Nº 2585/2586- Junho/Julho de 2017
Olho do Furacão

Olho do Furacão

O Fim do Fim – Timor

De António Barrento

 

O General António Eduardo Queiroz Martins Barrento, que foi Chefe do Estado-Maior do Exército e Presidente da Assembleia Geral da Revista Militar, de 1 de Janeiro de 2003 a 31 de Dezembro de 2011, é autor de um livro, recentemente publicado, que intitulou “Olho do Furacão – o Fim do Fim – Timor”, cuja leitura nos coloca perante facetas marcantes do seu perfil de militar ilustre e Homem de cultura brilhante. O Autor, fortemente alicerçado numa complexa matriz onde se cruzam, como deixa antever, o sonho da planura alentejana, o desafio metódico do cavaleiro, a simplicidade voluntarista do militar e o metódico rigor do intelectual, rompe a estrutura do livro em impulsos reveladores da sua sensibilidade artística e da forte personalidade e lúcida honestidade com que ilumina os factos que a dúvida ensombra.

Uma obra literária constitui, sempre, um reflexo do autor que nela se expõe enquanto personagem que interage, num determinado contexto, real ou ficcionado. O escritor e o conteúdo literário que produz constituem, assim, um todo indissociável que cada leitor acrescenta sempre que o interpela. É neste contexto que o nosso General, com grande sobriedade e vincado desassombro, se nos revela, convidando-nos a com ele partilhar passagens da sua experiência profissional e nos desafia, repondo a dúvida, por entre as malhas que o império foi tecendo, para melhor alicerçar no passado os caminhos do futuro.

Olhemos então para a obra, cujo apelativo título nos remete para Timor no longínquo Sudeste da Ásia, a norte do Mar do mesmo nome e de nós distante, cerca de 18 horas de voo, por uma rota de 14400 Km, sendo a diferença horária de nove horas, ou seja, “para o fim do Mundo”.

Foi para aí que, entre outros, em 1974, o Autor foi mandado com a missão genérica de “descolonizar”, ou seja, entregar o território aos autóctones para que assumissem o seu governo. De 1974 à efectiva Independência de Timor Leste, em 2002, é o longo e penoso período de tempo que decorrerá até que os timorenses consigam, libertos de 24 anos de ocupação pela Indonésia e de outras interferências armadas exteriores, apaziguar os seus diferendos e governar o seu território – e para que este objectivo tivesse sido conseguido, é-nos recordado, na pág. 129 do Cap. V, que a “Peace Keeping Force” (PKF) dispunha no terreno de cerca de 7500 homens, em 2001 – prova irrefutável de que a imparcialidade e a neutralidade estão indelevelmente ligadas a uma forte capacidade dissuasiva e coerciva.

O Autor testemunha-nos o drama de um, tão curto, quanto intenso, instante deste processo, primeiro cerca onze meses que culminam na segunda metade do mês de Agosto de 1975 (de 11 a 26), em Díli, e, depois, cerca de quatro meses, até 7 de Dezembro, no Ataúro, durante o qual, a conjugação da insuficiência dos meios de persuasão e coacção com a imatura e incontrolável explosão de sentimentos e propósitos da população timorense, impediu qualquer consenso e conduziu à inevitável catástrofe.

Nos cinco Capítulos da Obra, o nosso General emerge como um erudito e exímio escritor que esgrime, com arte e saber, artifícios literários que vão da narrativa simples e solilóquios, aos diálogos travados com interpostas e imaginárias figuras. Na construção das mensagens que nos disponibiliza, avultam não só a criteriosa exploração, para recolha de importantes ensinamentos, dos tão misteriosos, quanto tão carregados de simbolismo, Painéis de São Vicente de Fora, como, também, um desdobramento por heterónimos, numa imagem reflectida da tão rica quanto complexa personalidade do Autor. Numa primeira ilação a retirar, a leitura terá que ser atenta para conseguir perscrutar a profundidade com que sentimentos, como o desprendimento, a dádiva, a dúvida, a esperança, o desalento e a repulsa, até, são oferecidos ao juízo de quem o interpela.

O achamento e povoamento de espaços por explorar, a descoberta de rotas e instrumentos que abriram a uma visão utilitarista e global do Mundo e a forte construção ecuménica e espiritual que lançou raízes que perduram, são questões que nos são submetidas para análise e conclusões possíveis sobre a Nação que somos e o Império que fomos. Daqui uma segunda ilação: a imagem que do texto poderemos reter é de que, hoje, como já no estertor do fim do Império, em longínquas fronteiras, só fios de afecto que a descoberta do outro alimenta nos ligam à matriz de um impulso perdido ao longo dos séculos.

As vivências com que o Autor salpica o texto e através das quais nos vai proporcionando penetrar em recantos das suas experiências profissionais e lúdicas, constituem importantes contributos para ir rasgando o horizonte da narrativa. Em quadros primorosamente elaborados, deparamo-nos com um notável sentido crítico, onde o vincado humanismo se conjuga, harmonicamente, com a expressão poética e com o fino humor a que não falta, por vezes, um acutilante toque satírico. Tal como a referência histórica, também a retrospecção sobre momentos marcantes do nosso passado, acrescentam e emolduram a cultura de que somos portadores. Neste sentido, as hipóteses e interrogações com que o Autor nos confronta, de que são exemplo os seguintes três grupos de questões:

– a apetência e o ímpeto para o Império – que integra o onde, o como, o para quê e com que meios que nos inquietam a memória;

– os factores intervenientes na formação e afirmação do poder – que nos recordam a ambição, a cobiça e a peçonha que nos ensombram o momento;

– os marcos da estratégia e do conflito – os objectivos, os prazos e a insondável natureza trinitária da guerra que nos limitam o devir;

conduzem-nos a uma terceira ilação: um acumular de inestimáveis elementos de informação para que o leitor acompanhe o Autor no levantar do véu sobre algum desconforto que pode resultar do pesado preço da responsabilidade, questão que me parece ser subjacente ao “furacão” que tudo consome.

A experiência que nos pode ser proporcionada pelo profundo conhecimento da História, os instrumentos com que o saber estratégico nos pode dotar, a capacidade que a bagagem cultural e a sensibilidade artística nos podem facultar, a destreza que o profissionalismo nos pode imprimir e a vantagem que pode resultar do prestígio, que o despojamento no dever cumprido e a coragem do bem-fazer alicerçam, ficam aqui bem patentes no desenvolvimento das reflexões sobre a natureza e as consequências possíveis do desenvolvimento de situações vividas. Daqui, a quarta e última ilação a retirar: o conteúdo do livro deverá ser entendido, também, como uma aprendizagem que constitui forte incentivo e alerta para o futuro.

O título do Capítulo III “Da Guerra à Guerra” é elucidativo sobre a tipologia da “crise” no interior do território, onde imperavam os permanentes mecanismos de indisposição colocados pelos dois principais partidos timorenses (a FRETILIM e a UDT-MAC) e o insuficiente poder do Governo de Timor para, sem tomar partido, negociar condições que contribuíssem para que viesse a ser alcançada a independência do território com um Governo representativo das facções políticas em presença – cito o Autor (a págs. 48) “(…) três factores que tiveram uma influência ­decisiva na marcha dos acontecimentos: a inépcia dos partidos políticos timorenses; a fragilidade das forças armadas de Timor; e a revolução portuguesa”. Das imagens, do relato e das considerações constantes neste importante capítulo depreende-se que o paciente, desinteressado e perseverante esforço apaziguador desenvolvido pela administração portuguesa, encontrou, sempre, como resposta, a intolerância, a ambição imatura e a irredutibilidade irresponsável dos protagonistas instigadores da violência no interior da população timorense. Nas “malhas que o Império tece”, na expressão de Pessoa, sem possibilidade de respaldo em qualquer apoio exterior, é ­compreensível, no autor, algum desânimo resultante do amargo sabor da ­impotência e da incompreensão sentidas e de alguma frustração, mesmo, com origem numa nostálgica noção de responsabilidade sobre o devir da generalidade da população timorense entregue à violência que o ódio reacendera.

Se, no início do livro, o Autor nos coloca perante a realidade do “Fim do Império” – com a esteira da Corveta Afonso Cerqueira, numa imagem do Portugal que sai de Timor Leste, reforçada, pela referência da página 88 a David Ximenes com a angústia do desamparo espelhada na face do último timorense sob a sombra da Bandeira Portuguesa – o Autor, depois, transporta-nos, no seu último Capítulo, para o ”Hoje”, no “Depois do Império”, onde, em nome dos que, como exalta a páginas 102, “(…) nele perderam a vida ou sofreram cativeiro, feridos na carne e na alma (...)”, nos impele a cultivar o rasto de Portugal no Mundo, como memória que alimenta o sonho.

 

Tenente-general João Carlos de Azevedo de Araújo Geraldes

Vogal efetivo da Direção da Revista Militar

 

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O General António Barrento, Sócio da Revista Militar, da qual foi Presidente da Assembleia Geral, é licenciado em Ciências Militares, tem o curso de Estado-Maior, o Curso Superior de Comando e Direção e o Curso Superior de Guerra (Paris). Tem quatro Comissões no antigo Ultramar Português, em Moçambique, Angola e Timor. Foi Professor do Instituto de Altos Estudos Militares e Professor Catedrático convidado do ISCSP/UTL.

Como Oficial General, desempenhou funções na OTAN, no SHAPE (Mons, Bélgica), e foi General Chefe do Estado-Maior do Exército, de 19 de março de 1998 a 19 de março de 2001. É membro do Conselho Consultivo da Comissão Portuguesa de História Militar e sócio da Sociedade de Geografia, da qual é Vice-presidente, e Académico de Mérito da Academia Portuguesa de História.

Neste seu livro – Olho do Furacão – O Fim do Fim – Timor, o autor apresenta com clareza e exatidão toda a vivência em Timor, quer na idiossincrasia do seu Povo quer no seu relacionamento com os Portugueses.

É um livro que proporciona ao leitor satisfação, em especial para quem lá viveu e prestou serviço.

Todo o livro é um documento histórico valioso, pois é um relato de quem testemunhou os factos descritos em duas situações diferentes, sendo a primeira, a comissão como Comandante de uma Companhia de P.M. (a 2394) e a segunda, em todo o desenvolvimento até à Independência de Timor.

É de assinalar também a vasta cultura do autor não só pelos factos descritos, mas também pela associação que fez com outras obras, em especial os Painéis de São Vicente de Fora, destacando certas figuras que lhe parecem ter certa ligação entre esta obra e o seu livro.

A Revista Militar felicita o autor por esta obra e agradece o exemplar que foi ofertado para o acervo.

 

Coronel Alfeu Raúl Maia da Silva Forte

Diretor Administrador da Revista Militar

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João Carlos de Azevedo de Araújo Geraldes
Coronel
Alfeu Raúl Maia da Silva Forte
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by CMG Armando Dias Correia