Nº 2434 - Novembro de 2004
Os Novos Desafios Político Militares da NATO no Afeganistão
Tenente-coronel
Manuel Alexandre Garrinhas Carriço
1.  Introdução
 
Numa altura em que se prevê a curto prazo o aumento do contingente de forças da NATO apensas à Força International de Assistência e Segurança (ISAF) e para a qual Portugal participa numa primeira fase com o envio de uma pequena equipa de militares da Força Aérea vocacionados primordialmente para missões de controlo do espaço aéreo, considera-se importante redireccionarmos novamente a nossa atenção para este país trespassado continuamente pela guerra durante os últimos vinte e cinco anos, e que desde a derrota soviética e após a mais recente ofensiva norte americana que conduziu à deposição do regime Taliban, parece ter sido novamente esquecido em prol da questão iraquiana. Este artigo pretende de forma necessariamente sumária sublinhar as principais linhas de força quer de política interna, quer de política externa que se conflagraram nos últimos dois anos e que ainda hoje persistem nesta região quase inóspita do Sul da Ásia Central.
 
O desafio da reconstrução do país é imenso e multifacetado requerendo uma base alargada de apoio afegão e internacional, o estabelecimento da segurança, e a reabilitação de uma economia devastada pela guerra1. A NATO tem em todas estas áreas um papel fulcral a desempenhar.
 
 
2.  2002: A Luta pela Vitória da Paz
 
Este ano materializou o final da guerra civil no Afeganistão e o início de um longo processo de recuperação e de cicatrização política. A intervenção americana (Operação Enduring Freedom) derrubou em menos de dois meses o regime Taliban e as forças associadas da al-Qaeda, termi­nando parcial­mente com mais de duas décadas de violência e instabilidade que destruíram a infra-estrutura económica e política do país e inflamaram divisões étnicas, sectárias, e regionais numa nação multi-étnica. Se bem que o ataque norte-americano tenha tido motivações primordialmente de combate e destruição da rede terrorista sediada no território, para as forças anti‑Taliban, nomeadamente da Aliança do Norte2 o vácuo de poder criado permitiu-lhes a ocupação e o controlo das principais cidades no Norte e Centro do país. A retirada precipitada de Cabul das milícias dos “Estudantes de Teologia” invalidou as esperanças norte americanas de que seria possível constituir um governo de consenso nacional antes da tomada da capital.
 
A facção tadjique da Aliança do Norte assumiu o controlo de Cabul repondo a burocracia pré‑Taliban dominada pela Shura-i-Nazar 3. Esta monopolização do poder impediu o emergir de um governo étnicamente equili­brado, uma vez que as forças Pashtuns que ocupavam o Sul encontravam-se demasiado dispersas sendo incapazes de contrabalançarem o poder militar da Aliança do Norte. As vitórias militares ultrapassaram assim o ritmo dos arranjos políticos, obrigando a que o resultado final da conferência de Bona (5 de Dezembro de 2001) patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU), viesse a reflectir essa mesma situação militar. A Aliança do Norte recusou partilhar o poder de forma equitativa com os outros grupos, incluindo o do antigo Rei Zahir Shah. O acordo estipulou o estabelecimento de uma autoridade interina com um mandato de seis meses para governar o país até que a Loia Jirga 4 (Grande Conselho) escolhesse uma Autoridade de Transição responsável não só pela gestão mas igualmente pela implementação de um processo eleitoral a concretizar no prazo de dois anos5. Entretanto, o Conselho de Segurança da ONU (CSONU) autorizou o envio de um contingente 4.500 militares para Cabul (ISAF), em parte para limitar o impacto do domínio militar da facção tadjique na capital6.
 
Apesar de Hamid Karzai, um líder pashtune do grupo de Roma, ter sido escolhido para liderar a Autoridade Interina, o aparelho governativo ficou sob o domínio da facção Panjshiri da Aliança do Norte, a qual absorveu as pastas da Defesa, dos Negócios Estrangeiros, da Polícia, e das Informações. En­quanto decorriam estas manobras políticas, ao nível provincial os líderes regionais e os senhores da guerra que conquistaram territórios aos Taliban consoli­daram o seu poder, mantendo os seus exércitos privados, as suas fontes ilícitas de rendimentos (tráfico de ópio), os seus contactos com os países vizinhos, e a sua administração autónoma. Este facto alargou o fosso de desconfiança entre facções, agravando o descontentamento entre os Pashtuns - o maior grupo étnico afegão7.
 
Esta fragmentação de poder é a principal fonte de insegurança do Afeganistão. Na ausência de um aparelho de segurança central eficaz, a administração de transição viu-se sob a dependência do músculo militar das milícias das várias facções. Enquanto que as forças da coligação anglo-americana tentavam eliminar as bolsas de resistência Taliban e da al-Qaeda, a ISAF limitava a sua área de acção a Cabul apesar dos pedidos das autoridades afegãs, da ONU, e de várias organizações não governamentais (ONG).
 
Programou-se então a construção de um Exército Nacional Afegão (ENA) e de uma força policial em alternativa à expansão da área de responsabilidade da ISAF, uma tarefa que se vislumbra como dantesca e de longo prazo. Com efeito o processo de recrutamento tem sido lento e marcado pela falta de apoio do Ministério da Defesa dominado pela clique de Qasim Fahim, a qual vê o ENA como uma ameaça ao seu poder8. Um novo plano delineado em Outubro pela comissão governamental e aprovado pelo Ministério da Defesa acabaria por ser criticado pelo Presidente Hamid Karzai e os seus apoiantes estrangeiros como uma tentativa de perpetuar o domínio das milícias das facções no ENA. O plano previa a atribuição do comando das unidades militares ao chefes das milícias que se alistem no ENA. Em 2 de Dezembro, o Presidente anunciou a intenção de formar um Exército de 70000 homens sob controlo civil e simultaneamente iniciar uma intensa campanha de desarmamento das milícias que dominavam e ainda dominam as províncias9.
 
Apesar deste esforço de centralização de poder, na realidade o ano de 2002 assistiu a intensos combates entre milícias de comandantes locais, em resultado de velhas rivalidades e da ânsia pelo controlo e consolidação de mais território. Nas províncias de Pactia e Cost as lutas opuseram os governadores nomeados pelo governo a forças rebeldes. No Norte, a tensão entre forças leais a Rashid Dostum, o líder do Movimento Islâmico Nacional, e unidades de milícias controladas pelo comandante tadjique Atta Mohammad, estenderam-se ao longo do ano e focaram-se nas áreas de Samangan e a Sul de Mazar-e Xarife10. No Oeste, diferenças étnicas e reivindicações territoriais pelo controlo do Distrito de Xindand descambaram em frequentes escaramuças entre as milícias controladas pelo homem forte de Herat, Ismail Khan, e os apoiantes do líder pashtune local, Amanullah. Num esforço para obstar à escalada conflitual, Hamid Karzai decretou em Dezembro a proibição dos líderes políticos em se envolverem em actividades militares11.
 
Paralelamente a actividade terrorista continuou por todo o país vitimando dois membros do gabinete governamental afegão, o Ministro da aviação civil, Abdur Rahman, assassinado por uma multidão no aeroporto de Cabul em Fevereiro, e o vice-Presidente Haji Abdul Qadir, um influente líder pashtune, abatido a tiro à entrada do seu escritório em Julho. Em 5 de Setembro, Karzai escapou a um atentado em Candahar, mas no mesmo dia em Cabul um carro armadilhado explodiu numa rua movimentada da baixa da cidade matando pelo menos 25 pessoas e ferindo largas dezenas.
 
A falta de segurança encorajou o incremento do cultivo de papoilas em muitas províncias tornando o Afeganistão uma vez mais no maior produtor mundial de ópio12. A corrupção alastrou em resultado da exponenciação do tráfico de ópio para  países vizinhos, a Europa, e a Rússia. No Nordeste do Afeganistão a violência selectiva das milícias tadjiques e uzbeques forçaram mais de 10 mil pashtunes a deixarem as suas casas e a procurarem refúgio no Sul do país. Reforçadamente o vácuo de poder no Norte levou a um aumento do número de ataques a funcionários das ONG e a civis afegãos.
 
Os projectos de reconstrução foram poucos, fruto do reduzido fluxo de doações financeiras internacionais. No entanto, em 10 de Novembro iniciou-se a construção da auto-estrada que liga Cabul, Candahar, e Herat, obra prioritária ao nível político, económico e social a qual ficou concluída em Outubro de 200313. Num país sem fronteira marítima e com um relevo que limita a construção de linhas-férreas, as estradas são fulcrais para as suas actividades vitais.
 
Durante este ano a guerra ao terrorismo teve o seu apogeu em Março com a Operação Anaconda destinada a eliminar forças Taliban e da al-Qaeda que se tinham reagrupado no Vale de Xahi Cot na província de Pactica, após a batalha de Tora Bora em Dezembro de 2001. Uma força combinada de cerca de 2000 militares da coligação e afegãos desalojou os inimigos dos seus pontos fontes - ainda que tenha sofrido mais baixas do que em qualquer outro combate no Afeganistão e muitos dos combatentes da al-Qaeda tenham logrado escapado - tendo a operação sido um sucesso com as forças da coligação a ocuparem este vale estratégico, não havendo desde então notícias de confrontos nesta área14.
 
Após esta batalha seguiram-se diversas operações de limpeza por parte das forças de operações especiais norte americanas, inglesas e australianas nas áreas montanhosas das províncias de Pactia, Cost, Pactica, Cunar, Oruzgan, e Helmand onde capturaram armas e munições bem como centenas de apoiantes Taliban. As forças norte americanas continuaram concentradas nos aeroportos de Candahar e Bagram bem como em pequenos e isolados aquartelamentos, não ultrapassando um efectivo de 10 mil militares. Para os Estados Unidos esta foi uma guerra com poucas baixas a registar, tendo segundo o Comando Militar Central morrido 41 militares, dos quais 18 vítimas de “fogo amigo”15.
 
A presença das forças da coligação em áreas instáveis do Afeganistão apresenta-se como uma “benção híbrida”: se por um lado permite evitar escaladas excessivas na tensão entre facções garantindo algum poder ao governo central, e possibilita o controlo da influência de países terceiros sobre as diversas facções; por outro, limita o controlo central uma vez que aquando da condução das operações militares as forças da coligação necessitam de trabalhar directamente e de serem apoiadas pelos líderes regionais, especialmente nas províncias do Sul e do Este, o que complica a estabilidade do país a longo prazo16.
 
No final do ano, o comando militar norte-americano, alterou substancialmente a sua estratégia, ao adoptar planos com vista ao estabelecimento de oito a dez novas bases militares espalhadas pelo país, por forma a catalisarem os projectos de reconstrução e segurança regional, contribuindo para a projecção do poder do governo central nas províncias. Subjacente a estes planos está a criação de Equipas de Reconstrução Regional (ERR) constituídas por 60 a 90 militares e civis (excepção feita à enorme ERR alemã com 450 elementos e sediada em Cunduz) com a missão de garantirem a segurança, a protecção da força, e o trabalho de reconstrução nas respectivas áreas de operações provinciais. O projecto pode ser visto como um acto de nation building e de peace building capaz de desenvolver e auxiliar a legitimar a governo afegão aos olhos da população.
 
 
3.  2003-2004: Entre o Ressurgimento dos Taliban e a Esperança de um maior Controlo Político Central
 
No plano político, os esforços de elaboração de uma nova Constituição em Novembro de 2003, apresentada na Loia Jirga em Dezembro e aprovada em Janeiro de 2004, apontam para a realização de eleições no Verão deste ano, o que pretenderá materializar a formação de um sistema presidencial forte, uma vez que o regime parlamentar com um Primeiro-Ministro poderá descambar num conflito interstício à semelhança do ocorrido entre 1992 e 1995 e que opôs o então Presidente Burhanuddin Rabbani ao Primeiro-Ministro Gulbuddin Hekmatiar, e do qual resultou a destruição quase completa de Cabul. A nova Constituição contempla ainda o islão como a religião oficial, ainda que reconhecendo a liberdade de culto de outras religiões; cativa cerca de um sexto das vagas da Meshrano Jirga (Casa dos Veteranos) para as mulheres, cujos membros serão nomeados pela Wolesi Jirga (Casa do Povo) estes eleitos por sufrágio universal17; e o Pushto e o Dari foram declaradas como línguas oficiais, ainda que seis outras línguas também o sejam nas áreas onde exista uma maioria de população que as fale.
 
Em termos de segurança, em 2003 assistiu-se a uma crescente instabilidade e insegurança fruto da continuação da aglutinação do poder por parte dos líderes de facções, dos comandantes locais e dos senhores da guerra. Em Janeiro, o afegano-americano Ali Jalali assumiu o cargo de Ministro do Interior. Em Agosto, o Presidente Karzai emitiu um decreto que proibiu que qualquer líder acumulasse simultaneamente cargos políticos e militares. Em resultado, três governadores provinciais foram destituídos e vinte chefes de segurança distritais e provinciais demitidos ou transferidos. Em Herat, Ismail Khan, o auto-proclamado “Emir das cinco províncias ocidentais” que controla o lucrativo comércio com o Irão e o Turquemenistão e lidera uma milícia com cerca de 30 mil homens, pagou cerca de 20 milhões de dólares em impostos alfandegários ao governo central, tendo optado por “ser apenas” governador de Herat, resistindo às pressões de desmobilização das suas forças, alegando que estas são já uma parte do ENA.
 
A excepção foi o acordo de tréguas firmado entre Rashid Dostum e Atta Mohammad em Novembro - ainda que sob enorme pressão internacional - e que prevê o desarmamento entre as partes (o que até agora parece estar  acontecer). No entanto, e ao contrário do convite aceite pelo governador de Candahar, Gul Sherzai, que aceitou a troca de cargo com o Ministro do Desenvolvimento Urbano Iusuf Pashtoon, tanto Dostum como Mohammad não abdicam de manter o seu poder regional. Neste mesmo mês, Zhalmay Kalilzad, o novo embaixador norte americano chegou a Cabul, e em Dezembro o Representante Especial do Secretário Geral da ONU, Lakdar Brahimi concluiu o seu mandato18.
 
Não obstante estas dificuldades, um ambicioso programa de desarma­mento, desmobilização, e reintegração liderado pelo Japão e designado de Novo Começo, iniciou-se em Outubro, após inúmeros atrasos, fruto das reticências do Ministro da Defesa Qasim Fahim, que parece não querer abdicar da manutenção da sua força de 30 mil militares em Cabul, apesar das pressões internacionais.
 
Nas regiões do Sul e do Este do país junto da fronteira com o Paquistão, combatentes neo‑Taliban, da al-Qaeda, e senhores da guerra em oposição ao governo central conduziram operações de insurreição que foram crescendo de intensidade ao longo do ano. Os ataques a forças da coligação, militares afegãos, funcionários e trabalhadores da ONU, governantes e civis, vitimaram algumas centenas de pessoas. Em resposta, a coligação lançou numerosas operações de contra-insurreição das quais se referem as Operações Valiant Strike (em Março, no Sul), Mountain Resolve (em Novembro, no Leste), e Avalanche (em Dezembro, na fronteira Sudeste com o Paquistão)19. Apesar destes esforços, actualmente 13 das 32 províncias são consideradas perigosas para trabalhadores da ONU e das ONG, o que mina o esforço de reconstrução e de reforço da legitimação do governo de Karzai.
 
O programa das ERR inaugurado em 31 de Dezembro de 2002 na cidade de Gardez (com forças dos Estados Unidos) evoluiu lentamente durante este ano, existindo actualmente ERR em Bamian (Nova Zelândia), Mazar-e Xarife (Reino Unido), Paruan (Estados Unidos), Herat (Estados Unidos), Cunduz (Alemanha), Jalalabade (Estados Unidos), Gardez (Estados Unidos), Ghazni (Estados Unidos), e Candahar (Estados Unidos). Estão previstas mais três ERR (Asadabade, Cost, e Qalat) ainda que não se tenha definido qual a nacionalidade das forças que as irão operar.
 
As ERR têm gerado alguma controvérsia, especialmente entre as ONG, uma vez que diluem as tradicionais divisões de responsabilidade entre militares e civis. Parte desta lentidão pode ser justificada pelo facto de os Estados Unidos terem solicitado aos parceiros da coligação para assumirem o comando das ERR e pela necessidade de direccionar recursos para o Iraque. Analogamente, e com excepção da ERR de Gardez, todas as outras estão localizadas em território relativamente pró-governamental, tendo um impacto mínimo do panorama de segurança global.
 
A contínua erosão da segurança nas regiões do Sul e do Este, para a qual as ERR não são solução, levou ao apelo por parte de Karzai, da ONU, e das ONG para uma maior presença militar no exterior de Cabul. No Outono, o Pentágono estava disposto a abandonar a sua posição de oposição à expansão da missão da ISAF, tendo a Resolução nº1510 de 13 de Outubro do CSONU especificado exactamente esta nova postura. Com a base das ERR e com o comando da NATO desde Agosto, tem-se falado sobre a criação de “ilhas da ISAF” por todo o país como um projecto-piloto capaz de fazer face às exigências da reconstrução20. Apesar da aprovação formal do alargamento do dispositivo de forças NATO, até ao final de 2003 apenas 200 militares tinham sido enviados para o Afeganistão, e os muito necessários helicópteros continuavam em stand-by, o que pode ser parcelarmente explicado pelas tensões transatlânticas em resultado da guerra do Iraque. A necessidade em se assumir uma postura mais pró-activa levou o novo comandante americano no Afeganistão, o Tenente General David Barno, a anunciar um plano de reforço das ERR americanas, localizando-as no interior das províncias mais instáveis, ainda que intimamente ligadas com elementos de manobra reforçados em poder de fogo.
 
A aproximação das eleições presidenciais (previstas para 9 de Outubro deste ano) tem levado a que Cabul se transforme ultimamente numa autêntica “roda-viva” negocial entre as várias facções, líderes tribais e os respectivos candidatos, com o intuito de assegurarem uma base de poder o mais sólida possível não apenas antes mas igualmente no pós-plebiscito21. Existem dezoito candidatos concorrentes ao cargo presidencial, sendo Karzai consi­derado como o favorito. Dois meses antes das eleições estão recenseados mais de 10 milhões de eleitores (cerca de 90 por cento da população com condições para votar), inserindo no panorama político afegão uma variável que muitos líderes não estavam habituados a contemplar: a vontade popular. Para alguns analistas o facto de se terem apresentado dezassete candidatos à corrida presidencial com Karzai é apenas uma tentativa da parte de muitos deles de negociarem contrapartidas em troca do seu apoio, que tentarão cobrar no período pós-eleitoral.
 
O adversário de Karzai politicamente mais mediático é o antigo Ministro da Educação Yunus Qanooni. Em finais de Julho, Karzai surpreendeu a maioria dos afegãos ao abdicar de nomear o seu Ministro da Defesa e associado de Qanooni, o Marechal Mohammad Qasim Fahim, como seu vice-Presidente na corrida eleitoral. A opção recaiu sobre Ahmed Zia Massoud (um tadjique), irmão do malogrado líder da Aliança do Norte, Ahmed Shah Massoud. A “dispensa” de Fahim e a “deserção” de Massoud enfraqueceu a influência dos comandantes da Aliança do Norte, impedindo a eventual constituição de um núcleo tadjique (liderado por Fahim e Qanooni) no futuro e mais que previsível segundo governo de Karzai. O actual líder afegão procedeu à substituição de alguns tadjiques do seu governo por tecnocratas Paashtunes (a sua etnia, e que é maioritária no país). No entanto a influência de Qanooni restringe-se ao Vale de Panjshir, a Nordeste da capital, fora deste “enclave tadjique” o seu poder é limitado. È muito provável que Qanooni se venha a aliar a Karzai em troca de uma fatia de poder (entenda-se um Ministério com influência).
 
Paralelamente e noutros locais do Afeganistão, senhores da guerra como Ismail Khan, Abdul Rashid Dostum e Mohamad Mohaqeq (etnia Azara) têm vindo a reconstruir  a sua independente e regional base de poder. Com a excepção de Khan, os restantes são também candidatos presidenciais. Ainda que não o admitam publicamente, todos eles estão em fase de negociação com Karzai. O objectivo é apenas um: assegurarem uma parte do poder, condicionando algumas das reformas estruturais defendidas por Karzai (como a desmobilização de mais de 60 mil militares pertencentes a milícias privadas e o alargamento do controlo do governo central sobre as províncias ao nível da segurança e da recolha de impostos). Se Karzai ceder nalguns pontos, poderá colocar em causa as reformas que pretende alcançar e pelas quais se tem debatido.
 
A acção dos Estados Unidos também parece não ajudar, dando sinais de uma clara contradição operativa. O Embaixador Zalmay Khalilzad sugeriu que as milícias locais pertencentes aos senhores da guerra ficassem encarregues da segurança do acto eleitoral, invertendo completamente o seu anterior empenhamento na necessidade de uma desmobilização e desarmamento destes grupos. Para Vikram Parekh, analista do International Crisis Group, a política dos Estados Unidos “é uma estratégia improvisada que visa transmitir a aparência de estabilidade no Afeganistão antes das eleições presidenciais americanas de Novembro”22.
 
No entanto a chave do sucesso deste plano de estabilização e reconstrução reside nos países vizinhos. Apesar das promessas de não interferência nos assuntos internos do Afeganistão, as rivalidades geopolíticas regionais permanecem bastante acesas, com o Irão a apoiar Ismail Khan no Oeste23, a Rússia a canalizar apoio militar para Mohammad Fahim no Nordeste, a Índia a reforçar os seus laços comerciais e de informações com Cabul, o que preocupa o Paquistão que continua a permitir que operacionais  Talibans e da al-Qaeda atravessem livremente a fronteira Este e Sul do Afeganistão24.
 
É neste cenário de fluidez sócio-política e geopolítica que previsivelmente se desenrolará a nova e mais alargada missão das forças NATO.
 
 
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*      Quando escreveu este artigo o autor era Capitão de Infantaria. Sócio Efectivo da Revista Militar.
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 1 Os custos de reconstrução a dez anos apontam para um valor de15 biliões de dólares. Jonathan Fowler; (2002); “UN Afghanistan Refugee Head: Donors Must Do More to Rebuild the Country”; Associated Press, December 19. Acedido por internet via Lexis-Nexis. Em 2003 foram doados aproximadamente 2 biliões de dólares, dos quais 70% foram para programas de assistência humanitária a refugiados. Mesmo assim as quantias per capita foram comparativamente inferiores às doadas para a Bósnia-Herzegovina, Timor, Kosovo, e Ruanda (75 dólares no Afeganistão contra 250 dólares nos restantes casos). Kathy Gannon; (2004); “Afghanistan Unbound”; Foreign Affairs nº3; p. 41.
 2 A Aliança do Norte era um grupo predominantemente composto por facções Tadjiques, Uzebeques, e Hazaras.
 3 Conhecido por Conselho Supervisor, o qual foi formado originariamente pelo malogrado Ahmad Shah Masoud nas províncias do Nordeste do Afeganistão, e que estava sediado no vale de Panjher.
 4 Instituição tradicional afegã patrocinada pelo Estado e que visa tomar e implementar decisões de carácter nacional. É uma extrapolação do modelo tribal e local da Jirga ou Conselho que valida decisões a nível comunitário.
 5 Amin Saikal; (2002); “Afghanistan After the Loya Jirga”; Survival nº3; pp. 47-56.
 6 Mohammed Ayoob; (2002); “South-west Asia After the Taliban”; Survival nº1; pp. 51-68.
 7 As estimativas da CIA apontam para 38% de Pashtuns, 25% de Tadjiques, 19% de Hazaras e 6% de Uzbeques. http:://www.cia.gov/cia/publications/factbook/geos/af.html
 8 David Buchbinder; (2002); “Afghans Ask: Whose Army Is It?”; Christian Science Monitor, October 17.
 9 Mark Lander; (2002); “Afghans Plan a New Army of 70,000”; New York Times, December 3. Acedido por internet via Lexis-Nexis. Actualmente o ENA só tem 600 militares.
10 Para uma leitura sobre o passado destes comandantes regionais veja-se Ahmed Rashid; (2000); Os Talibãs: O Islão, O Petróleo e o Novo Grande Jogo na Ásia Central; Lisboa, Terramar; especialmente pp. 81-84.
11 “Karzai Moves to Rein in Warlords”; BBC News, December 16, 2002. Acedido por internet via Lexis-Nexis.
12 Estimativas da ONU apontam para uma produção total em 2002 de 3400 toneladas comparadas com as 181 toneladas de 2001, quando os Taliban ainda governavam e o cultivo era proibido. Veja-se Alessandra Rizzo; (2002); “UN: Afghanistan Top Opium Producer”; Associated Press, October 29. Acedido por internet  via Lexis-Nexis. Em 2003 a produção poderá ter atingido as 3600 toneladas (75% da produção mundial) materializando cerca de 40% do Produto Interno Bruto. Os Taliban empregaram uma estratégia engenhosa para reduzirem a produção de ópio: responsabilizaram os líderes das aldeias pelo eventual cultivo de papoilas na respectiva área de responsabilidade. Os prevaricadores eram presos e o ópio queimado. Como resultado, os aldeões inspeccionavam todas as manhãs antes do nascer do sol  (a melhor altura  para plantar as papoilas) os terrenos à sua responsabilidade por forma a assegurarem-se de que não haviam sido feitas plantações ilícitas.
13 Financiada em 250 milhões de dólares pelos Estados Unidos, Arábia Saudita e Japão. Tiveram de ser deslocadas por meios aéreos para a região, módulos fabris de produção de alcatrão. A única auto-estrada até então existente era a que ligava a cidade de Herat à fronteira iraniana. Kathy Gannon; (2004); Op. Cit.; p. 43.
14 Para uma análise da Operação Anaconda leia-se Capitão Inf. Alexandre Carriço, Capitão Inf. Castro Ferreira, Capitão Inf. Pereira da Silva, Capitão Inf. Pires da Silva, Capitão Inf. Alexandre Ferreira e Capitão Inf. Paulo Moreira; (2003); O Batalhão de Infantaria no Ataque a Posições Fortificadas; Lisboa, IAEM, CPOS 2002/2003; Estudo inserido na disciplina de Táctica das Pequenas Unidades coordenado pelo Major Inf. Bastos.
15 Eric Schmitt; (2002); “Inquiry Finds American Was Killed by Fire from US Gunship, Not Enemy”; New York Times, October 29. Acedido via internet por Lexis-Nexis.
16 Para não referir os protestos de muitos líderes de aldeias pela falta de respeito pelas tradições e cultura local por parte de forças americanas durante as revistas às casas (excluem as equipas de operações especiais). Paralelamente, civis afegãos têm sido mortos vítimas da manipulação da informação entre facções rivais que direccionam o esforço das operações americanas para os seus rivais por forma a eliminá-los. Foi o exemplo do bombardeamento que matou 48 civis que assistiam a um casamento numa vila no distrito de Dehrawood na província de Oruzgan. Veja-se Colin Soloway; (2002); “I Yelled at Them to Stop”; Newsweek, October 7.
17 O Presidente poderá nomear pessoalmente um terço dos membros da Mershano Jirga.
18 Kalilzhad esteve durante vários anos ligado ao instituto de investigação de relações internacionais para a Ásia-Pacífico da RAND enquanto que Brahimi transitou para o Iraque mantendo as mesmas funções junto de Kofi Annan.
19 Esta última operação obrigou à retirada do remanescente das forças inimigas para território tribal paquistanês adjacente. Neste momento decorrem operações de cerco e ataque a estas forças por parte do Exército paquistanês, havendo notícias não confirmadas de que o número dois da al-Qaeda se encontrem entre os resistentes.
20 Em 31 de Dezembro de 2003 a ERR de Cunduz passou para o comando da ISAF.
21 Actuando nos bastidores estão Abdul Rasul Sayyaf (um fiel seguidor do culto Wahabita do Islão, financiado pela Arábia Saudita) e Burhanuddin Rabbani (ex-Presidente afegão deposto pelos Taliban).
22 Citado em Kathy Gannon; (2004); Op. Cit.; p. 44.
23 Em 21 de Março de 2004, o filho de Ismail Khan, Mirwais Sadiq, Ministro da Aviação Civil foi assassinado em Herat. Aparentemente este foi mais um episódio sangrento da luta entre facções afegãs, o que continua a não augurar boas perspectivas para a região Oeste do Afeganistão.
24 Entretanto foi estabelecida uma comissão tripartida entre os Estados Unidos, o Afeganistão e o Paquistão de forma a coordenar as operações militares nas regiões fronteiriças evitando a violação dos limites nacionais por parte das forças militares paquistaneses. A operação logrou alcançar a captura de alguns elementos ligados à Al-Qaeda, nomeadamente Neem Noor Khan, um especialista em informática que procedia à encriptação das mensagens da rede. Ron Moreau, Zahid Hussain, e Sami Yousafzai; (2004); “Bin Laden’s Back Channel”; Newsweek, August 16, pp. 20-21.
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2009-06-29
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Manuel Alexandre Garrinhas Carriço

Tenente-Coronel de Infantaria. Assessor do Instituto da Defesa Nacional. Vogal da Direção da Revista Militar.

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