Nº 2476 - Maio de 2008
EDITORIAL - Forças Armadas e Guerras do Futuro
General
Gabriel Augusto do Espírito Santo
Conceber, armar e equipar, instruir e treinar forças armadas para conflitos do futuro constitui actualmente um debate que envolve planeadores da defesa e comandantes militares e que vai continuar, dando sequência às variadas e cíclicas revoluções militares que atravessam a História, muitas vezes cons­truindo mitos e esquecendo a função essencial daquelas forças: combater quando necessário.
 
A natureza e formas das actuais guerras no globo, que por ser politica­mente mais correcto se desejam enquadrar na classificação geral de conflitos, têm conduzido a encarar essas situações mais como operações de segurança do que de defesa, com as inerentes consequências na forma e vontade de combater das forças armadas e nos tradicionais parâmetros de planeamento da defesa. Há quem argumente que a natureza da guerra, no seu carácter trinitário concebido por Clausewitz é coisa do passado e fala-se de estratégias não-clausewitzianas.
 
O planeamento da defesa tem de admitir que a guerra vai continuar a existir, com ameaças imprevisíveis na natureza e localização, actores saindo da tradicional forma de estados dando lugar a organizações armadas não-estatais e coligações de vontades, locais de actuação longe dos solos pátrios, tempos de empenhamento da força militar dilatados no tempo, envolvimento crescente dessa força com populações, opiniões públicas e media hostis a baixas e custos. As guerras do futuro são difíceis de prever, levando os planeadores de defesa a construírem cenários que passam por acções humanitárias, operações de apoio e estabilização de conflitos, contingências de pequena escala, guerras de teatro e guerras nucleares, representando o seu risco o produto da probabilidade de ocorrência pelos efeitos produzidos. A guerra nuclear considera-se improvável até acontecer.
 
O contínuo e quase ininterrupto uso das forças armadas do denominado Ocidente em conflitos, têm conduzido a situações que merecem alguma meditação. Por exemplo, e servindo-nos de dados estatísticos disponíveis e que conhecemos, as Forças Armadas dos EUA, num estudo recente, apresentam a seguinte situação:
 
• 60% dos elementos inquiridos (3 400 entrevistas, entre oficiais dos quatro Ramos) pensam que as Forças Armadas estão mais fracas hoje do que há 5 anos;
 
• 88% pensam que a guerra no Iraque conduziu a uma situação muito frágil das Forças Armadas;
 
• Numa escala de 1 a 10, o moral dos Ramos é assim avaliado: Força Aérea: 5,7; Exército: 7,9; Marines: 7,0; Marinha: 5,9;
 
• Na mesma escala e perguntado se os EUA estão preparados para combater um conflito num Teatro de Operações possível, as respostas foram as seguintes: no estreito da Formosa: 4,9; na Coreia do Norte: 4,7; no Irão: 4,5; na Síria: 5,1.
 
Numa tendência crescente para se avaliarem os conflitos violentos como confronto entre opositores com assimetria nas suas capacidades militares, enquadrados em situações gerais de segurança que podem ser resolvidos com a presença da força militar e com dúvidas sobre quem será capaz de obrigar alguém a defender, se necessário, num ambiente orçamental cada vez mais hostil a despesas com a defesa e com uma opinião pública esperando sempre “que o mal não chegue a casa”, planear a defesa tornou-se tarefa ingrata. Refazem-se frequentemente antigos Conceitos de Defesa substituindo-os por Conceitos de Segurança e até alianças que basearam a sua solidez e duração no conceito de defesa colectiva, como a Aliança Atlântica, podem estar em crise quando procuram justificar-se em conceitos de segurança. Tendência que tem sido seguida na concepção, organização e emprego operacional da força militar procurando desenvolver capacidades militares de conjuntura (mobilidade estratégica, forças especiais, cooperação civil-militar, capaci­dades C4IR, armas não letais e outras) esquecendo capacidades militares estruturais da força militar para combaterem: o poder de fogo à distância e a mobilidade em combate.
 
Os alertas e avisos que se percebem na situação estratégica mundial mostram que há quem não tenha eliminado as situações de guerra nas suas avaliações de segurança, continuando a preparar-se para combater na defesa dos seus interesses.
 
Planeadores da defesa e comandantes militares devem fazer um alto para ajustar o rumo que vem sendo seguido, degradando as capacidades da força militar para combater e adormecendo a sua vontade de combater.
 
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*      Sócio Efectivo da Revista Militar. Presidente da Direcção.
 
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2008-11-26
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General

Gabriel Augusto do Espírito Santo

Nasceu em Bragança em 8 de Outubro de 1935.

É General do Exército, na situação de Reforma desde o ano 2000, depois de ter servido nas Forças Armadas Portuguesas durante 49 anos.

Além de Tirocínios e Estágios na sua Arma de origem possui os Cursos da Escola do Exército (Artilharia), Curso Complementar de Estado-Maior e Curso Superior de Comando e Direcção (Instituto de Altos Estudos Militares), Curso de Comando e Estado-Maior (Brasil) e o Curso do Colégio de Defesa Nato (Roma).

Falecido em 17 de outubro de 2014.

REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia