas parajes: los alemanes ocupaban la parte elevada del terreno y han aprovechado Ia circunstancia. Estamos seguros de que los soldados portugueses se habrán batido heroicamente, tan heroicamente como sus camaradas los ingleses y los franceses, porque en esta guerra, Y pese a todos los adelantos de la industria y la ciencia militares, ninguna máquina llegó á la perfection de la máquina humana; el hombre es arma preponderante, porque es la unica máquina que tiene alma».

Não saberiamos dizer melhor, nem o poderiamos fazer com maior isenção, visto tratar-se de apreciar o procedimento de compatriotas nossos. Nem sempre nos tem sido favorável o vento que provém da Espanha, mas na presente conjuntura não nos podia êle ser mais agradável. Oxalá nos soprasse sempre assim fagueiro, porque outras seriam as nossas disposições de ânimo para com os nossos visinhos, dos quais as conveniências nos mandariam aproximar, se as tradições e a aspiração de expansão os não impulsionássem a êles para a realização da unidade política da peninsula, ideia com a qual nós os portugueses jámais podemos confraternizar.

Escreveu ainda o articulista do Imparcial, que «como los encadenados de Las Navas de Tolosa alredor del caudillo agareno, los portugueses se baten sin un ideal, y harto hacen poniendo el pecho a las balas por espiritu de obediencia, por fatalidad nacional».

Há muita injustiça nesta referência. Pode discutir-se a oportunidade, modo e local mais conveniente para a nossa intervenção na guerra, e sôbre o assunto temos ideias próprias, que já oportunamente manifestámos nos termos e pela via, que entendemos oportuna. O que não poderá sustentar-se é que nos batemos sem um ideal. Funda-se êste no mais ardente patriotismo, pois consiste em robustecer a aliança anglo-portuguêsa, com o determinado fim de assegurar pelo modo mais eficaz a nossa integridade metropolitana e colonial. Não é o momento, porém, em que tão agradáveis referências nos são feitas do outro lado das nossas fronteiras terrestres, o mais próprio para desenvolver a tése, mas não seria difícil demonstrar, o serem os perigos para a nossa nacionalidade, que a história regista, provindos repetidas vezes de além dessas fronteiras, uma das causas essenciais dos soldados portugueses se baterem hoje ao lado dos ingleses e franceses contra os alemães.

Dito isto, com a lealdade de velho soldado, mas com a cortesia devida a um confrade nas letras que, no anonimato em que se envolve, procura encobrir a qualidade militar, que aliás tão brilhantemente se revela nas suas proficientes crónicas da guerra, intituladas La situacion militar, voltemos ao assunto, que constitue a essência dêste desataviado artigo.

Levar-nos-ia muito longe, pretendendo descrever os termos e episódios desenrolados em toda a sequencia da famosa batalha do Lys, travada de 9 a 19 de abril, que tão valorosa mas infaustamente foi iniciada pelas tropas portuguesas. Nem o pretenderiamos fazer, por carência de elementos. Circunscrevemos a nossa intervenção no assunto à descrição, que mais imediatamente nos interessa, do prólogo desse formidável combate que durou dez dias, isto é, uma decada, tal qual sucedêra ao combate anterior do Somme, que se estendeu de 21 a 31 de março. Ambos êles tiveram resultados idênticos.

Êste, conduziu os alemães desde as suas formidáveis posições de S. Quintino até às de Amiens. O outro levou-os desde as cercanías de Armentieres até as de Hazebrouck e de Béttune. É certo que duas grandes mossas produziram com tais avanços na frente britânica, uma de cem quilómetros de largura por sessenta de profundidade, a outra de trinta por vinte.

Sob o ponto de vista táctico, os alemães ganháram indubitávelmente vastos espaços de território; mas, sob o estratégico, que era o cobiçado, viram inteiramente frustrados os seus esforços, porque a frente dos aliados não foi rôta o exército anglo-Iuso-belga, embora haja sofrido perdas sensíveis, sob os pontos de vista orgânico e moral deve considerar-se integro.

Contribuimos para êste rezultado com grande cópia de sangue derramado pelos nossos compatriotas e com o cativeiro de muitos outros, porquanto foi perante o nosso esfôrço que caíram, prostrados pelas granadas arrojadas dos nossos canhões, pelas balas despedidas das nossas espingardas e pelos golpes das nossas baionetas alguns milhares de adversários.

«A divisão foi vencida, escreve textualmente o sr. General Gomes da Costa, mas sob uma tão tremenda desproporção de forças, que a batalha travada constitue verdadeira gloria para os portugueses, porque morreram, mas cumprindo o seu dever.» E, para o comprovar, refere como, após um ano de ininterrupto guarnecimento das trincheiras, executando ou repelindo numerosos raids, os efectivos de oficiais da divisão se achavam reduzidos de 50%, faltando os majores em quasi todos os batalhões e estando as companhias e pelotões sob o comando, aquelas de subalternos e estas de 2.os sargentos. A frente a guarnecer estava calculada para efectivos completos, isto é, para 1.083 praças por batalhão, mas cada um destes apenas dispunha de umas 577 a 878, elevando-se os elementos que faltavam a 139 oficiais e 5.792 praças. Por isso, a divisão foi batida, mas aguentando-se oito horas sob o mais violento bombardeamento e sob o embate de oito divisões inimigas!

Quando a nossa colaboração na guerra foi solicitada pelo governo inglês, só nos propuzemos acompanhar leal e valorosamente os seus compatriotas nas vicissitudes da luta. A modestia do nosso concurso, em uma guerra na qual os blocos adversários se constituem por milhões de homens, não podia deixar de ser limitada. Ao que a nossa honra nos obrigava, porém, era a que, fôssem poucos ou muitos os soldados que levássemos aos campos de batalha, êles honrassem aquélas tradições que, na Guerra da Peninsula, haviam feito considerar os nossos soldados dignos émulos dos compatriotas dos marechais Duque da Vitória e marquês do Campo Maior.

A seguinte nota, enviada por Lord Balfour, ministro dos negocios estrangeiros da Inglaterra, ao governo português, demonstra cabalmente que a 1.ª divisão do C. E. P. soube cumprir honrosamente esse compromisso tomado:

 

«S. Ex.ª o Ministro dos Negocios Estrangeiros – Lisbôa.

Em nome do governo britanico, desejo exprimir ao governo e ao povo de Portugal o alto apreço em que temos o valoroso feito que as tropas portuguesas praticaram nesta batalha. Lamentâmos profundamente as perdas, que elas devem ter inevitavelmente sofrido, sob o império de um ataque que foi executado depois de intenso bombardeamento e com uma grande preponderancia local de tropas; contudo, é-nos grato sentir que os sacrificios comuns, que as nossas duas nações estão agora fazendo, lado a lado, nos campos de batalha intensificam a força dos laços indissoluveis que as unem na sagrada causa da Liberdade e do Direito. (a) Balfour.»

 

Nenhuma prova mais valiosa se podia oferecer para comprovar que o episódio da batalha do Lys, em que tivéram intervenção as tropas portuguesas, tem direito a figurar com letras de ouro na nossa historia. Isto deve satisfazer a alma dos que consideram a honra da Pátria como a suprema aspiração nacional.

 

GENERAL MORAES SARMENTO.

 

 

 

 

 

 

 

(1) A historia demonstra como a presente doutrina tem sido sempre desvelada e intensamente desenvolvida, atravez dos seculos e em todas as regiões do mundo, sempre que houve, cm qualquer destas, a necessidade de conseguir a evolução regressiva da mentalidade popular para a realização pela força de qualquer aspiração politica. Entre muitos outros, são modelares os exemplos, que passamos, a citar: Na historia antiga, Roma preparou a destruição de Cartago por uma intensa propaganda, da qual foi alma Catão o Antigo, que terminava todos os seus discursos, qualquer que fosse o assunto, com a conhecida frase: Caterum Carthaginem esse delundam (E julgo, além disso, que Cartago deve ser destruida).

   Na Edade Media, a primeira cruzada foi planeada, sob a influencia do Papa Urbano li, e teve em Pedro o Eremita o mais ardente e eloquente propugnador, o qual levou a sua palavra inspirada a todos os dominios da cristandade.

   Na historia moderna, o despertamento do patriotismo alemão, depois da invasão de Napoleão l, foi incitado pela mais tenaz, quente e vigorosa evangelização, na qual tomaram parte pela palavra falada ou escrita, em prosa ou verso, os espíritos nacionais mais cultos, e entre os quais se destinguiu o grande filosofo Fichte pela iniciativa pessoal e larga acção desenvolvida como professor da Universidade de Berlin, a qual se constituiu em ardente fóco de patriotismo.

   Na historia contemporanea, além da famosa campanha do Risorgimento, empreendida por Carvour, Garibaldi, Mazzini e tantos outros grandes patriotas, para conseguir a unificação da Italia, e renovada nos ultimes anos pelo partido nacionalista, outro exemplo não menos eloquente se oferece com a guerra, que vai travada, na qual a Alemanha se defronta contra o mundo inteiro, devido á politica de expansão, tão poderosa1llente sustentada pelo partido pangermanista, do qual é um dos mais activos e ferrenhos evangelistas o almirante von Tirpitz.

(2) No sentido exposto, o que temos lido que mais se conforma com o proposito de fazer vibrar a alma nacional no sentido regressivo, procurando empenha-la no proposito de desforço pelas violencias sofridas, é o curto, mas preciso e emocionante artigo, publicado pelo nosso camarada o sr. General Gomes da Costa na Ilustração Portuguesa n.º 648, de 22 de julho ultimo, que nos permitiu esclarecer pontos obscuros da batalha de 9 de agosto, contidos no artigo do jornal francês, do qual, ao deante, fazemos largo e fiel extracto.

(3) Boulogue-sur-mer, cidade do departamento francês do Passo de Calais, e porto no Mar da Mancha. É nêste departamento, cuja capital é Arras, que esteve situado o sector ocupado pelas tropas portuguesas, cuja planta já tem sido reproduzida nos jornais nacionais. Pelas proximidades daquela cidade do teatro da Juta, e pelo teor do artigo aludido, torna-se lícito deduzir que as informações nêle dadas, hajam sido comunicadas por algum nosso compatriota, que houvesse tomado parte na batalha, posto que o artigo seja devido à pena de M. Edmundo Equoy.

(4) Episódios da guerra actual. A política de defecção da Rússsia, através da história – Revista Militar, n.º 6, de junho de 1918.

(5) Em virtude do referido discurso, o partido pangermanista exigiu a sua demissão do cargo, que êle se viu obrigado a solicitar, e o Imperador aceitou, substituindo-o, segundo comunicou o telégrafo, pelo almirante e antigo diplomata von Hintze. Outro telegrama de Londres, posterior á data da sua exoneração, diz que um amigo intimo de von Kulhmann declarara, que este estava profundamente convencido de que o Estado Maior alemão não alcançaría a victoria. A actual ofensiva ainda se poderá prolongar durante o praso de seis semanas, aproximadamente, mas sem nada lograr de decisivo em favor da Alemanha. E o exercito ficará em perigoso estado de depauperamento, que poderá coagir o alto comando a pronunciar a retirada para posições, onde aquele melhor se possa concentrar e recobrar novas forças.

(6) Frederico Naumann, antigo chefe do partido nacional-social e presentemente um dos mais notáveis membros da União Democrática (Preisinnige Vereinigung). Apezar de não tomar parte frequêntemente nas discussões parlamentares, ou talvez por esse mesmo facto, os seus discursos constituem sempre notável ocorrência parlamentar. Para isto muito concorre a sua personalidade original, o seu talento, a sua autoridade e a sua reputação. A técnica brilhante, que presidiu à elaboração do livro citado, justifica o esgotamento que tivéram várias edições de milhares de exemplares, e a sua tradução em húngaro, francês, inglês, russo, etc..

(7) Há quem opine que o proposito do Estado Maior consiste, não em sitiar Paris, mas em aproximar-se, tanto quanto possível, desta capital, para a bombardear com grossa artilharia, e isto porque Paris tem hoje tal perimetro de fortificações, e tão poderosas, que para realizar o seu cerco, ou para o investimento, seriam indisputaveis muitas centenas ele milhares de soldados, o que se tornaria irrealizavel sem a previa destruição dos exercitos aliados.

(8) Nutrem os franceses a convicção de que o plano germanico, o decisivo, o principal, se não desenvolverá já pelo Norte, realizando o corte da frente aliada na direcção de Amiens, e arremessando sobre a costa o exercito luso-anglobelga, mas será efectivado pelo Mame, procurando envolver Paris pelo Sul, seguindo o caminho da Chateau-Thierry sobre a capital. Nesta hipótese ainda se torna essencial a destruição previa dos exercitos aliados. Depois de escrita esta nota, os factos vieram justificar não serem erradas as previsões aludidas.

(9) A região, onde a batalha foi travada, torna o nome do rio Lys, que a atravessa, e é um afluente do Escalda, cujo precurso é superior a 200 km., e se estende pela BeIgica e França. Pelo fim a que visava, ha quem denomine, aquela batalha, mas impropriamente, de Amiens.

(10)  O sr. General Gomes da Costa diz haver sido o objectivo do ataque alemão a linha Bois Grenier-Flembaix-Canal de la Bassée.

(11)  «La Situacion militar», EI Imparcial, n.º 18:379, de 11 de abril de 1918.

(12)  É fácil verificar que a descrição está muito incompleta, restringindo-se apenas ao logar ocupado pelos batalhões citados, de algum dos quais deve ter feito parte o informante, porquanto do «Quadro de honra» publicado se demonstra ter havido unidades que, ainda dias depois do inicio da batalha, designadamente em 11, se batiam tenaz e corajosamente em outras posições do teatro da luta. Devem ter sido aquelas as que constituiam a brigada de reserva e quaisquer outras que, por ventura, houvessem logrado força de envolvimento na ancia desesperada de abrir caminho atravez das linhas alemãs – como narrou precisamente o sr. General Gomes da Costa.

(13)  Ocorreu este facto, segundo narra o sr. General Gomes da Costa, porque, no nosso flanco direito, uma divisão alemã completa atacou e penetrou pelo Intervalo existente entre aquele e o flanco esquerdo britanico, e, ao passo que parte dela envolvia a nossa primeira linha, atacando-a pela retaguarda, a outra parte ~cometeu o Quartel General da 3.a brigada, matando ou apresionando quantos nela se encontravam, designadamente o Coronel Martins e tenente-coronel Craveiro Lopes. No flanco esquerdo deu-se analogo episodio, não obstante a atitude assumida por inf. 8, que heroicamente procurou obstar ao avanço inimigo. O nevoeiro, que reinava e não permitia levar a visão além de som, como afirma o sr. General Tamagnini, facilitou o movimento alemão descrito, tanto mais seguro quanto que ao inimigo não seria desconhecida a falta de eficaz resistencia, que encontraria nos dois trajectos que seguiu, a qual é de facil explicação em linhas continuas, cujos troços são defendidos por tropas de diferente nacionalidade e comandos distintos.

(14)  Asseguram-nos não serem ainda conhecidos elementos precisos e autorizados, que indiquem a natureza e numero de baixas ocorridas no combate de 9 de abril, ás quais se refere o comandante do C. E. P. no telegrama, que, mais adeante, reproduzimos. Ha oficiais, que figuram no jornal oficial como mortos nesse combate, que estão vivos, embora presioneiros, tendo escrito a suas familias dos depositas alemães, onde se encontram. Não obstante, o comandante da divisão sr. Gomes da Costa afirma que as perdas sofridas se elevaram a 327 oficiais e 7.000 praças. Das listas de presioneiros, existentes em Lisbôa, não se pódem verificar as baixas ocorridas nas varias unidades, por haver oficiais e praças, que faziam serviço em corpos diferentes daqueles a cujos quadros pertenciam.

(15)  Do batalhão de infantaria n.º 2 só ha noticia de 4 oficiais mortos e varios presioneiros ou desaparecidos. O capitão Americo Olavo não morreu; está presioneiro. O leitor terá compreendido que, no texto, seguimos os informadores do ocorrido na batalha, reservando para as notas as rectificações aplicáveis.

(16)  Todos os oficiais de infantaria n.º 17 parece estarem presioneiros, incluindo o seu comandante, que era o major José Augusto Duque.

(17)  O batalhão de infantaria n.º 15 parece que fazia parte da 3.ª brigada de infantaria, como apoio. Do modo distinto como haviam procedido, em ataques anteriores, não sómente infantaria n.º 15, mas outros corpos das tropas expedicionarias, dá testemunho o seguinte telegrama do comandante do 1.º exercito britanico: «O comandante do 1.º exercito britanico deseja que sejam transmitidas ao batalhão de infantaria n.º 15 as suas congratulações pelo completo sucesso, repelindo esta manhã o raid inimigo. Que louva a LOS e 1.º' brigadas de infantaria pelo valor demonstrado no combate de 7 do corrente, mantendo com honra e gloria as tradições de bravura da l.ª divisão. Que louva especialmente o batalhão de infantaria n.º 15, pela serenidade e bravura demonstradas na defesa do sub-sector, repelindo o inimigo com energia e infligindo-
-lhe tais perdas, que o forçou a retirar precipitadamente. Até que outro batalhão tenha oportunidade para se distinguir, e sempre que as tropas da 3.ª brigada se reunam, o batalhão de infantaria n.º 15 formará na direita».

(18)  O comandante do batalhão de infantaria n.º 13 era o major Gustavo de Andrade Pisarra.

(19)  Por falta de indicações precisas sobre o seu numero ou data, não conseguimos obter o citado jornal londrino, mas dos «Quadros de honra» publicados, demonstra-se que houve praças que se portáram efectivamente com assinalada bravura em La Couture, pelo que foram devidamente recompensadas. O sr. General Gomes da Costa diz terem elas sido dos batalhões de infantaria 13 e 15, havendo, com algumas praças inglesas, aguentado heroicamente a investida alemã.

(20)  O batalhão de infantaria n.º 13 era o 2.º da 5.ª brigada de infantaria, por isso o articulista, ao referir-se ao capitão Roma, fala no 2.º batalhão. O capitão Bento Esteves Roma, desempenhava as funções de 2.º comandante daquéla unidade.

(21)  Não há notícia oficial do destino dos oficiais, que se dizem desaparecidos. Não figuram como mortos, nem estão incluidos nas listas de prisioneiros publicadas.

(22)  «Episódios da guerra actual. O Esforço português» – Revista Militar n.º 11, de novembro de 1917.

(23)  Em nosso entender, não pode ser considerada senão como simples participação de combate a informação contida na nota oficiosa, que seguidamente reproduzimos, e foi publicada nos jornais diarios, designadamente no Diario de Noticias n.º 18.826, de 13 de abril ultimo. Como do final da mesma participação se depreende, a elaboração do relatorio de combate parece haver ficado dependente do apuramento seguro das perdas sofridas.

 

   Nota oficiosa

   Informação da frente portuguesa

   Ás quatro e um quarto da manhã do dia 9 foi iniciado um violento bombardeamento contra a frente portuguesa foram especialmente visados os comandos, desde os batalhões até ao corpo, cortadas as comunicações telefonicas e tornadas impossiveis outras comunicações em virtude de cerradas barragens. Quatro divisões inimigas desenvolveram ás sete e meia um violento ataque contra as nossas forças, o qual se sustentou até ás dez horas e meia. As nossas forças combateram com valor, mas foram obrigadas a retirar, sem panico, em consequencia do bombardeamento muito prolongado e constante superioridade numerica da infantaria inimiga. Além disso, nevoeiro, muito intenso, que durou todo o dia, originou que a infantaria inimiga só fôsse vista a 50 metros das nossas trincheiras. As nossas perdas em pessoal e material serão comunicadas logo que haja pormenores garantidos.

   (a) Tamagnini, general

 

   A publicação na Ilustração Portuguesa do artigo do sr. General Gomes da Costa, por todos os titulos interessante, e que muito esclarece o assunto, não supõe, porém, a falta do relatorio oficial do combate, como bem sabem quantos não são hospedes nas particularidades do serviço de campanha.

(24)  Não é sómente quando a victoria corôa as suas armas que os governos ingleses dão conta ao publico dos respectivos relatorios de combate, mas do mesmo modo procedem quando a sorte lhes é desfavorável. Em abono desta asserção pódem citar-se os dois seguintes eloquentes exemplos:

   Havendo sido determinado ao contra-almirante inglês A. H. Christian para executar um reconhecimento na baía de Helegoland, com o fim de atacar os cruzadores ligeiros e os contra-torpedeiros alemães, que nela se abrigavam, essa operação foi executada no dia 28 de agosto de 1914, tendo a data de 28 de setembro o respectivo relatorio de combate. Colaborou nessa acção a 1.ª esquadra dos cruzadores de batalha e a 1.ª esquadra dos cruzadores ligeiros, ambas do comando do vice-almirante Beatty, que formulou egualmente o seu relatório de combate. Esses dois documentos foram mandados publicar pelo Almirantado, merecendo do contra-almirante Kalau von Hofe a seguinte apreciação: «O plano desta operação póde ser citado como modelo para a utilização tactica dos diferentes tipos de navios e faz a maior honra ao primeiro lord do Almirantado, Principe de Battenberg.»

   O segundo exemplo consiste na publicação mandada fazer, em julho de 1915, do relatorio de combate do vice-almirante alemão von Spee, ácerca da acção travada contra a esquadra do contra-almirante inglês Christopher Cradock, em 1 de novembro de 1914, nas proximidades do porto de Coronel, do Chili, ficando esta inteiramente aniquilada e o seu chefe morto. Esse documento tem a date de 3 do referido mez. A esquadra vencedora dirigiu-se, seguidamente ao combate, para o porto chileno de Valparaiso. O Almirantado duvidou da veracidade das primeiras noticias, por isso que a esquadra de Cradock havia sido oportunamente mandada reforçar pelo couraçado Canopus, o que lhe assegurava notavel superioridade sobre o inimigo. Mas essa junção não se poude fazer, donde derivou o desastre. Na falta de relatorio do chefe inglês, gloriosamente morto a bordo do couraçado Good-Hope, o Almirantado fez publicar o do seu vencedor, para que o país soubesse, precisa e claramente como esse desastre ocorrêra.

(25)  Assevera o sr. General Gomes da Costa que, na madrugada do dia 9, tinham os alemães em 1.ª linha, para iniciar o ataque, as seguintes divisões:

   38 e 39.ª, apoiadas pela 11.ª;

   10.ª, apoiada pela 42.ª;

   1.ª e 8.ª, apoiadas pela 16.ª;

   3.ª, 4.ª e 18.ª, apoiadas pela 44.ª;

   81.ª como reserva geral.

   E, em 2.ª linha, as: 8.ª, 240.ª, 48.ª,12.ª e 17.ª.

 

    No entanto, tanto Le Telegrame, como a precedente comunicação do sr. General Tamagnini, apenas se referem a 4 divisões.

 

 

* Selecionado pelo coronel Nuno António Bravo Mira Vaz, Vogal Efetivo do Conselho Fiscal da Revista Militar.

 

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