Nº Nº Temático - Maio de 2016
O Corpo Expedicionario Português na guerra da Europa. Apontamentos
Capitão
Luís do Nascimento Dias

RM, 71, 4, Abr, 1919, pp. 220-231 *

 

A intervenção de Portugal na guerra da Europa representou, sem dúvida, um sacrificio extraordinariamente grande em homens e em dinheiro, cujo alcance ainda se não prevê em toda a sua amplitude, por não estarem concluidas as estatisticas que nos habilitem a fazer um juizo, tão aproximado quanto possível, do esforço colossal que vimos de prestar ao lado das grandes potencias, nesta luta tremenda de quatro anos e alguns meses que tantos foram os necessários para completo esmagamento de uma nação que, armada até aos dentes, se propunha dominar o mundo inteiro a golpes de baioneta e a tiros de canhão.

Grande foi o nosso esforço. E, por mais meticulosas que sejam as estatisticas, crêmos firmemente, que nunca elas nos poderão revelar com exactidão aproximada, até que ponto foi o nosso sacrifício, pois, se é certo que o dinheiro a pagar pelos compromissos que tomámos pode ser avaliado até aos últimos centavos, verdade é tambem que, o que se perdeu em energia física em tantos homens que se invalidaram e o que deixámos de produzir pela escassez de braços para o amanho e cultivo das terras e para o desenvolvimento das industrias, muitas das quais paralisaram ou afrouxaram na sua produção, não é de facil destrinça, tão pouco elucidativas são as bases em que terão de firmar-se os estudos subsequentes para o ajuste final das nossas contas.

Mas, seja como fôr, esforço sublime e admiravel esse, cuja resultante imediata nos eleva grandemente no conceito das nações cultas, marcando ao nosso País uma posição de destaque, que muito nos honra, não só sob o aspecto moral como, tambem, sob o ponto de vista militar, que não menos orgulho deve trazer ao País inteiro, provado como está que o Exercito é o espelho da nação, e o Exercito saiu dignificado e robustecido do marasmo em que se vinha estiolando naquela apática indiferença dos últimos anos de uma paz enervante que, a pouco e pouco, nos ia matando.

Bastava este duplo aspecto por que encaramos a nossa cooperação efectiva na guerra, para justificar todos os sacrifícios, para os quais, o peso do ouro não consegue esmorecer a sua benéfica compensação. E, agora, que a Paz vai ser concluida, forçoso é que nos fixemos nas posições que tão alevantadamente soubemos conquistar, para que delas possamos tirar todo o valor politico e social a que temos direito, não deixando que vá por agua abaixo, na mais criminosa das incúrias, tanto esforço e tanta dedicação que o sangue generoso dêsse punhado de bravos que tombaram em holocausto da Patria, cimentou num baluarte inexpugnavel de heroismo e de bravura, deixando em aberto uma obra de ressurgimento nacional que, a nós outros, cumpre continuar.

 

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Grandes foram os ensinamentos que colhemos durante a nossa permanencia em terras de França. E do íntimo contacto com as tropas inglesas, alguns benefícios nos advieram por isso que, em ordem e disciplina outras melhores não conheciamos, se bem que não fôssemos de todo alheios à disciplina e ao espirito militar da Alemanha, que os livros que temos compulsado, nos apresentavam como possuidora de um exercito modêlo que a sua derrota não desmentiu.

Como disciplinados que sempre temos sido no desempenho das nossas funções militares, das quais nunca arredámos pé com intuitos que não fossem os da mais estreita subordinação e obediência ás leis e regulamentos em vigor, não podemos deixar de pôr em relêvo a nossa admiração pelas brilhantes qualidades que distinguem o exercito inglês, se bem que o seu temperamento em tudo diferente do nosso e o seu orgulho de raça, levado até ao exagero, tivessem beliscado, algumas vezes, as nossas susceptibilidades de meridionais, senhores como somos de um coração um tanto avêsso áquela frieza, que um sentimentalismo irritado pelas asperezas de um clima, que não era o nosso, nem sempre soube compreender.

De todos os lados ouvimos sempre clamores vários contra o autoritarismo dos inglêses nas suas relações oficiais com as nossas tropas. E a tal ponto nos toldava o patriotismo, que supunham os ofendido, que esqueciamos as circunstancias daquele seu temperamento lhe estar na massa do sangue, para só pensarmos em desconsiderações que nos eram feitas como filhos de um país pequeno e sem recursos.

Sem que levemos a mal esta desconfiança, antes, enaltecendo-a como sintoma de brio e de pundonôr, sentimentos que tão bem se afervoram na gente portuguesa devemos, no entanto, confessar que o tal autoritarismo não tinha, a nosso vêr, a interpretação que lhe pretendiamos atribuir, por não representar mais do que um produto do seu temperamento de homens do Norte, exacerbado pela rudeza da campanha, tantas vezes incompativel com a magnanimidade de um coração que, para mal do nosso sentimentalismo, nunca fôra afectivo nem carinhoso.

Vimos êste autoritarismo empregado com portugueses, como o vimos nas suas relações com os franceses, como êles proprios o empregavam entre as suas unidades e formações. Não nos queixemos, pois, porque não temos razões fortes para o fazer; e, antes, procuremos imitá-los em tudo, inclusivamente na própria rudeza, indispensável em campanha como, em tantas ocasiões, tivemos ensejo de verificar.

Não somos dos que fazem côro com os que regressaram a Portugal a continuar, aqui, a campanha de desfavor contra a Inglaterra, que teve nos estaminets de França e nas messes o seu inicio, isto, no convencimento em que estamos de que a liga entre os dois exercitos, português e inglês, nunca poderia permitir uma fusão dos dois corações, tão diferentes e tão opostas eram as suas maneiras de sentir.

Mas, não obstante, a liga militar podia fazer-se e fez-se, animados como estavam os dois exércitos na decidida vontade de vencer e na certeza de ambos de que só a disciplina e o espirito verdadeiramente militar podiam conduzir á vitoria.

E, sôb esta uniformidade de vistas, assentes em bases tão solidas e duradouras, Portugal, mais uma vez, de braço dado com a Inglaterra, poude escrever uma nova pagina da sua historia gloriosa, que em nada deslustra os feitos heroicos dos seus antepassados.

Tudo o mais, foram simples arrufos de ocasião, que em nada conseguiram amortecer os laços de estreita amisade que felizmente nos unem á nossa velha aliada.

 

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Dos franceses trouxemos outras impressões, sem dúvida, mais suaves e amorosas, o que não admira, dada a nossa melhor adaptação ao sentimentalismo do povo francês, em tudo semelhante ao nosso. Compreendemos melhor a sua amizade e para ela fômos sem retraimentos e de braços abertos, como dois irmãos.

Contudo, se fizermos calar a voz do coração, reconheceremos que um fundo de artificio, aliás muito francês, transparecia daquele seu afecto que um mal disfarçado interesse punha em destaque.

A atitude que êles tomavam, por exemplo, na cedencia das suas povoações para acantonamento das nossas tropas é uma prova flagrante.

É que os franceses, numa noção de patriotismo mal compreendido e que a situação especial em que se encontravam nada justificava, embora os quadros de estacionamento dessem á vontade para acantonamento de um batalhão, escondiam e furtavam-se, o mais possível, ao dever militar de franquearem as suas casas para nelas serem aboletadas as nossas tropas, invocando razões várias que nos obrigavam a andar das casas dos habitantes para a mairie e desta para aquelas, em discussões estereis de que resultavam, muitas vezes, ficarem as praças distribuidas pelos currais e pelos telheiros e os oficiais a 2 e 3 na mesma cama, quando outra mais confortavel e mais sadia podia ser a distribuição, se não fossem as dificuldades apresentadas.

Não podemos nem queremos concluir que isto fosse sempre assim. Mas o caso deu-se várias vezes e a êle fazemos menção como apontamento que tomámos e como subsidio para a historia da nossa passagem em França.

De resto, estas dificuldades não eram levantadas só aos portugueses.

Aos ingleses pretendiam fazer o mesmo. Mas estes, não se fiando em lôas, invadiam a casa dos habitantes sem olharem aos seus protestos; e, com um good morning á entrada e outro á saída, liquidavam o assunto tratando de instalar os seus homens, o que sempre conseguiam, e honra lhes seja, porque acima da comodidade dos habitantes estava o bem-estar daqueles a quem o dever militar impunha a obrigação de defender a propriedade dos que ... lhe negavam guarida.

Isto, é um caso de tantos outros que podiam os citar, que veio a talho de fouce como refôrço das nossas considerações, ao mesmo tempo que frisa a circunstancia de nem sempre nos termos deixado embrulhar conscientemente nas dobras das suas amabilidades e delicadezas, sobretudo, nas ocasiões em que êles deviam ser para nós, mais portugueses e menos franceses…

 

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No estreitamento das relações entre as nossas tropas e as tropas inglesas teve uma parte preponderante o nosso Estado Maior, pelo que lhe não regatearemos os nossos louvores, o que fazemos isentos de toda a suspeita, pois, não pertencemos á classe nem, já agora que a guerra acabou, nos propomos escrever para agradar ou com outro fim que não seja o de restabelecer a verdade tal qual ela se apresenta ao nosso espirito.

Sabemos, porque o ouvimos bastantes vezes, que contra êste organismo se moveu uma certa má vontade atribuindo-se-lhe, até, muitas culpas que não tinha.

Mas, quem assim falava desconhecia, decerto, os serviços do Q. G. no trabalho de organização e preparação do C. E. P., serviços que nem sempre foram compreendidos por todos, especialmente por aqueles que, não obstante se encontrarem já em França, ainda não acreditavam que fôssemos um dia para as trincheiras.

Daí, uma certa resistencia passiva originando um afrouxamento no cumprimento de certas ordens e serviços, que o Estado Maior fazia publicar e que o mesmo julgava indispensaveis para o regular funcionamento de toda a complicada engrenagem de um corpo de exercito, de dificil movimentação mas, ao que se viu, facil de criticar.

Se nos disserem que nem todo o trabalho produzido foi sadio e proveitoso, estamos de acôrdo.

Mas, concluir dos serviços que não correram como deviam e da confusão que indubitavelmente houve, que só ao Estado Maior competiam as responsabilidades para, afinal, nos livrarmos, a nós, de toda a culpa, é forçar demasiadamente a nota numa maneira de vêr tão egoísta como falha de razão.

De resto, as condições especiais em que nos encontrámos em campanha, lutando num país estranho e tendo, muitas vezes, de subordinar a nossa vontade á de outro país, numa amálgama de três vontades cada uma das quais puxando a brasa á sua sardinha, são razões de sobra para aquilatarmos das dificuldades insuperaveis com que o Estado Maior teve de lutar para levar de vencida, como levou, todo o trabalho de organização e de preparação. Deve-se, sem dúvida, á sua tenacidade e inteligencia, a ocupação pelas nossas tropas de um sector privativo na frente de batalha, o que foi uma verdadeira conquista, sem a qual teriamos de voltar para o país, tal como haviamos partido para França, isto é, sem que se tornasse efectiva a nossa cooparticipação na guerra, o que seria a suprema vergonha das vergonhas.

 

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Era incompleta a nossa preparação militar para uma guerra de trincheiras, porque todos ou quasi todos os modernos engenhos de guerra nos eram desconhecidos ao tempo da nossa partida para o campo de batalha. E, se mais algum proveito militar podiamos ter tirado da nossa permanencia em Tancos, se a instrução fosse orientada de harmonia com os novos princípios, preciso é reconhecer que o estabelecimento das Escolas das diferentes especialidades que foram postas a funcionar em França para treino e preparação de C. E. P, vieram em tudo obviar aquela deficiencia.

Funcionaram as nossas Escolas num máximo da sua frequencia, podendo dizer-se afoitamente, que todo o C. E. P. por elas transitou conforme as suas especialidades adextrando-se, assim, convenientemente a nossa gente, não durante periodos tão prolongados como estava estabelecido para as tropas inglesas, nem isso era preciso porque os nossos conhecimentos basilares eram superiores aos daquelas tropas, mas durante o tempo que o nosso Estado Maior julgou necessario, e que teria sido melhor aproveitado, se a energia dispendida não fosse em parte absorvida pela inércia e pela resistencia de muitos, que a bôa vontade de alguns só vagamente conseguiu neutralizar.

Assim, em fevereiro de 1917 foram abertas duas Escolas de esgrima, uma de granadas e outra de metralhadoras ligeiras, enquanto continuavam a sua preparação nas Escolas inglesas um grupo de oficiais e de sargentos que mais tarde foram os instrutores nas Escolas de morteiros, metralhadoras pesadas, artilharia, observadores, aviação, gás e sinaleiros.

A não serem certas dificuldades na aquisição de material que, a princípio, mais ou menos afectavam todas as Escolas, tornando-as menos aparatosas, todavia, em nada estas nos envergonhavam, chegando as nossas a competirem com outras similares inglesas sendo, até, para constatar que, muitas vezes, os melhores alunos das Escolas portuguesas rivalizavam em destreza e saber com os melhores discípulos da Escolas estrangeiras.

É que a materia prima, quando convenientemente trabalhada é explendida e dá tudo quanto seja preciso.

 

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O nosso soldado é óptimo. Já o conheciamos e, mais uma vez, tivemos ensejo de o verificar servindo, porém, esta última prova, que foi dura quanto podia ser, para definitivamente assentarmos no bom conceito que, aliás, sempre lhe tributámos.

Bonacheirão e simples, contemporizador e nada exigente, amoldando-se resignadamente ás contingencias da guerra; sofredor e disciplinado, aprende com uma facilidade grande tudo quanto se lhe ensina e tudo êle é susceptível de fazer, tão bem ou melhor do que o melhor soldado do mundo.

No combate de 9 de Abril mostrou bem a sua têmpera. E se não conseguiu deter o avanço do inimigo, nem essa era, talvez, a sua missão principal no referido combate, nem por isso foi inferior o seu espírito de abnegação.

Temos ouvido algumas vezes classificar o combate de 9 de Abril como uma derrota para as nossas armas. Não consentimos, porêm, que passe a atoarda sem o nosso mais veemente protesto.

É que as tropas propriamente empenhadas na 1ª linha, tal como estava quasi todo o nosso C. E. P., não podem obstar á marcha do inimigo, desde que êste se decida, como se decidiu, a romper as trincheiras empenhando-se num combate a fundo por isso que, para tal o conseguir, terá inevitavelmente de reforçar os seus efectivos com tropas que lhe garantam aquele forçamento. Nestas circunstancias, é fatal o rompimento, e as tropas em 1.ª Iinha não são, portanto, mais do que tropas de sacrifício ou tropas condenadas a morrer, cuja única missão será a de retardarem, o mais possível, o avanço do inimigo permitindo, assim, que as fracções escalonadas á retaguarda tomem as suas posições de combate, sendo a estas que, por esforços sucessivos, pertence fixar o inimigo obrigando-o a parar.

Ora o C. E. P. não tinha o escalonamento em profundidade, absorvido como estava na 1.ª linha. Portanto, não podia caber-lhe a gloria de fazer estancar o inimigo, tarefa que estava entregue ás tropas inglesas que, ainda assim, precisaram do reforço dos franceses, tão grande foi o ímpeto com que os alemães se arremessaram para a frente. Para as tropas francesas e inglesas foram todas as honras da vitoria porque foram elas que conseguiram, de facto, frustrar as intenções do inimigo. Mas que o esforço do C. E. P. não fique no esquecimento por isso que, no cumprimento do seu papel, só deixou atravessar as linhas depois de completamente esmagado, e êsse esmagamento produziu-se numa luta de 10 contra 1, o que não sendo grande façanha para o inimigo, nos honra sobremaneira pela desproporcionalidade, visto que o não fez por menos esse colosso que nós, aliás, conseguimos detêr na nossa frente durante um ano consecutivo e enquanto as fôrças de ambos mais ou menos se contrabalançavam.

É cêdo ainda para se fazer a história do combate de 9 de Abril, nem a nós compete faze-la. Mas, quando ela se fizer, temos a certeza de que se mencionarão verdadeiros actos de bravura e de heroismo, que serão outras tantas páginas de ouro da nossa historia atestando, aos vindouros, o direito que temos a viver como nação livre e independente.

 

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O nosso soldado é optímo, repetimos.

Precisa, porêm, de ser convenientemente preparado e conduzido por quadros que estejam á altura da sua alta missão educativa, sabendo antepôr ás suas comodidades e conveniencias o bem estar e a felicidade colectiva de um Exercito, que só tem razão de existir, dentro dos ditames da mais rigorosa disciplina, única fôrça capaz de manter a sua coesão.

Todo o disvelo será pouco em presença da causa sagrada da instrucção, em guerra aberta com a negligencia e o desinteresse tantas vezes revelados.

Foram postas á prova a competencia dos quadro milicianos e dos quadros do activo.

Não possuimos, porêm, elementos nem competencia para nos pronunciarmos por um ou por outro podendo, no entanto, afirmar que em ambos os quadros se encontram elementos bons e outros susceptíveis de se aperfeiçoarem.

Nas acções que demandavam simplesmente de bravura, cometeram verdadeiros actos de heroismo uns e outros, sem diferença nem distinções para qualquer das classes.

Porêm, nos trabalhos de preparação e como educadores, julgamos que os quadros do activo se comportaram com uma noção mais nítida das suas atribuições, o que não admira, dada a forma rápida como foram aprontados os quadros milicianos, a que uma fraca perrnanencia nas fileiras não permitiu o seu cabal aperfeiçoamento.

Na parte propriamente scientífica da guerra, o que a nssoo vêr só podia medir-se numa guerra de movimento, em campo aberto, com todos os encantos e imprevistos de uma luta, sem dúvida, mais lial e mais empolgante do que a exgotante guerra de trincheiras, nessa parte, como iamos dizendo, foram nulas as nossas observações dada a circunstancia de nos encontrarmos permanentemente, e durante um ano, colados ao mesmo terreno a que uns raids furtivos e rápidos mal conseguiam quebrar a monotonia de uma defensiva enervante.

 

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Como remate ás nossas considerações e como resultante do muito que observámos em dezoito meses de guerra diremos que, acima de tudo, devemos cuidar da educação militar do nosso soldado, apertando-a nos laços indissolúveis de uma disciplina de ferro. E, sôbre êste tema, muito há que fazer, ainda, se quizermos dispôr de um Exercito que seja uma garantia da ordem.

As quinze semanas destinadas á instrucção da nossa infantaria, chegam para muito, desde que o tempo seja bem aproveitado e que nela colaborem os graduados com o esfôrço da sua bôa vontade, ensinando mais por devoção do que por obrigação.

a) Não devem ser postos de parte os exercidos em ordem unida nem tão pouco o manejo de arma e de fogo, feitos á voz, para os quais se deverão exigir o maximo de correção e de justeza. Estes exercicios, quando executados com arreganho e precisão, levam ao espírito do soldado uma noção clara de disciplina que muito convem aproveitar.

b) Todo o soldado deve saber lêr e escrever para que possa compreender bem a sua missão em campanha e para que possa desempenhar-se de certos serviços que o seu analfabetismo pode prejudicar. A frequencia ás escolas primárias é obrigatoria, bem o sabemos. Mas se nós, no quartel, não tratarmos dêste assunto, o problema permanecerá insolúvel e continuaremos apresentando o espectaculo degradante de vêrmos o nosso soldado debatendo-se na mais atroz das ignorancias, num grau de inferioridade deprimente, que muito prejudicará o prestígio da sua farda.

c) Dêmos-lhe ginástica, muita ginástica, fugindo á execução dos movimentos livres, que pouco ou nada desenvolvem um organismo já constituído, além de que nos faltam os instrutores devidamente habilitados para uma ginástica pedagogica: mas a ginástica traduzida em jogos de destreza, que obriguem o homem a saltar e a correr, pondo em vibração todo o seu complicado sistema de músculos e de nervos, fortemente endurecidos pela ausencia completa de exercicios desta natureza que o recruta nunca fêz em dias de sua vida, antes do seu alistamento.

Uma pista de obstaculos em cada regimenfo é de necessidade urgente, de facil construção e pouco dispendiosa.

d) A instrucção de esgrima de baioneta é um exercício admiravel e de grande utilidade. É um estimulante enérgico para o cerebro, desenvolve a acuidade visual, dá presteza, decisão e energia no ataque, ao mesmo tempo que torna agil e robusto o soldado.

Com tais requisitos, é evidente que a instrucção de esgrima tem uma parte importante na educação militar e, como tal, não pode nem deve ser descurada.

e) Julgamos desnecessario encarecer as vantagens da instrucção de tiro com armas portáteis, sobretudo, nas tropas de infantaria.

E como elas estão no espírito de todos, bom seria que cada unidade fosse dotada com uma carreira de tiro do modêlo inglês facil, também, de construir e, com a dupla vantagem de se poupar o tempo perdido com o deslocamento das tropas para a frequencia das carreiras de tiro e da economia na verba dispendida com os transportes daquelas que, por ficarem muito distantes das respectivas carreiras, teem de fazer o trajecto em caminho de ferro.

 

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Isto, a nosso vêr, é o que julgamos indispensavel fazer-se, para começar.

Muito mais teríamos que dizer se pudéssemos alongar êste artigo que já saíu fóra dos limites em que o tínhamos esboçado. Ficará o resto para a outra vez, na certeza de que, o que acaba de lêr-se é a modestissima opinião de um oficial, escrita com desinteresse, sem paixão e sem outro intuito que não seja o de fornecer êstes apontamentos, na mira de que alguém mais competente possa rasga-los com a autoridade do seu saber ou para sôbre êles se traçar o caminho, que teremos de trilhar, para conseguir um Exercito que seja a honra da Nação.

É ainda o amor á farda e a consideração pelo Exercito, a que temos a honra de pertencer, que nos levam, de vez em quando, a vir dizer de nossa justiça, se bem que sejamos os primeiros a reconhecer faltarem-nos as qualidades para bem deduzirmos o que nos vai cá dentro. E, se alguma cousa escrevemos, é em nome de uma franqueza e de uma sinceridade sem limites, que o nosso temperamento não pode fazer calar, pelo que as nossas considerações devem ser levadas á conta de um desabafo despretencioso.

Janeiro de 1919.

 

Luís do Nascimento Dias

Cap. de inf.

 

* Selecionado pelo Coronel Nuno António Bravo Mira Vaz, Vogal Efetivo do Conselho Fiscal da Revista Militar.

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by CMG Armando Dias Correia