Nº 2458 - Novembro de 2006
Uma Breve Análise Sobre o Reavivar do Debate em Torno do Processo de Tomada de Decisão de Intervenção Militar da China na Guerra da Coreia (1950)
Tenente-coronel
Manuel Alexandre Garrinhas Carriço
1.  Introdução
 
A confrontação sino-americana aquando da Guerra da Coreia (1950-1953) que opôs o país mais populoso do mundo à maior potência militar resultou na maior retirada militar norte-americana da história militar e exponenciou uma política de rápido rearmamento por parte da Casa Branca, fazendo transbordar a Guerra-Fria para o continente asiático, a qual, no que concerne às relações entre Washington e Pequim iria condicionar drasticamente durante duas décadas a interacção destes dois actores do sistema político internacional.
 
Cinquenta e seis anos depois, a intervenção militar chinesa em apoio da Coreia do Norte continua a ser motivo de acesa discussão entre historiadores e cientistas políticos sobre qual o factor que terá determinado a decisão da China em intervir, isto mesmo após a progressiva desclassificação de documentos dos arquivos presidenciais russos e o surgimento de novas fontes chinesas, as quais não lograram esclarecer o racional adoptado na tomada de tal drástica decisão por parte de Pequim.1 Dos inúmeros seminários efectuados para comemorar os cinquenta anos da Guerra ressalta o facto de que o debate se tem centrado basicamente em torno de dois grandes campos de interpretação/justificação para a acção chinesa.O primeiro, justifica a entrada na guerra por parte da China como o resultado do avanço das forças militares norte-americanas para Norte do Paralelo 38 e em direcção ao rio Yalu, o que entrou em colisão com os interesses de segurança e uma dinâmica nacionalista e ideológicamente expansionista, que à altura Mao Zedong procurava implementar.3
 
O segundo campo, que surgiu na década de oitenta em resultado da publicação de estudos baseados em novas fontes chinesas, advoga a noção de que já antes do desembarque norte-americano em Inchon, a liderança política chinesa estava praticamente convencida sobre a inevitabilidade de uma intervenção, muito por causa da decisão do Presidente Harry Truman em proceder à neutralização do Estreito de Taiwan com a 7ª Esquadra Naval, isto numa altura em que Pequim se aprestava para concretizar uma invasão de Taiwan naquilo que designava como a “última campanha para reunificar a China”.Reforçadamente, após o ataque norte-coreano e a retirada das forças sul-coreanas e norte-americanas para a bolsa de Pusan no extremo Sudeste da península coreana, a temporária vulnerabilidade das forças adversárias deveria ser explorada a contento do movimento comunista mundial, redu­zindo a presença militar norte-americana numa área estrategicamente importante para a China.Um excessivo optimismo de Mao aliado a um zelo revolucionário terá contribuido para a intervenção, sendo os sucessivos avisos diplomáticos proferidos por Zhou Enlai para que as forças da ONU não ultrapassassem o Paralelo 38, e posteriormente não avançassem em direcção à fronteira chinesa, não mais do que um estratagema diplomático capaz de validar o jus belli por parte de Pequim aos olhos dos países neutrais.
 
No entanto, mais recentemente, e fruto da desclassificação dos arquivos presidenciais russos6, surgiu uma possível terceira teoria interpretativa, que junta argumentos de cada um dos campos anteriores, e que refere não o avanço para Norte do Paralelo 38 por parte das forças da ONU mas sim o desembarque em Inchon como o detonador da intervenção militar chinesa, mas coloca dúvidas quanto à justificação do processo de escalada militar subsequente entre Pequim e Washington. Os defensores desta argumentação alegam as sérias dúvidas albergadas por Mao Zedong quanto à tomada de decisão final para uma intervenção militar, e realçam os atritos entre o líder chinês e Estaline no que concerne ao estabelecimento de uma linha de acção comum e os entraves colocados pelo Kremlin no que dizia respeito ao fornecimento de armamento, equipamento e combustível à China, exigindo contrapartidas financeiras.
 
Para estes historiadores Estaline “entrou em pânico” após a ousada e bem sucedida manobra de Douglas MacArthur que dividiu em dois as forças norte-coreanas e lhes cortou as linhas de comunicação, o que resultou numa progressiva desintegração das forças militares de Kim Il-sung. O líder soviético começou então a centrar a sua atenção no planeamento estratégico da acção a desenvolver pela União Soviética com o intuito de impedir o avanço norte-americano, sem que Moscovo fosse arrastada para uma guerra com Washington. Inchon transformou aquilo que era até então uma política revolucionária expansionista por parte de Estaline e apoiada nas suas linhas gerais por Mao, numa versão mais defensiva, que seria conduzida pelo recurso ao “peão chinês” como instrumento essencial para impedir uma eventual vitória norte-americana na península coreana e as daí dramáticas repercussões globais para o movimento revolucionário mundial comunista.
 
Desta forma o desembarque em Inchon terá sido o catalizador da intervenção militar chinesa apoiada materialmente pela União Soviética, sendo a travessia do Paralelo 38 um argumento utilizado tanto por Mao como por Estaline para tentarem obter um regresso ao status quo ante, sem entrarem em conflito militar directo com os Estados Unidos.
 
 
2.  O Racional Estratégico da China até ao Desembarque Norte-americano em Inchon
 
Tradicional e historicamente, a China sempre havia encarado a península coreana como um Estado tributário.7 A visão estratégica de Mao não se alterou substancialmente durante a Guerra Civil chinesa. Com efeito, mesmo na fase final da mesma, este preocupou-se mais com o apoio ao movimento comunista vietnamita de Ho Chi Minh, do que à República Popular da Coreia.8
 
Na verdade, os assuntos coreanos que diziam directa ou indirectamente respeito à China eram tratados por Mao com a liderança soviética. Paralelamente, e não obstante o facto de alguns militares norte-coreanos terem relações privilegiadas com o Partido Comunista Chinês, ironicamente Kim Il-sung não era um deles. Mao via Kim como um homem de Moscovo, e duvidava das suas qualidades de liderança não apenas política mas também militar.9
 
Esta atitude de Mao Zedong poderia classificar-se como compreensível em termos geopolíticos. Independentemente da fronteira entre a União Soviética e a Coreia do Norte não ultrapassar os vinte quilómetros, desde 1946 que Moscovo havia dispendido um grande esforço na modernização militar do Partido Comunista Norte-Coreano. Quando as tropas soviéticas se retiraram da Coreia em 1948, deixaram um Exército Popular Norte-Coreano (EPNC) com mais de 135 mil homens divididos em dez Divisões. As forças armadas norte-coreanas ficaram com uma Força Aérea de média dimensão, e uma das dez Divisões estava completamente equipada com 150 carros de combate T-34, e algumas dezenas de obuses de 120mm.
 
Antes de Outubro de 1949, a preocupação chinesa prendia-se fundamentalmente com a possibilidade de o regime sul-coreano de Singman Rhee com apoio norte-americano, efectuar uma ofensiva em larga escala para destruir o governo de Kim Il-sung. Aquando da visita de Liu Shaoqi a Moscovo no Verão de 1949, os soviéticos informaram os chineses de que tal era possível que acontecesse a curto prazo.10 Quando obteve esta informação, Mao fez deslocar para a Manchúria algumas das forças do futuro delfim de Mao, o General Lin Biao, para efectuarem um eventual apoio aos “camaradas norte-coreanos na sua luta contra o imperialismo”, segundo um racional estratégico primordialmente defensivo.11 Mas depois de Outubro de 1949, Pequim começou a preocupar-se seriamente com os insistentes pedidos de Kim a Moscovo para apoio a um “ataque preventivo” contra o governo sul-coreano. Sem ter informado Pequim da sua decisão de apoiar o ataque norte-coreano, pode-se tentar explicar o racional de Estaline segundo quatro vectores político-estratégicos:
(1) a vitória comunista na guerra civil chinesa;
(2) a produção da bomba atómica por parte da União Soviética (testada pela primeira vez em Agosto de 1949);
(3) a formação da OTAN e o agravamento das relações soviéticas com o Ocidente; e
(4) a percepção de um enfraquecimento da posição militar americana na Ásia.
 
A não consulta prévia de Mao justificou-se com a necessidade soviética de desenvolver atempadamente os planos de ataque sem a interferência ou objecções chinesas, cuja prioridade se centrava em Taiwan, um teatro de operações sobre o qual Estaline não estava particularmente preocupado. O objectivo era colocar a liderança chinesa perante um fait accomplit.12 Para Mao, as condições para uma reunificação pela força da península coreana ainda não estavam reunidas, visto que o EPL combatia o remanescente das forças nacionalistas, e procurava agora centrar a sua atenção em Taiwan, pelo que o deflagrar de um conflito perto da sua principal região industrial e das linhas de comunicação que ligavam a China à União Soviética na Manchúria, materializavam um sério revés nos projectos de reunificação a curto prazo delineados pela liderança comunista chinesa. Adicionalmente, as informações de que Pequim dispunha, não viam como viável uma ofensiva do regime de Singman contra Kim. Na perspectiva de Pequim, se Kim aguardasse até à conquista de Taiwan, Mao não lhe regatearia o apoio que fosse necessário, mesmo em caso de intervenção militar americana.
 
Mas em Janeiro de 1950 as declarações feitas por Dean Acheson, nas quais anunciava que a linha de defesa norte-americana estendia-se das ilhas Aleutas, passava pelo Japão e Okinawa, e ia até às Filipinas, indiciavam tanto à liderança norte-coreana como chinesa, que a Coreia do Sul e Taiwan não faziam parte do plano de apoio militar americano.13
 
Interpretando literalmente as palavras do Secretário de Estado norte-americano, Kim Il-sung tinha agora outros planos, e quando em 13 de Maio de 1950 efectuou a sua visita a Pequim, colocou Mao perante um facto consumado: Moscovo já havia concordado com os seus planos de reunificação pela força, ainda que sugerindo ao líder norte-coreano que procurasse obter a concordância de Pequim.14 Operacionalmente, Estaline tinha supervisado pessoalmente os preparativos, fornecendo não apenas ajuda material, mas também técnica (conselheiros militares).15
 
Perturbada por esta notícia, a liderança chinesa de imediato pediu uma confirmação directa do próprio Estaline, a qual chegaria no dia seguinte através do embaixador soviético em Pequim.16 Confrontado com este encómio estratégico, a Mao não restou outra opção senão declarar o seu apoio aos planos de Kim, porque caso tivesse respondido negativamente, poderia não só estar a colocar em causa a sua aliança com Moscovo, mas também entraria em contradição com as suas próprias declarações de que era essencial a solidariedade entre os movimentos comunistas revolucionários internacionais.17 Não obstante, para Mao, havia sido lançado o embrião da rivalidade Sino-Soviética: a de que seria possível que Washington e Moscovo se tivessem unido na península coreana de forma a impedirem a reunificação completa da China e a sua ascensão no sistema político internacional.18
 
Perante o anteriormente referido, o deflagrar da Guerra da Coreia em 25 de Junho de 1950 com a ofensiva norte-coreana - da qual Pequim só foi informada com três dias de antecedência - consubstanciou um grande revés para os projectos políticos de Mao Zedong de reunificação da China. De facto aquando da invasão norte-coreana, Mao e o EPL encontravam-se em avan­çados preparativos com vista a uma invasão de Taiwan, capaz de eliminar o último bastião de resistência nacionalista ao poder comunista na China.
 
Os combates iniciaram-se às 04h40 locais com uma preparação de 40 minutos de artilharia sobre as forças sul-coreanas estacionadas na região da península de Ongjin expandindo-se rapidamente para Este até Kaesong. Ainda que o ataque em si não tivesse sido algo que não esperassem, para as forças sul-coreanas o que as supreendeu foi a determinação do Exército norte-coreano. A correlação de forças era vantajosa para Kim Il-sung e para o seu comandante operacional o General Kim Cháek (2:1 no número de efectivos, 2:1 no número de armas; 7:1 no número de metralhadoras pesadas; 13:1 em metralhadoras ligeiras; 6:1 em aviões e carros de combate). O plano de operações previa um avanço inicial de 15/20 quilómetros por dia e a conclusão das operações militares entre 22 a 27 dias.19
 
As 3ª e 4ª Divisões reforçadas com uma Brigada mecanizada do EPNC penetraram o dispositivo defensivo do 1º Regimento da 7ª Divisão do Exército da República da Coreia (ERC), o que lhes permitiu avançarem quase de imediato, e com pouca resistência, até Seul.
 
Kim Il-sung esperava que com a rápida conquista da capital da Coreia do Sul, os Estados Unidos postos perante um facto consumado optassem por uma abordagem passiva face aos projectos de reunificação coreana de Piongyang. Em Washington, a Administração Truman foi surpreendida pelo ataque, uma vez que tudo apontava para que os discursos de Kim Il-sung não passassem de retórica revolucionária inflamada e de um “bluff” político-militar. Para Washington, o ataque norte-coreano era agora visto como um teste soviético à determinação americana em resistir a uma agressão a aliado seu.
 
Se os Estados Unidos não acorressem em defesa de Seul, a fraqueza americana poderia fazer com que os próximos alvos soviéticos pudessem vir a ser a Alemanha Ocidental, ou talvez o Irão.20
 
Para além do mais, a facilidade com que o EPNC avançou e rompeu o dispositivo defensivo do ERC (treinado por conselheiros norte-americanos) criou fortes preocupações geopolíticas em Washington quanto ao futuro do regime sul-coreano. O governo de Rhee abandonou Seul, deslocando-se para Sul, para Suwon, e mais tarde para Taejon. Washington enviaria em 27 de Junho o Brigadeiro-General John Church numa missão de aferição do potencial de resistência do ERC, comandado pelo Major-General Chae Pyongdok. Com uma ofensiva norte-coreana a decorrer ao longo do rio Han, e com a manifesta insuficiência do apoio de fogos de artilharia e de aviões de combate com que o ERC se confrontava, um dia depois de chegar ao teatro de operações, o General norte-americano informou o Pentágono de que a República da Coreia só sobreviveria se os Estados Unidos enviassem de imediato reforços militares.21 Perante a gravidade da situação operacional, a administração norte-americana de Harry Truman ordenou, numa primeira fase, a neutralização do Estreito de Taiwan pela Marinha norte-americana em 27 de Junho.
 
Entretanto, o Conselho de Segurança da ONU aprovava rapidamente uma resolução que determinava o envio de forças multinacionais em apoio da Coreia do Sul, graças à ausência do embaixador da União Soviética Yakov Malik, que desde Janeiro tinha instruções para não se sentar neste órgão das Nações Unidas, como protesto pelo facto de Taiwan continuar a representar a China.22
 
Entretanto em Pequim e imediatamente após o início das hostilidades, chineses, soviéticos e norte-coreanos reuniram-se por várias vezes com o objectivo de planearem e apoiarem a consolidação harmoniosa do esforço de guerra de Piongyang.23 O optimismo resultante do rápido ritmo de progressão em direcção a Sul das forças norte-coreanas fazia adivinhar uma resolução a breve trecho da questão coreana, podendo permitir a Mao redireccionar a sua atenção novamente sobre Taiwan.24
 
O fulgurante sucesso inicial da ofensiva norte-coreana deixaria por sua vez o regime sul-coreano enclausurado numa bolsa de resistência no Sudeste da península, na região do importante porto de Pusan e dependente do apoio imediato norte-americano. Em 2 de Julho, depois de obter autorização da Casa Branca para o envolvimento directo de forças terrestres no conflito, o General norte-americano Douglas MacArthur fez avançar desde o Japão e para o porto de Pusan o 1º Batalhão do 21º Regimento da 24ª Divisão, onde chegou em 5 de Julho.
 
Uma vez chegados ao porto, as tropas americanas avançaram em direcção a Taejon com a missão de retardarem o movimento das forças norte-coreanas.25 O Batalhão estabeleceu uma posição defensiva na auto-estrada que ligava Seul a Pusan, na região de Osan. Com as posições ainda em preparação, as forças americanas foram envolvidas pelas forças norte-coreanas originando a perda quase total dos efectivos do Batalhão. Por esta altura era óbvio que MacArthur havia subestimado a determinação do Exército da Coreia do Norte em enfrentar as forças norte-americanas.
 
Entre 10 e 12 de Julho, os norte-coreanos efectuaram com sucesso a travessia do rio Kum, o que obrigou o General americano a planear a defesa de Taejon. Sob o comando do Major-General William Dean, a 24ª Divisão defendeu desde 18 de Julho e durante cinco dias a cidade, com pesadas perdas para as tropas americanas (captura do General Dean e destruição de dois Regimentos). Ainda que tenha logrado retardar o movimento para Sul das forças de Kim Il-sung, a MacArthur restava mandar retirar até Taegu, uma das últimas cidades passíveis de serem defendidas com vantagem antes da possível conquista de Pusan, em torno da qual um perímetro defensivo de mais de 45 mil tropas americanas havia sido montado (aproximadamente mais do dobro dos efectivos norte-coreanos). Seria exactamente neste último reduto, que as forças americanas e sul-coreanas obteriam as suas primeiras vitórias sob o comando do General Walton Walker. Em meados de Agosto, o 8º Exército repeliu a 6ª, 1ª e 13ª Divisões do EPNC e destruiu virtualmente a 3ª quando esta efectuava a travessia do rio Naktong (nas imediações de Taegu).
 
No início de Setembro de 1950, Kim Il-sung controlava noventa por cento da península coreana, mas não lograva conquistar a região de Pusan, onde de dia para dia o dispositivo americano era reforçado com novas unidades, chegando a um total de 150 mil homens (metade dos quais sul-coreanos). A impaciência de Kim é demonstrada na troca de telegramas entre o líder coreano e Estaline, na qual este aconselha Kim a não dispersar a sua Força Aérea, concentrando o máximo do seu potencial na frente de combate.26
 
Enquanto que o avanço do EPNC era sustido, MacArthur planeava a execução de uma operação de extrema audácia atrás das linhas inimigas. Caso fosse bem sucedido, o avanço das forças aliadas da ONU não se ficaria pelo Paralelo 38; o objectivo seria a partir de então a reunificação de toda a Coreia.27 A Directiva 81 do Conselho de Segurança Nacional Norte-Americano (NSC-81) escrita em 1 de Setembro de 1950 e aprovada pelo Presidente Truman dez dias depois, daria a MacArthur a liberdade de acção necessária a conduzir operações militares a Norte do Paralelo 38, “desde que forças militares chinesas e/ou soviéticas não anunciassem ou ameaçassem a sua participação em operações no território da Coreia do Norte, pois um regresso ao status quo ante de 25 de Junho não era desejável”.28
 
 
3.  Inchon: O Ponto de Viragem
 
A 15 de Setembro de 1950 dar-se-ia a resposta fulgurante de MacArthur, com o desembarque anfíbio em Inchon, bem atrás das linhas inimigas.29 Partindo de Kobe e Yokohama no dia 11 de Setembro, mais de 250 navios transportaram a 1ª e a 25ª Divisões de Marines com a missão de desembarcarem em Inchon.30 Os 5º e 7º Corpos de Marines juntar-se-iam a estas Divisões mais tarde. Entre 13 e 14 de Setembro, efectuou-se um intenso bombardeamento naval. Ainda que este bombardeamento indicasse clara­mente a Kim Il-sung que iria haver neste local um desembarque, este encontrava-se impossibilitado de fazer movimentar em tempo útil as forças que cercavam o perímetro de Pusan.31
 
A resistência de cerca de 2 mil efectivos do EPNC foi rapidamente suprimida e o deslocamento até Seul enfrentou muito pouca resistência. No dia 25 de Setembro, as forças da ONU entravam na capital sul-coreana, onde durante três dias procederiam à limpeza das bolsas de resistência existentes no interior desta, materializando o final da Operação Chromite.32
 
Entretanto, quatro dias depois do desembarque em Inchon, as forças que defendiam o perímetro de Pusan lançaram uma contra-ofensiva. O plano visava um ataque para Oeste com quatro Divisões americanas em quatro eixos diferentes, com o objectivo de “destruírem ou envolverem” o inimigo dependendo o ritmo de progressão da resistência oferecida pelo EPNC em cada um dos eixos. O objectivo era a junção com as forças que estavam a caminho de Seul. O corte das linhas de reabastecimento e de itinerários de retirada para Norte das forças do EPNC que cercavam a região de Pusan, teve efeitos devastadores sobre estas. No dia 26 de Setembro, as linhas de defesa norte-coreanas sucumbiriam à pressão ofensiva aliada, com milhares de tropas a renderem-se e um pequeno remanescente a refugiar-se nas montanhas com o intuito de prosseguir a guerra, ainda que agora sob a forma de acções de guerrilha.33
 
A 29 de Setembro, as ténues esperanças chinesas de que a guerra poderia ser controlada com um retorno ao status quo ante foram destruídas com a aprovação do plano de conquista da Coreia do Norte elaborado por MacArthur, legitimado, segundo a interpretação do General americano pela NSC-81. MacArthur havia recebido ordens no sentido de não atravessar o Paralelo 38 sem autorização pessoal do Presidente Truman, mas a manutenção do ímpeto ofensivo das forças americanas não era compatível com um processo de tomada de decisão política não muito célere34, que poderia comprometer a perseguição e destruição do remanescente do Exército norte-coreano.35
 
O 8º Exército deslocar-se-ia em direcção a Piongyang e o 10º Corpo de Exército retiraria da região de Inchon-Seul para efectuar um novo desem­barque anfíbio, agora em Wonsan. As forças da ONU tinham assim uma total liberdade de acção para prosseguirem o movimento para Norte do Paralelo 38.36
 
Este avanço quase que imparável para Norte das forças da ONU, que entretanto haviam já ultrapassado o Paralelo 38 e se movimentavam em direcção a Piongyang, gerou fortes preocupações em Moscovo e Pequim, fruto da possibilidade concreta de perderem, geopoliticamente falando, quer respectivamente uma base de projecção para um eventual ataque ao Japão37, quer um Estado tampão de defesa contra as forças americanas que eventualmente poderiam não se ficar apenas pela fronteira materializada pelo rio Yalu.38 Perante o colapso do EPNC, Estaline aumentou a pressão político-diplomática sobre Pequim para que esta interviesse militarmente, fazendo crer que a derrota norte-americana dependia e em muito deste desiderato. Em 5 de Julho, Estaline num telegrama cifrado enviado a Zhou Enlai declara que seria “correcto proceder à concentração imediata de 9 Divisões do Exército Popular de Libertação na fronteira sino-coreana sob a designação de voluntárias, por parte da União Soviética esta faria o melhor que pudesse para garantir cobertura aérea a estas unidades”.39
 
Estaline havia ficado completamente surpreendido e alarmado pelo volte-face da política norte-americana relativamente à Coreia, depois de, como já referido, Dean Acheson ter declarado a Coreia do Sul como fora do perímetro de defesa dos Estados Unidos, ainda que não deixasse de alertar para que “em caso de invasão norte-coreana haveria um empenhamento de todo o mundo cilizado sob a Carta das Nações Unidas para fazer frente a tal acção”.40 Na verdade, e sob este ponto, o líder soviético subestimou a determinação política da Casa Branca. Estaline reforçaria ainda mais o perigo resultante da presença militar americana na fronteira com a China indiciando numa reunião que teve com Zhou Enlai a 9 de Outubro, que o Nordeste do território chinês passaria a ser um santuário para a guerrilha norte-coreana, caso Pequim não interviesse militarmente.
 
Esta seria uma situação que desagradava à liderança em Pequim, uma vez que iria colocar o território chinês sob a ameaça de bombardeamentos aéreos norte-americanos, validando em última análise, a concentração de um forte dispositivo militar americano junto à fronteira Sino-Coreana, algo que Mao Zedong pretendia evitar a todo o custo.41 Para Mao, a guerra com os Estados Unidos era quase que inevitável, fruto da congregação de quatro factores que colocavam Pequim e Washington em rota de colisão:
(1) o Acordo de 1 de Agosto de 1950 entre MacArthur e Chiang Kai-shek para a defesa de Taiwan;
(2) na sequência deste Acordo, o estacionamento em 4 de Agosto de 1950 de aviões da Força Aérea americana na ilha;
(3) o desembarque norte-americano em Inchon; e
(4) a aceleração do apoio militar americano às forças francesas no Vietname.
 
Sendo a confrontação inevitável, em qual dos três teatros possíveis - Taiwan, Coreia, e Vietname - teria a China maior vantagem? A conclusão era a Coreia, onde a sustentação logística seria mais fácil para os chineses do que para os americanos e onde poderia contar com o apoio directo de Moscovo.42 De facto, Estaline não escondia o seu entusiasmo com a possibilidade de as forças militares chinesas virem a ter um “processo de aprendizagem de combate” contra os Estados Unidos, o qual se reflectiria em última análise na melhoria do seu desempenho operacional, mas também e em vantagem de Moscovo, num desgaste do seu principal candidato a liderar a revolução comunista mundial. Ciente destas nuances, a liderança em Pequim não era, compreensivelmente, tão entusiasta.
 
Os meios diplomáticos chineses começaram a enviar mensagens por canais diplomáticos indirectos, enfatizando que não tolerariam o avanço das forças da ONU até ao rio Yalu.43 MacArthur desvalorizou tais ameaças, afirmando que mesmo que elas se concretizassem - o que não acreditava - os aviões americanos massacrariam o Exército chinês.44
 
Com a derrota iminente do EPNC em Outubro de 1950 e alarmado pela vigorosa resposta americana reforçada pela continuação da deslocação das forças da ONU para Norte em direcção à fronteira chinesa, o dilema de Mao acentuou-se. Mesmo considerando o teatro da Coreia como sendo o mais favorável para a China combater, esta ou enfrentava a mais poderosa potência industrial mundial ou aceitava uma Coreia unificada com forças militares americanas junto da sua fronteira.45 Para o “Grande Timoneiro” a segunda era a pior das opções.46 A China tinha de intervir, mas não com uma capacidade militar insuficiente, e salvaguardando a dimensão da sua política interna.47
 
Devido às implicações geopolíticas resultantes de uma intervenção militar chinesa na península coreana, Mao não terá dormido entre os dias 11 e 13 de Outubro, até ter confirmado a ordem de avanço militar neste último dia.48 O dilema de 48 horas de Mao Zedong reflectiu-se em Estaline, que a 12 de Outubro enviou um telegrama a Kim Il-sung informando-o da indisponibilidade chinesa em acorrer em auxílio dos norte-coreanos, justificando que as forças militares chinesas não estavam preparadas para enfrentarem os Estados Unidos, e que uma tal confrontação iria protelar os projectos de reconstrução nacional.
 
Para Pequim, a solução passava por uma retirada total e a adopção de uma táctica de guerrilha, algo que Estaline também havia sugerido neste mesmo telegrama a Kim Il-sung, caso Pequim não interviesse. Mas no dia seguinte, as notícias seriam melhores, pois Kim seria informado por Estaline do volte-face chinês: a China iria intervir em apoio da Coreia do Norte, mas com a condição da União Soviética a apoiar militarmente.49 O telegrama enviado por Mao, por demasiado importante, merece uma transcrição selectiva, segundo a versão publicada por Goncharov, Lewis e Xue:
 
“1. Decidimos enviar algumas tropas para a Coreia sob o nome de Voluntários [Populares Chineses] para combaterem os Estados Unidos e o seu acólito Syngman Rhee e em auxílio dos nossos camaradas norte-coreanos. Partindo destas considerações, pensamos que é necessário o seguinte…eliminar a agressão americana a qual é desfavorável para todo o Oriente.
2. …Segundo, como iremos combater as tropas americanas deveremos estar preparados para uma declaração de guerra por parte dos Estados Unidos e um subsequente bombardeamentos aéreo dos centros indus­triais e populacionais da China, bem como ataques sobe os novos portos navais.
3. … A aniquilação do 8º Exército americano é essencial…se não conseguirmos expulsar as forças americanas da Coreia a guerra prolongar-se-á o que minará a reconstrução económica da China, espalhando o descontentamento entre a burguesia e outros sectores da população.
4. Sob estas condições decidimos enviar 12 Divisões já pré-posicionadas no Sul da Manchúria… as quais se deslocarão para a Coreia do Norte (sem atingirem necessariamente o Paralelo 38)… Numa fase inicial só conduzirão operações defensivas, aguardando a entrega de arma­mento e equipamento soviético. Uma vez devidamente equipadas coordenarão com os camaradas norte-coreanos o desenvolvimento de contra-ataques para aniquilarem as tropas agressoras americanas.
5. Segundo os nossos serviços de informações um Corpo de Exército americano tem 1 500 armas de 70mm e de 240mm. Nós em comparação só temos 36. O inimigo domina o espaço aéreo. Só recentemente começámos a treinar pilotos e não poderemos empenhar mais do que 300 aviões até Fevereiro de 1951. Desta forma não temos a certeza de que poderemos aniquilar um Corpo de Exército americano com um só golpe. Para garantir o sucesso da ofensiva deveremos possuir uma superioridade de tropas na ordem de 4:1 e de 1,5-2:1 no apoio de fogos.
6. Em adição a estas 12 Divisões, faremos deslocar 24 Divisões do Sul do rio Yangtze e das províncias de Shaanxi e Gansu para áreas ao longo das linhas de caminho-de-ferro de Xuzhou-Lanzhou, Tianjin-Pukou, e Beijing-Shenyang. Pretendemos empregar estas Divisões na próxima Primavera e Verão como uma segunda e terceira vagas de auxílio à Coreia, caso a situação o requeira.”50
 
A data deste telegrama (2 de Outubro) que aparece numa compilação oficial de escritos de Mao Zedong elaborada pelo Comité Central do Partido Comunista Chinês51 entra em clara contradição cronológica com os telegramas recebidos por Estaline que como já anteriormente referido, foram recente­mente desclassificados no Arquivo Presidencial russo. É possível que a data do telegrama chinês tenha sido intencionalmente alterada com o intuito de demonstrar a determinação chinesa em intervir imediatamente a seguir ao colapso do EPNC, algo que efectivamente só ficou decidido a 13 de Outubro, como o comprovam os arquivos russos. Só a leitura e a desclassificação do telegrama original chinês - que não se prevê que venha a ser efectuada a curto prazo - é que poderá esclarecer definitivamente este desfasamento temporal.
 
Questões de “ajustamento da História” à parte, para a China era agora indispensável “reparar a casa antes que chovesse” (wei iu choumou) e quem teria de fornecer as “ferramentas” (entenda-se o material militar) era a União Soviética, cujos aviões estacionados em bases na Manchúria, entrariam em combate directo com pilotos americanos a 1 de Novembro sobre a região do rio Yalu, onde os VPC se estavam a concentrar.52
 
A 8, 16 e 17 de Novembro, Mao enviou três telegramas a Filipov (nome de código de Estaline) solicitando o fornecimento de material militar necessário para equipar 36 Divisões (140 mil espingardas, 26 mil metralhadoras, 80 milhões de munições para metralhadora, 7 mil metralhadoras ligeiras, 37 milhões de munições para metralhadoras ligeiras, mil pistolas para pilotos da Força Aérea, 100 mil munições para pistolas e mil toneladas de TNT).
 
No seu segundo telegrama, Mao refere que a China tinha passado de um empenhamento de 18 Divisões (6 Exércitos) para 30 Divisões (9 Exércitos) no teatro de operações da Coreia tendo 9 Divisões em reserva (3 Exércitos), pelo que era necessário que Moscovo fornecesse 10 mil toneladas de gasolina, 2 720 barris de óleo lubrificante, 220 barris de óleo para transmissões e 95 barris de óleo de travões. Os combustíveis e óleos deveriam ser entregues em duas levas: metade até final de Dezembro e a outra metade até 20 de Janeiro de 1951. O terceiro telegrama refere a urgência no fornecimento de 3 mil viaturas de transporte de pessoal indispensáveis para a ofensiva planeada.53
 
Numa combinação de internacionalismo ideológico com patriotismo, e como forma de dinamizar e motivar o EPL, Mao Zedong lançou o slogan: “Resistir à América e ajudar a Coreia; Defender a Nossa Nação e Guardar a Nossa Pátria”.54 Como refere Chen Jian, “a intervenção militar de Pequim serviria agora um duplo propósito: afirmar o lugar da China na ordem internacional e reavivar a dinâmica revolucionária no interior do país”.55 A intervenção militar chinesa transformaria, nas posteriores palavras do General Douglas MacArthur, o conflito coreano num tipo de guerra inteiramente novo para os dois principais contendores.
 

 Forças do EPL Empenhadas entre 19 de Outubro de 1950 e 21 de Abril de 1951

 
3ºGrupo de Exército      9º Grupo de Exército  13º Grupo de Exército
  12º Exército          12º Exército           38º Exército
  15º Exército          15º Exército           39º Exército
  60º Exército          20º Exército           40º Exército
                        26º Exército           42º Exército
                        27º Exército           50º Exército
                        60º Exército
 
19ºGrupo de Exército  1ª Divisão de Artilharia    1ª Divisão de Engenharia
   63º Exército       2ª Divisão de Artilharia
   64º Exército       8ª Divisão de Artilharia
   65º Exército
 
(1)    Cada Exército tinha cerca de 25 mil homens e cada Divisão cerca de 12 mil efectivos.
(2)    A dimensão inicial da força dos VPC (19 de Outubro) foi de cerca de 320 mil homens. A Oeste, o 13º Grupo de Exército oriundo do 4º Exército de Campo da Guerra Civil, era composto pelos 38º, 39º, 40º, 42º, 55º e 60º Exércitos. A Este, o 9º Grupo de Exército, formado a partir do 3º Exército de Campo, era constituído pelos 20º, 26º e 27º Exércitos.
 
 
No campo chinês, Mao Zedong chamou a si o controlo apertado da estratégia operacional do conflito. Su Yu e Xiao Jinguang foram inicialmente nomeados, respectivamente, comandante e segundo comandante do Exército de Defesa da Fronteira Nordeste (EDFN). Por sua vez, Xiao Hua e Li Jukui assumiram as funções de comissário político e comandante logístico deste Exército. Tendo em linha de conta a necessária experiência de combate, os comandantes nomeados seriam retirados do 4º Exército de Campo, que era o mais preparado para o tipo de operações que se viriam a desenrolar, para além de se encontrar familiarizado, não apenas com o terreno, como com as agrestes condições meteorológicas da península coreana.
 
Ao 13º Grupo de Exército, do qual faziam parte os 38º, 39º e 40º Exércitos, foi atribuída a missão de se deslocar para a fronteira Sino-Coreana devendo estar em posição no final de Julho. O comandante deste GE, Huang Iongsheng, tinha uma boa reputação mas os seus talentos, de acordo com a perspectiva de Su Yu e do seu Estado-Maior, não se reviam nos princípios então requeridos pela guerra mecanizada e motorizada praticada pelos Estados Unidos. Para o seu lugar foi nomeado Deng Hua, então comandante do 15º GE (um brilhante estrategista que se encontrava no Sudeste da China), e o 13º GE recebeu de reforço o 42º Exército e três Divisões de artilharia. Seria constituído um Comando da Frente em Andong, perto de Sinuiju e da capital Piongyang, com as unidades de combate a concentrarem-se na região entre Andong e Kaiyuan.56
 
No entanto, o processo de escolha e nomeação de comandantes militares dos “Voluntários Populares Chineses” não seria algo de tão linear quanto a Comissão Militar Central pretendia que fosse.57 De facto, em Julho, Su Yu encontrava-se bastante debilitado em termos de saúde tendo inclusive de ser hospitalizado em Qingdao, enquanto que Xiao Jinguang estava impossibili­tado de abandonar as suas funções de comandante da MEPL, numa fase extraordinariamente sensível para a formação da mesma. Zhou Enlai propôs a Mao o adiamento da constituição do Quartel-General do EDFN, ficando a força “expedicionária” sob o comando directo da Região Militar do Nordeste.
 
Paralelamente, o facto de se nomear Deng Hua para comandar o 13º GE do 4º EC, implicava que se efectuasse um trabalho de persuasão junto dos militares desta unidade, que se encontravam bastante ligados ao estilo de comando e liderança de Huang Yongsheng, e não encaravam com bons olhos a decisão tomada superiormente. Com Lin Biao e Luo Ronghuan doentes, e que eram respectivamente comandante e comissário político do 4º EC, o esforço de informação e persuasão dos comandantes operacionais e tácticos recaiu sobre Tan Zheng, o Vice-comissário político.
 
Em meados de Julho, um relutante e pouco preparado para a nova missão 13º GE deslocou-se para o Nordeste da China. O 38º Exército chegou a Fengcheng em 24 de Julho, o 39º a Liaoiang e a Haicheng no dia seguinte, e o 40º Exército vindo directamente de Guangdong chegou a Andong em 26 de Julho. Ao mesmo tempo, o 42º Exército deslocou-se de Qiqihaer para Jian.58 As forças estavam em posição mas não possuíam comando, e Gao Gang, o comandante da Região Militar do Nordeste, não estava muito disposto a assumir as funções de comandante do EDFN, não obstante a pressão de Mao Zedong.59
 
As forças que a China pretendia enviar para a Coreia estavam equipadas com uma combinação de armamento oriundo das mais diversas fontes (americanas, russas, japonesas)60, padeciam da ausência de apoio de fogos e de apoio aéreo, e não detinham uma capacidade de comunicações e de apoio logístico credível, tornando extremamente difícil e desvantajoso o confronto com as forças americanas com mandato das Nações Unidas. Os programas de treino específico das forças estavam de tal modo atrasados, que em finais de Agosto Mao ordenou a constituição, ainda que incompleta, do Quartel-General (QG) do 13º GE em Andong, e que os oficiais disponíveis teriam que acumular funções enquanto não chegassem ao local os restantes nomeados. Desta forma, os comandantes dividiram responsabilidades entre si: Deng apoiado pelo seu Chefe de Estado-Maior, Xie Fang, empenhou-se no estudo da estratégia e da táctica das forças da ONU e dos Estados Unidos, formulando as adequadas modalidades de acção; Hong ficou responsável pelo treino; e Lai e Du Ping pela mobilização política.61
 
Entretanto em Pequim e com a recusa de Gao Gang, a escolha imediata para comandar os VPC recaiu sobre Lin Biao. Este era contra uma intervenção chinesa, tendo em consideração a acentuada diferença de potencial de combate e de apoio logístico entre os contendores. Lin, conjuntamente com outros oficiais do EPL, temiam ainda a possibilidade de a base industrial chinesa poder vir a ser destruída em resultado da sua intervenção.62
 
Como sabemos, no início de Outubro, Mao desapontado com a recusa de Lin Biao em comandar os VPC nomeou Peng Dehuai, então comandante da Região Militar do Noroeste, naquilo que o próprio Peng classificou como uma “decisão de emergência” (cangcu shangzhen).63 Na realidade, a “desculpa” (jiekou, jiegu, ou tuoci) ou a “doença” (shuo bing) de Lin Biao para não assumir o comando da força “expedicionária chinesa na Coreia”, deveu-se fundamentalmente a uma divergência profunda com Mao Zedong quanto à necessidade de uma intervenção militar chinesa em apoio de Kim Il-sung, materializando uma “doença política” (zhengzhi bing).64
 
O próprio Partido Comunista dividiu-se quanto à decisão a tomar: enquanto Chen Yun, Liu Shaoqi, Dong Biwu, e Rao Shushi eram contra a intervenção, já Zhou Enlai apoiava o auxílio directo à Coreia do Norte.65 No interior do EPL, o próprio Peng Dehuai alimentava algumas reticências, no que era acompanhado por Nie Rongzhen, Ye Jianying, He Long, Su Yu, Liu Bocheng e Lin Biao, enquanto que Zhu De e Xu Xiangqian apoiavam abertamente uma intervenção.66 Ora esta maior precaução dos líderes militares em intervirem, se comparada com os líderes civis, prefigura uma conectividade similar com o que sucede nos países ocidentais quando está em causa a entrada de um país numa guerra.67
 
 
4.  Observações Finais
 
Para Mao Zedong as condições para uma reunificação pela força da península coreana não estavam reunidas, quando Kim Il-sung lançou o seu ataque com o apoio soviético, visto que o EPL combatia o remanescente das forças nacionalistas, e procurava agora centrar a sua atenção em Taiwan, pelo que o deflagrar de um conflito perto da sua principal região industrial e das linhas de comunicação que ligavam a China à União Soviética na Manchúria, materializavam um sério revés nos projectos de reunificação a curto prazo delineados pela liderança comunista chinesa. Adicionalmente, as informações de que Pequim dispunha, não viam como viável uma ofensiva do regime de Singman contra Kim. Na perspectiva de Pequim, se Kim aguardasse até à conquista de Taiwan, Mao não lhe regatearia o apoio que fosse necessário, mesmo em caso de intervenção militar americana.
 
O ataque norte-coreano originou uma reacção norte-americana a partir da qual, e numa sucessão de desenvolvimentos militares, a intervenção militar chinesa se tornou uma inevitabilidade.
 
Sobre esta temática, três escolas de interpretação têm avançado no sentido de justificar a intervenção chinesa, ainda que se possa dizer que todas elas aceitam o facto de a travessia do Paralelo 38 por parte das forças americanas tenha representado a dimensão política de um ponto de viragem da Guerra da Coreia.
 
No entanto, o catalizador foi o desembarque em Inchon, o qual não foi apenas uma brilhante operação militar, mas também algo que veio reformular drasticamente os cálculos estratégicos tanto de Estaline como de Mao Zedong, com Kim Il-sung a ser um instrumento mais soviético-dependente do que sino-dependente. Sem Inchon, o Paralelo 38 continuaria a ser aquilo que originalmente era - uma linha cartográfica delineada no mapa a partir da qual as duas superpotências aferiam as suas intenções.
 
O avanço norte-americano foi uma ameaça intolerável para soviéticos e chineses, a que os primeiros se opuseram com recurso aos segundos. Para o Kremlin a dificuldade esteve na forma como conseguiu persuadir Pequim a intervir militarmente, enquanto que para Mao Zedong a dificuldade teve na forma como tentou extrair o maior volume possível de contrapartidas de apoio económico e militar por parte da União Soviética, ainda que em última análise a China tenha saído defraudada neste particular processo negocial.
 
 
ANEXO I - Cronologia das Principais Acções Político-Militares Chinesas Pré e Aquando da Guerra da Coreia (1950)
 
 
1949
 
Junho - Estados Unidos retiram forças militares deixando um pequeno grupo de 500 conselheiros militares na Coreia do Sul
 
1950
 
12 de Janeiro - Secretário de Estado norte-americano Dean Acheson, exclui a Coreia do Sul da esfera de segurança americana na Ásia.
13 de Maio - Kim Il-sung visita Pequim e informa Mao Zedong que a URSS tinha concordado com o ataque à Coreia do Sul.
12-13 de Junho - Conselheiros militares soviéticos apoiam o EPNC em missões de reconhecimento junto à fronteira com a Coreia do Sul.
22 de Junho - Mao Zedong é colocado perante o facto consumado de que o ataque norte-coreano será desencadeado três dias depois.
25 de Junho - 135 mil tropas norte-coreanas invadem a Coreia do Sul. Os Estados Unidos convocam uma reunião imediata do Conselho de Segurança da ONU. O Presidente americano Harry Truman ordena ao General Douglas MacArthur a evacuação dos conselheiros militares americanos e um estudo com vista ao apoio militar à Coreia do Sul.
26 de Junho - Truman autoriza MacArthur a empregar meios aéreos e navais contra as forças norte-coreanas a Sul do Paralelo 38. O presidente autoriza também o envio da Sétima Esquadra para o Estreito de Taiwan.
27 de Junho - Truman autoriza o bombardeamento de forças norte-coreanas a Norte do Paralelo 38 e ordena numa primeira fase, a neutralização do Estreito de Taiwan pela Marinha norte-americana. O Conselho de Segurança da ONU aprova uma Resolução que solicita aos Estados membros assistência militar à Coreia do Sul.
28 de Junho - Tropas norte-coreanas conquistam Seul.
2 de Julho - Depois de obter autorização da Casa Branca para o envolvimento directo de forças terrestres no conflito, o General norte-americano Douglas MacArthur, fez avançar desde o Japão e para o porto de Pusan o 1º Batalhão do 21º Regimento da 24ª Divisão, onde chegou em 5 de Julho.
13-20 de Julho - Batalha de Taejon. Estados Unidos obtêm supremacia aérea e naval e estabelecem um bloqueio aeéo-naval. O General MacArthur e Chiang Kai-shek assinam um acordo para a defesa militar de Taiwan em caso de ataque da China.
4 de Agosto a 15 de Setembro - Defesa do perímetro de Pusan por parte dos Estados Unidos e de forças sul-coreanas.
15 de Setembro - Desembarque anfíbio em Inchon por parte das forças da ONU.
25 de Setembro - Forças da ONU entram na capital sul-coreana, onde durante três dias procedem à limpeza das bolsas de resistência existentes no seu interior, materializando o final da Operação Chromite. A China transmite informalmente ao embaixador indiano em Pequim que intervirá militarmente se as forças americanas se aproximarem da sua fronteira.
29 de Setembro - Aprovação do plano de conquista da Coreia do Norte elaborado pelo General MacArthur.
2 de Outubro - Zhou Enlai comunica formalmente ao embaixador indiano a determinação chinesa em intervir militarmente se os Estados Unidos atravessarem o Paralelo 38.
9 de Outubro - Zhou Enlai reune-se em Moscovo com Estaline onde o líder soviético apela à intervenção militar chinesa em apoio de Kim Il-sung.
13 de Outubro - Mao decide-se por uma intervenção militar chinesa.
26 de Outubro - Os VPC atacam forças sul-coreanas a Sul do rio Yalu.
3 de Novembro - Os VPC atacam forças americanas perto do rio Yalu forçando a uma retirada destas para Sul.
24 de Novembro - MacArthur lança a ofensiva “Em Casa pelo Natal” sem grandes sucesso.
31 de Dezembro - Segunda grande ofensiva Sino-Coreana contra as forças da ONU.
 
___________
 
*      Major de Infantaria. Sócio Efectivo da Revista Militar.
 
___________
 
 1 Para se poder ter o enquadramento final e mais apurado da dinâmica geopolítica e político-militar que conduziu à Guerra da Coreia ainda é necessário que Pequim desclassifique os seus arquivos, o que tem acontecido a “conta-gotas”.
 2 O último dos seminários deu origem a uma obra editada por Mark F. Wilkinson; (2004); The Korean War at Fifty: International Perspectives; Lexington, Center for Military History and Strategic Analysis, Virginia Military Institute.
 3 Este argumento é defendido por Allen S. Whiting; (1960); China Crosses the Yalu: The Decision to Enter the Korean War; New York, Macmillan Company; pp. 2-13. Melvin Gurtov e Byong-Moo Hwang; (1980); China Under Threat: The Politics of Strategy and Diplomacy; Baltimore, John Hopkins University Press; pp. 25-62. William Stueck; (1980); The Road to Confrontation: American Policy Toward China and Korea, 1947-1950; Chapel Hill, University of Carolina Press; pp. 254-255. Peter Lowe; (1986); The Origins of the Korean War; London, Longman; pp. 189-201. Richard Whelan; (1990); Drawing the Line: The Korean War, 1950-1953; Boston, Little and Brown; pp. 236-238.
 4 Zhang Shuguang; (1995); Mao’s Military Romanticism: China & the Korean War, 1950-1953; Kansas, University Press of Kansas. Chen Jian; (1994); China’s Road to Korean War: The Making of Sino-American Confrontation; New York, Columbia University Press. Michael Sheng; (1997); Battling Western Imperialism: Mao, Stalin, and the United States; Princeton, Princeton University Press.
 5 John Lewis Gaddis; (1997); We Now Know: Rethinking Cold War History; Oxford, Oxford University Press; pg. 78.
 6 Disponíveis em http://wwics.si.edu/index.cfm?topic_id=1409&fuseaction=library. Collection&class=New%20Evidence%20on%20the%20Korean%20War.
 7 Don Obberdorfer; (1997); The Two Koreas: A Contemporary History; Indianapolis, Basic Books; pp. 4-5.
 8 Criada em Setembro de 1948 e liderada por Kim Il-sung.
 9 Odd Arne Westad; (2003); Op. Cit.; pg. 318. Cf. Bruce A. Elleman; Modern Chinese Warfare, 1795-1989; London, Routledge; pg. 238. Peng Dehuai não se excusou publicamente a criticar as capacidades militares de Kim Il-sung. É conhecido o episódio de quando Kim se deslocou ao Quartel-General de Peng ficou detido durante cerca de meio-dia pelas sentinelas que montavam a segurança ao local. Em sentido oposto, a população norte-coreana não apreciava o comportamento dos militares chineses que os forçavam a fazer a limpeza de campos de tiro, a construírem trincheiras e a matarem o pouco gado que possuíam. Kathryn Weathersby; (1993); “New Findings on the Korean War”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 16. Note-se que este projecto multinacional que reuniu historiadores norte-americanos, ingleses, russos e chineses beneficiou da desclassificação de documentos dos arquivos soviéticos relativos à Guerra da Coreia feita pelo então Presidente russo Boris Yeltsin.
10 Li Xiaobing, Wang Xi e Chen Jian; (1992); “Mao’s Dispatch of Chinese Troops to Korea: Forty-six Telegrams, July-October 1950”; Chinese Historians nº2; pp. 63-87.
11 Chen Jian; (2001); Mao’s China & the Cold War; Chapel Hill, University of North Carolina Press; pp. 53-54.
12 Realce-se que Kim Il-sung só conseguiu a relutante aprovação de Estaline para o ataque à Coreia do Sul após o envio de 48 telegramas a solicitar o apoio de Moscovo. Strobe Talbott (Ed); (1970); Khruschev Remembers; Boston, Little and Brown; pp. 367-368. Cf. Gye-Dong Kim; “Who Initiated the Korean War?” em James Cotton e Ian Neary (Eds); (1989); The Korean War in History; Manchester, Manchester University Press; pg. 44.
13 Bruce A. Elleman; (2001); Op. Cit; pg. 239.
14 Kim chegou a Pequim no início de Maio, mas a data exacta da sua reunião com Mao é alvo de discussão. Cf. Hao Yufan e Zhai Zhihai; (1990); “China’s Decision to Enter the Korean War: History Revisited”; China Quarterly nº121; pg. 100 e Chen Jian; (1991); “The Sino-Soviet Alliance and China’s Entry in the Into the Korean War”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 85. Com efeito, entre Fevereiro e Março, Estaline concordou numa ajuda militar anual à Coreia do Norte entre 120 e 150 milhões de rublos que deveriam ser pagos por Piongyang com 9 toneladas de ouro, 4 toneladas de prata, e 15 mil toneladas de concentrado de monazite. Mark Kramer; (1993); “Archival Research in Moscow: Progress and Pitfalls”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 37.
15 Um documento escrito por Shtykov descreve não apenas a concentração de forças norte-coreanas entre 12 e 23 de Junho, mas também a participação activa dos conselheiros militares soviéticos em missões de reconhecimento e de planeamento das operações a nível divisionário. Os conselheiros soviéticos só foram retirados das operações de combate à última da hora por Estaline com receio de que fossem capturados expondo a participação directa de Moscovo. Veja-se Kathryn Weathersby; (1993); “New Findings on the Korean War”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 31 e pp. 39-40. Cf. Strobe Talbott (Ed); (1970); Khruschev Remembers; Boston, Little and Brown; pp. 370.
16 John Lewis Gaddis; (1997); We Now Know: Rethinking Cold War History; New York, Oxford University Press; pp. 75-77. Veja-se o fac-simile de telegrama enviado por Mao a Estaline a solicitar esta confirmação em Chen Jian; (2001); Op. Cit.; pg. 57. No entanto, não se deve subestimar a capacidade de manipulação de Moscovo e de Pequim por parte de Kim Il-sung procurando obter para si “o melhor dos dois mundos”. Kathryn Weathersby; (1993); “New Russian Documents on the Korean War”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 31.
17 Peng Dehuai; “My Story of the Korean War” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg. 32.
18 Esta lógica foi expressa pelo embaixador britânico em Pequim num relatório interceptado pelas autoridades chinesas. Citado em Evgueni Bajanov; (1993); “Assessing the Politics of the Korean War, 1949-1951”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 89.
19 Kathryn Weathersby; (1993); “New Findings on the Korean War”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 16.
20 Para uma análise dos cálculos geopolíticos feitos pela administração norte-americana de Harry Truman veja-se por exemplo as obras de William Whitney Stueck; (1995); The Korean War: An International History; Princeton, Princeton University Press e de Charles M. Dobbs; (1981); The Unwanted Symbol: American Foreign Policy, the Cold War, and Korea, 1945-1950; Kent; Kent State University Press; 1981.
21 Por esta altura os aviões norte-americanos estavam empenhados exclusivamente no bombardeamento aos aeroportos da Coreia do Norte.
22 A decisão soviética ainda hoje é um mistério. Há quem defenda que Estaline queria que as forças militares ocidentais se empenhassem num conflito prolongado com a China de forma a libertarem a frente europeia. Outros - menos plausíveis - argumentam que terá havido um erro de cálculo do líder soviético ao não perspectivar a intervenção militar americana em força na península.
23 Nestas reuniões, os serviços de informações chineses apresentaram várias opções de apoio, desde o transporte naval de forças norte-coreanas a partir da península de Shandong para desembarque na retaguarda do dispositivo sul-coreano, até ao emprego de agentes comunistas infiltrados na Califórnia, por forma a sabotarem os navios de apoio logístico com destino à Coreia do Sul. Odd Arne Westad; (2003); Op. Cit.; pg. 321.
24 Chen Jian; (2001); Op. Cit.; pg. 55.
25 Don Obberdorfer; (1997); Op. Cit; pg. 9.
26 Mark Kramer; (1993); “Archival Research in Moscow: Progress and Pitfalls”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 47.
27 O tempo de planeamento para o desembarque anfíbio em Inchon foi inferior a noventa dias. Wesley Clarke; (2003); Vencer as Guerras Modernas: Iraque, Terrorismo e o Império Americano; Lisboa, Temas e Debates; pg. 38. Quando MacArthur apresentou o seu plano em Tóquio ao Conselho de Chefes de Estado-Maior americano que haviam voado proposita­damente para tal, defrontou-se com muitas reservas destes tendo de assumir uma posição de força na qual se o seu plano não fosse aprovado ele se demitiria imediatamente. Patrick Tyler; (2000); A Great Wall: Six Presidents and China, An Investigative History; New York, Public Affairs; pg. 303.
28 “Report by the National Security Council to the President”; (1976); Foreign Relations of United States, Vol 7, Korea; Washington, The U.S. Printing Office; pp. 712-121.
29 De acordo com Robert Leckie, o desembarque em Inchon foi apelidado pelos jornalistas como “Operation Common Knowledge” visto que muita da informação que deveria ser secreta era discutida na imprensa internacional da época. Citado em William Whitney Stueck; (1995); The Korean War: An International History; Princeton, Princeton University Press; pg. 95. Para uma análise da reacção soviética ao desembarque de MacArthur veja-se Chen Jian; (2001); Op. Cit.; pg. 55.
30 Foram utilizados 46 draga-minas japoneses e respectivas tripulações entre 2 de Outubro e 10 de Dezembro em apoio do assalto anfíbio. No entanto, a participação japonesa na guerra nunca foi um assunto de relevo na dinâmica das grandes potências, ainda que Estaline não escondesse as preocupações relativas a um ressurgimento do poder militar japonês.
31 Em Agosto, Mao Zedong enviou um telegrama a Kim no qual alertava para o perigo de um desembarque aliado em Inchon. Pressionado por Moscovo, o líder norte-coreano optou por prosseguir as suas operações ofensivas para Sul, revelando também uma falta de confiança em Mao. Alexandre Mansourov; (1993); “Stalin, Mao, Kim, and China’s Decision to Enter the Korean War, September 16-October 15, 1950: New Evidence From the Russian Archives”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 95. A 17 de Setembro Zhou Enlai enviou cinco conselheiros militares para aferirem a situação militar do Exército norte-coreano.
32 Para uma análise detalhada sobre esta operação veja-se Korea Institute of Military History; (1997); The Korean War, volume one; Lincoln, University of Nebraska Press; pp. 591-626.
33 O fracasso norte-coreano gerou um conjunto de acusações mútuas entre Estaline, Mao e Kim, minando os laços de confiança entre os três Estados comunistas. Veja-se a ácida troca de telegramas em Alexandre Mansourov; (1993); Op. Cit.; pp. 108-113.
34 Não se esqueça que para além da decisão norte-americana havia ainda a considerar a permissão da Assembleia Geral das Nações Unidas. William Stueck; (1980); Op. Cit.; pg. 94.
35 A 27 de Setembro, Truman ampliou a directiva NSC-81 estipulando ao Conselho de Chefes de Estado-Maior que o objectivo era a “destruição de todas as forças militares norte-coreanas”. O Chefe do Conselho, o General George Marshall informou MacArthur que assim não teria “constrangimentos tácticos e que poderia avançar estrategicamente para Norte do Paralelo 38”. Douglas McArthur; (1964); Reminiscences; New York, MacGraw-Hill; pg. 358.
36 George Kennan (o pai da doutrina de containment dos Estados Unidos face à União Soviética) que há altura desempenhava funções do Comité de Planeamento Político discordou do plano de MacArthur argumentando que os soviéticos nunca iriam aceitar um avanço norte-americano até às “portas de Vladivostoque”. George Kennan; (1967); Memoirs: 1925-1950; Boston, Little & Brown; pg. 489.
37 Sergei Goncharov, John Lewis e Xue Litai; (1993); Uncertain Partners: Stalin, Mao & the Korean War; Stanford, Stanford University Press; pp. 151-152.
38 Note-se que em 7 de Outubro a Assembleia Geral da ONU aprovou a proposta americana de reunificação coreana pela força, não obstante as anteriores propostas soviéticas para um cessar fogo imediato e a retirada posterior de todas as tropas estrangeiras.
39 Alexander Mansourov; “Stalin, Mao, Kim, and China’s Decision to Enter the Korean War, September 16-October15, 1950: New Evidence from Russian Archives; Cold War International History Project Bulletin.
   http://wwics.si.edu/index.cfm?topic_id=1409&fuseaction=library.document&id=373.
40 Burton Kaufman; (1999); The Korean Conflict; Westport, Greenwood Press; pg. 38.
41 Lu Ning, (1997); The Dynamics of Foreign-Policy Decisionmaking in China; Boulder, Westview Press; pg. 103. Mansourov interpreta a ida de Zhou Enlai e Lin Biao a Moscovo e a reunião com Estaline em 9 e 10 de Outubro como uma tentativa de transmitir pessoalmente a impossibilidade da China em apoiar directamente a Coreia do Norte. Colocados perante a opção de se transformarem num santuário para a guerrilha, ambos terão informado Mao que teve de ter em consideração mais esta vertente. No entanto, e na nossa opinião, é provável que a deslocação de Zhou tenha tido o objectivo de arrastar as conversações, enquanto Mao ponderava os prós e os contras de uma intervenção militar.
42 Lu Ning, (1997); Op. Cit.; pg. 88.
43 Mais concretamente por intermédio do embaixador indiano na China, K. M. Pannikar. Marechal Nie Rongzhen; “Beijing’s Decision to Intervene” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg. 41.
44 Os receios chineses seriam ainda mais exponenciados com as declarações públicas de MacArthur de que levaria a Guerra da Coreia até à China por forma a restituir o poder a Chiang Kai-shek. Allen S. Whitting; (1975); The Chinese Calculus of Deterrence: India and Indochina; Ann Harbour, University of Michigan Press, pg. 211. Cf. Richard Whelan; (1990); Drawing the Line: The Korean War, 1950-1953; Boston, Little and Brown; pg. 40.
45 No entanto, dois telegramas datados de 5 e 6 de Julho de 1950 de Estaline para Zhou Enlai referem respectivamente, o apoio de Moscovo à concentração de 9 Divisões do EPL na fronteira Sino-Coreana que beneficiariam de apoio aéreo soviético caso os norte-americanos passassem o Paralelo 38, e a concordância do Kremlin em fornecer equipamento militar necessário para 2 Divisões. Deduz-se que Moscovo estava a incentivar Pequim a entrar no conflito. Mark Kramer; (1993); “Archival Research in Moscow: Progress and Pitfalls”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 43. A 7 e 10 de Julho já as forças do EPL se concentravam na fronteira Sino-Coreana. Kathryn Weathersby; (1993); “New Findings on the Korean War”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 31.
46 Como refere um poema de um soldado do 40º Exército dos Voluntários Populares Chineses: O imperialismo americano é uma bola de fogo, Queimará a China depois de queimar a Coreia; A China, o vizinho acorrerá a apagar o fogo, A China pode ser salva se ajudar a Coreia. Citado em Tenente-General Du Ping; “Political Mobilization and Control” em Xiaobing Li, Allan R. Millett e Bin Yu; (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg. 69.
47 Mao disse a Estaline que “Devemos estar preparados para a possibilidade dos Estados Unidos poderem, no mínimo, bombardearem as principais cidades e centros industriais chineses… levando a uma destruição do planeamento económico já em marcha, gerando descontentamento entre a população.” Citado em Thomas J. Christensen; (1992); “Threats, Assurances, and the Last Chance for Peace: The Lessons of Mao’s Korean War Telegrams”; International Security nº1; pp. 147-153.
48 Andrew Scobell; (2003); China’s Use of Military Force: Beyond the Great Wall and the Long March; Cambridge, Cambridge University Press; pg. 82.
49 Numa “manobra de charme”, Estaline depois de ter conhecimento da decisão de Mao sugeriu-lhe que este informasse Kim Il-sung e negociasse directamente o auxílio a Piongyang, uma vez que eram as forças chinesas que iriam apoiar directamente os norte-coreanos. Alexandre Mansourov; (1993); Op. Cit.; pp. 118-119.
50 Sergei N. Goncharov, John W. Lewis e Litai Xue; (1993); Op. Cit.; pp. 275-276.
51 Um exemplar aparece em Jiangguo Yilai Mao Zedong Wengao Diyi Ce (1949-1950); (Os Manuscritos de Mao Zedong Desde a Fundação da Nação, 1949-1950); (1987); Beijing, Central Documents Publishing House; pp. 539-541.
52 A 15 de Novembro, Mao agradeceria em telegrama endereçado a Estaline o empenhamento da Força Aérea soviética e o heroísmo dos pilotos soviéticos. Kathryn Weathersby; (1993); “New Findings on the Korean War”; Cold War International History Project Bulletin; pg. 48. Para uma descrição dos combates entre os pilotos soviéticos e americanos leia-se Xiaoming Zhang; (2002); Red Wings Over the Yalu: China, the Soviet Union, and the Air War in Korea; College Station, Texas A&M University Press; pp. 122-142. O apêndice B nas pp. 217-218 descreve as Divisões aéreas soviéticas empenhadas na guerra entre 1950 e 1951.
53 Mark Kramer; (1993); “Archival Research in Moscow: Progress and Pitfalls”; Cold War International History Project Bulletin; pp. 48-50. Para uma visão sobre o processo negocial de aquisição de armamento soviético veja-se Xu Xiangqian; “The Purchase of Arms from Moscow” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pp. 139-146. Cf. Mark Kramer; (1993); “Archival Research in Moscow: Progress and Pitfalls”; Cold War International History Project Bulletin; pp. 48-49.
54 Nie Rongzhen; “Beijing’s Decision to Intervene” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg. 42.
55 Chen Jian; (1994); Op. Cit.; pp. 211-223.
56 Hong Xuezhi; “The CPVF’s Combat and Logistics” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg. 108.
57 Designação proposta para as forças militares enviadas em apoio de Kim Il-sung. A terminologia de voluntários (zhiyuanjun) foi avançada pelo Vice-primeiro Ministro Huang Ianpei a Mao que a aceitou de imediato. Yu Bin; “What China Learned From Its ‘Forgotten War´” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg.12. Esta designação demonstrava da parte de Mao uma preocupação “ainda que simbólica” em transmitir a imagem de que o EPL não participava oficialmente nesta guerra, numa clara intenção de tentar mitigar uma possível contra-ofensiva sobre o território chinês por parte das forças norte-americanas, indiciando que Pequim não estava oficialmente em guerra com Washington. Denny Roy; (1998); Op. Cit; pg. 19.
58 Marechal Nie Rongzhen; “Beijing’s Decision to Intervene” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg. 42.
59 Sergei N. Goncharov, John W. Lewis e Litai Xue; (1993); Op. Cit.; pg. 173.
60 Por exemplo, tanto o 38º como o 40º Exércitos tinham à carga uma mistura de armas japonesas e americanas. Peng Dehuai ordenou que o 38º trocasse as suas armas americanas com as armas japonesas do 40º e vice-versa. Yu Bin; (2001); Op. Cit.; pg.13.
61 Veja-se Tenente-General Du Ping; “Political Mobilization and Control” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Op. Cit.; pp. 61-105.
62 Nie Rongzhen não se inibe de acusar Lin Biao de simular uma doença para não ser nomeado comandante dos VPC, fruto do facto de não concordar com a intervenção militar. Veja-se Nie Rongzhen; “Beijing’s Decision to Intervene” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Mao’s Generals Remember Korea; Lawrence, University Press of Kansas; pg. 42. Cf. Andrew Scobell; (2003); Op. Cit.; pg. 84.
63 Peng Dehuai; “My Story of the Korean War” em Xiaobing Li, Allan Millett, e Bin Yu (Eds); (2001); Op. Cit.; pg.32. Mao Zedong terá aguardado três dias, entre 2 e 5 de Outubro por uma resposta de Lin Biao. Cf. Andrew Scobell; (2003); Op. Cit.; pg. 87. Cf. Jung Chang e Jon Halliday; (2005); Op. Cit.; pg. 377.
64 Mao terá a certa altura - e como manobra para “salvar a face” do seu líder militar mais prestigiado - afirmado sarcasticamente que a doença de Lin fazia com que este padecesse de insónias e tivesse “medo do vento, da luz, e do ruído. Com estes três medos não era possível comandar tropas”. Andrew Scobell; (2003); Op. Cit.; pg. 88. Lin foi enviado para Moscovo alegadamente para efectuar um tratamento médico, mas acabou por negociar com as autoridades soviéticas alguns acordos de fornecimento de armamento à China.
65 Zhang Xi; (1993); “Peng Dehuai and China’s Entry into the Korean War”; Chinese Historians nº1; pg. 17.
66 Ge Zhongheng (Ed); (2001); Gongheguo junshi miwenlu (Histórias Secretas de Assuntos Militares da República Popular); Beijing, Zhongguo wenshi chubanshe; pp. 47-53.
67 A informação dada por Mao ao embaixador soviético a 3 de Outubro na qual manifesta a indisponibilidade chinesa para intervir reflecte esta indecisão. Alexandre Mansourov; (1993); Op. Cit.; pg. 100. Mesmo assim o processo de tomada de decisão e de “obtenção de consenso” por parte de Mao ainda não está devidamente esclarecido por impossibilidade de consulta dos arquivos chineses.
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2006-12-10
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Tenente-coronel

Manuel Alexandre Garrinhas Carriço

Tenente-Coronel de Infantaria. Assessor do Instituto da Defesa Nacional. Vogal da Direção da Revista Militar.

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