Nº 2599/2600 - Agosto/Setembro de 2018
A “guerra esquecida” – Coreia 1950-1953
Tenente-general PilAv
Eduardo Eugénio Silvestre dos Santos

Parte I – Introdução

 

1. Antecedentes

A Guerra da Coreia foi travada, entre 25 de junho de 1950 a 27 de julho de 1953, opondo a Coreia do Sul e seus aliados, que incluíam os Estados Unidos (EUA) e o Reino Unido, à Coreia do Norte, apoiada pela República Popular da China (RPC) e pela antiga União Soviética (URSS). O resultado foi a manutenção da divisão da península da Coreia em dois países.

Em 25 de junho de 1950, oito divisões norte-coreanas atravessaram o paralelo 38, invadindo a Coreia do Sul e iniciando um conflito sangrento e cruel que foi a primeira prova de força entre as ideologias opostas do comunismo e da democracia.

O endurecimento da retórica norte-coreana, desde o abandono do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, em 2003, o primeiro teste de lançamento balístico nuclear, em 2006, e a decisão do novo líder norte-coreano em decretar como nulo o acordo do armistício, em 2013, traz de novo à lembrança todo o processo e as vicissitudes que levaram à chamada “guerra esquecida” e alerta-nos para as possíveis consequências que daí poderão advir.

 

a. Ocupação japonesa (1910-1945)

Após derrotar a Dinastia Qing, na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1896), o Império do Japão ocupou militarmente a Coreia, uma península estratégica na «esfera de influência» regional. Uma década mais tarde, os japoneses derrotaram a Rússia Imperial na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) e tornaram a península coreana num novo protetorado, pelo Tratado de Eulsa, em 1905, e assinaram, então, o Tratado de Anexação Japão-Coreia, em 1910.

A Coreia ocupada era considerada parte do Império japonês como uma colónia industrializada e como parte da Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Muitos nacionalistas coreanos fugiram do país. Um Governo Provisório da República da Coreia foi criado na China Nacionalista, em 1919, mas não conseguiu alcançar o reconhecimento internacional, não conseguiu unir os grupos nacionalistas e teve uma relação bastante difícil com o seu presidente, Syngman Rhee, que estava nos EUA. Em 1937, o governador da Coreia iniciou um processo de assimilação cultural dos 23,5 milhões de coreanos ao banir o uso e o ensino da língua local, proibindo a literatura nacional e promovendo a repressão cultural, implementando, à força, na sociedade coreana, os ensinamentos e tradições japonesas. Em 1938, o governo colonial instaurou programas de trabalho forçado. Cerca de 2 milhões de coreanos foram recrutados, quer para o exército imperial quer como força de trabalho. Em 1939, a população passou a ser obrigada a adotar nomes japoneses.

Na China, as fações nacionalista e comunista ajudaram a organizar os refugiados coreanos contra o exército japonês, que tinha ocupado também a Manchúria, parte da China. Os apoiados pelos nacionalistas, liderados por Yi Pom-sok, lutaram na campanha da Birmânia, e os comunistas, liderados por Kim Il-sung, combateram os japoneses na Manchúria.

Durante a II Guerra Mundial, os japoneses usaram a comida, a pecuária e os metais coreanos no esforço de guerra. A presença militar japonesa no país aumentou de 46000 soldados, em 1941, para 300 000, em 1945. O Japão alistou 2,6 milhões de coreanos como força de trabalho. Cerca de 723 000 pessoas foram enviadas para trabalhar em territórios ocupados pelos japoneses no exterior. Em 1942, homens coreanos passaram a ser alistados à força pelo exército imperial japonês. Em janeiro de 1945, os coreanos eram cerca de 32% da força de trabalho japonesa. Em agosto, quando os Estados Unidos lançaram bombas atómicas contra as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki, cerca de 25% dos mortos eram coreanos. No fim da guerra, as potências mundiais não reconheceram a legalidade da ocupação japonesa sobre a Coreia e sobre a ilha de Taiwan, outro protetorado japonês.

 

b. Invasão soviético-americana (1945)

Em novembro de 1943, numa conferência realizada no Cairo, Winston Churchill, Theodore Roosevelt e Chiang Kai-chek decidiram que “a Coreia tornar-se-ia uma nação independente após a guerra”. Na Conferência de Ialta, em fevereiro de 1945, foi acertado que o país entraria para a «zona de influência» soviética, em troca do apoio destes na guerra contra o Japão. No fim da II Guerra Mundial, o exército vermelho ocupou boa parte do norte da península coreana, como havia sido acertado em acordo com as potências ocidentais, em 26 de agosto de 1945, mas deteve o avanço no paralelo 38 e aguardou a invasão americana no sul do país.

Em 10 de agosto de 1945, com a derrota japonesa próxima, os americanos duvidavam que os soviéticos iriam honrar os acordos da ocupação da Coreia. As forças dos EUA ocuparam a metade sul para facilitar a rendição das tropas japonesas na Coreia. Os soviéticos aceitaram a demarcação das zonas de ocupação americanas, já que o seu foco estava nas negociações com o ocidente sobre como ocupar o leste da Europa e também porque eles aceitariam os termos da rendição japonesa. Esta demarcação teria uma duração temporária, até que a promessa de uma Coreia independente e unificada se tornasse realidade.

 

c. Divisão da Coreia (1945-1949)

Na Conferência de Potsdam (julho-agosto de 1945), os Aliados decidiram, unilateralmente, dividir a Coreia, sem consultar o povo coreano. Em 8 de setembro de 1945, o general americano John R. Hodge chegou a Incheon para aceitar a rendição japonesa no sul do paralelo 38. Apontado como governador militar, Hodge assumiu total controlo sobre o sul da Coreia.

Em dezembro de 1945, a Coreia era administrada por uma Comissão Americano-Soviética, como acertado na Conferência de Moscovo, ainda naquele ano. Os coreanos foram excluídos de todas as negociações sobre o futuro do país. A comissão decidiu dar independência à península coreana, em 1950, depois de cinco anos de ocupação e de esforços para levar a população das zonas ocupadas para as ideologias defendidas pelas forças estrangeiras de ocupação. A população coreana revoltou-se contra tais determinações. No sul, foram reportados enormes protestos nacionalistas e alguns grupos políticos passaram a pegar em armas.

Em 1946, as greves assolaram o país inteiro, além de protestos nas grandes cidades. A desordem civil foi forte durante todo este ano e conduziu a vários levantamentos populares. Em 1947, após dois anos de negociações nada terem alcançado, os EUA levaram o assunto à Assembleia Geral da ONU. A Coreia tornou-se noutro peão na luta mundial pelo poder entre os EUA e a URSS. Tinham começado a luta doutrinária e as propagandas ideológicas. O paralelo 38 deixou de ser uma simples linha de demarcação e tornou-se numa parede defensiva altamente fortificada.

Na ONU, favorecia-se maioritariamente eleições em toda a península, mas a URSS rejeitou esta posição, afirmando que o futuro da Coreia era um assunto a decidir pelos signatários do Acordo do Cairo. Contudo, a ONU avançou e formou uma comissão para supervisar as eleições para uma Assembleia Nacional Coreana, mas a URSS recusou-se a permitir a entrada da comissão na sua zona ocupada.

A incapacidade de realizar eleições livres em toda a península coreana, em 1948, aprofundou a divisão entre os dois lados. A Coreia foi dividida em duas regiões, cada qual com seu governo separado. Ambos os governos pretendiam ser o governo legítimo da totalidade da Coreia, e nenhum deles aceitava as fronteiras como permanentes. O paralelo 38 tornou-se cada vez mais uma fronteira política entre os dois Estados coreanos. Embora as negociações de reunificação continuassem nos meses que antecederam a guerra, a tensão intensificou-se. Escaramuças transfronteiriças e incursões cruzando o paralelo 38 persistiram.

Com a recusa da URSS de permitir às Nações Unidas supervisionar as eleições para uma Coreia unida, em 10 de maio de 1948, a Coreia do Sul convocou sua primeira eleição nacional, a que os soviéticos se opuseram. Em 25 de agosto, foi a vez da Coreia do Norte ter eleições gerais, com apenas um candidato por distrito eleitoral, a afluência às urnas foi relatada de 99,97%, com 98,49% de votos a favor dos candidatos apresentados. Formou-se a República Popular Democrática da Coreia (DPRK). A maioria das nações ocidentais reconheceu a República da Coreia (ROK), ao passo que a DPRK apenas foi reconhecida pela URSS e seus satélites. O facto dos soviéticos não permitirem a entrada e a realização da eleição na parte norte da península demonstra a postura inflexível que a Coreia do Norte adotou desde o início do restabelecimento da liberdade nos países. Nota-se aqui que a ideia de reunificação das partes demonstrava já ser algo distante a ser alcançado.

Em 3 de abril de 1948, uma grande revolta explodiu na Coreia, terminando com cerca de 60 mil pessoas mortas. O governo formado no sul, após as eleições, tinha uma dura linha anti-comunista e aprovou a sua nova constituição, em 17 de julho de 1948, elegendo o presidente, Syngman Rhee, em 20 de julho. As eleições foram violentas e, pelo menos, 600 pessoas morreram durante o processo. A República da Coreia (ROK) foi formalmente estabelecida, em 15 de agosto de 1948. Na zona de ocupação soviética, o novo governo comunista passou a ser chefiado pelo ex-guerrilheiro Kim Il-sung. O regime do presidente Rhee expulsou os comunistas da vida política do sul. Muitos fugiram para as colinas e pegaram em armas para lutar contra o governo de Seul.

 

Figura 1 – O paralelo 38, linha de divisão da península coreana.

 

Ambos, muito nacionalistas, Syngman Rhee e Kim Il-Sung, tinham intenções de reunificar a Coreia sob o seu próprio sistema de governo. O Norte recebia apoio incondicional da URSS e da RPC. Tiroteios e confrontos nas fronteiras (que passaram a ser militarizadas) tornaram-se comuns. A Coreia do Sul era tremendamente limitada em materiais e recursos. Durante essa era, o governo americano presumiu que os comunistas (independentemente da nacionalidade) eram diretamente controlados ou influenciados por Moscovo. Assim, os EUA viam a guerra civil na Coreia como uma manobra de hegemonia por parte dos soviéticos.

No fim de 1948, os soviéticos retiraram os seus exércitos do norte, como estava previsto nos acordos feitos com o ocidente. A rede de informações dos EUA era praticamente inexistente e, consequentemente, nem os EUA nem a ROK tinham ideia do volume de crescimento militar a norte do paralelo 38. Os EUA criam que, a existir uma ameaça, ela teria a forma de ataques de guerrilha e guerra psicológica. Estavam tão convencidos disto que se retiraram do sul, em 1949, deixando as forças militares sul-coreanas mal preparadas e mal armadas, ao contrário dos vizinhos do norte que estavam fortemente armados com equipamentos russos.

A contribuição norte-coreana para a vitória comunista na China não foi esquecida. Como prova de gratidão, cerca de 60000 veteranos coreanos foram enviados de novo para a Coreia com as suas armas, e tiveram papel relevante na invasão inicial da Coreia do Sul.

Em 1949, as forças sul-coreanas tinham reduzido significativamente as guerrilhas comunistas. Contudo, Kim Il-sung cria que as guerrilhas enfraqueciam o exército sul-coreano e que uma invasão seria bem recebida por grande parte da população sul-coreana. Kim começou a solicitar o apoio de Estaline para uma invasão, em março de 1949, viajando para Moscovo para tentar persuadi-lo. Estaline não pensava inicialmente que fosse o tempo certo para uma guerra na Coreia. Ainda se lutava na China, as forças americanas ainda estavam na Coreia do Sul (só se retirariam em junho) e Estaline não se queria envolver numa guerra com os EUA.

Em 1950, a URSS boicotou o Conselho de Segurança das Nações Unidas, em protesto contra a representação da China pelo governo da República da China, que se refugiara em Taiwan a seguir a derrota na Guerra Civil Chinesa. Na ausência da voz dissidente da União Soviética, que poderia ter vetado, os EUA e outros países passaram a resolução nº 84 no Conselho de Segurança, em 7 de julho, autorizando a intervenção militar na Coreia.

Na primavera de 1950, Estaline acreditou que a situação estratégica se tinha alterado: tinha detonado a sua primeira bomba nuclear, em setembro de 1949, as forças americanas tinham-se retirado da Coreia, não tinham intervindo para evitar a vitória comunista na China, e Estaline estava convencido que os EUA não tinham muita vontade de lutar na Coreia. Às primeiras horas de 25 de junho de 1950, oito divisões norte-coreanas irromperam inesperadamente através do paralelo 38. Os arquitetos da ofensiva, em Moscovo e em Pyongyang, não consideravam possível que a invasão fosse combatida por forças exteriores à península. Enganaram-se!

 

2. A guerra

Em linhas gerais, a Guerra da Coreia pode ser cronologicamente dividida nas seguintes fases:

– a ofensiva norte-coreana;

– a contra-ofensiva dos EUA e seus aliados, sob a bandeira da ONU;

– a ofensiva chinesa;

– combates no paralelo 38 e impasse;

– armistício.

 

a. Primeiras ofensivas

No começo de 1950, Kim Il-sung viajou para Moscovo e para Pequim à procura de apoio para a guerra iminente. A URSS ficou bastante envolvida com a militarização da Coreia do Norte e nos seus planos para uma ofensiva contra o sul. Mao Tse Tung transferiu 60000 soldados do Exército de Libertação Popular de etnia coreana, juntamente com o seu armamento, para a Coreia do Norte. Meses antes dos primeiros ataques do Norte, a Agência de Inteligência americana notou uma enorme mobilização militar por parte do forças armadas da Coreia do Norte, mas pensou que era apenas uma «medida defensiva» e concluiu que uma invasão era «improvável».

Com o objetivo de retaliar supostas pequenas incursões de soldados no Sul na fronteira, o exército norte-coreano cruzou a fronteira do paralelo 38, com a proteção de artilharia pesada, em 25 de junho de 1950, ocupando 90% do território da península. Os norte-coreanos haviam declarado que as tropas do exército da Coreia do Sul, sob comando do presidente Syngman Rhee, haviam cruzado a fronteira primeiro e que, por isso, eles pretendiam prender e executar Rhee. As forças armadas de ambos os países já se haviam atacado em pequena escala pela fronteira, antes da guerra. A luta começou na península de Ongjin, no oeste, onde os sul-coreanos alegaram ter tomado a cidade de Haeju e rapidamente se tornou num combate em larga escala por toda a fronteira. Isso levou a crer, para alguns especialistas, que foi o Sul que come-
çou a guerra. A força invasora norte-coreana somava mais de 200 000 homens, enquanto as forças de defesa do Sul tinham, pelo menos, 100 000 soldados. A URSS não interveio diretamente, mas apoiou com a cedência de elevadas quantidades de material.

A ONU não aceitou este ataque e aprovou a intervenção internacional, liderada pelo General Douglas MacArthur.

Em 27 de junho, face à bem-sucedida ofensiva inicial por parte das tropas do Norte, o presidente sul-coreano, Rhee, ordenou a evacuação da capital Seul. Antes de fugir, determinou que, pelo menos, 100 000 suspeitos de simpatia com o comunismo fossem executados sem julgamento.

Em 28 de junho, a Coreia do Sul bombardeou as pontes sobre o rio Han para evitar o avanço das forças do Norte, mas deixando para trás cerca de 4000 refugiados, dos quais várias centenas pereceram. A destruição das pontes deixou também muitos militares sul-coreanos encurralados a norte do rio. Contudo, Seul foi tomada no mesmo dia. Os norte-coreanos, então, mataram mais de 1000 pessoas num hospital universitário no meio da capital, onde estavam feridos alguns membros do governo do Sul. Alguns integrantes do congresso nacional do Sul permaneceram em Seul e 48 declararam lealdade ao regime comunista do Norte.

 

b. Resposta da ONU e intervenção americana

O governo do presidente americano Harry Truman viu-se numa encruzilhada. Antes da invasão, a Coreia não era considerada importante no panorama de influência da Secretaria de Defesa dos EUA. Os estrategas militares ocidentais preocupavam-se mais com a segurança da Europa contra um ataque da URSS. Não compreenderam que o domínio comunista da península da Coreia fortaleceria grandemente a sua posição no Pacífico e seria uma ameaça séria para o Japão. Ao mesmo tempo, os americanos preocupavam-se com a possibilidade de que uma guerra na península coreana poderia tomar proporções maiores se os chineses ou os soviéticos decidissem intervir militarmente no conflito. Por fim, em 27 de junho, os soviéticos enviaram um comunicado indireto dizendo que não interfeririam na guerra na Coreia, abrindo assim uma brecha para os americanos intervirem com tropas, sem reação das demais potências do mundo comunista.

Em 25 de junho de 1950, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou, por unanimidade, a Resolução 82, condenando a invasão da Coreia do Norte contra seu vizinho do Sul. Dois dias depois, foi aprovado a Resolução 83 que autorizava uma intervenção militar para por fim ao conflito. No mesmo dia, o presidente americano autorizou que a Força Aérea e a Marinha americanas atacassem alvos na península coreana para apoiar o Sul, o que foi condenado pela URSS.

O comando da força expedicionária americana ficou a cargo do General Douglas MacArthur. Em agosto de 1950, o Congresso dos EUA aprovou um orçamento inicial de 12 biliões de dólares para gastos militares neste conflito. Os americanos também começaram a transportar enormes quantidades de armas e equipamentos para os sul-coreanos.

A batalha pela cidade de Osan foi o primeiro grande combate para as tropas terrestres americanas, mas o pequeno grupo de soldados foi repelido e 180 militares foram mortos, feridos ou capturados. As forças da Coreia do Norte continuaram a avançar para o sul, tomando no caminho a cidade de Daejeon. Os comunistas forçaram novamente o recuo dos sul-coreanos e dos seus aliados americanos na cidade de Pusan. Naquela altura, as forças da ONU controlavam diretamente apenas 10% do território da Coreia do Sul.

Entre agosto e setembro de 1950, iniciou-se a contra-ofensiva aliada e as forças norte-coreanas foram derrotadas na batalha de Pusan. A força aérea americana lançou ataques contra linhas de abastecimentos e depósitos de munições das forças comunistas, infligindo-lhes severas perdas. No fim de 1950, os Aliados já se preparavam para lançar um contra-ataque em larga escala.

A Força Aérea norte americana interrompeu a cadeia logística dos norte-coreanos com uma média de 40 saídas diárias de ataque ao solo que destruíram 32 pontes, fazendo parar a maioria dos movimentos diurnos por estrada ou por comboio. Destruiu também depósitos logísticos, refinarias e portos, enquanto a aviação naval atacava centros de transporte.

 

c. A batalha de Incheon

No final de setembro de 1950, a situação das forças comunistas do Norte estava a deteriorar-se. Com poucos abastecimentos, sem suporte aéreo ou naval, o norte não se podia manter na ofensiva por muito tempo. Para quebrar em definitivo as linhas de abastecimento inimigas e tentar desviar a atenção norte-coreana da luta em Pusan, o General MacArthur ordenou um ataque anfíbio em larga escala contra a cidade de Incheon, tentando resgatar o litoral oeste da península perto de Seul. As tropas comunistas na região foram destruídas e os sobreviventes bateram em retirada de forma desordenada. Neste momento, os russos aconselharam Kim Il-sung a recuar para se proteger. Já os chineses aconselharam um contra-ataque em Incheon.

Em 25 de setembro, Seul foi recapturada pelos sul-coreanos. Os bombardeamentos americanos continuaram a causar severos danos nas forças comunistas e a liderança norte-coreana viu-se obrigada a ordenar a retirada precipitada das suas tropas do sul para defender a capital Pyongyang. Em 27 de setembro, o ditador soviético, Estaline, principal aliado dos norte-coreanos, criticou a ineficácia dos exércitos do Norte e também culpou os seus conselheiros pelas recentes derrotas dos coreanos.

Logo após as vitórias no sul, MacArthur recebeu autorização do presidente Truman para lançar incursões no norte. Em 29 de setembro, ele declarou reinstaurado o governo da República da Coreia, no sul, e colocou novamente Syngman Rhee no poder. Após reconquistar o sul, as forças coreanas de Rhee começaram a lançar represálias contra simpatizantes do comunismo, massacrando pelo menos 600 pessoas.

Em 30 de setembro, o Primeiro-ministro chinês, Chou En Lai, ameaçou intervir na guerra em favor do norte se os americanos cruzassem o paralelo 38. Aconselhou também os norte-coreanos a recuar e combater em forma de guerrilha, mas o conselho foi ignorado. A 1 de outubro de 1950, as forças da ONU atravessaram o paralelo 38. Nesse dia, o embaixador soviético entregou um telegrama de Estaline a Mao e a Chou En Lai, solicitando que a China enviasse seis divisões para a Coreia e Kim Il-sung enviou apelos dramáticos a Mao para a intervenção militar chinesa. Ao mesmo tempo, Estaline tornou claro que as forças soviéticas não interviriam diretamente, mas aprovou o envio de apoio logístico aos seus aliados.

Durante o mês de outubro, as forças comunistas estacionadas na fronteira do paralelo 38 foram expulsas das suas posições e os sul-coreanos perseguiram-nas rumo ao norte. Confiante na vitória, MacArthur exigiu a rendição incondicional do Norte, mas esta foi recusada. A capital do norte, Pyongyang, foi tomada pelas forças da ONU, em 19 de outubro de 1950. Kim Il-sung e o seu governo fugiram para norte. Percebendo, assim, que o momento da guerra era dos Aliados, o General MacArthur acreditava que era preciso levar a guerra até a China. O presidente Truman discordou e ordenou que as forças americanas se detivessem na fronteira sino-coreana.

 

d. Intervenção chinesa

A 18 de outubro, Mao ordenou que 300 000 soldados chineses entrassem na Coreia. Após atravessarem secretamente o rio Yalu, as forças chinesas iniciaram a “primeira fase da ofensiva”, atacando as forças da ONU perto da fronteira sino-coreana. Esta decisão da China fez alterar a atitude soviética. A China justificou a sua entrada na guerra como sendo uma resposta à «agressão americana sob o disfarce da ONU».

O reconhecimento aéreo das forças da ONU tinha dificuldade em localizar as forças chinesas durante o dia, pois a sua disciplina de movimentação minimizava a detecção aérea. Marchavam apenas de noite e a camuflagem era bastante eficiente.

Os soviéticos, então, decidiram mudar de postura e mandaram, além de mais abastecimentos, esquadrões da sua Força Aérea para realizar ataques em solo coreano. Em 24 de novembro, o 8º exército americano lançou uma ofensiva na costa noroeste da Coreia do Norte, mas foi detido pelos chineses. No dia seguinte, forças militares dos EUA, da Coreia do Sul e de alguns países aliados, como o Reino Unido, foram severamente atacadas por tropas chinesas na batalha do rio Chongchon. Neste combate, ambos os lados sofreram pesadas baixas. Os americanos tiveram, pelo menos, 11000 homens mortos, feridos, desaparecidos ou capturados. Os chineses perderam quase 40000 homens, mas saíram vitoriosos e puseram em fuga as forças da ONU, que, por sua vez, resolveram recuar para o paralelo 38 e restabeleceram uma nova linha defensiva.

 

e. Combates no paralelo 38

No ano novo de 1951, os chineses e os norte-coreanos lançaram a sua terceira ofensiva conjunta. Utilizando várias surtidas noturnas, os comunistas tentaram cercar as tropas da ONU utilizando a sua superioridade numérica. As forças americanas e sul-coreanas foram forçadas a recuar. Ocupados, combatendo os chineses, as forças militares dos EUA e da Coreia do Sul não conseguiram impedir que os norte-coreanos conquistassem Seul, pela segunda vez, em 4 de janeiro de 1951. Perante uma sucessão de derrotas, o General MacArthur passou a considerar a realização de ataques com armas nucleares contra a China e contra a Coreia do Norte. Contudo, com a chegada do General Matthew Ridgway, o exausto 8º exército americano recuperou ânimo. As forças da ONU recuaram até Suwon, no oeste, até Wonju, no centro, e até Samcheok, no leste, estabelecendo uma nova linha de defesa.

O exército chinês não conseguiu avançar além de Seul, devido a falta de abastecimentos, permitindo que, no início de fevereiro, o 1º Corpo de Exército da ONU (duas divisões americanas, uma divisão sul-coreana, uma brigada turca e uma brigada britânica) alcancasse o rio Han. A ofensiva reconquistou os territórios ao sul do rio Han.

Em março de 1951, duas ofensivas aliadas conseguiram infligir pesadas baixas nos comunistas e forçar o seu recuo. Em 14 de março, Seul foi reconquistada. A população da capital, que antes da guerra era de 1,5 milhões de pessoas, tinha caído para 200 000, devido às quatro grandes batalhas travadas na cidade durante a guerra. O líder chinês, Mao, pediu então a Estaline mais assistência e o líder soviético respondeu enviando duas divisões aéreas, três divisões de baterias anti-aéreas e seis mil camiões com abastecimentos. Apesar dessas medidas, o problema logístico dos chineses continuou.

Em 11 de abril de 1951, o presidente Truman decidiu dispensar o General MacArthur do cargo de comandante supremo das forças aliadas na Coreia. Vários motivos levaram a essa decisão. MacArthur havia cruzado o paralelo 38 com as suas tropas, sob a impressão errada de que os chineses não tinham de facto entrado na guerra, o que levou a uma série de derrotas por parte das despreparadas forças aliadas. O general também acreditava que a decisão de usar ou não armas nucleares cabia a ele e não ao Presidente. MacArthur ameaçou também destruir a China se ela não se rendesse. Ele acreditava que uma vitória total sobre o inimigo seria a única saída aceitável, mas Truman era mais pessimista sobre as possibilidades de vitória na guerra e pretendia, eventualmente, assinar um acordo de paz e ordenar uma retirada da Coreia. MacArthur foi alvo de uma investigação do congresso, em maio e junho de 1951, que determinou que ele havia abertamente desobedecido as ordens do seu presidente e, assim, violado a Constituição dos EUA.

O General Ridgway assumiu o comando geral das forças da ONU. A sua primeira atitude foi lançar um pesado contra-ataque no perímetro defensivo dos chineses e norte-coreanos que acabou sendo um sucesso. O General James Van Fleet assumiu o comando do 8º exército americano. Os capacetes azuis avançaram então até ao paralelo 38 e cercaram os chineses, destruindo boa parte de seus exércitos.

Em abril de 1951, os chineses lançaram uma contra-ofensiva com o objetivo de isolar Seul, com quase 700 000 homens na linha de frente, destruindo a 6ª Divisão sul-coreana, mas que foi detida pelos fuzileiros americanos. Em 15 de maio de 1951, os chineses tentaram novamente avançar contra as linhas aliadas, mas, no dia 20 de maio, as tropas chinesas atacantes já estavam em retirada. Em julho de 1951, toda a Coreia do Sul estava reconquistada, à excepção de uma pequena área a sudoeste do paralelo 38.

 

f. Impasse

A partir de julho de 1951, as forças da ONU e da China continuaram numa árdua luta de trincheiras, onde nenhum dos dois lados conseguia dar um golpe decisivo sobre o outro. Bombardeamentos aéreos em larga escala contra a Coreia do Norte intensificaram-se e, então, as primeiras negociações de armistício começaram em 10 julho de 1951. Apesar das negociações, a guerra continuava a todo vapor. Grandes combates foram travados durante esse período, como a batalha de Bloody Ridge e a de Heartbreak Ridge.

Em 1952, uma série de sangrentas batalhas foram travadas e centenas de soldados morreram em ambos os lados, com pouco ganho estratégico, enquanto a situação humanitária nas Coreias piorava. As tropas chinesas e norte-coreanas sofriam com falta de abastecimentos e materiais, com uma péssima logística, com linhas de abastecimento longas, e sob constantes ataques aéreos dos aliados ocidentais.

O impasse continuou em 1953. Cerca de 4500 militares chineses morreram no cerco ao posto avançado americano de Harry. Em Kaesong, mais 1500 chineses foram mortos. Entre março e julho, perto de Cheorwon, combates sangrentos acabaram num impasse estratégico e com a morte de mais de 2000 soldados. A situação dos comunistas prosseguia tensa, devido à falta de abastecimentos e às enormes perdas sofridas nos combates. Enquanto nenhum dos dois lados era capaz de vencer uma batalha decisiva sobre o outro, as negociações, que já se prosseguiam há quase 24 meses, continuavam. Entre os obstáculos para a paz estava o ponto de como a troca dos prisioneiros de guerra seria feita.

Em maio de 1953, as forças comunistas lançaram um forte ataque contra as forças aliadas na frente. Quando a ofensiva falhou, fizeram saber que estavam preparados para assinar um armistício.

 

g. Armistício

A zona desmilitarizada entre as Coreias cortava o país no paralelo 38. A velha capital do país unificado, Kaesong, local onde as negociações do armistício estavam a ser feitas, pertencia à República da Coreia do Sul, mas agora estava sob controlo do Norte. Após três anos de luta e três milhões de mortos, foi assinado um armistício, embora nunca tenha existido a assinatura de um acordo de paz. Nenhuma das Coreias reconhece ainda a outra como país. O comando das Nações Unidas, apoiado pelos EUA, a Coreia do Norte e o Governo chinês, finalmente, assinaram os termos do armistício, em 27 de julho de 1953. Este acordo decretou um cessar-fogo imediato e garantias do status quo ante bellum. A guerra oficialmente acabou neste dia, porém, até os dias atuais, nenhum tratado de paz foi firmado entre as duas Coreias. O Norte, contudo, alega que venceu a guerra.

Com a assinatura do armistício surgiram cinco mecanismos para manter a trégua:

– a “Linha de Demarcação Militar”, separando oficialmente as partes;

– a “Zona Desmilitarizada”, estendendo-se por toda a fronteira, com uma largura de dois quilómetros para cada lado;

– uma “Comissão de Armistício Militar”, responsável por investigar e e resolver violações;

– a Área de Segurança Conjunta, localizada na Zona Desmilitarizada, que incluía a sede da Comissão e Panmunjom;

– a “Comissão de Supervisão por Nações Neutras”, responsável por assegurar o cumprimento do armistício.

Depois da guerra, a chamada “Operação Glória” (julho-novembro de 1954) garantiu a troca dos corpos dos soldados e guerrilheiros mortos em território adversário. Os restos mortais de 4167 soldados e fuzileiros americanos foram trocados pelos corpos de 13528 militares chineses e norte-coreanos, além dos corpos de 546 civis que morreram em campos de prisioneiros da ONU, que também foram entregues ao Norte. Estima-se que mais de 1,2 milhões de pessoas morreram na Guerra da Coreia.

Foi no seu final inconclusivo que se pode verificar o seu maior significado histórico. Pela primeira vez, na Coreia, os EUA combateram sabendo que o seu inimigo possuía armas nucleares. Tal significou que a tradicional estratégia americana de guerra total (fazer tudo o necessário para alcançar uma vitória total) já não era possível, em virtude de uma possível escalada para uma troca nuclear apocalíptica. Os Estados Unidos tiveram de desenvolver rapidamente novas doutrinas de guerra limitada, tendo sempre em conta a procura dos interesses estratégicos contra a ameaça da III Guerra Mundial. Na Coreia, a extraordinária força de combate que tinha batido a Alemanha nazi e o Japão imperial apenas cinco anos antes, mostrou-se impotente para derrotar completamente um inimigo inferior. Teve apenas um sucesso parcial. A guerra, que custou milhares de milhões de dólares e mais de 36000 vidas americanas, ensinou a dura lição que, num contexto nuclear, o poder americano tinha os seus limites. Esta lição foi muito difícil de aprender, como a ainda mais desastrosa posterior experiência no Vietname demonstrou.

 

Figura 2 – Desenvolvimento da guerra.

 

 

Figura 3 – Ofensiva inicial norte-coreana.

 

Figura 4 – Contra-ofensiva aliada.

 

Figura 5 – Ofensiva de “ano novo” chinesa.

 

 

Parte II – A Guerra Aérea

 

1. A Força Aérea americana no Extremo Oriente

As Forças Aéreas do Extremo Oriente da Força Aérea americana (FEAF/USAF) da USAF, criadas em 1944, apesar de não serem já a máquina de guerra que destruiu o Japão durante a II Guerra Mundial, possuíam ainda uma eficiência de combate muito elevada e estavam bem equipadas. Delas faziam parte três grandes unidades:

– a 13ª Força Aérea, baseada nas Filipinas, constituída primariamente pela 18ª Wing[1] de caças-bombardeiros, equipada com F-80 Shooting Star a reacção, e pela 21ª Esquadra de Transporte, com C-54 Skymaster;

– a 20ª Força Aérea, sedeada em Okinawa e em Guam, Marianas; para além de várias esquadras de combate, equipadas com F-80, tinha ainda uma esquadra de reconhecimento fotográfico com F-82 Twin Mustang a hélice, e duas esquadras de bombardeamento com B-29 Superfortress e B-26 Marauder;

– a  5ª Força Aérea, estacionada no Japão, a maior unidade da FEAF, composta por cinco wings de combate, equipadas com F-80 e F-82, uma de reconhecimento, duas de bombardeamento, equipadas com B-26, e uma de transporte, com C-54.

 

2. As Forças Aéreas coreanas

A Força Aérea sul-coreana consistia em 60 aeronaves, todas de instrução. Os EUA tinham rejeitado um plano de cedência de aeronaves, que incluía 25 P-51 Mustang.

A Força Aérea norte-coreana possuía um total de 132 aviões de combate: 62 Ilyushin Il-10 de ataque ao solo e 70 caças Yak-3, Yak-7, Yak-9 e Lavoshkin La-7.

 

3. O início da guerra

Na manhã de 25 de junho de 1950, o estado de prontidão da 5ª Força Aérea não era tão alto como se poderia presumir. Muito pessoal estava de fim-de-semana. A sua missão principal, no caso de início de hostilidades, era assegurar a evacuação dos cidadãos americanos, a pedido direto do embaixador dos EUA em Seul.

A decisão do presidente Truman em autorizar o General MacArthur a empenhar as suas forças disponíveis na Coreia surgiu apenas a 30 de junho. Uma divisão de infantaria estava já pronta para ser transferida do Japão para Pusan, ao mesmo tempo que as unidades da Marinha (USN) se deslocaram para o Mar Amarelo e para o Mar do Japão, para bloquear a costa norte-coreana.

O transporte aéreo decorreu sem grandes problemas e com eficiência bastante elevada. Contudo, a falta de coordenação entre o Exército e a Força Aérea foi gritante. A importância vital da coordenação terra-ar, uma lição aprendida durante a II Guerra Mundial, pareceu ter sido esquecida no espaço de poucos anos. Para remediar a situação, a 5 de julho, MacArthur ordenou a criação de um centro de operações conjunto.

Nos primeiros meses do conflito, 70% das missões de combate foram executadas pelos F-80 da 5ª Força Aérea. Estes aviões podiam transportar duas bombas de 1000 libras (aproximadamente 500 Kg) no lugar dos seus “tip tanks[2] de 165 galões, mas isso reduzia-lhes o raio de acção para menos de metade do normal. A solução para este problema foi rápida: tanques modificados e adaptados ao F-80 podiam transportar 265 galões cada, sem problemas estruturais, o que lhes permitia permanecer cerca de 456 minutos na zona de combate.

 

Figura 5 – F-80 Shooting Star.

 

Os problemas relacionados com o alcance e a autonomia teriam sido resolvidos mais satisfatoriamente se os F-80 tivessem sido substituídos pelos mais modernos F-84F Thunderjet, um tipo de avião que equipava a maior parte das unidades de caças-bombardeiros da USAF. A sua capacidade para transportar 32 foguetes, juntamente com um raio de acção de combate de 800 milhas (1400 km), preencheriam perfeitamente os requisitos operacionais na Coreia. Porém, apenas quatro aeródromos no Japão possuíam uma pista de 7000’ (2300 m) necessária à operação segura dos F-84F.

Os caças-bombardeiros da 5ª Força Aérea eram acompanhados pela aviação naval dos porta-aviões no Mar Amarelo (F4U Corsair, Seafire FR47 e F9F Panther).

Os ataques eram repetidamente lançados contra os aeródromos norte-coreanos e aos seus caças no ar. Onde quer que os voos de reconhecimento localizassem aviões inimigos, eram imediatamente neutralizados por ataques aéreos. Isto permitia aos bombardeiros médios da FEAF sobrevoar livremente a Coreia do Norte sem receio de interferência, e devastar as colunas de veículos inimigos. Apesar dos contínuos ataques terem abrandado o avanço norte-coreano, não o detiveram.

No início de novembro, quatro Mustang que patrulhavam a margem sul do rio Yalu, foram atacados por seis jatos de asa em flecha, sem consequências. Eram os novos caças MiG-15! A partir dessa data, a guerra aérea ia ser diferente e séria.

Ao princípio, apenas a inexperiência dos pilotos comunistas evitou males maiores. Mas foram-se tornando mais agressivos e, à medida que a sua experiência foi aumentando, tornou-se evidente que os MiG-15 superavam os aviões americanos. Eram cerca de 100 milhas mais rápidos do que os F-80 e do que os F9F, para não falar dos aviões com motor de pistons, mas, sobretudo, subiam e picavam mais rápido do que eles.

A USAF, contudo, não demorou a remediar a situação. Enviou uma wing de F-86 Sabre e outra de F-84 Thunderjet para a Coreia, tendo ficado operacionais em meados de dezembro. No seu primeiro encontro, os pilotos chineses não se aperceberam que estavam a lidar com novos adversários e foram chacinados.

 

Figura 6 – F-84F Thunderjet.

 

Por esta altura, cada lado tentava rapidamente perceber as táticas do adversário e tomar as medidas apropriadas para as contrariar. A principal limitação dos F-86 era a sua autonomia reduzida. Voando a Mach.85[3] os pilotos apenas podiam permanecer 20 minutos na vizinhança do rio Yalu. Os pilotos chineses em breve se aperceberam desta limitação e exploraram-na, ganhando altitude a norte do rio para depois picarem e atacarem a alta velocidade. Os americanos, por seu lado, começaram a utilizar formações de 16 aviões, 4 grupos de 4, que chegavam à área a várias altitudes com intervalos de 5 minutos.

O que contou a partir daí para a superioridade aérea foi a comparação da destreza e habilidade dos pilotos. A superioridade do treino e das tácticas de combate pagariam dividendos à USAF e à ONU.

Entretanto, as forças terrestres norte-coreanas e chinesas movimentavam-se em larga escala durante o dia, o que as tornava bastante vulneráveis aos ataques aéreos. Os caças-bombardeiros da 5ª Força Aérea infligiram pesadas baixas ao inimigo, o que fez com que, em meados de dezembro, voltassem a movimentar-se apenas de noite.

Em 1 de janeiro de 1951, o tempo melhorou significativamente e os aviões de reconhecimento armado descobriram as estradas para Seul repletas de longas colunas de infantaria chinesa. Nos cinco dias seguintes, os caças-bombardeiros da 5ª Força Aérea voaram mais de 2500 missões. As baixas chinesas calculadas atingiram os 15000 homens, mas não impediram o seu avanço, e Seul começou a ser evacuada. No entanto, no final do mês, era visível que a “ofensiva de ano novo” chinesa tinha parado um pouco a sul da capital.

A aviação chinesa não conseguiu participar na “ofensiva de ano novo”, mas as informações disponíveis indicavam que o faria em futuras ofensivas. Unidades de ataque ao solo, equipadas com Ilyushin Il-10, foram reportadas em treino na Manchúria, junto à fronteira. O General Liu Ya-Lou, comandante da Força Aérea chinesa, foi encarregado de elaborar um plano para a intervenção. Porém, os Il-10 estavam obsoletos e tinham poucas probabilidades de sobreviver num ambiente de grande superioridade dos caças aliados. Os únicos aviões chineses capazes de enfrentar os aliados eram os MiG-15 de modelo inicial, cujo raio de ação era de pouco mais de 100 milhas. Com eles conseguiram estabelecer uma certa superioridade no noroeste da península, no chamado “beco dos MiG”. Conseguiram aumentar e fortalecer algumas pistas para que os MiG-15 pudessem operar a partir delas, bem como pistas-satélite bem camufladas perto do paralelo 38.

Tornou-se claro que o F-86 era o único tipo de avião realmente capaz de assegurar as missões de escolta e superioridade aérea, apesar da crescente melhoria dos pilotos comunistas tornar essas tarefas cada vez mais difíceis. O MiG-15 era um interceptor de alta altitude, demonstrando as suas vantagens aerodinâmicas acima de 2000 pés (6000 m). Abaixo desta altitude as suas vantagens eram menores, o que possibilitava aos F-80 e os F-84 de lutarem de igual para igual, em virtude do seu raio de volta mais pequeno. Os caças da USN F9F Panther, normalmente utilizados em missões de escolta, passaram também a executar missões de ataque ao solo.

Durante os primeiros meses de 1951, devido à crescente presença de MiG-15, o Comando de Bombardeiros da USAF alterou a sua técnica de bombardeamento. Os ataques passaram a ser efectuados acima dos 20000 pés para evitar a artilharia anti-aérea, mas a presença constante dos MiG-15 obrigava os bombardeiros a uma única passagem sobre o alvo. Em abril de 1951, os bombardeamentos tinham destruído 80% das pontes, 70% das áreas logísticas e centros de comunicações definidos como objetivos. No final de maio, o Comando de Bombardeiros redirecionou os seus objetivos para a interdição de linhas férreas e estradas, a fim de cortar as vias de abastecimento para a linha da frente. Porém, este desiderato não foi conseguido. Em primeiro lugar, as fontes de abastecimento chinesas (fábricas na Manchúria e na URSS) não foram afectadas; em segundo lugar, os bombardeamentos podiam destruir rotas de abastecimento e material em movimento, mas a grande maioria dos stocks estavam escondidos em cavernas nas montanhas e em túneis, imunes aos ataques aéreos; em terceiro lugar, as informações aliadas tinham subestimado grandemente a capacidade da engenharia norte-coreana em reconstruir estradas e pontes; por fim, a campanha de interdição aérea não estava coordenada com a ofensiva das forças terrestres. A capacidade dos comunistas movimentarem homens e material durante a noite fez salientar a necessidade da interdição noturna.

 

Figura 7 – F-86 Sabre.

 

Os C-47 não podiam ser utilizados mais a norte, devido à melhoria das defesas anti-aéreas inimigas (mais de 900, ao longo das suas principais rotas de abastecimento), por isso os B-26 tiveram de ser adaptados para transportar flares nos seus ninhos de foguetes. Os flares acendiam a 35000 pés (cerca de 12000 m) e ardiam o tempo suficiente para serem executados dois ou três passes de metralhamento. As ações de interdição nocturna continuaram sem diminuição, até julho de 1951, com sucesso, devido ao fator surpresa.

Em meados de 1951, existiam sinais claros que os chineses planeavam uma nova ofensiva aérea. Tinham, nessa altura, cerca de 1000 aviões de combate, dos quais, cerca de 300 eram MiG-15. Cerca de 700 deles estavam baseados na Manchúria. Os MiG-15 começaram a surgir a sul do rio Yalu em números cada vez maiores, chegando a atingir 90 de uma só vez. Estavam também melhor comandados, melhor organizados e com táticas renovadas, o que queria dizer que os soviéticos tinham assumido o comando.

O Comando da FEAF, sentindo a ameaça séria, enviou, em junho, um pedido urgente de quatro wings de caças a reação. Foi enviada uma wing de F-84 e uma esquadra da RAAF[4] com 35 Meteor Mk8. Em outubro, foi decidido o envio de mais 75 F-86, com pessoal e equipamento de apoio completo, para substituir tripulações de F-80.

Em dezembro de 1951, a superioridade dos F-86 começou a fazer-se sentir (existiam, então, na Coreia, 127 Sabres, e mais 40 de reserva no Japão), enquanto os B-29 continuavam a atingir os aeródromos inimigos a norte do paralelo 38 durante a noite, equipados com radar de bombardeamento, sem qualquer baixa. Os velhos F-82 Twin Mustang foram também substituídos pelos modernos caças “todo o tempo” F-94 Starfire.

 

Figura 8 – F-94 Starfire.

 

No outono de 1951, as forças aéreas aliadas iniciaram a “batalha das linhas férreas”, prolongando-se até junho de 1952. O sistema ferroviário norte-coreano tinha a forma aproximada de um H, com vias ao longo das costas, unidas por vias laterais. Os ataques eram normalmente executados por 32 a 64 bombardeiros, escoltados por Sabres.

As centrais hidro-eléctricas foram também consideradas alvos estratégicos vantajosos. Foram selecionadas quatro centrais principais, a atacar num período de 48 horas, para evitar que as defesas inimigas reagissem. Dada a magnitude da missão, foi solicitado o apoio da USN para um ataque coordenado. O primeiro ataque foi desencadeado a 23 de junho de 1952, com 35 Skyraiders, 35 Panthers, 84 F-86, 79 F-84 e 45 F-80 a largarem 145 toneladas de bombas nos alvos. O reconhecimento pós-ataque mostrou que tinha sido um sucesso. 90% do sistema hidro-eléctrico norte-coreano tinha sido destruído.

Outro marco importante na evolução da tecnologia aeronáutica ocorreu em julho de 1952, quando, pela primeira vez, aviões de combate atravessaram o Pacífico com recurso ao reabastecimento em voo.

O maior ataque aéreo de toda a guerra foi lançado a 11 de julho, contra 30 alvos militares em Pyongyang. Foram executadas 1254 saídas nesse dia, destruindo cerca de 1500 edifícios e matando ou ferido 7000 pessoas. O ataque foi repetido em 29 de agosto, também contra objetivos da administração pública. Estes ataques a Pyongyang foram apoiados por raides intensivos contra centros de transporte e manufatura, tais como fábricas de cimento, centrais hidro-eléctricas, minas de zinco e tungsténio, fábricas de produtos químicos e de munições. No final do verão de 1952, a indústria norte-coreana estava em ruínas.

No verão de 1952, as informações aliadas deram a conhecer que os chineses tinham recebido cerca de 100 bombardeiros a reacção Ilyushin Il.28, estacionados na Manchúria. Apesar disso, continuaram a sofrer pesados revezes. No outono, os estrategas da FEAF recomendaram que se atacassem as barragens de irrigação, um dos alvos mais vulneráveis da Coreia do Norte, que forneciam 75% da água necessária ao cultivo do arroz. Após vários dias, os estragos eram devastadores.

Os ataques a alvos industriais recomeçaram em fevereiro de 1953: centrais hidro-elétricas, entretanto reparadas, e fábricas transformadoras de minérios.

Em maio de 1953, surgiu uma diferença nos MiG-15 ! Até aí, voavam com as insígnias soviéticas (a estrela vermelha), mas, a partir desta data, passaram a apresentar as insígnias da China ou da Coreia do Norte. Tal indicou que os soviéticos tinham decidido retirar as suas esquadras, quando a ONU passou a oferecer recompensas de 100000 US$ por cada piloto comunista que desertasse com o seu MiG. Sugeriu também que tinham já aprendido o que queriam, de três anos de combates aéreos e não queriam envolver-se mais, tal como tinha acontecido na Guerra Civil de Espanha.

 

Figura 9 – MiG-15.

 

Entretanto, a aviação aliada devotava a maior parte do seu esforço em destruir aeródromos inimigos de onde os MiG-15 pudessem atuar. No final de junho de 1953, 34 aeródromos tinham sido neutralizados.

 

4. Lições aprendidas

Apesar do sucesso dos F-86 contra os MiG-15, a USAF perdeu cerca de um quarto da força de combate de primeira linha que possuía em 1950. Por isso, a guerra teve um efeito dramático na sua organização e nos seus meios.

A USAF utilizou durante a guerra uma política de utilização de bombas incendiárias (napalm), tendo-as utilizado em maior quantidade do que no Vietname. A Coreia foi o último conflito onde foram utilizados aviões com motores a hélice, em conjunto com aviões de reação. Os pilotos usavam já os primeiros fatos “anti-G”, e alguns tipos de aviões estavam equipados com radar, que lhes fornecia informação valiosa sobre os aviões inimigos, mais cedo.

Após a guerra, surgiram os bombardeiros B-47 Stratojet, B-57 Camberra e B-52 Stratofortress, para substituir os bombardeiros convencionais; todas as unidades da FEAF foram equipadas com F-86, e surgiram os caças F-100 Supersabre e o revolucionário F-104 Starfighter.

A aviação naval aprendeu também com o conflito e em breve substituiu os jatos, primeiro com o F1 Skyhawk e, posteriormente, surgiu o primeiro avião de combate multi-role supersónico: o impressionante F-4 Phantom.

 

 

Parte III – Consequências

 

O armistício de 27 de junho de 1953 fez terminar um dos conflitos mais sangrentos da história moderna. Durou três anos, e nele perderam a vida 3 milhões de soldados e 1,25 milhões de civis. Foi uma guerra iniciada por uma agressão armada e terminada por políticos.

Os termos do armistício acertaram uma comissão internacional para assegurar que o acordo fosse cumprido. Desde 1953, a “Comissão de Supervisão da Neutralidade das Nações” (NNSC), composta por membros das forças armadas da Suíça e da Suécia, que monitorizavam a zona desmilitarizada.

A estratégia comunista foi muitas vezes militarmente ilógica, mas muitíssimo resiliente. Desde o início, os estrategas americanos não avaliaram corretamente a reação da China à ameaça de um ataque nuclear. Apenas no final da guerra, quando os EUA tornaram claro que estavam preparados para estender a guerra ao território chinês, utilizando armas nucleares, puderam aperceber-se do seu impacto como arma política para forçar os comunistas a assinar um armistício. Um estudo posterior à guerra concluiu que um ataque atómico contra as forças terrestres inimigas teria sido devastador, se tivesse sido executado no inverno de 1950, quando as forças aliadas estavam em retirada total para Pusan. Esse ataque teria eliminado cerca de 100 000 homens, um terço apenas das mortes de ambas as partes.

Em abril de 1975, a capital do Vietnam do Sul foi capturada pelo exército norte-vietnamita. Encorajado pelo sucesso do comunismo na Indochina, o ditador norte-coreano, Kim Il-sung, viu nisso uma nova oportunidade de conquistar o sul da sua península. Kim visitou a China, em abril daquele ano, e encontrou-se com Mao Tsé-Tung e com Chou En lai, pedindo ajuda para uma futura incursão militar. Apesar das expectativas de Pyongyang, Pequim não tinha qualquer interesse em entrar novamente em guerra, na Coreia.

Desde o armistício, houve vários desentendimentos e atos de agressão entre os dois países. Em 1976, dois soldados americanos foram mortos por norte-coreanos na zona desmilitarizada. Desde 1974, quatro túneis usados por norte-coreanos foram descobertos. Todos os túneis serviam de passagem para o sul.

Na década de 1990, com o ruir dos regimes ditos “socialistas”, observou-se uma abertura entre as duas Coreias por mecanismos de “soft power”, com a promoção de reencontros de famílias separadas, com a diplomacia turística e desportiva e, principalmente, na dimensão económica. Na década de 2000, face ao crescente neoliberalismo americano, surgiu na Coreia do Norte uma estratégia de polarização, tanto com os EUA como com os regimes asiáticos.

O endurecimento da retórica norte-coreana, desde o abandono do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, em 2003, e o primeiro teste de lançamento balístico nuclear, em 2006, evoluiu para um contexto de inflexão estrutural, em março de 2013, quando, após novo pacote de sanções da ONU contra as políticas da Coreia do Norte, o novo líder de uma terceira geração ditatorial decretou nulo o acordo de armistício.

Em 2010, um submarino norte-coreano torpedeou e afundou uma corveta sul-coreana, resultando na morte de 46 marinheiros. Ainda em 2010, a Coreia do Norte disparou vários tiros de artilharia contra a ilha de Yeonpyeong, matando dois militares e dois civis sul-coreanos.

Tudo isto, demonstra uma recorrente e persistente estratégia de chantagem e discussão política norte-coreana, com a finalidade de trazer vantagens a um país que continua isolado por sanções internacionais. Apesar da “guerra fria” ter terminado, a tensão ideológica persiste, mais preocupada, atualmente, em encontrar pretextos para intervenções em corridas armamentistas nucleares, dado que a Coreia do Norte se gaba continuamente de dominar avançadas tecnologias militares.

 

Bibliografia

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JACKSON, Robert – “Air war over Korea”, Purnell Book Service, London, 1973.

MALKASIAN, Carter – “The korean war 1950-1953”, Essential Histories, London, 2001.

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STEWART, Richard W. – “The korean war. The Chinese intervention”, U.S. Army Center of Military History.

STOKESBURY, James L. – “A short history of the korean war”, New York Harper Perennial, 1990.

www.acepilots.com/korea_aces.html, 2006-06-23.

 


[1]    Uma wing é uma grande unidade aérea, composta por duas ou mais esquadras, proporcionalmente correspondente a um Grupo Operacional da Força Aérea Portuguesa.

[2]    Tanques na ponta da asa.

[3]    Corresponde a 85% da velocidade do som, 1224 km/h.

[4]    RAAF – Royal Australian Air Force.

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REVISTA MILITAR @ 2018
by CMG Armando Dias Correia