Nº 2433 - Outubro de 2004
Crónicas - Crónica Bibliográfica

A Guerra das Gálias

Júlio César

 
Edições Sílabo, na colecção “Clássicos do Pensamento Estratégico, inédita em Portugal, apresenta este oportuno relato histórico onde se salienta o testemunho de Júlio César, personagem principal. A tradução da obra foi realizada por Angelina Pires a partir da edição em latim do século XVI, comparada com outras de reconhecido mérito em língua francesa e inglesa. O excelente estudo introdutório, as notas e a revisão da tradução, foram realizados por Víctor Raquel, licenciado em História e mestrando em Estratégia.
 
Na Introdução analisa-se o processo de expansão de Roma, a sua consistência e o notável exemplo de coerência que representa todo o processo. “O mecanismo é relativamente simples: qualquer extensão da sua área de influência no sentido de garantir segurança, ou para defesa dos seus interesses, multiplica os contactos com novas unidades políticas, comporta uma redefinição de objectivos, gera novas ambições e, consequentemente, novos focos de instabilidade e de conflito.
 
Perante as ameaças reais ou imaginárias estes homens reagiam de forma invariável. Quando entravam em guerra apenas admitiam duas hipóteses: a total submissão do adversário ou a sua incorporação como ‘cliente’; não havia excepções.” (Pag 42).
 
A obra organiza-se em “Júlio César - O Homem” e “A Guerra das Gálias”, esta com: “A Neutralização da Ameaça (Livro Primeiro)”, “A Anexação da Gália (Livro Segundo, Terceiro e Quarto)”, “A Sublevação da Gália (Livro Quinto, Sexto e Sétimo)” e “Depois da Tormenta (Livro Oitavo)”, terminando com Ilustrações e respectivos comentários.
 
Este tesouro histórico foi escrito para realçar o triunfo e o poder de Júlio César junto do povo de Roma descrevendo o conjunto de campanhas militares que subjugaram a Gália (Europa Ocidental desde o Reno até aos Pirinéus e Mediterrâneo) e a colocaram sob o domínio de Roma. Para além da descrição das batalhas que travou, César apresenta, com clareza e elegância literária, os costumes e modos de vida das tribos que foi conquistando e a forma como partilhou as dificuldades com os seus subordinados, com eles marchando, comendo e lutando na linha da frente.
 
Júlio César foi líder político e militar de excepção, mas embora tivesse criado as bases do Império que permitiram séculos de paz e prosperidade, a sua entrada para a história deve-se, em especial, à conquista da Gália.
 
As excepcionais qualidades de estratego e de líder, aliadas a uma confiança ilimitada nas suas capacidades intelectuais, permitiram que Júlio César seja considerado, depois de Alexandre - O Grande - a figura mais marcante da antiguidade clássica.
 
O estudo desta obra, para além da agradável leitura superficial, permite encontrar o seu alto valor conceptual no âmbito da fenomenologia estratégica, demonstrando que a Estratégia ultrapassa o conflito das armas.
 
A Revista Militar agradece a “Edições Sílabo” o exemplar enviado para a sua Biblioteca, felicita a Editora por mais esta obra da maior actualidade e os intervenientes na edição, Angelina Pires, tradutora, Víctor Raquel, introdução/biografia/notas/legendas e o coordenador editorial da colecção, nosso colaborador habitual, Mestre Francisco Abreu.
 
António Pena
Coronel, Director-Gerente do Executivo da Direcção
 
 

O Preto Deitado Que Não Estava

José Lopes Alves

 
O facto de ter sido incumbido da recensão do livro “O Preto Deitado que não Estava” - que bem poderia ser também “ O Preto que não Estava Deitado” - para a Revista Militar deu-me um triplo prazer: reviver e recordar um país, Moçambique, e as suas circunstâncias, onde me encontrava ao tempo dos acontecimentos relatados; ver escrito realidades vividas sobre pessoas e coisas que eu conheci, mas que são ignoradas pela grande maioria dos portugueses; apreciar mais uma obra do autor que já tem extensa bibliografia publicada, embora, na sua generalidade, de natureza bastante diferente da narrativa de índole histórica ficcionada.
 
A primeira observação que nos ressalta é de que estamos perante duas realidades coexistentes no Moçambique de 1969: o desconhecimento, pela generalidade da comunidade de etnia europeia, dos anseios e reais vivências da comunidade afim autóctone e a universal ausência de bandeira, de ideologia, de valores por parte do “dinheiro”.
 
O livro lê-se com completo agrado, sendo difícil interromper a sua leitura por a descrição dos factos ser apelativa e com uma sequência e ritmo que nunca apetece interromper.
 
O desenvolvimento do conjunto de duas acções e movimentos paralelos, mas com objectivos em conflito, dá um sentimento de se tratar de um “romance policial” em que o leitor se embrenha e anseia por conhecer o seu desfecho.
 
O livro está escrito em estilo fluente e sequência bem construída e conseguida que são razões fortes para felicitar o autor e desejar que ele prossiga a publicação de outra narrações, assim conseguindo divulgar conhecimentos da, agora dita guerra colonial, para contrapor às que, na sua quase totalidade, iludem ou deturpam a realidade, especialmente quando se trata de apreciar o esforço militar na contra-subversão.
 
O comportamento, o modo de sentir e a actividade, por vezes dupla, das populações em Moçambique, está muito bem retratada e põe em realce a sua importância para a subversão como para a contrasubversão, e as dificuldades acrescidas com que esta se debateu no território. Aliás o autor termina, e bem, com um posfácio que transmite e clarifica os conceitos subjacentes àquelas situações.
 
Considero de sugerir que o livro seja lido não apenas por aqueles que viveram a guerra em Moçambique, mas por todos os militares, especialmente os que se encontrem em cursos de formação - para tal não seria útil a inclusão de um mapa com as localidades mencionadas?
 
Antes de concluir gostaria de mencionar que da leitura do livro se conclui sobre a importância crucial das “informações”e a necessidade imperiosa de coordenar e conjugar esforços de todos os serviços e agentes, sem competições e cada um na área da sua competência específica.
 
Adelino Rodrigues Coelho
Tenente-General. Vogal da Direcção
 
 
Tenente-general
Adelino Rodrigues Coelho
Coronel
António de Oliveira Pena
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2009-06-25
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Tenente-general

Adelino Rodrigues Coelho

Sócio Efetivo da Revista Militar.

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Coronel

António de Oliveira Pena

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