Nº 2615 - Dezembro de 2019
Crónicas Bibliográficas

Pax Sinica: all roads lead to China

Paulo Duarte, Chiado Editora, 2017

 

“Pax Sinica” tem como tema central a importância da Nova Rota da Seda da China e foi publicada pela Chiado Editora, em língua inglesa. O autor, Paulo Duarte, sustenta essa mesma importância ao longo de todo o livro, abordando, numa perspetiva essencialmente geopolítica, vários aspetos relacionados com a presença e interesses chineses nos denominados chokepoint.

No prefácio de Li Xing (diretor do centro de investigação em relações internacionais e desenvolvimento da Universidade de Aalborg, na Dinamarca), são sintetizadas as várias questões relacionadas com o crescimento da China, tendo como estandarte a nova Rota da Seda, questões essas que fazem parte dos oito capítulos do livro, designadamente:

I – O “momentum” da China: a tripla securitização do “One Belt One Road”;

II – A China como um Poder Regional: o caso da Ásia Central;

III – Os mares Sul e Este da China: perspetivas para uma nova era centrada na China?

IV – O oceano esquecido: incursões da China no Pacifico Sul;

V – O dragão cospe fogo no gelo: o Ártico e a Antártida na nova rota da seda da China;

VI – A América Latina e o Atlântico Sul na política da China “One Belt One Road”;

VII – Afastando os espantalhos: uma avaliação da (in)segurança da China no que concerne aos recursos alimentares e à água;

VIII – Quando a terra não é suficiente: a corrida da China no espaço.

Cada um destes capítulos está muito bem sistematizado, contendo gravuras complementares em termos de informação. No final, inclui umas considerações finais, a que se segue uma excecional bibliografia especializada. Num trabalho que pretende, acima de tudo, justificar o crescendo de poder da China no atual sistema político internacional, os leitores são alertados para várias dimensões da Nova Rota da Seda, como a soft strategy, a securitização das rotas, as fronteiras da discórdia, Taiwan, a importância dos recursos, desde o Ártico à Antártida, o investimento na Marinha, a água e os alimentos, o espaço como instrumento de poder, etc.

Segundo o autor, num planeta em que os recursos começam a escassear, a comunidade internacional deve questionar-se mais sobre o papel da China, dado que o ponto de não-retorno foi atingido, pois a ascensão da China é irreversível e incontornável. É altura de o assumir e de o discutir, e este livro dá um excelente contributo nesse sentido, abordando vários temas em torno da Nova Rota da Seda, mas sem deixar de assumir que o ADN da China é o da Arte da Guerra de Sun Tzu, “A suprema arte da guerra consiste em derrotar o inimigo sem lutar”. Mas, para tal, a China como potência (re)emergente, nostálgica, pragmática e assertiva, tem de acrescentar a estas características a necessidade de construir uma narrativa histórica credível, na linha do passado glorioso que transformou a China no Império do Meio.

Para Paulo Duarte, o grande projeto da Nova Rota da Seda não constitui um plano explícito para a China dominar o Mundo, mas constitui, certamente, um instrumento para a China “alimentar” o crescimento demográfico e económico. A construção de referida “Pax Sinica” resulta, assim, do processo de edificação de um conjunto de infraestruturas, como estradas e vias marítimas de comunicação, sendo que a Nova Rota da Seda consiste na maneira da China se ligar ao novo Mundo e aos necessários recursos energéticos. E tanto Portugal, (com uma ZEE e uma Plataforma Continental ricas de recursos) como os países de língua portuguesa (em especial Angola e o Brasil), farão certamente parte da nova Rota, que não deixará de incluir Macau, com as consequentes vantagens competitivas para Portugal.

De acordo com Paulo Duarte, “se em tempos todas os caminhos iam dar a Roma, hoje em dia, Beijing esforça-se para assegurar que todos os caminhos vão dar, a médio e longo prazo, à China, transformando o país numa espécie de mega-polo à escala global. […] A Pax Americana reflete um paradigma puramente transitório para uma nova ordem: a Pax Sinica. Não se trata de saber se os Estados Unidos abrirão caminho para a China no firmamento do poder mundial, mas, antes, quanto tempo este processo durará. Anos, meses? […]”.

Nas palavras finais, Paulo Duarte reitera que não há nada de novo no que a China está a fazer, “a não ser”: a busca de espaço, de conetividade, e de acesso a minerais e fontes energéticas para sustentar o crescimento da sua população e a continuidade política do regime. Na prática e tal como os EUA já o fizeram, é a busca do “Chinese Dream”, feito de nostalgia, mas ao mesmo tempo de pragmatismo (e de soft power e da estratégia indireta que faz parte do ADN do Império do Meio). Numa lógica de “realpolitik”, o autor termina com uma questão importantíssima: é a China que se deve adaptar ao direito internacional, ou este último que terá que ceder face ao pragmatismo e assertividade de uma potência sequiosa de energia e de recursos alimentares?

Em resumo, “Pax Sinica” é um livro muito bem escrito, muito atual e que trata do futuro da humanidade, centrado na Nova Rota da Seda de uma China que substituirá os EUA como a maior superpotência mundial, dentro de alguns anos. Por todas estas razões, aconselhamos os leitores da Revista Militar a ler este livro, mas também a Chiado Editora a traduzi-lo (com as necessárias adaptações e atualizações) para a língua portuguesa, tão importante ontem, como hoje e amanhã na nova Rota da Seda. Ao Paulo Duarte os nossos parabéns, extensíveis a novas obras e artigos que vem publicando, em linha com esta tese de uma inevitável “Pax Sinica”.

 

A Revista Militar agradece a oferta do exemplar da obra, a qual enriquecerá o seu acervo bibliográfico.

 

Major-general João Vieira Borges

Vogal da Direção da Revista Militar

Major-general
João Jorge Botelho Vieira Borges
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