Nº 2445 - Outubro de 2005
Notícias do Mundo MIlitar
Coronel
Carlos Gomes Bessa
AMÉRICA DO SUL
As ligações perigosas Chavez/Castro
Reflexos sobre portugueses
 
A Academia Portuguesa da História proporcionou-nos contactos académicos com a Venezuela, terra onde vimos, ao fazê-los, labutar com grande influência e prestígio numerosos portugueses.
 
O L’Express de 5 de Setembro publicou uma extensa reportagem sobre a amizade suspeita entre o seu Presidente Hugo Chavez e Fidel Castro e as relações entre ambos. Elas afiguram-se-nos não apenas susceptíveis de afectar essa profunda vinculação dos portugueses à Venezuela, mas, além disso, de gerar com carácter global consequências políticas e estratégicas profundas e de gravíssimas consequências.
 
A influência portuguesa na Venezuela fazia-se sentir de longa dada, desde os primórdios do seu povoamento no século XVI, por ali haverem desembarcado muitos portugueses. O historiador venezuelano Miguel Acosta Saignes referiu-se a um censo do século XVII em que, de 125 estrangeiros, 115 eram nossos compatriotas de variadas profissões, sendo um deles quem introduziu muito gado bovino, cavalar e porcino, no Orenoco. Expandiram-se mais do que os restantes, pela relativa facilidade com que se cruzavam sem preconceitos com mestiças, índias ou africanas, e pela sua rusticidade lutadora, extraordinária vontade, capacidade e espírito de sobrevivência. Entre eles destacou-se, o natural de Portimão, João Fernandes de Leão, que para lá partiu em 1564, vindo a casar com a filha do Governador de Borburata. Teve papel destacado na fundação da cidade de Santiago de Léon de Caracas, hoje a capital de Venezuela, mas teve de lutar firmemente pelos seus direitos, pois os castelhanos invejavam-lhe as funções e pretendiam que delas fosse privado, o que não veio a suceder devido à forma como se defendeu. É depois João Fernandes de Leão quem nos finais de 1591, fundou a cidade de Guanaguanare, havendo-se afogado no percurso, ao atravessar o rio Timire, uma portuguesa muito bondosa. Devido a isso, segundo a tradição, o rio passou a chamar-se da Portuguesa, e mais tarde foi dado esse nome a um Estado, nome que ainda hoje se mantem, chamando-se aos seus naturais Portugueseños, o que revela o bom entendimento local com os portugueses desde longa data.
 
Por curiosa coincidência, no território da Portuguesa, em forma de coração, na confluência dos rios Guanaguanare e Tucupido, ao entardecer de um sereno sábado, o chefe local do território chamado Coromoto teve a visão de uma formosa Senhora, caminhando sobre as águas a dizer-lhe que se apresentasse aos brancos e passasse a ser cristão, a qual se repetiu no dia seguinte. O chefe rebelde tentou agarrá-la, mas apenas conseguiu ficar com a imagem da Virgem Maria que a Senhora segurava na mão direita. O local passou a chamar-se Nossa Senhora de Coromoto, tornada depois padroeira da Venezuela. Em Guanare, João Fernandes de Leão, criou a primeira escola de ensino secundário e a cidade durante longos anos foi o centro irradiador de cultura do Sudoeste venezuelano, sendo-lhe dado o título de Atenas dos Llanos.
 
Durante a luta de Bolívar pela independência da Venezuela, após a gorada inconfidência Pernambucana em 1817, um dos filhos do Padre Roma nela implicado conseguiu sair do Brasil ajudado pela Maçonaria, indo alistar-se nas hostes de Simon Bolívar, depois de desembarcar em La Guaira em Novembro de 1818. O luso-brasileiro Abreu Lima teve nelas tal comportamento que veio a ser General de Bolívar e atraiu grande simpatia dos venezuelanos pelos portugueses, pois o seu nome figura entre o dos poucos estrangeiros no monumento aos Próceres da Independência da Venezuela de Caracas, onde no Panteão Nacional se guarda vazio também o lugar, com nome escrito, para os seus restos mortais, por dificuldades surgidas nas negociações com o Brasil para o efeito.
 
No final da II Guerra Mundial outro facto estreitou os laços entre Portugal e a Venezuela, em resultado de uma emigração portuguesa numerosa ocorrida entre 1945 e 1952, que obrigou a uma fixação marcada por muitos sacrifícios. Ganhando fama de honestos trabalhadores, conseguiram sobreviver à custa de empregos modestos, como em padarias, na construção civil, no comércio, na restauração e, sobretudo os madeirenses, no amanho das terras incultas em Caracas e vilas adjacentes. Em 1952 foram obrigados a novos sacrifícios com a aprovação do plano urbanístico de Caracas, que os obrigou a abandonar as suas terras sem indemnizações. Mas, com grande esforço e espírito de entreajuda, lançaram-se em novos modos de vida, como pequenos bares, vendas de géneros alimentícios, frutarias, e outros, também modestos.
 
A sua segunda pátria, como um deles escreveu, fica a dever-lhes um progresso excepcional e superior ao da época anterior. Em pouco tempo passaram a criar supermercados, excelentes cervejarias e restaurantes de qualidade, que no final dos anos 70 do século XX mais de 80% eram de portugueses.
 
Quando por lá passámos testemunhamos o grande prestígio da colónia portuguesa, calculada em 300 000 cidadãos e dispondo de uma pujança que se considerou não excedida por nenhuma das outras nossas no mundo. Aos emigrantes portugueses se deviam mais carpintarias e marcenarias, oficinas mecânicas e serralharias, lojas de móveis, fábricas de ar condicionado e de carroçarias de automóveis e, tendo começado a sua incorporação em grandes empresas, formaram, além das de construção civil, algumas de autocarros muito mais baratos do que os das carreiras públicas.
 
Além dos emigrantes propriamente ditos, havia ainda a somar o peso e influência dos filhos já lá nascidos, cada vez em número crescente, que ocupavam lugares de destaque na administração, no comércio, na indústria e nos serviços.
 
Como dissemos no início, a Academia proporcionou-nos a oportunidade várias vezes repetidas de tomar parte numa fecundíssima actividade cultural, sobretudo no âmbito histórico entre ela e a venezuelana, marcada por uma extraordinária cordialidade e proveitos mútuos, em encontros ocorridos, quer no nosso país, quer na Venezuela, impulsionada pela publicação dirigida pelo Presidente da Academia e por alguns notáveis historiadores espanhóis e sul-americanos, intitulada Ibero-America-una Comunidad.
 
Depois abriu-se uma crise venezuelana, que teve como um dos efeitos, praticamente a interrupção deste intercâmbio, a tantos títulos tão desejável e frutuoso.
Esta súmula relativa às relações e à amizade luso-venezuelana derivaram para a situação que actualmente se vive naquele país sul-americano.
 
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O enviado especial da revista Axel Gyidén considera o Presidente da Venezuela, caprichosa e visceralmente anti-americano, admirador do “Líder má­ximo”, faz da aproximação com Cuba o eixo principal da sua diplomacia o que representa para o regime castrista uma fortuna a que os petrodólares trouxeram um maná providencial. Acha que Hugo Chavez falhou totalmente a sua vocação.
 
Numa outra vida ele daria um formidável animador de talk-show. Alô Presidente, o programa insólito, que ele anima todos os domingos há sete anos na televisão e na rádio, representa por certo, na sua opinião, uma das emissões políticas mais espantosas do panorama audiovisual mundial.
 
Durante cinco ou seis horas o comunicador de real talento, volúvel e cabotino, gaba a acção governamental divertindo os espectadores. Ora entoa um canto folclórico, ora improvisa uma toada ao xilofone, depois cita trechos dos Miseráveis, um dos seus livros de cabeceira, para, logo em seguida, atacar o imperialismo americano e amesquinhar George W. Bush, incensar Fidel Castro e discursar embriagadamente sobre a sua “revolução bolivariana” - na Venezuela Bolívar é um ídolo venerado por todos - que vai conduzir ao “socialismo do século XXI”, a que acrescenta uns excertos narcisistas, relatando com deleite episódios marcantes da sua própria epopeia, quer se trate do “putsch” falhado em 1992, quando era Tenente-Coronel, dominado em parte por um General, que veio a ter como recompensa ser Embaixador em Lisboa, ou a sua ascensão política após a saída da prisão em 1994, ou a sua surpreendente eleição em 1998, sem esquecer o golpe de Estado de opereta que em 2002 o afastou do poder…, durante quarenta e sete horas, diga-se de passagem que apoiado por grande número de elementos da colónia portu­guesa.
 
Instalado numa mesa de mestre-escola, perante uma plateia de ministros destinados a fazer claque, responde às perguntas de ouvintes devidamente escolhidos, recebe convidados, na maioria da extrema esquerda latina e altermundista, solta slogans revolucionários, como Hasta la victoria, siempre!, Pátria ou morte! e lança fórmulas categóricas do género “no capitalismo o trabalho visa explorar o homem, enquanto que no socialismo o trabalho liberta-o e torna-o feliz”.
 
Considerando-o bem em fase com o seu tempo, o da tele realidade, o enviado especial considera que Chavez governa em directo. É do palco de Alô Presidente que anuncia aos próprios ministros as grandes orientações a tomar, ou o teor da sua última conversação com Fidel, nunca esquecido de citação no decurso do programa maratona. É, igualmente através dele, que fulmina, em primeira-mão, ministros e colaboradores caídos em desgraça, citando-lhe os nomes entre duas assobiadelas e arrasando-os com um Fora!
 
Na sua opinião, porém, o seu programa nº1 foi o 231º, difundido de Cuba, em que partilhou o vedetismo com Fidel Castro, seu mestre de política. Chegados teatralmente em jeep, ambos fardados de verde oliva, multiplicaram as declarações anti-americanas, e o aviso de que “farão tudo o que for huma­na­mente possível para evitar uma agressão imperialista. E se um louco se atrever a fazer uma gota de sangue, encontrar-nos-á no seu caminho” Gyldén ironiza que George W. Bush ficou prevenido. Parece-nos, contudo, que por detrás da insólita comicidade desta narração há inúmeros motivos reais e algo preocupantes para estar atento à evolução destes actos teatrais.
 
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Para além dos efeitos habituais, esta emissão visou sobretudo consagrar de maneira muito simbólica a aproximação entre a Venezuela e Cuba.
 
A cooperação entre os dois países, tímida no inicio do mandato de Chavez, visou sobretudo consagrar de modo muito simbólico a cooperação entre as duas nações, que se intensificou nos últimos dois anos, para assumir hoje proporções que ninguém previria.
 
O acordo oficial é simples: a Venezuela cede a Cuba 53 000 barris de petróleo por dia, ou seja, um terço das suas necessidades energéticas, por um preço especial. Em contrapartida, Havana fornece a Caracas 20 000 médicos, que mantêm em funcionamento dispensários nos bairros de lata, los ranchos, e nas aldeias afastadas da Venezuela, cerca de 6 500 treinadores desportivos, e 2 000 professores encarregados de erradicar o analfabetismo.
 
Para Fidel Castro trata-se de providencial balão de oxigénio, correspondente à ajuda financeira da União Soviética à Revolução castrista. Mas vai mais além.
 
Discretamente os cubanos têm penetrado nos Ministérios venezuelanos, exercendo difusa, mas real, influência. Um empresário europeu, muito relacionado com a alta administração venezuelana, desabafou siderado que, desde há um ano, em todas as reuniões em que participa os encontra presentes. Um adversário de Chavez do Ministério das Infra-estruturas confirma furioso que “doravante a prioridade é favorecer Cuba de qualquer forma”. Nos pedidos de ajuda é obrigado a retirar processos por não serem cubanos. E acrescenta que o mais ridículo é que ele e outros são enviados a Havana para aprender a construir estradas, quando na Venezuela estas têm quarenta anos de avanço sobre as de Cuba.
 
No domínio militar também os laços se têm estreitado, segundo um almirante, antigo Director da Escola de Altos Estudos da Defesa Nacional, que afirma que os estágios em Cuba passaram a fazer parte dos cursos de formação dos oficiais venezuelanos, enquanto todos os acordos de cooperação militar com os Estados Unidos e os países europeus foram suspensos. Os próprios generais são enviados a Havana, por períodos de sete a quinze dias, onde se encontram em privado com Raul Castro, irmão de Fidel, e Ministro das Forças Armadas revolucionárias. Uma importante minoria, prossegue esse almirante, desaprova a nova política, mas não adianta nada, porque quem discordar tem a carreira cortada.
 
Em Agosto, 60 oficiais escolheram Fidel Castro como padrinho de promoção, e a sombra do “Líder máximo” paira também sobre a Telesur, espécie de Al-Jazira latina, por ele criada há cinco anos numa conferência de 450 jornalistas latinos reunidos em Havana, como afirma um jornalista uruguaio, seu simpatizante e Director-Geral da cadeia que tem a sua sede em Caracas. Fidel Castro sugeriu a ideia, e Chavez executou-a com os petrodólares que correm a jorros e lhe dão extraordinária potência financeira, na “Venezuela saudita”, como há quem chame ao quinto exportador mundial de petróleo, após o advento de Hugo Chavez.
 
Hoje, como vemos, é tudo muito diferente do que vimos e conhecemos na Venezuela. De gerida por tecnocratas independentes do poder, a companhia petrolífera Petróleos de Venezuela (PDVSA) passou ao controlo absoluto do Presidente da República, e 18 000 quadros foram despedidos e substi­tuídos por os chamados simpatizantes “bolivarianos”. No final do ano o gerente presta contas ao Ministro da Energia e, com o seu opaco organograma, só Chavez sabe o que se passa, como se queixa o professor de economia da Universidade Católica Andrés Bello, salvo que, em Março deste ano, a PDVSA, até ai apenas com representantes nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Holanda, abriu escritórios em Havana e entre outros projectos, já arrancou o de reabilitação da obsoleta refinaria de Cienfuegos, na costa sul da ilha.
 
O Presidente da República interino, após a destituição por corrupção de Carlos Andrés Perez em 1993, passou a ser Ramon J. Velásquez, em virtude do seu prestígio e autoridade moral. Curiosamente havia sido eleito em 1992 membro correspondente da Academia Portuguesa da História e por ela foi elevado a membro de mérito, após a sua investidura presidencial no ano seguinte. Comenta com sábia placidez a situação inédita do novo eixo Chavez/Castro, considerando não haver semelhante precedente na história do castrismo, não obstante em 1979, quando da revolução sandinista, haver tido a Nicarágua na mão. Mas a aliança com um país produtor de petróleo como o nosso (o dele Velásquez) vai muito mais longe em virtude da importância crucial do ouro negro no mundo actual.
 
Possuidora de fabulosas reservas a Venezuela vende actualmente aos Estados Unidos 70% da sua produção, correspondentes a 15% do aprovisio­namento, e Chavez quer quebrar esta interdependência e fazer pagar a Bush o apoio que ele imprudentemente concedeu aos seus adversários no efémero golpe de Estado de 2002, diversificando a sua clientela e estabelecer novas parcerias, designadamente com a China e, é claro, com Cuba.
 
Um especialista da doutrina do Presidente da Venezuela, Alberto Garrido, autor da obra A Guerra (assimétrica) de Chavez afirma que este visa uma ruptura geopolítica total com a utilização do petróleo como arma estratégica e acrescenta ser inegável que o “caso” Chavez e o seu antiamericanismo visceral constituem um terrível quebra-cabeças para os estrategas do Pentágono. Os americanos subestimaram durante muito tempo este animal político.
 
Pensavam que era apenas um orador dotado. Verificam hoje que faz o que diz, e até mais. O último exemplo foi o da suspensão a 7 de Agosto do acordo de cooperação com os agentes americanos da Drug Enforcement Agency, instalados há duas décadas na Venezuela, e no preciso momento em que escrevemos, acaba de desligar dos Estados Unidos na luta contra o narcotráfico, segundo foi noticiado, por nesse tráfico estarem presumidamente envolvidos dois generais venezuelanos.
De notar que na campanha eleitoral de 1998 Hugo Chavez nunca invocou, nem Cuba, nem Fidel Castro, mas apenas Jesus Cristo e Bolívar, nos seus assomos messiânicos. Na época poucos venezuelanos conheciam os laços entre ambos. Contudo a “paixão súbita” entre os dois já durava desde 1994. Só poucos meses após a sua saída da prisão é que Hugo Chavez foi convidado para ir a Havana, onde ficou surpreendido por, ao descer do avião, haver sido acolhido como um Chefe de Estado. Durante a visita os dois entenderam-se às mil maravilhas, apesar da diferença de idades ser de vinte e oito anos. À partida o venezuelano proclamou alto e bom som: Cuba é o bastião da dignidade latino-americana e, como tal, é necessário ajudá-la e alimentá-la.
 
 O velho guerrilheiro Teodoro Petskoff, que abandonou a luta armada em 1968 após a invasão da Checoslováquia e conviveu muito com Fidel Castro, sendo hoje director do diário Tal Cual, onde subscreve editoriais altamente ácidos, é de opinião que a admiração sem limites de Chavez por Fidel é de ordem psicológica, estando convencido que, aos olhos deste, aquele não passa de um “idiota útil” “Quando, com 17 anos, Chavez entrou na Academia Militar, Fidel era uma espécie de catedral revolucionária. Era o ícone absoluto. Trinta anos mais tarde, o nosso Presidente manteve esta visão acrítica. Mas, de facto, creio que o seu relacionamento com Fidel é mais afectivo do que político. Quanto a Castro, este encantador de serpentes, lisonjeia o ego de Chavez de maneira tão obscena que não compreendo como o último não se apercebe disso. Fidel deixa-o crer que o que se passa na Venezuela lhe interessa. Mas, no fundo, para ele a única coisa que interessa verdadeiramente é o futuro da sua ilha.
 
Em Caracas, megalópole de betão, a questão cubana não deixa de ser em qualquer caso motivo de debate. No inicio de 2001, Chavez no poder havia dois anos, estando em pleno estado de graça, abriu o jogo, autorizando o Ministério da Educação a reescrever manuais escolares com uma crítica frontal aos quarenta anos de democracia anteriores à sua ascensão ao poder e o elogio do seu projecto político “bolivariano”.
 
Criou nos bacharelatos um programa de instrução pré-militar obrigatória confiado a Carlos Lanz, marxista radical célebre por ter, em 1976, raptado um empresário americano que passou três anos enclausurado numa árvore da selva, e preside hoje à principal empresa siderúrgica venezuelana. Mas, imediatamente, milhares de docentes e familiares saíram à rua aos gritos “não toques no meu filho”. O Ministro da Educação fez marcha-atrás, garantindo não ter a intenção de “cubanizar” o ensino escolar.
 
Esta foi a primeira de uma longa série de manifestações e o ponto de partida da polarização da sociedade venezuelana em que uma grande parte da colónia portuguesa assumiu uma posição extremamente adversa contra Chavez, mantida ostensivamente até ao conselho de Castro em 2003, perante a diminuição da popularidade daquele. Aconselhou-lhe o aproveitamento dos seus médicos para lançar a operação Barrio Adentro, com 20 000 práticos de saúde enviados para darem consultas nos “ranchos”, bairros de lata, efectivamente degradantes, e nas aldeias, onde milhões de pobres, pela primeira vez na vida tiveram acesso gratuito à assistência sanitária. Com isso, a popula­ridade de Chavez, com o seu carisma pessoal, aumentou de modo a atingir actualmente os 70% de apoiantes.
Castro ainda lhe deu outro conselho: o da alfabetização dos 7% de vene­zuelanos que não sabiam ler nem escrever, a qual obteve grande êxito, pois alguns beneficiários consideraram que pela primeira vez desde há vinte e cinco anos um governo ajudava os pobres, embora admitindo que a ajuda não era desinteressada, porque os professores pressionavam-nos a tomar parte nas manifestações e a votar nas eleições a favor do Presidente, além de descreverem Cuba como um país fantástico e de lhes dizerem muito mal dos Estados Unidos. Além disso, criaram “animadores sociais”, que a oposição considera serem agentes de cubanização da Venezuela.
 
Quanto a Chavez, dispõe de um poder que nunca nenhum outro Presidente eleito da Venezuela possuiu: o petróleo, que existe em 22 das 24 regiões, o Conselho Eleitoral Nacional, o Supremo Tribunal, entre outros, e continua a ser fundamentalmente um militar estilo autoritário. Mas foi eleito e ocupa isolado a cena política devido ao vazio deixado pela oposição, incapaz há sete anos de se renovar e de formular um discurso social susceptível de atrair as classes mais desfavorecidas. De facto, as condições de vida destas eram, como pudemos verificar, verdadeiramente degradantes.
 
Não se pode dizer formalmente que o modelo cubano se tenha mostrado na Venezuela, pois existem partidos de oposição na Assembleia Nacional e há pluralismo e liberdade de expressão, além de só 6% dos venezuelanos serem favoráveis à adopção do modelo cubano.
 
O que não impede de há muito Fidel Castro ter aspirações sobre a Venezuela. Logo dois meses depois de Fidel Castro ter assumido o poder a primeira viagem que efectuou, em 1959, foi à Venezuela pedindo um auxílio de 300 milhões de dólares ao Presidente Rómulo Betancourt, que lho recusou, comentando depois que Castro não era um homem, mas um ciclone tropical, como recorda Rámon Velásquez, um dos muito próximos do Presidente seu antecessor.
 
Os laços entre os dois países esfriaram-se e Betancourt tornou-se um dos ferros de lança do anticastrismo, por aquele tentar exportar a sua revolução apoiando a guerrilha venezuelana a quem chegou a enviar um carregamento de armas, que foi apreendido. Devido a isso, em 1962, Cuba foi expulsa da Organização dos Estados Americanos e Castro sofreu o isolamento na América Latina, mas quarenta anos passados ei-lo largamente compensado pela sua paciente persistência, graças ao novo ciclone tropical Hugo Chavez, segundo Axel Gyldén.
 
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A situação actual na Venezuela pareceu-nos de interesse e importância quanto à sua informação e análise por diversos motivos:
 
- os riscos da injustiça inaceitável das desigualdades e da falta de solidariedade humana existentes no mundo;
 
- a circunstância de as existentes na Venezuela haverem criado naquele país uma quebra da influência portuguesa, susceptível de se agravar com o decorrer do tempo, e de consequências altamente gravosas para portugueses;
 
- o aproveitamento que dessas injustiças podem retirar demagogos, hábeis comunicadores, que no caso presente contribuíram para as atenuar consideravelmente, devido em parte a uma invulgar capacidade de utilizar os meios de comunicação, em especial a televisão;
 
- a inspiração e aproveitamento que dele fez Fidel Castro, que no entanto manteve, pelo menos até agora, o seu povo sujeito a idênticas ou maiores injustiças do que as atenuadas na Venezuela;
 
- o perigoso projecto de criação de um “socialismo do século XXI”, tendo por mentor um hábil, mas pouco escrupuloso político que, pelo seu anti-americanismo, sobreviveu à custa do apoio da União Soviética, susceptível de vir a afectar as relações de Portugal com a Venezuela e outros países sul-americanos;
 
- é também desafecto à União Europeia, embora em menor grau, mas podendo afectá-la consideravelmente após a crise provocada pelo não francês e holandês, e com o resultado empatado, e ainda não solucionado no momento em que escrevemos, das eleições legislativas na Alemanha, aumentando-lhe as vulnerabilidades, quando se esperam graves consequências do crescimento político e económico da China, e também da Índia e do Paquistão, em razão dos quais muitos prevêem ser necessário alterar nela o funcionamento geral das burocracias, quer dos Estados membros, quer da própria comunidade, para evitar que ela sucumba perante a concorrência que irá ter de enfrentar numa situação, actualmente já de grande vulnerabilidade, política, económica, financeira e militar;
 
- finalmente, pareceu-nos de chamar a atenção para o facto de essas “ligações perigosas Chavez/Castro” poderem, eventualmente, degenerar numa “guerra assimétrica” de carácter global, visando com particular incidência os Estados Unidos e a Europa.
 
 
 
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2005-12-12
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REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia