Nº 2481 - Outubro de 2008
II - Crónicas Bibliográficas
VISÕES ESTRATÉGICAS NO FINAL DO IMPÉRIO
Conduta das Operações Coloniais - 1944
Lições de Estratégia - 1953
(Estudo do Coronel João Vieira Borges)
 
 
Em primeiro lugar tenho de pedir ao Coronel Vieira Borges que me releve tão longo atraso na apreciação do livro em título - e de que é autor - garantindo-lhe que não foi causado por desinteresse na leitura - já há muito feita e toda de seguida - nem pela natureza do assunto, que considero da maior importância e oportunidade.
 
Dividirei a minha análise em três vertentes: a introdução, a táctica operacional, análise táctica e as considerações estratégicas.
 
Começando pela INTRODUÇÃO o autor é credor dos maiores encómios, tanto pela forma como aborda o assunto como pela profundidade com que o expõe, pelas acertadas interpretações e pela busca de importantes elementos que alicerçam o seu trabalho.
 
O General Júlio Botelho Moniz fica perfeitamente retratado, como merecia, e os seus preciosos conhecimentos divulgados, fazendo justiça ao estratega de mérito e ao político sensato e de grande visão do futuro.
 
Pena foi que uma certa “ingenuidade” - permita-se-me o uso desta palavra com sentido positivo e não pejorativo - na iniciativa que encabeçou em 1961, não tendo em conta que iria enfrentar um político astuto, bem informado e capaz de reagir com agilidade para derrotar toda e qualquer tentativa que visasse alterar o rumo por si tratado e teimosamente defendido. Ao planear e preparar um golpe que imporia uma solução que, embora tardia, ainda seria a última oportunidade de salvar o país de se atolar numa guerra sem sentido, a não ser pela óptica de quem vivia ainda nas décadas de trinta e quarenta, ignorando totalmente as consequências globais e principalmente africanas, do pós Segunda Guerra Mundial. É importante sublinhar a ignorância do que foi e passou a ser a África, onde Salazar nunca estivera, e que Botelho Moniz tão bem conhecia presencialmente.
 
Honestidade de propósitos e soluções que os “falcões” do regime não deixaram chegar a bom termo. Era eu um jovem tenente quando se deu a “Abrilada”e acreditei que ela tinha condições de sucesso, e que seria a concretização de uma ideia que tinha, à partida, uma tão grande adesão. Se outros motivos não houvesse, esta proposta de emparceirar o país com aqueles que tiveram a visão estratégica e política correcta do futuro que deveriam construir para as suas antigas colónias, logo após o fim da II GM, era mais que suficiente para exemplificar que houve Alguém que quis evitar o “sangue, suor e lágrimas” que as antigas colónias deram aos portugueses. Botelho Moniz teve a correcta noção, que outros mais tarde tambám haveriam de reafirmar, de que a questão de África não teria solução militar, mas somente política. Diga-se, no entanto, que aquela afirmação apenas a ouvi dita por militares.
 
Para concluir, queria reafirmar que o Coronal Vieira Borges foi feliz, fundamentando brilhantemente a reabilitação do Militar, que a tal tinha direito, tendo-a feito com profundidade, bem apoiada documentalmente e com clarividência presente em todo o estudo e conclusões.
 
A análise da “CONDUTA DAS GUERRAS COLONIAIS”, constitui um interessante repositório do que foi a acção do Exército em África nas primeiras décadas do século passado, ponderando tácticamente as condições propor­cionadas pela “missão, inimigo, terreno e meios”. Elas foram irrepetiveis pela alteração substancial verificada nos meios disponíveis e no inimigo que se opunha. A táctica das operações coloniais segue de perto a doutrina aplicada no território continental, muito embora não esqueça a referência a pontos cruciais para o combate em gerras africanas - o afastamento do teatro de operações, as extensas vias de comunicação, a escassez dos recursos locais, os problemas do reabastecimento e dos transportes. De todo o modo é indiscutível o interesse da transmissão de tais conhecimentos para os que viessem a ser chamados a actuar nesses territórios.
 
E passamos, finalmente, às “LIÇÕES DE ESTRATÉGIA” que foram verdadeiramente inovadoras e de consulta quase obrigatória para compreender e projectar as situações da actualidade para o futuro que elas preparavam.
 
Trata-se de seis lições magistrais e inéditas que abordam: a definição e o significado da Estratégia e as suas relações com a Política; a condução das operações militares; a Nato; a Geopolítica; o Império Português na estratégia mundial; a defesa da Península Ibérica e os Teatros de Operações nela existentes.
 
Na primeira lição realça-se o enunciado dos princípios da estratégia que, em essência, embora variando o enunciado ou o número, se perpetuaram e mantendo actualidade através dos tempos.
 
Na lição seguinte assume uma solução portuguesa para a “Questão Imperial”, diversa da que, mais tarde, viria a defender (esta crítica é positiva porque representa a capacidade de assumir e ponderar novas respostas para novas situações, o que não ocorreu com outros… “Caso os nossos domínios de África … não se encontrem ameaçados” (Pág 238) teriam condições para a “defesa da integridade própria” e discorre, então longamente, sobre as relações entre Portugal Continental e a Nato. Só que esta organização multilateral defensiva nunca nos apoiaria na defesa de África como ficou completamente demonstrado com o decorrer da guerra.
 
Inovador também na abordagem das escolas da geopolítica (3ª lição) e o estudo da sua aplicação, em síntese, no Atlântico, no Ártico e no Mediterrrâneo que termina com a afirmação da importância que reconhece ao Império Portugês na estratégia mundial (4ª lição).
 
As duas últimas lições são a aplicação prática na “Defesa da Península Ibérica”, com a análise dos factores geoestratégicos, para concluir numa divisão em Teatros de Operações e a organização territorial, articulação dos meios, procedendo a uma análise histórica das invasões da península e da relação entre os dois Estados da Ibéria, através dos tempos, para concluir que “A Península Ibérica não é impossível de invadir, mas não é fácil de dominar” (Pag 311). Conclusão que se apoia no tempo e nos meios militares disponíveis após a II GM.
 
Na segunda metade da década de cinquenta e princípios da de sessenta, do século vinte, a sua visão, nomeadamente a colonial, alterou-se substan­cialmente, evidenciando clara influência da doutrina norte-americana e tomada de consciência da alteração do panorama colonial e das consequências já extraídas, pelas potências coloniais, do que iria suceder, desde logo anunciando a concessão de independências. Neste modo de encarar o problema pelo então Ministro da Defesa Nacional, eram em pequeno número os militares, dos mais altos escalões, que o acompanhavam e, ainda menos, os políticos, de forma especial dos que se incluiam na área do poder ou que, de fora, o influenciavam. Por isso não foi grande a surpresa do aborto que aconteceu com a Abrilada (12 de Abril), um movimento que visava obter a concordância de Salazar para que fosse eleito o General Craveiro Lopes como Presidente da República. A decisão de Salazar foi a da demissão imediata de Botelho Moniz. E assim se gorou a última possibilidade de alterar o rumo dos acontecimentos no Ultramar.
 
É chegado o momento, talvez já atrasado, de concluir estas minhas considerações, bem mais simples do que as do distinto Coronel Vieira Borges nos oferece no livro em tão boa hora dado à estampa e de cuja leitura muito beneficiarão todos os que se interessam pelos problemas de estratégia.
Tenente-General Adelino Rodrigues Coelho
Sócio Efectivo e vogal da Direcção da Revista Militar
 
 
Major-general
Adelino de Matos Coelho
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2009-02-05
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Major-general

Adelino de Matos Coelho

Habilitado com os Cursos de Infantaria, da Academia Militar, Geral de Comando e Estado-Maior e Superior de Comando e Direção, do Instituto de Altos Estudos Militares; possui outros Cursos de que se destacam o de Oficial de Informação Pública do Comando Aliado da Europa da OTAN (Bélgica), o Curso Militar de Direito Internacional dos Conflitos Armados, do Instituto de Direito Humanitário de Sanremo (Itália) e o Diploma de Pós-Graduação em Estudos Europeus da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Ao longo da sua carreira, prestou serviço em várias Unidades e Órgãos do Exército, nomeadamente, no Regimento de Infantaria de nº 3, em Beja, que comandou, e no Estado-Maior do Exército, onde desempenhou o cargo de Chefe da Divisão de Pessoal. Além disso, também desempenhou carg

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