Nº 2614 - Novembro de 2019
Crónicas Bibliográficas

Vila Real - R.I.13 – Memória da Grande Guerra

Ribeiro Aires

 

A obra “Vila Real – RI13 Memória da Grande Guerra” é fruto da experiência de vida do seu autor – Dr. Joaquim Ribeiro Aires. Por um lado, aborda uma temática histórica – a I Grande Guerra –, consequência dos seus estudos superiores e do seu percurso profissional (professor de História, entre 1975 e 2007). Por outro, pode considerar-se circunscrita às “gentes” da região onde nasceu, onde viveu e vive – Trás-os-Montes e Alto Douro e, em especial, à cidade de Vila Real. O recurso a frequentes citações da imprensa regional da época, para além de um trabalho de pesquisa notável, está, mais uma vez, intimamente ligado à sua experiência profissional – colaborador da imprensa, em Vila Real, desde 1978.

Reportório condensado sobre as causas e evolução “histórica” da guerra, apresenta, de forma simples e clara, as tendências da época quanto às diferentes posições sociais (política, intelectual, militar e media) perante a participação portuguesa na guerra. Recorrendo a citações da imprensa vila-realense da época, posiciona-a, inicial e maioritariamente, durante o conflito, como favorável à participação no esforço de guerra. Já no que concerne ao pós-guerra e, compreensivamente, no princípio a imprensa exalta a “heroicidade” da participação militar portuguesa, abordando, posteriormente, esta temática com maior “realidade”.

Não obstante a pouca preparação militar (técnica, tática e de procedimentos), a falta de equipamentos ou até a decisão “intransigente” em integrar o Corpo Expedicionário Português (CEP) sob comando dos nossos velhos aliados – Ingleses[1] –, assim como a pouca capacidade ou preparação nacional para garantir serviços tão importantes como o “moral e serviços de pessoal”, aos nossos militares sempre foi exigido, pelas autoridades politicas nacionais[2], a disponibilidade e o sacrifício.

Em termos militares, a obra que ora prefaciamos aborda, essencialmente, as campanhas onde participaram militares do “13”; resumidamente, a campanha africana e em pormenor o empenhamento do Batalhão de Infantaria 13 (BI13) que, junto com mais vinte e três batalhões de soldados portugueses, integraram o CEP. Comove quem, atualmente, como “Infante do Marão”, lê citações da época associadas à partida dos nossos ex-combatentes – em 7 e 8 de outubro de 1916, para Tancos, e em 21 de abril de 1917, em direção à Flandres. Estima e ligação umbilical que ainda hoje se sente nesta “linda terra transmontana” que “tem seu quartel um Regimento, que mostra um 13 na Bandeira, quando flutua, altiva, ao vento”[3].

O autor da obra não foge à dissonância de testemunhos entre o Comando do BI13 – essencialmente o seu Comandante, Major Gustavo Pissarra e o seu 2.º Comandante, Capitão Bento Roma – e o Comandante da 3.ª Companhia, Capitão David Magno, que, em Les Lobles – nas imediações de La Couture –, com parte dos seus homens, juntando-se a militares do Batalhão de Infantaria N.º 15 e a militares escoceses, se constituiu como a derradeira resistência “nacional” à ofensiva alemã, batendo-se durante mais de cinquenta e seis horas, até que, exauridos, sem munições, e por decisão superior, retiraram para a retaguarda.

Passados 100 anos da Batalha de La Lys (Ypres, para os ingleses, e Armentières, para os alemães), ainda que, do ponto de vista histórico, seja sempre importante a procura da “verdade”, do ponto de vista da sociedade – sendo difícil ou mesmo impossível, colocarmo-nos no “lugar“ dos nossos antepassados –, a realidade é que todos temos que agradecer aos portugueses que, ainda que fora das nossas fronteiras, contribuíram decisivamente – alguns, infelizmente, com a própria vida –, para o que hoje somos – uma Nação livre e independente.

Assim, por mais contraditório que pareça, a avaliação de glória ou fracasso, para além de se encontrarem associadas, complementam-se. Os “nossos militares” que integraram o CEP perderam uma batalha (basta analisar o potencial relativo de combate dos contendores para se perceber que era uma missão, à partida, sem sucesso militar), mas ganharam a guerra.

Heróis, foram todos. Basta estar nas circunstâncias que, hoje, temos conhecimento, e termos em consideração o pesadelo que foi viver naquelas trincheiras – se isso é possível –, e facilmente nos apercebemos da necessária coragem e espirito de sacrifício destes nossos concidadãos. Razão porque se louva a homenagem que, com esta obra, se presta:

– Aos heróis da “terra” (por naturalidade ou por integrarem o BI13): Américo Pelotas; Gomes de Carvalho; David Magno e Carvalho Araújo;

– Aos portugueses que incorporaram o BI13, assim como outras unidades integradas no CEP, identificando as suas origens, importante “arquivo histórico” transmontano e, em particular, para os seus “filhos”;

– A todos os ex-combatentes portugueses, a quem, todos, estamos em dívida. Aliás, o próprio autor, ainda que num ambiente operacional ligeiramente diferente, é um ex-combatente, pois “serviu”, como alferes miliciano, entre setembro de 1971 e dezembro de 1973, no teatro de operações da Guiné-Bissau.

 

Coronel Tirocinado Nuno Manuel Mendes Farinha

2.º Comandante da Brigada de Intervenção

 

NOTA: A Revista Militar felicita o autor pela publicação desta obra e agradece o volume que foi ofertado para a Biblioteca, pelo, então, Comandante do RI N.º 13.

 


[1]    Foi considerada a possibilidade do CEP ficar integrado no setor francês.

[2]    O ambiente político nacional, ainda pós “Implantação da República”, era muito instável.

[3]    Excertos do Hino do Regimento de Infantaria N.º13.

Tenente-coronel
Nuno Manuel Mendes Farinha
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