Nº 2580 - Janeiro de 2017
Introdução
Prof. Doutor
Hermenegildo Fernandes

Bem-vindos a esta segunda sessão dos VIII Encontros da Revista Militar que incidirá sobre “África e o Mundo Árabe”, relação que talvez não fosse muito evidente há 30 ou 40 anos atrás, mas que se torna agora muito mais evidente pela centralidade que os problemas que se organizam em torno do conceito de islamização têm adquirido no contexto africano.

Efetivamente, quando há 30 ou 40 anos pensávamos em África, pensávamos sobretudo em questões que tinham que ver e têm que ver com o desenvolvimento e com a posição entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido ou em vias de desenvolvimento.

É interessante verificar que quando pensamos em África, muitas vezes, nos últimos 10 anos, pensamos acerca de questões que não se prendem apenas com o Magrebe, mas com o universo saariano, com os países do Sahel, e mesmo com países que se encontravam, há décadas atrás, bastante longe do processo de islamização. Nesse sentido é evidente a mudança de perspectiva que se traduz na centralidade de questões que têm a ver com a relação com o mundo mediterrânico e com o avanço do Islão enquanto religião dominante.

Por outro lado, o quadro de reflexão sobre o mundo árabe também se alterou de forma radical nos últimos 30 ou 40 anos, mas em especial na última meia dúzia de anos, depois do fenómeno das chamadas “primaveras árabes”.

Talvez o ponto mais importante sobre o qual, evidentemente, porque é factual, não poderemos deixar de concordar, seja o da decomposição dos estados laicos no quadro do mundo árabe ou, pelo menos, de estados tão laicos quanto o permitido pelas suas origens carismáticas ainda próximas e pelo conservadorismo da sua estrutura social, evidentemente com variações regionais. É interessante nesse quadro, fora do mundo árabe, mas em contiguidade, pensar no regresso do Irão à cena internacional enquanto potência considerável, regresso que, aliás, retoma aquele que havia sido sempre o papel do Irão desde, pelo menos, o primeiro milénio a. C.. Penso nas dinastias persas do mundo antigo e, depois, no segundo milénio, no Irão imperial do mundo Safávida. De facto, só a partir do séc. XIX o Irão perderá o papel que tinha sido sempre o dele, a sua posição periférica devendo ser entendida como um fenómeno recente e eminentemente reversível.

Por contraste salientaria, em segundo lugar, o colapso do centro do mundo árabe; isso parece-me ser o fenómeno absolutamente dominante dos últimos anos, que pode remontar, claro, à guerra Irão/Iraque e às duas sucessivas Guerras do Golfo, mas que tem o contexto mais próximo no agudizar de conflitos que são muito velhos no interior dessa área central, num arco que vai do Egipto ao Iraque, passando pela Síria, no agudizar de velhos conflitos que se prendem com a oposição entre partidários de uma via ocidentalizante de modelo laico, e as várias constelações que podem ser simbolizadas, mas não se reduzem, à Irmandade Muçulmana que tem, por exemplo, na política egípcia um papel determinante entre os anos de 1940/50 e que, lembremos, começou por ser um dos apoiantes, para deixar depois de o ser, do Coronel Nasser. Uma história contemporânea mas não recente que deverá ser revisitada para podermos perceber o carácter mais estrutural do que episódico dos conflitos contemporâneos.

Em terceiro lugar, registaria a sobrevivência do Magrebe contra todas as probabilidades e contra aquilo que parecia ser um destino evidente, depois dos acontecimento da Argélia, nos fins dos anos 80, e também contra as probabilidades maiores no caso recente da Tunísia. Estas variantes regionais, diria, conduzem-nos a pensar e a constatar a maior estabilidade dos estados tradicionais de modelo carismático sobre os estados dominados por um modelo ocidentalizante, num mundo em que se anuncia o hipotético regresso de uma unidade tradicional do mediterrâneo oriental em torno da Turquia, ela própria a divergir do caminho traçado há cem anos atrás pelo primeiro movimento de cariz ocidentlizante e laicista a tomar o poder no inteiro do mundo islâmico. O problema que se poderia colocar seria de que forma a crescente hegemomia turca no mediterrâneo oriental, portanto, fora do quadro do mundo árabe strictu sensu, acomoda o ressurgimento da ideia imperial otomana, sendo que o mundo turco se constituiu contra essa ideia imperial, justamente porque ela assentava na diversidade étnica, linguística, religiosa, enquanto o mundo turco se afirmou através de um modelo iminentemente nacionalista.

Em resumo, parece-me que neste contexto todo, africano e mediterrânico do Médio Oriente, se relacionam modelos completamente diferentes e eventualmente mesmo contraditórios, em que estão frente a frente coisas como o estado nacional de modelo ocidentalizante, modelos imperiais tradicionais e, simultaneamente, modelos teocráticos que se procuram opor sob formas mais ou menos bastardas, no caso do Daesh, através das vestes do califado.

Para suscitar o debate em torno dessas questões e a relação entre África e o Mundo Árabe, a Revista Militar entendeu trazer duas personalidades que se têm vindo a dedicar ao longo do tempo e que têm já um sólido currículo na área – um, mais de um lado da reflexão teórica, e o outro, mais do lado da ação, o que procura juntar a reflexão teórica e a tomada de decisões – : o Professor Augusto Nascimento, investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa e especialista em temas do mundo colonial e da África contemporânea e o Senhor Engenheiro Ângelo Correia, Presidente da Direção da Câmara de Comércio e Indústria Árabe Portuguesa.

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2017-11-01
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Prof. Doutor

Hermenegildo Fernandes

Professor Auxiliar no Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leciona desde 1987, depois de uma formação inicial na FCSH da UNL.

Tem-se dedicado ao ensino da História Medieval, da História do al-Andalus e da História do Islão Medieval. Subdirector da FLUL (2010-2013). [...]

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