Nº 2603 - Dezembro de 2018
Crónicas Bibliográficas

Adriano de Sousa Lopes

Carlos Silveira – Edições 70

 

Carlos Silveira é doutorado em História da Arte e investigador do Instituto de História da Arte da FCSH/NOVA. Tem artigos publicados em Portugal e no estrangeiro, e organizou exposições sobre Sousa Lopes e sobre os impactos culturais da Primeira Guerra Mundial.

O Doutor Carlos Silveira organizou a sua tese de doutoramento sobre o grande pintor Adriano de Sousa Lopes, que foi remetido para a Flandres como Capitão Graduado, com a missão de retratar o quotidiano dos Soldados das Trincheiras, tendo ao longo do tempo expresso nas suas telas, de forma apaixonada, o sacrifício e o sofrimento, mas também a dignidade, de todos aqueles militares, com quem conviveu e de quem se tornou amigo, companheiro e camarada.

Sendo, primariamente, um livro de História de Arte, tornou-se também uma obra fundamental para uma melhor compreensão da História da Primeira República e dos dramas e glórias da nossa intervenção militar na Flandres. Porque esta obra descreve a geografia das trincheiras e do território onde se movimentaram as forças portuguesas, mas também os meandros político-militares do conflito e a postura dos artistas contemporâneos em relação à guerra que então era travada.

O autor estudou com profundidade a vida e obra de Sousa Lopes, centrado na análise das suas criações e na documentação inédita que reuniu, apresentando um estudo muito completo e uma interpretação descritiva e crítica das suas realizações mais significativas.

O pintor Sousa Lopes, seguidor da estética do Romantismo e do Impressionismo, produziu, desde o ano de 1900, obras de ambas as  correntes, iniciando o seu percurso nas Escolas Nacionais, mas seguindo depois para Paris, onde completou a sua formação.

Durante o conflito mundial tornou-se oficialmente um “pintor da guerra”, com a missão de registar a vida dos militares do CEP, nas linhas da frente e nas trincheiras, onde montou um atelier e onde executou os seus trabalhos, compartilhando desconfortos e perigos com os combatentes. Na Flandres, teve ainda a oportunidade de compartilhar experiências com outros pintores, e também com fotógrafos (entre os quais o bem conhecido Arnaldo Garcês), jornalistas, caricaturistas, desenhadores e até cineastas, representantes de díspares países e campos artísticos.

Segundo Carlos Silveira, ao longo desta caminhada, o nosso artista produziu, pelo menos, 273 desenhos, um notável conjunto de gravuras e pinturas e as grandes telas que constituem o fulcro das salas da Grande Guerra, do Museu Militar de Lisboa.

Passo agora a relatar como li e senti esta obra de Carlos Silveira:

– Sob o ponto de vista espacial, os ambientes aqui descritos são próprios da vida de um artista da primeira metade do século XX, que passou pelas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e por Paris, onde chegou em 1903 como bolseiro, e depois pelas trincheiras da Flandres;

– No domínio temporal, atravessam-se várias épocas, cobrindo o período de 1900 até 1944, data da morte do artista, embora o fulcro se situe no período de 1917 e 1918, época em que o artista acompanhou a nossa aventura na Flandres, e nos anos seguintes em que produziu as telas para o Museu Militar;

– A nível cultural o autor descreve o ambiente erudito em que se movimenta Sousa Lopes, que é uma criatura culta e urbana, estribada na criação artística, mesmo nas trincheiras, local onde contacta com boa parte dos intelectuais portugueses que faziam parte do CEP;

– A linguagem é essencialmente artística, com palavras e conceitos ligadas à História da Arte, mas também precisa e direta quando se trata de descrever os meandros da agitada vida política portuguesa e da Grande Guerra.

Carlos Silveira dividiu a sua obra em várias partes e capítulos:

– Na primeira parte, o autor descreve os contributos que Adriano de Sousa Lopes (1879-1944) trouxe para a arte portuguesa e examina as ideias estéticas e as metamorfoses da sua pintura, passando pelo romantismo, impressionismo e epopeia;

– Na segunda parte, traça uma análise comparativa entre os programas de patrocínio oficial das artes, desenvolvidos nos diferentes Estados beligerantes, analisa o lugar da pintura na História dos Conflitos e o seu papel para a propaganda visual dos mesmos, através da publicação de imagens, verdadeira guerra ilustrada;

– A terceira parte aborda o impacto da Grande Guerra na esfera cultural portuguesa, a posição dos intelectuais face à guerra, uns favoráveis à intervenção como Augusto Casimiro e Jaime Cortesão, outros com posições diferenciadas como Aquilino Ribeiro e Fernando Pessoa;

– A quarta parte tem por epígrafe “Sousa Lopes no CEP-Um pintor nas Trincheiras” e narra as experiências do artista, a vivência da guerra e a produção de desenhos e águas-fortes;


A quinta parte relata a atividade que desenvolveu na decoração dos cemitérios militares portugueses, para além de outros contributos do pós-guerra, em particular a conceção das salas da Grande Guerra no Museu Militar de Lisboa.

A vivência de Adriano de Sousa Lopes nas trincheiras contribuiu para que as suas pinturas relatem “a verdade dos factos”, expressa nas extraordinárias salas que concebeu para o Museu Militar, projeto integrado de arquitetura e pintura, sem paralelo a nível internacional.

O resultado mais notável dessa experiência foi a monumental pintura “A Rendição”, que é a maior pintura, em todo o mundo, realizada por artistas que estiveram presentes na Grande Guerra. Representando vinte e cinco militares portugueses, saindo das trincheiras, pintados em tamanho natural, numa paisagem coberta de neve, revelando o cansaço das tropas e as suas precárias condições de vida. Pintura humanizada, mais que heroica, num ambiente desolado, que não procura glorificar a guerra, mas mostrar os sacrifícios e as condições reais em que viviam os obscuros e destemidos soldados das trincheiras.

 

 

 

A Rendição, pormenor

 

Dentre as outras telas armadas no Museu Militar releva ainda a dedicada às mães dos soldados desconhecidos, publicitando a perda e o luto das famílias portuguesas, numa envolvente de uma cerimónia militar de homenagem às vítimas da guerra.

Criteriosamente apresentado, num volume de 431 páginas, de excelente aspeto gráfico, com capa contendo uma sugestiva reprodução de um óleo sobre tela do pintor Adriano de Sousa Lopes intitulado “A volta do herói ou Jurando vingar a morte de um camarada” (c. 1919-1923).

Agregando inúmeras reproduções das obras de Sousa Lopes, fica esta obra à disposição dos leitores interessados, constituindo um valioso contributo para a História da Arte e para a História da Grande Guerra. Verdadeiro desafio de integração destes dois domínios do saber, um deles criativo, fecundo e artístico, o outro desumano, consequência do fracasso do diálogo político, manifestação de violência e confronto de vontades.

 

A Revista Militar agradece a oferta da obra “Adriano de Sousa Lopes, Um Pintor na Grande Guerra” e felicita o Doutor Carlos Silveira.

 

Major-general Manuel de Campos Almeida

Vogal Efetivo da Direção da Revista Militar

Major-general
Manuel António Lourenço de Campos Almeida
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