Nº 2602 - Novembro de 2018
História Militar em Portugal. Um projeto de ensino universitário em rede
Prof. Doutor
José Varandas

Este artigo tem como objetivo principal analisar (preliminarmente) o processo de formação de um sistema integrado de estudos pós-graduados em História Militar num conjunto de Universidades Portuguesas (Universidade de Lisboa, Universidade de Coimbra, Universidade dos Açores e Universidade da Madeira) e que reúne, também, as Academias Militares Portuguesas (Academia Naval, Academia Militar, Academia da Força Aérea) e o Instituto Universitário Militar. Data de 2012 o início deste programa interuniversitário em História Militar que enfatiza, sobretudo, a análise objetiva e pensamento crítico, os diferentes processos e modelos de pesquisa rigorosa, uma compreensão mais profunda das fontes usadas e que no final procura apresentar um alto padrão de análise escrita sobre as múltiplas facetas e dimensões da moderna História Militar.

Enquanto modelo de trabalho, este consórcio académico pretende definir a história militar não apenas como uma pequena subdivisão da História, ou apenas a história de batalhas, de comandantes e de sistemas de comando, ou outros fenómenos parcelares, mas através de uma estrutura de análise e de pesquisa de largo espetro, onde os eventos históricos, os modelos estruturais e o comportamento humano, em geral, possam ser entendidos, analisados e enquadrados em perspetivas integradas, tornando o exercício da história militar enquanto processo total de observação das múltiplas dinâmicas sociais, políticas, económicas e culturais, integradas na larga escala evolutiva dos sistemas militares.

Desde há muito que os estudos sobre história militar têm atraído muitos estudantes formados em instituições académicas de referência mundial, e o nosso país não é uma exceção. Deste ponto de partida iniciou-se um processo de construção de um ciclo de estudos pós-graduados (um mestrado, neste caso) completamente focado no aprofundamento das muito diferentes fontes, matérias e problemas que sendo específicas a diferentes “disciplinas” da História se juntam na abrangência que o fenómeno militar lhes confere. A “focagem” mergulha na construção da História Militar, na sua utilização como modelo completo de estudo e de compreensão das sociedades e dos processos evolutivos. A “missão” das instituições académicas reunidas (civis e militares) tem sido a de fornecer, para já no programa deste mestrado, aos alunos, bases de conhecimento histórico, de largo e curto foco cronológico e espacial, com particular (e especial) ênfase nas dinâmicas da história militar. Naturalmente que os primeiros objetivos deste processo de treino de novos investigadores nesta disciplina dirigem-se para a construção de uma consciência de diferentes interpretações históricas; para a construção e para a síntese de realidades explicativas, de teses funcionais, racionais e relacionáveis sobre as questões em observação. O treino e a insistência que permitem construir e refinar processos de pesquisa, de escrita futura, de apresentação e de divulgação em curta e em larga banda, a públicos heterogéneos. E, no limite, o permitir aos pós-graduandos em formação a aquisição de bases para o desenvolvimento de uma identidade profissional objetiva, como historiadores no campo da História Militar – quer sejam de origem civil ou militar.

Claro que as intenções são as de que os alunos adquiram habilidades e competências que lhes permitam desenvolver trabalho inovador e pesquisa independente, utilizando as metodologias e os modelos de abordagem interdisciplinar atualmente em discussão nas diferentes universidades e sistemas universitários militares nacionais e internacionais. É, nesta linha, que o programa interuniversitário em que oito escolas superiores portuguesas trabalham, desde 2013, procura treinar futuros investigadores no desenvolvimento de capacidades ao mais alto nível na:

1.  Aplicação e integração criativa de seus conhecimentos na solução de problemas e na proposição de hipóteses para explicar os fenómenos em estudo;

2.  Seleção de fontes e bibliografia, considerando sua pertinência e credibilidade;

3.  Aplicação de conceitos e outros instrumentos para análise das Ciências Sociais em geral, e da História Militar, em particular, na construção dos seus projetos de investigação;

4.  No desenvolvimento de formas de raciocínio crítico sobre o passado para identificar cruzamentos culturais e evitar as armadilhas críticas de modelos, como os dos estados nacionais ou os da religião, e fornecer diretrizes de leitura (e pesquisa) alternativas às divisões entre estados/nações ou de outros clusters civilizacionais;

5.  Na elaboração de projetos de pesquisa com potencial para expandir os horizontes do conhecimento (neste campo da História Militar), atendendo aos requisitos impostos pelos padrões académicos de qualidade e integridade.

Assim e de forma orgânica, este programa interuniversitário de mestrado construiu-se procurando aprofundar e melhorar os conhecimentos e competências adquiridas pelos alunos na graduação básica em História (ou outro tipo de formação), no sentido de desenvolver a capacidade nos pós-graduandos de trabalhar e avaliar criticamente diferentes tipos de fontes, para combinar dados (ainda que contraditórios) obtidos de tais fontes, para abordar questões complexas em contextos amplos e multidisciplinares, fazendo um balanço das suas implicações e responsabilidades éticas e sociais. Mais, procura ampliar, definir e expandir a capacidade de relatar a um público diversificado os resultados de um estudo, bem como o conhecimento, os processos de pesquisa e toda a justificação científica que esteve por trás dele. Finalmente, pretende desenvolver competências para capacitar os alunos formados a encontrar formas autónomas de aprendizagem ao longo da vida.

Outro ponto que, num primeiro balanço de cerca de cinco anos de atividade (três edições realizadas e dezanove dissertações defendidas e aprovadas), se definiu como dimensão matricial foi o da coerência dos objetivos definidos com a missão e estratégia das instituições. A parceria institucional entre os Departamentos de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, da Universidade dos Açores, da Universidade da Madeira, da Escola Naval, da Academia Militar, da Academia da Força Aérea e do Instituto Universitário Militar, formalizaram uma rede de produção de conhecimento científico capaz de criar e/ou aprofundar sinergias, tanto no processo educacional superior como na pesquisa histórica. O caminho seguido tem insistido na análise objetiva e no desenvolvimento do pensamento crítico, nas capacidades a desenvolver nos pós-graduandos acerca da pesquisa rigorosa, da compreensão ensinada sobre as fontes específicas utilizadas e o desenvolvimento, em processo de tutoria, da escrita da história militar.

E o que se propôs (e em traços gerais tem sido seguido) foi dar corpo ao projeto de formação teórica com um conjunto de seminários curriculares (obrigatórios e opcionais) construídos para refletir sobre aspetos estruturantes da História Militar, a partir da evolução de modelos táticos e estratégias de guerra, através da especificidade da tecnologia militar em constante evolução, acompanhando mais de três mil anos de processos e impactos que a guerra causou e acrescentou à dinâmica das sociedades. Esta área de estudo pós-graduada agora em curso corresponde, também, a uma gama de competências científicas que se desenvolveram nas instituições incluídas nesta rede portuguesa, em particular no desenvolvimento da “Nova História Militar” como processo charneira.

 

Seminários Curriculares:

– História Militar: teoria, métodos e fontes (obrigatório);

– Batalhas na História: casos de estudo e modelos de análise (obrigatório);

– Armas e Sociedades: Mundo Pré-Clássico;

– Armas e Sociedades: Mundo Clássico;

– História Militar de Portugal: séculos XII a XV;

– História Militar de Portugal: séculos XVI a XVIII;

– História Militar de Portugal: séculos XIX a XX;

– História Militar Medieval;

– História Militar Moderna;

– História da Tecnologia Militar;

– As Guerras da Revolução e do Império;

– A Arte da Guerra no Império Português;

– História do Ensino Militar em Portugal;

– Guerra, Saúde e Hospitais Militares (séculos XII a XX);

– Cercos e Assédios;

– Marinhas de Guerra e Pensamento Naval Estratégico;

– Poder Aéreo e Estratégia;

– Os Arquipélagos Atlânticos Portugueses: Defesa e Política Externa (séculos XIX-XX);

– História Militar do Século XX: da Grande Guerra aos Conflitos do Golfo;

– Conflitos e Ameaças no Mundo Contemporâneo;

– Representações da Guerra: Arte e Iconografia;

– Arqueologia dos Campos de Batalha.

 

A integração deste texto num painel dedicado à “Harmonização e Potencialidades do Sistema de Ensino Militar”, sob o alto patrocínio da Revista Militar, constitui para este mestrado interuniversitário uma importante oportunidade para revelar a harmonização, o trabalho e os projetos em comum que, desde 2012, um grupo de investigadores do Centro de História da Universidade de Lisboa (civis e militares) têm vindo a desenvolver e a partilhar. As duas comunicações deste painel (mas, sobretudo a do Senhor Major-general João Vieira Borges) podem ser lidas enquanto processos substantivos de integrações, contributos e de definição de estratégias para Portugal em contextos de atuação nacional e internacional – as Forças Armadas e as Universidades são agentes ativos e intervenientes sérios e preocupados com o desenvolvimento nacional e europeu. Um plano como a constituição desta rede de estudos sobre História Militar pode atingir esse desiderato.

Portugal na Europa não é uma questão recente. Portugal é um problema europeu desde a sua formação, na Idade Média e, naturalmente, que um conjunto de reflexões permanentes sobre os múltiplos aspetos da sua formação e devir contínuo podem ser assunto pertinente, fundamental, no contexto da nossa história militar. E, porque não fazer mudar o ponto de apoio de muita da nossa investigação retrospetiva para os processos militares? O mestrado interuniversitário pode ser um caminho.

No outono passado, juntamente com o meu colega, o Professor Vítor Gaspar Rodrigues, apresentámo-nos em Oslo, a uma reunião internacional de uma rede que trabalha sobre Ciências Militares (International Society of Military Sciences – ISMS), que fará este ano, em 2018, dez anos. Foi curiosa a maneira como fomos recebidos. Em primeiro lugar, porque éramos os únicos do mundo meridional europeu, ou seja, não estavam gregos, nem italianos, nem espanhóis, estavam apenas dois portugueses, ainda por cima civis e, pior, não somos das Ciências Militares. Apenas dois historiadores militares numa reunião científica de cerca de 150 participantes, na sua maioria provenientes de academias e escolas superiores de ensino militar. Mas lá estávamos, o que significa que o nosso paper tinha sido aceite.

A nossa expetativa era a de apresentarmos, até para recebermos comentários, perguntas e críticas ao nosso trabalho, que era a apresentação pública, a nível internacional, e perante uma assembleia muito específica, da criação de um ciclo de estudos pós-graduados de História Militar que congregava várias universidades portuguesas e as nossas escolas militares. De lá veio outra expectativa, muito constante nas reuniões sociais e nas sessões científicas. A surpresa e a perplexidade na existência deste consórcio português e, em particular, dois aspetos concretos: a junção científica e pedagógica das duas realidades de ensino e constituição de grupos de alunos mistos (civis e militares).

À realidade portuguesa concreta, as perguntas incidiam sobre múltiplos aspetos e, em particular, sobre a tipologia de seminários (os que acima indicamos) e os diferentes pontos de focagem que o amplo leque de unidades curriculares possibilitavam do ponto de vista de observação de longas diacronias. Naturalmente, que a construção do nosso plano de estudos passou pela capacidade de ação (seminários fornecidos) que cada uma das nossas escolas podia oferecer (ou construir de raiz) a que se juntaram diversas linhas fundamentais, e essenciais, daquilo que era um conjunto (de pelo menos vinte anos) de produção sistémica de pesquisa, informação e de reflexão entre nós. Estas linhas definiram-se nas reuniões onde ficava claro que a construção de um ciclo de estudos pós-graduados de cariz inter-escolas se assumia nas nossas capacidades próprias, mas, também, num sentido coletivo da importância que a História Militar deve ocupar na construção da memória científica do nosso passado (nacional e global). Não é uma novidade, entre nós, há algum tempo, que historiadores civis e militares vêm abandonando modelos endogâmicos de discussão e de valorização de aspetos da história militar. Essa tal endogamia específica, característica de outros tempos, tem sido transformada por dinâmicas comuns, cada vez mais constantes no palco da atividade científica e de divulgação a outros públicos que professores universitários e militares têm sabido construir. Exemplo concreto é a construção deste mestrado, ou a integração no Centro de História, no Grupo de Investigação em História Militar, de muitos oficiais das quatro escolas militares ou de outras unidades das nossas Forças Armadas.

Da endogamia académica a dinâmicas de consciência crítica sobre diferentes processos de interpretação histórica este projeto em conjunto pretende construir diálogo sobre modelos de harmonização. Nos olhares dos nossos colegas do norte da Europa, este modelo de harmonização (entre processos e perspetivas diferenciadas) parecia ser desfocado. E, por isso, tornou-se interessante explicar a nossa perspetiva. O mestrado em História Militar não se dirigia sobre as Ciências Militares. A investigação científica proposta não se construía sobre os modernos caminhos da liderança, ou da estratégia, enquanto assuntos de definição. Procura-se produzir reflexão, análise crítica, objetividade e caminhos de investigação, sugerindo até alternativas de processos diferentes de observação que, exclusivamente, no âmbito da História Militar, se podem construir.

O mestrado também se apresentava a este simpósio internacional como produtor de dissertações defendidas e de propósitos pedagógicos concretos. Das três edições do mestrado e das suas dezanove dissertações (que podem ser consultadas nos repositórios das bibliotecas das Faculdades de Letras de Lisboa e de Coimbra), duas já foram dadas à estampa. O âmbito destes primeiros anos de trabalho resultou numa grande concentração de dissertações no âmbito da história militar de civilizações da Antiguidade Pré-Clássica e Clássica, de contextos – os mais variados – medievais cristãos e muçulmanos, bem como sobre a História Contemporânea.

É de valorizar, também, o facto de alguns dos mestres já se encontrarem em planos de doutoramento (História, Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea, História das Religiões e História Marítima) com projetos de doutoramento em História Militar. O que nos cria boas perspetivas para um futuro entendimento sobre um plano doutoral nesta área.

As Faculdades de Letras das Universidades de Lisboa e de Coimbra apresentam, nesta altura, professores civis (3) em História Militar (Mundo Antigo e Idade Média), que, em conjunto, por ano, dão aulas a cerca de 300 alunos sobre estes temas – uma importante base de recrutamento, até ao momento. Parecendo um pormenor, este facto tem contribuído para um centramento da maioria dos mestrandos nestes contextos cronológicos de trabalho. As dimensões – por enquanto – mais “frágeis” do estudo ao nível da licenciatura dos períodos Moderno e Contemporâneo (não existe oferta letiva) tem levado a um certo “desequilíbrio” no resultado final de cada edição do ciclo de estudos pós-graduado.

Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa a dimensão mais frágil da História Militar Moderna, por exemplo, deve-se a dois componentes: o facto de existir, desde 2008, com a Escola Naval, um mestrado em História Marítima, que absorve alguns dos nossos alunos para os períodos do Renascimento e da emergência dos Impérios Ultramarinos, que se aproximam mais desse mestrado, e que ali chegam com a perspetiva de vir a trabalhar a questão marítima, as dinâmicas navais, a guerra no mar e o fenómeno da expansão portuguesa (e muitos são militares); e, também, porque desse mestrado surgiu, em 2017, um programa de doutoramento que já se iniciou, e que tem um grupo de candidatos a trabalhar. Mas, em particular, o não existirem disciplinas de licenciatura sobre esse período da História da Humanidade.

História Militar, rede de estudos pós-graduados interuniversitária, mas não deixa de ser um mestrado, um projeto de estudos pós-graduados, mas a ideia é fazê-lo evoluir para outro processo, simultâneo e complementar, que se deve harmonizar num caminho confluente e a integrar nas linhas mestras de unidades de investigação. É o que se pretende. Ligar o plano de formação superior com as motivações, capacidades e processos que existem no seio do conjunto de mais de vinte investigadores de História Militar que integram o Centro de História da Universidade de Lisboa – num grupo próprio denominado: Grupo de Investigação em História Militar.

O Centro de História organiza-se em cinco grupos de investigação que perspetiva a investigação científica, a formação avançada e a divulgação da História. Um deles preenche este desiderato, dirigindo-o sobre a construção da História Militar, sob duas perspetivas conciliáveis e justapostas: a história nacional, regional e local e a sua articulação com linhas globalizantes e de cronologias muito amplas. Naturalmente, a internacionalização do Grupo de História Militar – e dos seus membros – deu um impulso de grande definição ao mestrado de História Militar, como futuro caminho a trilhar. Esteve presente no início, é agora uma constante. Ao longo de 2017 e de 2018 (continuará em 2019), investigadores juniores e seniores do nosso Grupo de Investigação têm-se posicionado estrategicamente em diversos congressos, colóquios, encontros científicos e outros eventos realizados em universidades e escolas militares nos Estados Unidos, Europa e Ásia, apresentando papers relacionados com a sua investigação atual. Um grupo considerável dos nossos jovens investigadores são mestres em História Militar – o que revela uma simbiose direta entre o Ciclo de Estudos e a Unidade Científica. Como já foi referido, todos os nossos mestres se inscrevem nos programas de doutoramento em História oferecidos pelas Universidades de Lisboa e de Coimbra; todos os nossos mestres, assim que o são, são convidados a integrar a equipa de investigação de História Militar – para já, a única do país. E, neste grupo de investigação, estão, em grande maioria, os professores titulares dos seminários curriculares oferecidos pela Escola Naval, Academia Militar, Academia da Força Aérea e Instituto Universitário Militar.

Seja permitido que, no processo de internacionalização em curso, e em paralelo com o mestrado, se destaquem três linhas de internacionalização que temos vindo a desenvolver. A primeira linha resulta de um efeito colateral do mestrado. Foi a criação da Sociedade Ibérica de História Militar. É uma associação privada, recente, mas já com grande dinamismo, com página Web, revista eletrónica (E-Strategica) com peer review, um prémio monetário às melhores teses de mestrado e de doutoramento de jovens investigadores, a publicação (em língua inglesa – editora Routledge) de uma obra coletiva, de autores espanhóis e portugueses sobre a Reconquista ibérica e a já vasta realização de colóquios temáticos (dois por ano), sempre com convidados estrangeiros. Formada por dois docentes deste Curso de Mestrado (na direta sequência deste) e por colegas nossos espanhóis, congrega todos os nossos jovens formados e em formação. Também muitos dos docentes militares do Mestrado já são membros desta Associação, que conta perto de cem associados. Faz, esta Associação, dois colóquios por ano – um em Portugal, outro em Espanha – onde têm emergido algumas ideias de trabalho (e geralmente integradas no Mestrado de História Militar), entre as quais, a tentativa de desenvolver uma rede ibérica interuniversitária em associação com sistemas de ensino superior militares espanhóis – só agora começámos o caminho.

A participação, em 2017, nos encontros da ISMS, que serviu de assunto para esta comunicação, serviu para apresentar o nosso Ciclo de Estudos Pós-Graduados, para demonstrar a colaboração portuguesa interinstitucional e para dar a conhecer o que ao nível da formação superior em História Militar por cá se vai fazendo. Mas queremos alcançar mais. Integrar (apenas no campo da História Militar) esta rede, individualmente, institucionalmente (cada uma das nossas instituições) e, também, ao nível do Mestrado Interuniversitário.

Aquilo que para nós foi nuclear era introduzir o que poderíamos fazer, ou seja, apresentar um modelo harmónico, um contributo multi-pendular, uma apresentação das potencialidades de uma rede portuguesa de História Militar, mas também o posicionamento desta rede, e na ausência dos nossos parceiros do sul, e do lado de lá do Mediterrâneo, a perspetiva de apresentar outros pontos de focagem, históricos e atuais, que têm muito a ver com o Estreito de Gibraltar e os enquadramentos e ambientes geostratégicos e geopolíticos da História Militar medieval e moderna portuguesa e peninsular (mas não só) e que se coloque o debate em cima da mesa.

Foi este outro prisma, outro ponto de focagem, da nossa internacionalização, um outro projeto do interior do nosso Grupo de Investigação de História Militar (e de alguns mestrandos de História Militar), entre medievalistas e modernistas, que desde janeiro deste ano, em várias reuniões institucionais abordaram estes questionários – o ponto de focagem português, o ponto de focagem da geografia portuguesa atual e, sobretudo, a maneira como, na História Militar, observamos a evolução, os processos, as dinâmicas, os antagonismos e, naturalmente, as perceções, que para uma Nação como a nossa, são fundamentais na perspetiva da viagem do oriente para o ocidente, da receção que aqui se fez, desde o final do Império Romano.

A construção deste projeto interuniversitário e a aplicação prática dos programas das unidades curriculares contava (e, de facto, alguns aspetos comporovaram-se) com algumas fragilidades detetadas a montante, como, por exemplo:

– A imprevisibilidade do comportamento do processo de procura deste ciclo de estudos. Contudo, a nossa perspetiva atual é a de que o Curso tem fatores de sustentabilidade comprovados (19 dissertações num largo espetro temático e cronológico), o que consolida a ideia de que ele se constitua como um centro de estudos de desenvolvimento para a História Militar, criando e estimulando mais procura;

– Outra fragilidade está na longa distância a que eventuais alunos das duas universidades insulares estão do núcleo principal. As escolas militares estão muito perto da Universidade de Lisboa, criando aqui um efeito centrípeto muito forte. Contudo, a terceira edição decorreu na Universidade de Coimbra, com um número muito aceitável de alunos inscritos e já com dissertação defendida. O problema da dispersão física pode ser obviado a partir das plataformas de ensino à distância que já equipam, normalmente, todas estas instituições;

Um último apontamento para dar conta do que até agora tem sido realizado: Até 2016, foram realizadas três edições do Mestrado Interuniversitário em História Militar (2012/2014, 2013/2015, 2015/2017) e uma quarta foi aberta para o biénio de 2017/2019. Desde o início até hoje, 46 estudantes oriundos de escolas militares (Exército, Marinha e Força Aérea) e de universidades civis frequentaram este Mestrado. Das três primeiras edições resultaram 19 teses defendidas e aprovadas, estando mais sete em diferentes processos de conclusão. Faltam aqui as dissertações que estão a ser registadas neste presente ano letivo para defesa em final de 2019.

Após a primeira avaliação externa deste mestrado, estão previstas algumas adaptações para futuras edições, no âmbito da Comissão Científica, a redução de alguns seminários opcionais e, na medida do possível, a junção de um professor civil com um professor militar por cada seminário aberto.

Pretende-se também iniciar um processo de discussão e reflexão sobre um futuro programa de doutoramento interuniversitário em História Militar e a extensão de mais instituições de Ensino Superior ao programa de pós-graduação já em curso. A ampliação deste projeto com outras escolas universitárias e militares europeias (âmbito NATO) também está em perspetiva na construção de uma rede internacional de formação pós-graduada em História Militar.

Em jeito de conclusão, gostaríamos de sublinhar a importância do trabalho para o desenvolvimento desta área científica de estudo que, tendo conhecido um crescimento notável nos últimos trinta anos, ainda não se recuperou de um atraso secular comparada aos países vizinhos (Espanha, França, Itália) e a outros com grande tradição de investigação/formação/divulgação da História Militar (Inglaterra, Holanda, Alemanha, Estados Unidos da América); neste contexto, a formação de um grupo de especialistas parece-nos, cada vez mais, decisiva.

A realçar, por outro lado, a possibilidade (sempre em construção) de unificar os esforços das instituições envolvidas, comprometendo-se tanto com a componente implícita do desenvolvimento nacional, como na afirmação internacional dos estudos de História Militar em Portugal.

Por fim, a construção, ainda muito jovem, de uma massa crítica em nível de pós-graduação, que se espera poder vir a fornecer uma base sustentada para estender a proposta a um futuro programa interuniversitário (com as escolas militares) de doutoramento em História Militar.

Mas, trazemos a tudo isto a ideia original, que juntou um professor de História Militar Antiga e Medieval a um Major-general, comandante da Academia Militar, membros do mesmo grupo de investigação, autores em partes iguais desta Pós-Graduação, no último painel de um Colóquio da Revista Militar – a ideia de desenvolvermos projetos comuns de investigação e de ensino, numa harmonização constante, precisa, definida, mas diferenciada nos pontos de partida, sobre tudo aquilo que nós podemos oferecer à construção da História e do Futuro, enquanto interventores de análise, de produtores de História Militar Comparada – comparando os sistemas, comparando os processos e, nesses contextos, a ideia de podermos evoluir, de juntarmos para o futuro outras valências: um programa interuniversitário e internacional de História Militar.

Terminava, agradecendo muito esta possibilidade, de apresentarmos um pequeno fenómeno escolar, a um colóquio que debate a Europa. Mas, sobretudo, também, com esta presunção – os académicos são assim – a expansão de uma rede, para já nacional, mas que se quer internacional, sobre História Militar, e que possa ser um recurso válido para esta ideia de Portugal na União Europeia.

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2019-03-08
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REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia