Nº 2472 - Janeiro de 2008
CRÓNICAS II - Crónicas Bibliográficas

“RIVER WAR” - A Reconquista do Sudão

 
 
 
Winston Churchill
 
Escrito em 1899, “River War” é uma das primeiras obras literárias de Winston Churchill, quando ainda era um jovem oficial de Cavalaria.
Militar, político, escritor, pintor, um verdadeiro génio, Winston Churchill (1875-1965), era filho de Lord Randolf Churchill e de mãe americana.
 
Foi educado no Colégio de Harrow e na Academia Militar de Sandhurst onde se graduou em Dezembro de 1894, sendo o 8º classificado em 150 cadetes.
 
Começou a sua carreira militar em Cuba como observador no conflito que opunha Espanha aos guerrilheiros que lutavam pela independência da ilha. Em 1896 é colocado na Índia, em 1897 combate no Malakand contra as tribos Pashtun e escreve sobre a campanha militar para os jornais britânicos “The Pioneer” e “The Daily Telegraph”. Em 1898 foi transferido para o Egipto, participa na batalha de Omdurman e desta experiência nasce a obra “River War”, que começou a escrever em Outubro desse ano, aquando do seu regresso ao Reino Unido.
 
Em 1899 partiu para a África do Sul, como correspondente de guerra no “2º Conflito Boer”, que deflagrou em Outubro desse ano, entre a Grã-Bretanha e as Repúblicas Boer. Capturado e internado num campo de prisioneiros, em Pretória, conseguiu escapar e empreender uma fuga até Lourenço Marques, a 480 Kms de distância. Volta à África do Sul, onde tem um comportamento heróico na tomada de Pretória. Em 1900 regressa ao Reino Unido e começa a publicar as suas obras sobre a Guerra Boer.
 
Em Dezembro de 1900 foi eleito para o Parlamento e inicia uma brilhante carreira política, desempenhando os mais altos cargos, entre os quais se destacam os de “First Lord of the Admiralty” (1911-1915) e de Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa (1940-1945). A sua actividade política terminou em 1964, com 89 anos de idade.
 
Começou a sua carreira literária em 1898, com descrições e reportagens das campanhas em que participara. Em 1899 escreveu “The River War”, uma narrativa das campanhas do Sudão e em particular da grande batalha de Omdurman. Publicou ainda as Memórias das 1ª e 2ª Guerras Mundiais, em vários volumes, as biografias dos seus antepassados, novelas, etc. etc.
 
Em 1953 foi-lhe atribuído o prémio Nobel da literatura.
 
“River War” é uma importante obra para a compreensão do equilíbrio de poderes no Médio Oriente, no último quartel do século XIX, em particular no Egipto, Sudão, Abissínia e Mar Vermelho. Churchill descreve, de forma pormenorizada e a partir do ano de 1881, a intervenção das potências Europeias (Reino Unido, França e Itália), as intrigas de natureza política, o fervor religioso que mobiliza as populações locais e ainda as campanhas militares.
 
O Sudão era administrado pelo Egipto, que mantinha guarnições militares e funcionários nas principais cidades e pontos estratégicos ao longo do rio Nilo. Contudo, os potentados locais unificados pelo Califa Abdullah, conseguem expulsar os Egípcios e os seus apoiantes Ingleses.
 
Entre 1885 e 1898, Abdullah reina em toda a região, estabelece a capital em Cartum e resiste firmemente a todos os seus inimigos internos e externos. Churchill, descreve todos os acontecimentos, usando um estilo jornalístico muito abrangente, centrado nas operações militares, mas sem olvidar as componentes políticas, religiosas, sociais e económicas.
 
Ao tempo, a situação política no Sudão era turbulenta, com a presença de uma plêiade de actores externos: Turcos, Egípcios, Ingleses, Franceses, Italianos, Abissínios e Árabes. Churchill retrata a evolução da situação de forma pormenorizada, com factos, nomes, datas e localização, sem esquecer a envolvente humana.
 
Da invasão e reconquista do Sudão, que começa em Março de 1896, relata com particular pormenor:
- As manobras tácticas, os combates, os equipamentos, o armamento, a logística, o cerco das cidades e fortificações, a luta pelo controlo das rotas do deserto, dos poços de água e do rio Nilo.
- As forças militares empenhadas, os nomes dos comandantes, a composição das Brigadas, a constituição dos Batalhões egípcios, sudaneses, ingleses e indianos, as forças de cavalaria, o “Camel Corps”, a artilharia montada e de campanha, as baterias de metralhadoras “Maxim”, os navios couraçados que navegavam no Nilo, a manobra no terreno, as deflagrações das armas de fogo, os mortos, os feridos e os prisioneiros.
- A organização do terreno, as trincheiras, as muralhas de pedra e lama, os fortes do deserto, o posicionamento das peças de artilharia, os fossos e campos entrincheirados, os baluartes e os bastiões para acomodar as peças de campanha Krupp, a azáfama dos cameleiros e cavaleiros.
- As tendas, os abrigos de palha, as casas e barracas construídas com lama.
- As aldeias e povoações locais repletas de velhos, mulheres e crianças, doentes, famintos e miseráveis, enquanto os emires, sheiks e potentados locais comandavam os homens no campo de batalha e requisitavam os poucos alimentos disponíveis.
- As tempestades de areia, os fortes ventos e as intermináveis marchas, sob o sol escaldante do deserto.
- As pragas de insectos, de gafanhotos e de moscas, a escassez de alimentos frescos, de mantimentos e a falta de água.
- O clima agreste, as doenças, o escorbuto e a malária a dizimarem centenas de expedicionários.
 
Churchill participou na batalha de Omdurman, nos arredores de Cartum, integrado no 21º Regimento de Lanceiros. Aqui decorreu, em 2 de Setembro de 1898, a rainha de todas as batalhas, que põe termo ao governo do Califa Abdullah e que Churchill descreve em pormenor.
 
Todo o orgulho e poder do Império Dervixe estavam reunidos nesse dia, que seria o último da sua existência. Os emires e os sheiks, sob o comando do califa Abdullah, ostentavam os seus estandartes, insígnias e bandeiras, à frente dos seus atiradores, lanceiros e guerreiros, com o objectivo de castigarem os estrangeiros.
 
A batalha é feroz, equilibrada, com desfecho incerto, e inicia-se com um ataque frontal dos sudaneses levado a cabo por 15 000 dervixes, logo seguidos de mais 15 000 comandados pelo próprio Califa.
 
Com base na sua superioridade em artilharia e ainda com o apoio de fogo das canhoneiras do Nilo, os invasores combatem durante horas, empenhando a cavalaria, os cameleiros, os lanceiros, os atiradores e o poder multiplicador das metralhadoras Maxim.
 
A batalha saldou-se em mais de 9 000 dervixes mortos e em número de feridos ainda maior. Milhares renderam-se, perto de 20 000 fugiram para sul com o seu Califa. A meio da tarde, a infantaria invasora entra em Cartum e impõe a rendição dos habitantes e a deposição das armas.
 
A “Guerra do Rio” terminara. Calcula-se que, ao longo de 14 anos de combates, perderam a vida 300 000 pessoas.
 
O objectivo havia sido atingido, pois as bandeiras do Reino Unido e do Egipto estavam de novo desfraldadas, sem contestação, ao longo do Vale do Nilo.
 
Por tudo isto, e não só, se recomenda a leitura de “River War - A Reconquista do Sudão”, da Editora Fronteira do Caos, em particular aos militares e a todos a quem interessa conhecer a história do Sudão e, em especial, as raízes do actual conflito do Darfur.
 
A Revista Militar agradece a oferta do exemplar da obra e felicita os editores pela iniciativa.
 
Major-General Manuel de Campos Almeida
Vogal da Direcção da Revista Militar
 
 
Major-general
Manuel António Lourenço de Campos Almeida
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REVISTA MILITAR @ 2017
by CMG Armando Dias Correia