Nº 2593/2594 - Fevereiro/Março de 2018
Diário de Campanha

Diário de Campanha do General Tamagnini[1]

 

Fernando Tamagnini de Abreu e Silva (1856-1924), filho de um juiz da comarca de Alcácer do Sal, António Dias da Silva, e de uma descendente de uma nobre família italiana D. Ângela Tamagnini, nasceu em Tomar. Assentou praça com 17 anos no Regimento de Cavalaria (RC) n.º 2. A sua carreira resume-se, dizendo-o alferes em 1877, tenente em 1883, capitão em 1888, major em 1899, tenente-coronel em 1903, coronel em 1909 e general em 1915, percorrendo praticamente todas as unidades de cavalaria, nomeadamente, os Regimentos nº 2, 4, 5, 6, 8 e 10.

Como tenente-coronel escreveu, em 1904, Serviço de Cavalaria em Campanha, adoptado pela Arma para o ensino dos militares. Dele disse um dos seus herdeiros que se tratava de «um militar especial. Mais do que as armas, a sua grande paixão eram as letras e a cultura que pudicamente cultivou longe da ribalta. Vivia rodeado de livros. Acumulou uma biblioteca rica e variada em que figuravam as novidades mais avançadas da sua época, quer nacionais, quer estrangeiras, junto aos mais variados autores clássicos nas versões originais. Dominava bem o grego e o latim. Também gostava de escrever. Cultivava a poesia e o teatro, deixando, entre os seus papéis, manuscritos de peças e poemas que permaneceriam ignoradas, na mesma lista de discrição por que sempre se pautou».

Militarmente, Fernando Tamagnini teve uma vida que em linguagem militar poderia dizer-se caserneira, isto é, viveu-a muito mais nos quartéis com as tropas, do que nos estados-maiores. Já como oficial-general comandou a brigada de cavalaria e, depois da promoção a general, comandou por duas vezes a 5ª Divisão (antes e depois do CEP), comandou o CEP, de fevereiro de 1917 a outubro de 1918, e, finalmente, foi vogal do Conselho Superior de Promoções, e vogal, primeiro, e presidente, depois, do Supremo Tribunal Militar. Já na reserva, situação a que passou em maio de 1923, foi nomeado chanceler da Ordem da Torre e Espada. Jamais se meteu na política, tendo até demonstrado nos seus escritos um certo horror à política e aos políticos, considerando que «não sou político, e nunca estive nem estou filiado em qualquer partido e nunca conspirei», concluindo que «o militar serve o seu país e não exclusivamente este ou aquele partido; deve ser um elemento de ordem e não de desordem». Comandava o RC5 quando se implantou a República e, pensando assim, não teve dúvidas em assinar o juramento de que sempre defenderia a constituição fosse ela republicana ou monárquica.

Não é agora difícil perceber-se porque um tal militar foi tão vilipendiado em vida e tão propositadamente esquecido depois de morto. Ele não era «politicamente correcto» em nada; quando os oficiais faziam parte dos partidos políticos, atuavam dentro dos quartéis colocando-os ao serviço do respetivo partido, e que, quando no desempenho de funções políticas, abusavam do poder dando ordens e contra ordens em áreas da competência de outrém, um general que, avant la lettre, se opunha a este estado de coisas não interessava. É assim que o dizem um quase analfabeto sem qualquer competência estratégica ou política, às ordens dos ingleses que o dominavam ou um déspota disciplinar incapaz de entender os seus homens. Chegou-se mesmo ao ponto de transformar o General Garcia Rosado, sem que este tenha qualquer culpa nisso, como o grande homem do CEP que comandou, apenas, entre outubro e novembro de 1918 (escassos dois meses), quando o CEP já não era senão uma Divisão, em detrimento de Tamagnini, responsável pelo êxito do milagre de Tancos e pelo ano e meio de comando de um Corpo de Exército, na Flandres. Julgo que, mais uma vez, a política se meteu na História para que esta fosse o que mais convinha aos seus interesses. Este Diário que hoje se publica vem lançar uma pedrada no charco dessa versão sobre a personalidade deste homem e vem também levantar algumas dúvidas sobre acontecimentos que a historiografia dos últimos 100 anos instalou como definitiva.

O Diário de Campanha do General Tamagnini é um manuscrito dividido em 7 fascículos, com início em 21 de fevereiro de 1917 e que encerra a 24 de agosto de 1918, dezoito meses em que, diariamente, no fim do dia, o general foi apontando os acontecimentos mais marcantes ou que mais o tinham preocupado nesse dia, em 1133 páginas quadriculadas. Não tinha a preocupação de o escrever para outros lerem, mas sim para ele próprio poder relembrar o que e como se tinham passado determinados factos que considerava de interesse para o CEP e para o seu comando. Não se preocupava com a qualidade do português escrito numa letra nem sempre fácil de decifrar, usava muitas abreviaturas nem sempre facilmente inteligíveis para outros que não ele próprio, utilizava as siglas e acrónimos militares portugueses e ingleses de que hoje só muito poucos conhecem o significado e designava personalidades pelas funções que exerciam no momento e que se tornava necessário identificar personalizando-as.

Não é, como facilmente calculam, um documento fácil de ler e muito menos fácil de ser percebido por quem não esteja muito dentro da História daquele período, em geral, e do CEP, em particular. Tornava-se imperiosa para que a sua publicação tivesse verdadeiramente interesse que a sua divulgação fosse acompanhada de comentários e notas que o tornassem inteligível. Nesta obra ele vai ocupar 359 páginas das 500 que o compõem e ser anotado por 1282 notas de pé de página respondendo aos aspetos que poderiam oferecer dúvidas ou esclarecendo abreviaturas, siglas, acrónimos ou personalidades. Posso acrescentar que estas são cerca de metade das anotações inicialmente produzidas, mas que, por questões de custo-eficácia da edição e também para não a tornar pesada demais para os leitores, foram deixadas cair.

Citando o General Oliveira Cardoso no Prefácio, diria que, «à medida que vamos lendo os relatos dos dias do Comandante do CEP, damos conta das suas angústias, resultantes da sua solidão e da falta de uma retaguarda (em Lisboa) que lhe desse orientação política e resposta às necessidades de uma guerra que não era conhecida na realidade, para a qual a preparação tinha sido insuficiente e que necessitava de uma sustentação que, de todo, não existia, bem como da divisão que grassava no contingente do CEP, em particular no seu corpo de oficiais, resultante da ausência de separação entre a actividade política partidária e a condição militar, o que é particularmente grave em operações.»

A transcrição do Diário é antecedida por uma Nota Metodológica, muito pormenorizada, que ocupa 10 páginas, de onde posso citar que «muito do que transcrevemos e analisamos terá um impacto inevitável na leitura da história sobre a participação de Portugal na I Guerra Mundial, mas especialmente sobre a pessoa do Comandante do CEP » circunstância que é, provavelmente, a responsável por, mais adiante, se referir que «ao longo deste trabalho, alguns camaradas e amigos questionaram-nos sobre se seria oportuno, na evocação do centenário da participação de Portugal na I Guerra Mundial, publicar escritos que questionassem aspectos menos positivos, os quais foram mais ou menos “dourados” pelos historiadores ao longo dos anos». Nota Metodológica a que se segue uma completa Biografia do Autor – Gen Tamagnini – com 12 páginas que incluem cerca de 40 notas de pé de página que completam e esclarecem o texto ou indicam bibliografia consultada. Desta, parece-me interessante e esclarecedor transcrever que «A animosidade pelo incómodo legado escrito de Tamagnini irá justificar o apelo da viúva em calar por ora tais testemunhos, reservando-os num baú à guarda dos familiares responsáveis pela preservação da identidade da família, longe de olhares públicos, dada a consciência da necessidade de preservar a família de represálias externas, mas salvaguardando uma desejável memória pública futura» o que «irá nortear a decisão dos sobrinhos de entregarem, mais tarde, à guarda do Arquivo Histórico Militar tais documentos manuscritos e dactilografados pelo Gen Fernando Tamagnini ou arquivados por ele no seu escritório, com a expressa reserva de leituras de terceiros até 1968.». Dito isto, também eu estou com os autores quando estes referem que «é tempo de serenar os ânimos ainda inflamados pelas questiúnculas da I República e conhecer, com maior profundidade, um documento riquíssimo e inédito, que deve ser analisado com espírito crítico e mente aberta para problematizar, com rigor e imparcialidade, a presença e acção de Fernando Tamagnini».

Posteriormente à transcrição do Diário, complementa-se a obra com três leituras diferentes feitas pelos elementos da equipa, sendo a Leitura de um Camarada de Armas da autoria do coordenador, Major-general João Vieira Borges, a Leitura Historiográfica da Dr.ª Isabel Pestana Marques e a Leitura Histórico-Biográfica apresentada pelo Doutor Eurico Gomes Dias.

A terminar, ficam à nossa disposição uma completa Bibliografia e uma extensa Cronologia a que se segue um utilíssimo conjunto de quadros em que se apresenta a Organização do CEP e, a finalizar, um também muito útil Índice Remissivo Onomástico e Toponímico.

Por fim, não posso deixar de registar a edição que julgo apresentar um excelente lay out, fácil de ler, com ilustrações bem conseguidas e de óptima qualidade, algumas inéditas, retiradas do álbum de fotografias oferecido ao General Tamagnini e posto pela família à disposição de Isabel Pestana Marques, que transformam um conteúdo cientificamente valioso numa obra que é agradável à vista e que apetece ler ao cidadão comum.

 

Tenente-general Alexandre de Sousa Pinto

Sócio efetivo da Revista Militar

 

 

NOTA: A Revista Militar felicita os autores e agradece a oferta do exemplar para o acervo da Revista.

 


[1]    Extrato da apresentação da obra, pelo Tenente-general Alexandre de Sousa Pinto (Sócio efetivo da Revista Militar e Presidente da Comissão Portuguesa de História Militar, na cerimónia de lançamento que teve lugar na Sala do Conselho Académico da Sede da Academia Militar, Lisboa, no Paço da Rainha, 21 de fevereiro de 2018.

Tenente-general
Alexandre de Sousa Pinto
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by CMG Armando Dias Correia