Nº 2481 - Outubro de 2008
Reunião do Corps D’Observation de La Gironde em Bayonne e Marcha Sobre a Espanha: Análise dos Relatos do Tenente-General Thiébault
Sargento-ajudante
José Luís Assis
Introdução
 
O estudo apresentado à Direcção da Revista Militar é o resultado de uma investigação que teve como objecto de estudo os relatos do tenente-general Thiébault, chefe do estado-maior do corps d’observation de la Gironde, relativos à reunião e marcha do exército francês desde Bayonne a Alcântara. As fontes são os relatos de guerra do tenente-general Thiébault enviados ao ministro da guerra francês, ao general-em-chefe Junot, ao tenente-general Loison, ao tenente-general Kellerman, ao tenente-general Margaron e ao tenente-general Brenier, entre outros oficiais do exército francês.
 
Na análise e interpretação das fontes privilegiámos os aspectos puramente militares, tendo em vista a originalidade e o interesse que elas encerram para o melhor conhecimento do que foi a marcha das forças napoleónicas sobre a Espanha até Alcântara, junto da fronteira portuguesa, e do seu relaciona­mento com o povo espanhol.
 
Para descrever a marcha do corps d’observation de la Gironde incidiremos sobre dois momentos particularmente importantes: o primeiro diz respeito à formação do exército em Bayonne e o segundo às dificuldades da marcha até Alcântara. Procuramos, ainda, perceber a relação com as altas autoridades espanholas e a forma como foi recebido pelo povo espanhol nos locais por onde passava. As estratégias e as principais linhas de força adoptadas pelo general-em-chefe serão também evidenciadas, particularmente nos momentos mais difíceis vividos pelo exército francês.
 
 
Reunião e Marcha de Bayonne a Alcântara
 
A Paz de Tilsit fora assinada entre a França e a Rússia e entre aquela e a Prússia e, desde logo, as ordens foram expedidas no sentido de reunir o primeiro corps d’observation de la Gironde nos Baixos Pirenéus. O exército era constituído por um estado-maior do qual faziam parte o general-em-chefe Junot, o tenente-general Thiébault, chefe do estado-maior, o general de brigada Taviel, comandante da artilharia, o coronel Vincent, comandante da engenharia, o general Quesnel, general de divisão (designado para governador do Porto) e o general de brigada Solignac (indicado como o futuro comandante de Cascais)1.
 
A primeira divisão comandada pelo general de divisão De Laborde e pelos generais de brigada Avril e Brenier era constituída por um efectivo de sete batalhões com um total de 8 093 homens. A segunda divisão estava sob o comando do general de divisão Loison e dos generais de brigada Charlot e Thomières, sendo o seu efectivo constituído por sete regimentos provisórios, dois dos quais suíços, num total de 7 180 efectivos. A terceira divisão tinha como comandante o general de divisão Travot e os generais de brigada Graindorge e Fusier, também ela formada por sete batalhões mistos (batalhões de linha, da Légion do Midi e da Légion Hanovrienne) num total de 5 496 homens. A divisão de cavalaria2 era comandada pelo general de divisão Kellermann e pelos generais de brigada Margaron e Maurin com um efectivo de sete esquadrões com 1 858 homens e 1 962 cavalos. A artilharia, os trens de artilharia, a engenharia, os trabalhadores e as equipagens militares eram formados por 1 506 homens. O corps d’observation de la Gironde era constituído por uma força de vinte e um batalhões, sete esquadrões, totalizando 25 639 homens3.
 
O general-em-chefe chegou a Bayonne com o seu estado-maior no dia 5 de Setembro e os corpos da primeira divisão, comandados pelo general de Laborde, nos dias 9, 10 e 11 do mesmo mês. A segunda divisão sob o comando do general Loison seguiu imediatamente e foi acantonar-se em Saint-Jean-de-Luz. A terceira divisão, às ordens do general Travot, estacionou em Navarreins e Saint-Jean-Pied-de-Port. A cavalaria, comandada pelo general de divisão Kellerman, encontrava-se acantonada sobre as Gaves nas proximidades de Pau e Oleron e l’Adour, junto de Aire e Castelnau. A artilharia estacionou em Bayonne e o coronel Vincent, comandante da engenharia, seguiu junto ao exército com os oficiais do corpo de engenharia4.
 
O tempo que o exército passou nos Baixos Pirenéus foi aproveitado por Junot para motivar as tropas e aperceber-se das suas necessidades. Observava os corpos à medida que iam chegando e passava revistas frequentes acompanhado dos oficiais do seu estado-maior. Ocupou-se da administração dos hospitais e de tudo o que estivesse relacionado com a saúde dos soldados. Reforçou a disciplina, apressou a instrução através da realização de manobras e fortificou o espírito dos soldados, incentivando-os a mostrarem-se dignos do Exército Imperial. A artilharia foi igualmente objecto dos seus cuidados: o material encontrava-se em mau estado, pelo que teve de recorrer à construção e reparação de todas as peças.
 
No dia 15 de Outubro recebeu ordem para entrar em Espanha e marchar com o exército para Salamanca. Antes de iniciar a deslocação do exército, assegurou-se de que ele cumpriria rigorosamente as suas ordens na travessia de Espanha - evitar causar toda e qualquer espécie de desordem e não cometer o menor desvelo - para que as populações espanholas guardassem a melhor opinião das suas tropas.
 
O tenente-general Thiébault expediu a cada comandante de divisão as suas ordens de movimento, o itinerário de marcha que cada uma das dezasseis colunas deveria seguir e uma instrução que compreendia todas as observações respeitantes aos procedimentos5 a adoptar durante a marcha.
 
O commissaire-ordonnateur Trousset, nomeado ordonateur en chef, encarregou-se da distribuição das cartas das estradas impressas nas duas línguas e das rações a entregar a cada corpo, destacamento militar e empregados civis ao serviço do exército que a elas tivessem direito nos diferentes lugares do percurso. Aos comissários espanhóis que se encontravam em Bayonne foi entregue uma relação dos alojamentos e as cartas das estradas para que cada um dos responsáveis desses lugares pudesse saber antecipadamente o que teria de fornecer às tropas e quando o deveriam fornecer6. Uma outra ordem foi transmitida aos comandantes no sentido de ser criado e organizado em Bayonne um depósito que ficaria sob o comando de um oficial e no qual os corpos do exército deixariam todos os equipamentos pesados, os soldados estropiados e os doentes acamados7.
 
No dia 16 de Outubro, um oficial do estado-maior, um comissário de guerra e um chefe médico saíram de Bayonne e dirigiram-se para Salamanca a fim de preparar os meios logísticos (os víveres, as forragens, os alojamentos e os hospitais) para a passagem do exército. Este, no dia seguinte, depois de ter recebido todos os bens de que necessitava, deu início à marcha.
 
O corps d’observation de la Gironde estava anunciado em Espanha e Junot tinha sido oficialmente informado de que as ordens tinham sido transmitidas para que fosse preparada a sua entrada. M. Besarco de Guardiqui, na qualidade de intendente-geral, era o responsável por tudo o que estava relacionado com a necessidade do exército e os comissários espanhóis foram enviados para cada uma das etapas para vigiar e executar as disposições prescritas8. Desta forma, e independentemente dos acordos firmados e das precauções tomadas por Junot, tudo parecia garantir os seus serviços. Contudo, nada foi assegurado e a maior parte falhou completamente9. Os víveres encontravam-se, muitas vezes, em mau estado, eram distribuídos mesmo bolorentos e apodrecidos e os soldados raramente encontravam os meios para se poderem alimentar. Quase todos os quartéis estavam inabitáveis por falta de higiene, de tal maneira que, mesmo com mau tempo, os soldados preferiam pernoitar sobre as pedras húmidas dos corredores, nos itinerários das marchas e nas ruas. Nas cidades onde não havia quartéis alojavam-se os soldados em grupos de cinquenta nos mais miseráveis casebres. Os oficiais não recebiam roupas para se cobrirem nos imundos enxergões que lhes serviam de cama. O incumprimento das ordens e prescrições foi notório e revelou a má vontade e falta de colaboração das autoridades espanholas locais e dos seus agentes10. As necessidades do exército que deveriam estar asseguradas, uma vez que foram calculadas de acordo com os recursos das comarcas mais pobres e reguladas pelos comissários espanhóis enviados de Madrid a Bayonne, não foram satisfeitas mesmo nas maiores cidades e o exército passou por privações que até aí não tinha conhecido em nenhuma outra parte11.
 
O exército tinha motivos para se lamentar, mas a sua conduta foi digna de elogios, pois nunca o movimento do exército se realizou com tanta ordem, nunca a disciplina foi melhor observada apesar de inúmeras situações objecto de descontentamento. Os soldados tiveram paciência e resignação perante as dificuldades da marcha12.
 
O mau tempo e o incumprimento das disposições acordadas com as autoridades espanholas coincidiram e contribuíram para tornar esta marcha extremamente penosa. A maior parte das tropas fizeram-na sob chuva e neve quase contínuas sem poder secar as roupas. A esta circunstância juntou-se o facto de quase todos os soldados deste exército serem conscritos em 1807, uma má alimentação, um repouso insuficiente e um depauperamento do calçado o que contribuiu para que bem cedo não conseguissem avançar sem deixar homens em todos os hospitais.
 
Enquanto exército atravessava a Espanha para entrar em Portugal e combater o seu inimigo natural (os portugueses), os embaixadores espanhóis, distribuídos pelas estradas, fomentavam a deserção de muitos corpos, especialmente dos estrangeiros, levando-os a abandonar a missão e a fazer a sua partida13.
 
Depois das ordens recebidas em Bayonne, o exército deveria tomar as posições que em 1801 as tropas do general Leclerc tinha ocupado depois de Valladolid até às fronteiras de Portugal. A sua distribuição foi calculada sobre um total de efectivos de 26 000 homens e 3 400 cavalos e é a que a seguir se descreve:
 
Deslocando-se de Valladolid para Salamanca, Junot recebeu ordem para marchar sobre Lisboa e reunir-se ao corpo espanhol do general Caraffa, receber os víveres, os cartuchos e depois daquela localidade dirigir-se para Lisboa pelo lado direito do Tejo, enquanto o general Taranco entrava pela Galiza, se apoderava da cidade do Porto e submetia a província de Entre Minho e Douro. O general Solano, marquês do Socorro, entraria pelo Alentejo, deslocando-se sobre a margem esquerda do Tejo e ocupava Setúbal assim que as peças de artilharia fossem dispostas sobre o terreno e prontas a fazer fogo sobre Lisboa14.
 
Em Salamanca, Junot ordenou o fornecimento de víveres às tropas nos lugares dos grandes altos e de guarida e decidiu o itinerário a seguir pelas forças de Salamanca a Alcântara, (Salamanca, S. Mugnos, Ciudad-Rodrigo, Fuente-Guinaldo, Moraleja e Alcântara).
 
Depois de uma estrada tão longa e penosa como a de Bayonne a Salamanca as tropas tinham necessidade de repouso. Todavia, em vez de lhe ser dado esse merecido repouso, as colunas que tinham um número par receberam ordens para duplicar um dia e o exército formou-se por brigadas. As brigadas pares duplicavam um segundo dia e encontraram-se a um dia de distância das brigadas ímpares da sua divisão. As brigadas da segunda e da terceira divisões de infantaria e da divisão de cavalaria, tinham sido reunidas sobre a primeira divisão, por meio de marchas forçadas e pela eliminação da assistência e o exército chegou a Salamanca formado em oito colunas a um dia de distância umas das outras15.
 
Independentemente dos homens que entraram nos hospitais, um grande número de soldados não conseguiu seguir a sua unidade e quando o conseguiu foi após um enorme sacrifício. Para que não ficassem abandonados a eles próprios ou às punhaladas dos habitantes, o chefe do estado-maior general Thiébault mandou criar em Salamanca e em Ciudad-Rodrigo depósitos para instalar os homens que não conseguiam acompanhar as suas unidades: os isolados, os estropiados, os cavaleiros desmontados e aqueles que o estado dos seus cavalos forçou a ficar para trás. Esta medida salvou muitos homens.
 

Por fim, ordenando o fornecimento de víveres às tropas nos lugares de grandes altos e de guarida, o general-em-chefe decidia o itinerário do movimento das forças de Salamanca a Alcântara que se segue:

Dias­ Localidades­ Léguas­
­1º dia­ de Salamanca­ a ­S. Mugnos­ ­10­
­2º dia­ de S. Mugnos­ a ­Ciudad- Rodrigo­ ­9­
­3º dia­ Ciudad-Rodrigo­ a ­Fuente-Guinaldo­ ­6­
­4º dia­ de Fuente-Guinaldo­ a ­la Moraleja­ ­10­
­5º dia­ de la Moraleja­ a ­Alcântara­ ­10­
 
A 12 de Novembro o exército saiu de Salamanca. O tempo estava pavoroso, a neve caía em abundância e durante muitos dias não deixou de cair, de tal forma que em cada manhã as tropas eram obrigadas a abrir caminho sobre a neve que durante a noite se tinha amontoado. Esta situação tornava o caminho muito difícil de seguir, bom no Verão, tornava-se quase impraticável nas estações chuvosas.
 
A Calçada de D. Diego devia fornecer o primeiro restauro de calçado às tropas. Apesar das ordens do governador e do intendente de Salamanca, nenhuma das disposições foram tomadas e o exército não recebeu qualquer apoio e marchou sem parar até San-Mugnos. Esta localidade estava tão desprovida como a Calçada de D. Diego, apenas alguns corpos do exército conseguiram obter um pouco de carne16, mas a maior parte não recebeu víveres e ao longo das dezanove léguas que separam Salamanca de Ciudad-Rodrigo tiveram como único alimento algumas glandes que encontraram pelos campos17.
 
A natureza, a estação, o país e os habitantes pareciam reunir-se para abater o exército. Os caminhos eram cada vez mais difíceis, o tempo mais deplorável e a penúria cada vez mais completa.
A distância excessiva das marchas e a pouca duração do dia nesta Estação do Ano contribuíram para dispersar muitos homens e juntá-los aos desastres que acabo de assinalar. Tantos horrores e tantos sofrimentos exasperaram as tropas e pouco a pouco destruíram a disciplina. O exército, que com tanta regularidade e disciplina tinha marchado de Bayonne a Salamanca, conheceu próximo de Ciudad-Rodrigo uma verdadeira desordem18. A ferocidade dos habitantes desta parte da Extremadura acaba por revoltar os homens cuja situação levava ao desespero. A pilhagem tornou-se geral, o massacre recíproco, a situação do exército aterradora19.
 
A cavalaria, exausta depois da partida de Bayonne pela falta de meios de ferragem e de alimento, tinha deixado muitos cavalos para trás. A acrescentar a esta situação temos o facto de ter marchado dobrando as etapas, sem víveres e sem descanso nos difíceis caminhos da Extremadura. Por onde passava deixava os cavalos mortos nas estradas e, apesar dos esforços dos seus comandantes, não chegou às fronteiras de Portugal com mais de dois terços da sua força20. Antes de Salamanca perdeu parte dos seus cavalos e foi obrigado a substituí-los por juntas de bois conduzidas por homens que estavam empenhados em aproveitar-se das situações de dificuldade criadas pelas noites e pelas intempéries para atirar as peças e as caixas de munições para as ravinas e depois escaparem-se com as suas juntas21.
 
A artilharia marchou de noite e de dia sem poder seguir a infantaria. Deixava enterrado o material nos caminhos mais difíceis e acumulava, tal como a cavalaria, as maiores desgraças. Partilhava todas as privações do resto do exército e não teve momentos de paragem, sendo forçada depois destas dificuldades a permanecer na retaguarda com as equipagens e as bagagens dos corpos e dos seus comandantes.
 
No que diz respeito ao corpo de infantaria, os relatos do chefe de estado-maior referem os principais detalhes da marcha da segunda brigada da segunda divisão depois de Fuente-Guinaldo a Moraleja. A brigada partiu de Fuente-Guinaldo a 17 de Novembro pelas cinco horas da manhã. A chuva caía copiosamente e todos os caminhos estavam inundados. A coluna marchava por entre sebes, valas e rochedos sem poder seguir a estrada e ao fim de seis horas de marcha chegava a Penaparda onde acampou durante uma hora e meia. No momento da partida de Penaparda, levantou-se uma violenta tempestade, os guias não conseguiram descobrir a estrada e a coluna viu-se perdida num bosque. O tempo tornava-se cada vez mais difícil, a confusão total e a coluna não foi mais uma coluna em marcha, mas uma massa de homens esfarrapados que procuravam fugir aos sofrimentos e aos perigos a que estavam sujeitos22. Ao fim de duas horas desta horrível situação o guia reconheceu a estrada de Péralès e os homens extenuados de fadiga, de frio e de miséria foram chegando aos poucos àquela vila. Em Péralès não havia nada para distribuir e as ordens do general-em-chefe eram para chegar a Moraleja.
 
Saindo de Péralès a coluna tomou uma estrada rodeada de duas muralhas pela qual se escoavam as águas da montanha. Os soldados caminhavam com água até aos joelhos. O mais pequeno seixo derrubava-os, mas ganhavam coragem pelo facto de estarem num caminho conhecido. Contudo, o mo­mento de coragem foi curto, pois a estrada logo muito cedo tornou-se difícil de seguir e por um momento impraticável. A noite regressou e os homens foram obrigados a deitar-se sobre os flancos da estrada, cortada a cada passo por buracos e ravinas. O exército marchou através de uma corrente forte e continuada. Ao longo de duas horas a escuridão aumentou ao ponto que não se via mais um homem. A tempestade redobrava com a chuva, o vento tornava-se medonho e o caminho perdia-se. Os guias não sabiam mais para onde ir nem o que fazer para o reconhecer e os soldados para encontrar a estrada retrocediam sem saber e perdiam-se. Outros caíam nas torrentes e desapareciam enquanto outros ainda eram assassinados. Esta situação de desespero e agonia durou perto de duas horas. O general Thiébault marchava à frente desta coluna e partilhou as suas adversidades. Por volta das onze horas da noite chega à margem de uma ribeira, seguiu o seu curso e acaba por descobrir uma ponte através da qual chega a Moraleja. A primeira brigada da segunda divisão e o general Charlot já aí se encontravam. O general Thiébault, no sentido de evitar mais perdas, reuniu todos os tambores da primeira brigada e conduziu-os até à frente da coluna transmitindo-lhe ordem para tocar continuamente à chamada. Ordenou que se acendessem grandes fogos para lá da ponte, mandou colocar um farol no cimo de uma torre da igreja e fez tocar o sino durante toda a noite para guiar os homens perdidos.
 
Aos poucos, os homens foram chegando, mas nas primeiras horas não entrou em Moraleja mais do que um dos batalhões e sessenta homens. Para cúmulo da desgraça, Moraleja, onde as autoridades tinham negligenciado a preparação dos víveres, tinha sido pilhada, devastada, abandonada, pelos seus habitantes e não encontrou um único recurso.
 
Esta posição era terrível e o exército vergava-se perante o peso da sua desgraça, tinha perdido depois de Bayonne mais de cinquenta por cento do seu efectivo.
 
Quanto ao general Junot, este encontrava-se em Alcântara com a esperança de conseguir víveres em abundância, biscoitos, equipagens para as mulas, as tropas espanholas que se deveriam reunir ao seu exército e as munições de guerra e os cartuchos. À excepção das tropas, nada do que estava à espera de encontrar existia. Perante tal situação, limitou-se a remediar o mal. Dos vinte batalhões espanhóis que deveriam segui-lo, oito recuaram, deixaram Alcântara e voltaram aos seus acantonamentos. O chumbo necessário e a pólvora foram reunidos à pressa e o papel foi fornecido pelos arquivos dos cavaleiros de Alcântara. Fizeram-se cartuchos de noite e de dia e distribuíram-se apenas vinte a cada homem. Quanto ao pão e à carne, recorreu-se a toda a cidade e aos seus arredores, mas apenas se conseguiu distribuir às tropas meia ração de pão, de carne e duas cabras por batalhão. Deu-se-lhes um dia de descanso que foi aproveitado para colocar as armas em bom estado e preparar para entrar em Portugal, o que viria a acontecer no dia 18 de Novembro, quando deu ordens para que uma companhia de atiradores do 70º Regimento de Infantaria tomasse posição em Segura com a missão de esperar pela vanguarda do exército, registar todas as ocorrências e transmiti-las ao estado-maior.
 
 
Conclusão
 
O corps d’observation de la Gironde foi formado pelas tropas francesas do interior que não tinham sido empenhadas por Napoleão e pelas tropas da guarda costeira da Normandia e da Bretanha. Fazia parte do seu efectivo um grande número de velhos soldados com experiência de guerra adquirida em anteriores campanhas ao serviço do exército francês. Contudo, muitos dos seus batalhões eram formados por jovens soldados incorporados a partir da conscrição do ano corrente, sem experiência de guerra e a necessária robustez física e psicológica para suportar uma expedição desta natureza.
 
Independentemente dos acordos celebrados e do comprometimento das autoridades espanholas em garantir a entrada do exército francês no seu território, bem como satisfazer todas as suas necessidades, na realidade nada foi concretizado e tudo falhou. O incumprimento das prescrições celebradas foi uma realidade e colocou o exército numa situação difícil perante as autoridades espanholas locais e dos seus agentes.
 
Ao longo do itinerário da marcha por território espanhol, entidades locais colocadas nas estradas de passagem do exército incentivavam à sua deserção, particularmente dos corpos estrangeiros, levando mesmo alguns a abandonar a missão.
 
As longas distâncias percorridas durante a marcha, os dias curtos, a intempéries, a fome, a falta de equipamentos, de víveres e de vestuário levaram a que muitos homens entrassem em desordem e, pior ainda, perdessem a disciplina como aconteceu próximo de Ciudad-Rodrigo.
 
Em Alcântara, onde Junot preparou a entrada do seu exército em Portugal, encontrou grandes dificuldades, pois não encontrou nada do que pretendia: víveres, equipagens, vestuário, calçado e cartuchos. Para piorar ainda mais esta situação, dos vinte batalhões espanhóis que aí se encontravam sob o comando do general Carrafa, oito recusaram-se a seguir Junot e a entrar em Portugal, deixaram Alcântara e regressaram aos seus acantonamentos.
 
 
Fontes
 
Foy. 1834. Livre Troisième. Portugal. In Histoire des Guerres de la Péninsule sous Napoléon. Tome I. Paris: Loudaille Libraire-Editeur, 5-129.
Junot, Jean-Andoche, Diário da I Invasão Francesa, Introd. António Ventura, trad. Manuel Ruas, Lisboa, Livros Horizonte, 2008.
Rossi, Camillo Luiz de. 1808. Diario dos Acontecimentos de Lisboa, por Ocasião da Entrada das Tropas de Junot.
Thiébault. 1817. Relation de L’Expédition du Portugal Faite en 1807 et 1808, par le Ier Corps D’Observation de la Gironde. Paris: Libraires Pour L’Art Militaire.
 
 
Bibliografia
 
Amaral, Manuel Carlos de Lara Everard do. 2006. Uma Reforma Sempre Adiada, de 1801 a 1807. In Actas do XV Colóquio de História Militar. Volume I. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar. 343-350.
Botelho, J. J. Teixeira. 1915. Invasão da Península. In História da Guerra da Península. Porto: Livraria Chardron, 57-175.
Chaby, Cláudio de. 1865-1880. Excerptos Históricos e Colecção de Docu­mentos Relativos á Guerra Denominada da Península e ás Anteriores de 1801 e do Rossillon e da Catalunha. 5 vols. Lisboa, Imprensa Nacional.
Chartrand, René. 2001. Vimeiro 1808 Wellesley’s firts victory in the Peninsular. Oxford:Osprey Publishing.
Nunes, António Pires. 2003. A Primeira Invasão Francesa. In Nova História Militar de Portugal. Vol. 3. Lisboa: Círculo de Leitores, 43-72.
Santos, Nuno Valdez dos. 1976. A Ocupação Francesa de Junot Segundo Documentos Existentes no Arquivo Histórico. In Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º46. Lisboa: Arquivo Histórico Militar, 85-462.
Selvagem, Carlos. 1993. Invasões Francesas e Guerra Peninsular. In Portugal Militar. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 492-537.
Vicente, António Pedro Araújo Pires. 1971. Memórias Políticas, geográficas e Militares de Portugal - 1762-1796. In Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 41. Lisboa: Arquivo Histórico Militar, 11-298.
Idem, 2000. O Tempo de Napoleão em Portugal: Estudos Históricos. 2ª ed. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar.
 
 
* Sargento-Ajudante Pára-quedista. Licenciado em História (ensino de), professor do Ensino Secundário e mestre em Estudos Históricos Europeus pela Universidade de Évora. Desempenha funções na Comissão Portuguesa de História Militar.
 1 Cfr., Foy, “État dês Armées Françaises dans la péninsule Espagnole au 1er Janvier 1808», in Histoire des Guerres de la Péninsule sous Napoléon, Précédée d’un Tableau Puissances Belligérantes, Paris, Ajoudaille Librarie-Editeur, 1834.
 2 Faziam parte da cavalaria quatro esquadrões fornecidos pela conscrição do ano corrente que estavam reunidos em regimentos provisórios. Nesta organização, os homens, os cavalos, as roupas e os equipamentos eram novos, exceptuando os oficiais, os sub-oficiais e três a quatro cavaleiros por cada companhia.
 3 O corpo do Exército foi dotado de 50 peças de artilharia, mas como os batalhões dos trens de artilharia estavam colocados ao serviço do Exército Imperial noutras campanhas, houve a necessidade de contratar uma empresa particular (Train d’artillerie de l’entreprise Julien) para fazer o transporte dos víveres, das munições, dos cartuchos e fornecer alguns cavalos.
 4 Acompanhavam o exército um certo número de comissários de guerra e empregados civis que deveriam marchar com as tropas para montar os serviços administrativos sempre que fossem necessários.
 5 Desses procedimentos faziam parte as paragens, as chegadas, as hospedagens, as subsistências, os hospitais militares e as relações com as autoridades espanholas.
 6 Thiébault, “Formation et rassemblement du premier Corps d’observation de la Gironde”, in Relation de L’expédition du Portugal, Faite en 1807 et 1808, Paris, Chez Magimel, Anselin et Pochard, Libraires pour L’art militaire, 1817, p. 5.
 7 Como no momento da marcha em direcção a Salamanca o exército tinha mais de 2.000 homens distribuídos pelos hospitais franceses, o general-em-chefe ordenou que fossem formadas companhias de marcha com os militares isolados, com os pequenos destacamentos do exército que aí chegavam e com os homens do depósito em condições de se lhe juntarem. Essas companhias deveriam ser comandadas por um oficial e, no mínimo, serem formadas por um efectivo de cem homens.
 8 Cfr., Idem., “Marche de l’armée, de Bayonne à Salamanque”, in Relation de L’expédition du Portugal, Faite en 1807 et 1808, Paris, Chez Magimel, Anselin et Pochard, Libraires pour L’art militaire, 1817, p. 7.
 9 Cfr., Idem, Ibidem, pp. 7-8.
10 Cfr., Idem, Ibidem, p. 8.
11 A única excepção a esta situação foram as cidades de Tolosa e Vitoria nas quais as tropas puderam repousar e alimentar-se apesar de dois soldados franceses terem sido mortos naquela última praça.
12 Cfr., Idem, Ibidem, p. 8.
13 Cfr., Idem, Ibidem, p. 11.
14 Sem contar a artilharia, os sapadores, os mineiros e a cavalaria, o copo do general Caraffa, era formado por vinte batalhões de Infantaria; o do general Taranco de dezoito e o do general Solano de oito.
15 Ordenando estas marchas duplas, o general-em-chefe fez escrever, que nos lugares da etapa onde as tropas não pernoitavam, eles deviam tomar os víveres a título de refrescamento; mas a má vontade das autoridades espanholas anulou o efeito destas disposições tão necessárias para conservar o exército.
16 As florestas que envolviam San-Mugnos encerravam em si trinta mil animais de cornos, e aprovisionaram os exércitos franceses, ingleses e espanhóis, durante cinco anos. A província de Salamanca pode alimentar mais do dobro da sua população: ela produzia mais de vinte milhões de garrafas de vinho e tocou a outras províncias tão ricas como ele.
17 Nestes dois dias somente, o 3º regimento provisório deixou trezentos homens para trás.
18 Cfr., Idem, Ibidem, 22-23.
19 Cfr., Idem, Ibidem, 22-23.
20 Cfr., Idem, Ibidem, 22-23.
21 Cfr., Idem, Ibidem, 22-23.
22 Cfr., Idem, Ibidem, 22-23.
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