Nº 2579 - Dezembro de 2016
Crónicas Bibliográficas

 

O Exército e o Azulejo. Tradição e Arte.

Augusto Moutinho Borges[1]

 

A ESCOLHA DO TEMA

Concretizando desde há algum tempo um interesse sobre a representação da temática militar no contexto artístico português (recordo vários títulos do autor: Guaritas: Arte e Engenho; O Exército Português e a Iconografia Religiosa; Penamacor Militar: Da Restauração à Republica; São Francisco e Santo António na Toponímia e Arquitetura militar em Portugal e mais recentemente S. João de Deus na Azulejaria em Portugal, 1615-2015), o autor propõe agora um levantamento exaustivo do património azulejar nas diferentes Unidades do Exército em Portugal, sendo feliz na escolha do tema e indo ao encontro dos interesses de conservação e salvaguarda deste património cultural e identitário português.

A azulejaria portuguesa tem sido nos últimos anos tema e assunto que recebeu bastante atenção, facultando um alargamento do estudo da cultura visual e iconográfica em Portugal e, especificamente, na legitimação de um património que se pretende preservar, afirmar e transmitir aos vindouros.

Adjetivador da arquitetura, como o designou o Engenheiro João Miguel dos Santos Simões (1907-1972), o azulejo animou os espaços públicos e privados, revestindo interiores e exteriores, com uma notável capacidade de adaptação ao gosto e às solicitações de cada época.

Partindo deste contexto, a ideia foi assim direcionar exclusivamente o azulejo para o centro deste livro: propondo como afirma o seu autor logo na apresentação na página 9: realizar um inventário em território nacional que evidencia-se um roteiro temático em torno da azulejaria à salvaguarda do Exército português.

Encontramo-nos, assim, perante uma obra ilustrada e apelativa que, em cerca de 190 páginas, traça num contexto geográfico alargado e num arco temporal dilatado entre os séculos XVII e a contemporaneidade, um itinerário visual do azulejo nas diferentes Unidades pertencentes ao Exército Português, seguindo-se no final um glossário onde o autor seleciona e “estabiliza” um conjunto de termos e designações aplicados ao discurso plástico do azulejo e a bibliografia.

 

A ESTRUTURA DA OBRA E OS TEMAS ABORDADOS

Percorrendo espaços diferenciados, os textos reunidos constituem um repertório de riqueza informativa, onde se procura revelar e identificar os vários momentos que caracterizaram os períodos da História da azulejaria produzida e aplicada em Portugal, procurando evidenciar a forma como se integram e articulam com a arquitetura, neste processo de interação e diálogo entre o espaço visual e o espaço efetivamente físico.

Ao analisarmos o índice do livro, constatamos que houve a preocupação de elencar exaustivamente o uso do azulejo nos espaços do Exército, seguindo uma cronologia artística até à contemporaneidade num grafismo muito apelativo e bem conseguido – segue-se um conjunto de análises parcelares sobre os seguintes grupos temáticos:

Unidades (onde se destacam os Brasões de Armas, os Quadro de Honra e Homenagens, painéis isolados, a Toponímia; a Padronagem, a figura avulsa).

Em muitos destes exemplos o azulejo assume um papel de protagonista na comunicação, seja ela laudatória, comercial ou apenas informativa. Foi aqui utilizado para explicar visualmente a notoriedade de factos e ações.

Aproveitando a sua enorme originalidade, o azulejo aponta nestes modelos uma nova perspetiva de utilização que se evidencia absolutamente inovadora e criativa, visto ter a capacidade de se adaptar à mensagem e ao propósito escolhido.

Quase de cariz publicitário, o recurso aos muitos elementos gráficos acaba por se tornar um dos principais elementos decorativos de muitos destes painéis.

Continuando pelo caminho do campo visual, e na companhia dos programas decorativos do azulejo, visitamos no decorrer da leitura do livro: Direções, Residências e Messes, Museus Militares, Estabelecimentos de Ensino, Unidades de Assistência e por fim o riquíssimo património religioso de que o Exército é detentor: Convento de Santa Cruz, em Lamego, o Mosteiro de São Dinis e de São Bernardo, em Odivelas, o antigo Mosteiro de São Felix, atualmente designado como convento de Chelas, em Lisboa, e a capela do Paço Real das Passagens, em Vendas Novas.

Sabemos que o maior problema que enfrenta hoje o legado azulejar das Ordens religiosas é exatamente a recuperação e conservação do seu Património in situ.

A instalação de Quartéis e Unidades do Exército nestes espaços monásticos/conventuais pressupõe a reutilização e recuperação deste mesmo património, reconhecendo a importância e o significado deste espólio artístico.

Também não foram aqui esquecidos os Artistas e os Centros Produtores. Do artíficie anónimo e desconhecido ao pintor consagrado muitos foram os que trabalharam para estas encomendas.

Este livro permitiu assim identificar, reconhecer e caracterizar o acervo azulejar à guarda do Exército Português, possibilitando alargar uma base de trabalho visual e contribuir para um conhecimento mais amplo do azulejo em Portugal.

 

IMPORTÂNCIA DA OBRA NO ESTUDO E NA INVESTIGAÇÃO DO AZULEJO

São algumas as pistas e perspetivas de trabalho que o tema deste livro proporcionará aos diferentes leitores/investigadores sejam eles: o leitor comum e interessado por estes temas, o estudante universitário, o professor, os agentes do Património e do Turismo, servindo interesses diferentes.

O estudo sobre um património azulejar desconhecido que urge estudar, um mapeamento exaustivo dos conjuntos e revestimentos cerâmicos uns ainda in situ, outros recolocados, permitindo igualmente conhecer e valorizar o uso deste património e a sua preservação por parte do Exército Português; o levantamento de um conjunto alargado de mestres e pintores tanto conhecidos e identificados pelas assinaturas e siglas deixadas, como outros desconhecidos que trabalharam na produção artística do seu tempo, em suma, percecionar o gosto português na decoração destes edifícios e espaços vocacionados para a “arte da guerra”.

Li com muito apreço este livro, considerando-o um importantíssimo contributo para a história do património artístico do Exército Português. É por isso muito importante que este registo não pertença exclusivamente e apenas aos militares, mas seja partilhada também pela sociedade civil.

A valorização de alguns destes conjuntos pressupõe o firme propósito das instituições envolvidas em partilhar os seus patrimónios com a comunidade, no seu mais amplo sentido, seja através de serviços de visita e de ofertas culturais, seja por via de espaços musealizados ou outras valências, como arquivos e bibliotecas, ou através de uma programação cultural que contribua de forma decidida para a sua valorização.

Termino reforçando que a leitura desta obra possa suscitar inevitavelmente a todos os investigadores de arte e especialistas de várias áreas da História da Arte e do Património um estímulo à descoberta destes lugares.

 

Nota da Direção

A Revista Militar felicita o autor desta obra, publicada pela editora By the Book, e agradece o Volume oferecido para a biblioteca.

 

__________________________________

[1] Pela Prof. Doutora Alexandra Gago da Câmara, Professora Auxiliar e Investigadora na Universidade de Évora, na cerimónia de apresentação da obra, no Museu Militar de Elvas, em 21 de outubro de 2016, presidida pelo Chefe de Estado-Maior do Exército, General Frederico José Rovisco Duarte.

 

Prof. Doutora
Alexandra Gago da Câmara
Gerar artigo em pdf
2017-09-26
1205-1208
25
25
Avatar image

Prof. Doutora

Alexandra Gago da Câmara

Professora Auxiliar e Investigadora na Universidade de Évora.

REVISTA MILITAR @ 2017
by CMG Armando Dias Correia