Nº 2489/2490 - Junho/Julho de 2009
Nun’Álvares - Chefe Militar
General
António Eduardo Queiroz Martins Barrento
1.  Introdução
 
Vamos recordar, nesta intervenção, a figura de Nuno Álvares Pereira como chefe militar. Este tema, pela antiguidade dos factos, pela notoriedade da personagem e pela importância que teve para a independência de Portugal, foi com maior ou menor profundidade muitas vezes escrito e rescrito, de Fernão Lopes a Oliveira Martins, de Belisário Pimenta a D. António Reis Rodrigues, de Nuno da Ponte a Alcide de Oliveira no seu excelente pequeno livro que se chama Aljubarrota Dissecada. Por isso, irei apenas sublinhar aquilo que me parece mais notável na sua acção de chefia, mas julgo importante lembrar, previamente, alguns elementos do quadro temporal, sociológico e psicológico em que os acontecimentos ocorreram.
 
Portugal está a passar por uma transformação social profunda, devido ao aparecimento de uma população urbana que deseja influenciar os “negócios” do Reino e cuja palavra ganhará peso e provocará uma maior relevância (como de forma tão viva Fernão Lopes nos narra), quando parte significativa da nobreza se coloca a favor do Rei de Castela. É discutível se os primeiros traços da Nação Portuguesa já existiam quando da ocupação romana na Península, porque estes podem ter desenhado as fronteiras da Lusitânia, delimitando uma área e um povo em que se notava já uma certa individualidade1; se a Nação surge com o pendor guerreiro do nosso primeiro rei e com a ruptura então conseguida em relação a Leão e a Castela; ou, até, se não vai surgir mais tarde, quando da Restauração, época em que de forma inequívoca se manifestou a nossa vontade autonómica. Mas no final do século XIV, como nos diz Hernâni Cidade há “uma visão comovida da Nação una, como pessoa viva, no sacrifício e na glória… Até Fernão Lopes… a crónica contava as efemérides que nobilitam as famílias e os feitos dos reis e suas hostes. A figura do poboo meúdo, a entidade abstracta de uma Nação… É a genial concepção e realização de Fernão Lopes”.2
 
Isto é, para Fernão Lopes a personagem da crónica passou a ser Nação, sendo neste sentimento de união das pessoas e de convergência dos propósitos, nesta “comunidade de sonhos”, como a designou Malraux, que se desenvolve a acção no nosso Galaaz.
 
Ao mencionar Galaaz, falando de D. Nuno (e este é o segundo ponto prévio), queremos dizer que ele não deve ser visto com as cores de outras épocas, como sucedeu no retrato que Oliveira Martins fez dele e que mereceu fundadamente de Eça o seguinte reparo: “Enquanto ao Condestável, que era o teu objecto, haveria de discutir se não lhe meteste na alma muita coisa que é só do nosso século” 3. Nuno Álvares é, de facto, um homem do seu tempo. Tendo passado os primeiros anos de vida junto do seu pai, D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Hospital, foi certamente sensibilizado pelas narrações deste e dos seus companheiros sobre a Batalha do Salado, a luta contra os turcos em Rodes e outras aventuras guerreiras. Educado nesse meio, foi também influenciado, como muitos jovens nobres do seu tempo, pelos princípios da Cavalaria, pela fé e despojamento que lhes era inerente, pelas suas novelas e pelos seus heróis, pela defesa dos fracos, dos pobres, dos humildes. Armado cavaleiro aos 13 anos, foi ao longo da vida “muito avisado nos feitos da cavalaria”.4 Além disto, decorrendo há longos anos a guerra que depois se denominou dos Cem Anos, e tendo no tempo de D. Fernando chegado a Lisboa uma força de arqueiros britânicos, certamente ouviu os ecos dessa guerra, a superioridade que a peonagem e o arco longo dos ingleses estavam a demonstrar face a “pesenteur” física e intelectual da cavalaria francesa. Assim, ao olharmos hoje para Nuno Álvares, pela reverência que ele nos merece não devemos trazê-lo para os nossos dias, mas vê-lo como foi naquele tempo e sublinhar aquilo que marca a sua intemporalidade: os fundamentos ainda hoje sólidos da acção militar que desenvolveu, o seu perfil de chefe, a sua beatitude.
 
O terceiro ponto é que naquela época estiveram presentes em Portugal os quatro cavaleiros do apocalipse de São João. A peste que acontecia com frequência, como sucedeu no cerco de Lisboa de 1384, tendo todavia sido mais sentida nas hostes castelhanas; a guerra, em que D. Fernando e depois os acontecimentos da sua sucessão nos lançaram contra Castela; a fome, resultante deste ambiente e que foi particularmente sentida em Lisboa; e a ocupação que os castelhanos quiseram fazer em Portugal, tal como, para S. João, os romanos haviam feito na Palestina. Para salvar Portugal deste apocalipse, ter-se-ia que, pela guerra, conseguir a paz e começar uma nova era, “a sétima idade” como lhe chamou Fernão Lopes: Adam… Noé… Abraão… David… des o trespassamento da Babilónia atta vimda do Sallvador… (a) que ora andamos que ha mill e quatro çentos e quarenta e tres que dura… mas nos… fazemos aqui a septima idade… que se começou nos feitos do Meestre…5
 
O quarto ponto prévio refere-se à escolha que Nuno Álvares fez, a do caminho mais difícil: escolheu o “poço”. Quando, em 1383, se deu a revolução em Lisboa, D. Nuno, que ali acorreu, foi “dormir esse dia a huua aldea que chamom a Ereira; e alli chamou adeparte seus escudeiros e disse “amigos eu vos quero contar huu segredo… assi he que eu vejo…no meu emtemdimento huu poço cheo de gramde escoridão e… eu todavia quero saltar em elle…Ho poço mui alto e escuro que vejo ante meus olhos, he a gramde demamda que o meestre dizem que quer começar por deffemsom destes rregnos, contra el-Rei de Castella.” 6 Esta decisão era a opção pelo Mestre de Aviz, pela “arraia meuda” que o aclamava, pela sobrevivência do Reino que estava em perigo, pelo “amor à terra e afeição natural”, tal como Domingos das Eiras, em nome da população do Porto, respondeu a Rui Pereira, ali enviado pelo Mestre: “… tudo quanto temos poremos à disposição para tal negócio, que não se podiam despender em causa mais conveniente que a defesa da nossa Terra e o nunca ficarmos em poder dos castelhanos” 7. Para Nuno Álvares, “pôr à disposição” era a doação da sua vida, do seu saber, da sua aptidão para o comando e chefia em operações militares. Um “poço”? Certamente “um poço” antes de se conhecer o desfecho, pois era um salto para o desconhecido, a grande aventura, mas tinha também como conforto o de se julgar apoiado pelos bons portugueses e pela razão.
 
 
2.  Acção do Condestável
 
Nuno Álvares Pereira, como atrás sugerimos, pelo convívio com os Hospitalários foi muito cedo sendo informado sobre os condicionamentos, problemas e agruras da guerra. Este conhecimento, certamente apurado pelas leituras que fez e pelos contactos estabelecidos com quem tinha experiência de combate, nomeadamente no moderno teatro de operações europeu, como era o caso dos arqueiros ingleses do Duque de Cambridge. Tudo isto, somado às tensões que se agudizavam no Reino, ao difícil exercício da autoridade e às divisões que ia observando na sociedade portuguesa, deve ter despertado nele uma aptidão especial para apreender como era importante o comando e a chefia, a utilização das potencialidades inerentes a uma força militar e a exploração das vulnerabilidades das forças inimigas. E isto conseguia-se elevando o moral dos combatentes, escolhendo e utilizando judiciosamente o terreno e usando de forma adequada as armas disponíveis. Com efeito, a “arma de fogo” (isto é, de lançamento de projécteis), ao tempo o arco e a besta, conseguia já alcances consideráveis, da ordem dos trezentos metros e, com a possibilidade de disparar uma dezena de flechas ou virotões por minuto, tornava-se bastante letal.
 
Não podendo tratar aqui tudo o que foi a acção militar de Nuno Álvares, irei apenas respigar das crónicas algumas referências que julgo permitirem avaliar das suas elevadas qualidades para o comando de forças militares.
 
Ainda muito jovem, no tempo em que estava na corte “morador em casa de El-Rei”, estando D. Fernando em Santarém e com ele o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Pereira e mais cavaleiros da sua ordem “… e porque as gentes del rey de Castela passavam pera acerca… pera Lixboa… o priol por ensayr dom Nun’Alvarez, seu filho, … lhe mãdou que cavalgasse… pera verem as gentes del rey de Castela… que gentes eram e a maneyra que levavã…”  Quando Nuno Álvares regressou do reconhecimento “respondeo q lhe parecia muyta gente mal acaudellada: e que pouca gente cõ boõ capitam bem acaudellada os poderia desbaratar”.8
 
Ao ouvi-lo, a Rainha entusiasmada tomou-o para seu escudeiro, mas esta resposta, de um jovem de treze anos, dá-nos a ideia de como ele já entendia que um bom comando poderia ter mais valor do que a superioridade numérica em combatentes.
 
A sua capacidade de comando e chefia, aqui desperta, vai ser amplamente demonstrada ao longo da sua vida e, graças à opção que tomou pela causa do Mestre de Aviz e ao amor à sua terra, vai contribuir decisivamente para a independência do Reino e para o sucesso da nova dinastia. Ainda tentaram conseguir os seus serviços para a causa de Castela, tendo-lhe seu irmão, Pedro Álvares Pereira, que sucedeu a seu pai como Prior do Hospital (do Crato como se passou a chamar) prometido em nome do Rei de Castela o condado de Viana e outras terras e rendas. Mas a opção de Nuno Álvares, como disse sua mãe, era clara: “Nunca pôde mudar Nun’Alvares, seu filho… dizendo que Deus num quixesse… ele fosse contra a terra que o criara mas que antes despenderia seus dias e asparegeria seu sangue por amparo dela…” 9
 
Depois da revolução em Lisboa, porque muitos dos que tomaram partido por Castela causavam danos no Alentejo, foi necessário nomear um “fronteiro” para esta região, para defesa do reino e das suas gentes e por a charneca alentejana ser um caminho fácil para os castelhanos marcharem sobre Lisboa. Apesar de Nuno Álvares ter pouco mais de vinte anos, “o Meestre veo a dizer (que o cargo de fronteiro) que pera ello mais perteemcemte, nem que o com melhor desejo fezesse, que NunAllvarez Pereira… Joham da Regras era muito contra esto, dizemdo que pêra tamanho emcarrego cumpria huu homem de madura autoridade, muito avisado e sabedor da guerra… (mas) o Mestre num curou dos que o contradeziam… NunAllvarez avia dhir por fronteiro aa comarca d’antre Tejo e Odiana.10
 
Esta decisão do Mestre de Aviz mostra o apreço que o futuro rei tinha pelo futuro Condestável e, apesar de ainda não estarem muito diferenciados os níveis político e militar, o valor que a confiança entre as personagens destes dois níveis tem para o desenvolvimento das acções de defesa (ensinamento ainda hoje muito válido).
 
Consciente da importância da sua missão D. Nuno conseguiu chamar e concentrar em Estremoz uma força que “… nom seriam mais de cavallo que huus trezentos… e pouco mais de mill homees de pee, e ataa cem besteiros.”11 Mas tendo sabido que uma hoste castelhana marchava sobre Fronteira, reuniu o seu pessoal no Rossio de São Braz e disse-lhe “amigos, creo que já sabees todos como o Meestre, meu Senhor e vosso, me mandou a esta terra com a aajuda de Deos e vossa a defemdermos…” e referindo-se à força invasora inimiga, acrescentou: “minha voomtade he pellejar com elles…”12. Os vários responsáveis dos “logares” por terem conhecimento que a força invasora era muito superior à deles, com “gramdes senhores por capitaães… mill lanças e mais, mui bem corregidos e muitos genetes e besteiros e gram soma dhomees de pee…” disseram “que nossa teençom he nom hirmos convosco a tal obra.” 13 Depois de os ter ouvido D. Nuno reiterou as suas razões e acabou por dizer que aqueles que quisessem ir para suas casas se fossem embora “ca eu com esses poucos de boõs portugueeses que comigo vêem lhe entemdo de poer a  praça.” 14 E pretendendo ali no Rossio separar os que iam com ele e os que não iam, acabaram todos por passar para o lado daqueles que o acompanhariam. Neste diálogo está bem patente o ânimo e a determinação de Nuno Álvares, pois apesar do risco que consistia enfrentar uma força castelhana muito superior, conseguiu que aqueles homens acabassem por aderir ao seu projecto, que é a mais simples e eloquente definição de chefia.
Os castelhanos e o Prior do Hospital, seu irmão, ao saberem que D. Nuno vinha dar-lhes batalha, marcharam sobre ele. Mas “Nuno Allvarez com suas gemtes era já em huu logar bem convinhavell… omde chamom os Atolleiros… fez logo descer pee terra todollos homees darmas; e dessa pouca gemte que tiinha, comçertou suas batalhas da vamguarda, e rreguarda, e allas dereita e ezquerda; e fez comçertar os besteiros e homees de pee pellas allas, onde emtemdeo que melhor estariam pera bem pellejar.” 15
 
Depois de dizer as suas orações, armado de lança, tomou o seu lugar na vanguarda, como prometera, e disse: “amigos, nenhuu nom duvide de mim, e todos aquelles que me ajudardes, Deos seja aquele que Vos ajude; e sse eu aqui morrer per vossas culpas e mingua, Deos seja aquelle que vos demande minha morte.16
 
Desta descrição do nosso cronista faz-se notar a necessidade da “ajuda de Deus e vossa para a defemdermos”; a escolha de um terreno “bem comvinhavell”, o dispositivo em quadrado, o combate apeado e o incitamento que fez aos seus homens.
 
A ajuda de Deus e dos seus homens era resultado da fé que sentia e da consciência que tinha de necessitar do concurso deles, segundo o conselho evangélico de não poder esperar tudo de Deus, mas haver que “por a sua mão” para obter o apoio divino. E neste “pôr a sua mão” estava a utilização do seu saber, mas também o concurso dos homens sob o seu comando.
 
A escolha de um terreno que lhe desse vantagem, o dispositivo em quadrado que lhe garantisse a segurança, e o pessoal combatendo a pé, de arma em riste, com os besteiros a fustigar o avanço inimigo, pois “foi ho primeiro que… ataa este tempo pos batalha pee terra em Portugall e a vemçeo” 17, era a manifestação do seu saber e da sua habilidade táctica, pois impediu desta forma que a superioridade numérica e a maior mobilidade do inimigo fossem exploradas.
 
O exemplo que deu ao colocar-se na vanguarda e os incitamentos que fez aos seus homens, deu-lhes o moral necessário para enfrentarem um inimigo superior e saírem vencedores. Segundo a crónica os castelhanos tiveram 72 mortos, entre eles o Mestre de Alcântara, e os portugueses nenhum.
 
Nuno Álvares venceu esta primeira grande prova, como comandante e chefe, aumentando por esta forma a sua autoridade, condição fundamental para um eficaz exercício do comando. Se esta autoridade lhe fora institucionalmente atribuída pelo Mestre de Aviz ao nomeá-lo “fronteiro”, Nuno Álvares sentiu bem, nas convulsões pelas quais Portugal passava, na forma como os portugueses estavam divididos, nas razoáveis dúvidas que João das Regras apresentou para a sua nomeação, que era necessário “conquistar” essa autoridade. E conseguiu-a, exemplarmente, em Atoleiros.
 
 
Em Março e Abril de 1385, com base na inteligente argumentação de João das Regras e “porq todo o povoo miudo do Reyno dizia e bradava q o fezessem Rey” 18, D. João, Mestre de Aviz, foi eleito Rei de Portugal. E logo no dia 9 de Abril, aniversário da Batalha de Atoleiros, Nuno Álvares foi nomeado Condestável - Comandante do Exército Português.
 
Quando o Rei de Castela invadiu nesse ano o País, o Condestável com os seus homens foi juntar-se a D. João I, em Abrantes. No conselho que o Rei ali promoveu, o parecer avisado, o sentido estratégico e a determinação de Nuno Álvares (que pelos ensinamentos que contem, tenho citado numerosas vezes) são dignos de realce. Ouçamos a saborosa descrição do nosso cronista sobre o debate realizado nesse conselho.
 
“Estando el-rei em Abrantes, onde o deixamos entrou em conselho, com o Condestável e os outros com quem habitualmente falava seus segredos sobre se daria batalha a seus inimigos ou se usaria da “guerra guerreada” por ser a batalha cousa arriscada…
 
Os mais deles concordavam em que não devia haver batalha, dizendo o seguinte. Que pois el-rei de Castella entrava no reino, fosse el-rei de Portugal ao Alentejo e entrasse pela Andaluzia; e quando el-rei de Castela isto soubesse iria procurá-lo para socorrer sua terra, sendo desta guisa desviado de atacar Lisboa; e ao voltar entraria por outra fronteira. Que desta forma se evitaria a batalha que era cousa muito perigosa e duvidosa, porque el-rei de Castela vinha muito orgulhoso com poderio de muitas tropas; enquanto que el-rei de Portugal se encontrava em situação desfavorável. E que fazendo-se a guerra por esta forma passaria tempo, e poderiam entretanto vir tropas inglesas em sua ajuda (pois era certo que viriam, e cada dia as esperavam); ou então chegariam a algum acordo com el-rei de Castela, a que se poderia seguir paz e tranquilidade…
 
Para demover os da maioria do Conselho, o Condestável disse muitas e boas razões tendentes a mostrar quanto era proveito do Reino e honra de el-rei oferecer batalha a el-rei de Castela, pois que o tinham consigo dentro do Reino. Não o fazendo mostrariam grande míngua e cobardia o que quebraria os corações dos Portugueses, que esperavam ser defendidos, e daria grande ânimo a seus inimigos. E deixando que estes chegassem a Lisboa podia ser que a cidade se entregaria vendo-se posta em aperto. E perdida Lisboa era perdido todo o Reino…
 
Parece que no meio do trigo limpo daquela cidade está alguma má semente, em que el-rei de Castela põe a sua esperança. E esta seria muito maior nele e mais poderosa nos corações dos que têm alguma traição preparada, se vissem que el-rei nosso senhor não se atrevia a pôr-lhe campo, e em vez disso ia passear a Sevilha para cortar duas oliveiras podres. Depois das aflições e atribulações que Lisboa padeceu e padece para levar este feito por diante por honra do Reino e serviço de el-rei nosso senhor, dizeis a este que como prémio de tão grande serviço vá a Sevilha, gastar gente e tempo, sem qualquer proveito, e que deixe Lisboa à mercê de seus inimigos sem capitão e tropas que a defendam, morrendo de fome como cães…
 
Ficando este conselho indeterminado naquele dia, no seguinte bem cedo pela manhã, ouvidas primeiro as suas missas como costumava, mandou o Conde dar às trombetas, e com o coração bem agastado, mas cheio de virtuosa ousadia, sem mais falar a el-rei nem a ninguém, partiu com a sua gente a caminho de Tomar, para onde el-rei de Castela vinha…” 19
 
Deste curioso debate, em que se confrontam duas atitudes totalmente opostas quanto ao que fazer face à invasão castelhana - furtar-se à batalha e invadir a Andaluzia, ou ir à batalha, com os riscos que isso comportava - deve salientar-se da posição defendida pelo Condestável, o seguinte:
 
- A noção de que Lisboa é o objectivo decisivo - perdida Lisboa é perdido todo o Reino (ideia que tem sido comprovada ao longo da nossa História); por essa razão dever-se-ia barrar o passo ao invasor antes que a atingisse;
 
- A determinação em travar a batalha com o Rei de Castela, nem que para isso tivesse que ir apenas com os seus homens;
 
- A coragem em enfrentar uma força inimiga muito superior e a confiança em que a autoridade que já possuía como chefe militar lhe garantiria a obediência daqueles que com ele iam partilhar essa aventura.
 
Como sabemos D. João I foi-se-lhe juntar em Tomar, tendo ambos seguido para Aljubarrota. Por tão conhecida não vamos lembrar essa batalha decisiva para a independência de Portugal, mas dela sublinharemos apenas alguns pontos que são importantes quando tentamos esboçar a figura do Condestável:
- Depois do reconhecimento feito em 13 de Agosto, D. Nuno teve oportunidade de escolher o “terreno mais comvinhavel” para travar a batalha, sem que a superioridade numérica do inimigo pudesse ser livremente utilizada;
 
- Mais uma vez criou um dispositivo lógico, aqui sobre o itinerário que o exército castelhano deveria percorrer, num esporão sobre o rio Lena, numa posição por tal forma forte que o inimigo não ousou atacá-la;
 
- Começando o exército castelhano a tornear a posição, com grande oportunidade, flexibilidade e num prazo de apenas duas horas, foi ocupada nova posição com o dispositivo invertido, dois quilómetros mais a sul;
 
- Novamente foi posta à prova a sua lealdade ao Rei e a Portugal, quando o seu irmão, antes da batalha, cerca das 16 horas, tentou dissuadi-lo de servir o “Rei de Aviz”, como em Castela, depreciativamente, chamavam a D. João I;
 
- Mais uma vez usou o conhecimento da personalidade dos chefes inimigos, que com elevada probabilidade iriam (como sucedeu e ao que parece muito pela influência de Afonso Telo, irmão de D. Leonor, junto do Rei) atacar a hoste portuguesa em vez de prosseguir sobre Santarém e Lisboa;
 
- A clareza, certamente, das instruções transmitidas (que não conhecemos) mas que foram essenciais para o sucesso da batalha, já que depois de iniciado o combate era muito difícil fazer alterações de fundo, pela dificuldade de comunicação;
 
- O exemplo que deu combatendo na vanguarda, a esforçada acção quando da rotura da frente e quando acudiu à ameaça sobre a retaguarda, o que somado às suas qualidades de comando, foram decerto importantes para o moral, para a disciplina dos combatentes, para a vitória alcançada.
 
Tanto em Atoleiros como em Aljubarrota a exploração do sucesso, que se deveria seguir a cada uma das vitórias, foi muito limitada. Em Atoleiros, “… NunAlvarez a cavallo com mui poucos dos seus, porque tam a pressa nom poderam todos aver bestas, e seguir o encalço huua grande legoa ataa que per noite foi forçado a se tornar, dizemdolhe alguus dos seus, que aquello era temtar Deos, nom sse comtentar da mercee que lhe Deos fezera…” 20. Em Aljubarrota, porque também a noite impediu essa manobra, tanto mais que esta foi particularmente escura, como nos diz Froissart.
 
Apesar das duas vitórias, em Atoleiros e Aljubarrota, as condições de luz impediram a manobra táctica de consolidação dos êxitos alcançados, que é a exploração do sucesso. Mas o Condestável com a sua intuição guerreira iria fazê-la, a nível estratégico, invadindo por sua vez Castela. “…o Comde como hera home sages e percebido e muy avisado nos feitos da guerra, que vendo o desbarato e grão trovação em que el Rey de Castela e a gemtes do seu reino por estomce herão postos, a huus per semtido a outros per ouvida… Podia fazer hua emtrada com muito sua homrra e serviço do Reino…” 21
 
Com esta acção, parece que Nuno Álvares decidiu fazer a manobra que ele condenara no conselho que acontecera em Abrantes, antes de Aljubarrota; de poder não estar agora a respeitar o princípio do objectivo, que o levou a barrar o passo ao exército castelhano que marchava sobre Lisboa. Só que as condições agora eram diferentes das de Agosto: Aljubarrota fora uma derrota tão pesada para Castela que o rei decretara dois anos de luto nacional; o exército castelhano tinha retirado de Portugal; Nuno Álvares como chefe militar e os portugueses como combatentes tinham ganho fama; a independência de Portugal e a Dinastia de Aviz estavam agora mais afirmadas e tinha-se criado as condições para a consolidação desses dois objectivos. Por estas razões o Condestável invade Castela, onde permanece 18 dias, desloca-se sem oposição até à região de Mérida e tem um recontro importante em Valverde, no qual a morte do Mestre de Santiago foi factor de desmoralização das forças inimigas que ali sofreram mais uma derrota.
 
Uma vez mais D. Nuno Álvares Pereira demonstrou as suas qualidades de chefe militar, o sentido de oportunidade, o conhecimento do inimigo.
 
 
3.  Conclusões
 
Em conclusão e para terminar, julgo dever sublinhar alguns pontos.
 
- Durante a sua vida D. Nuno Álvares Pereira, idealista místico e arrebatado, tanto se recolhe em oração durante o combate de Valverde como, nos esponsais do Rei de Castela e D. Beatriz, …. Derruba irreverentemente a mesa, por não lhe terem assegurado o lugar que ali lhe competia22. Íntegro e modesto, muito exigente consigo e com os outros, sóbrio, valente, leal e muito determinado, D. Nuno, o Homem merece bem ser objecto da nossa curiosidade e admiração.
 
- Da Ordem da Cavalaria, D. Nuno Álvares Pereira absorveu os ideais, seguiu as virtudes, cultivou os valores e partiu em demanda do Santo Graal. Na época cruzava-se ainda a memória da terceira era, a do Espírito Santo, da convicção de Joaquim de Flora, toda ela cheia de espiritualidade, com a iniciada sétima idade do mundo, que se começou nos feitos do Mestre e que alimentava a esperança de um Portugal renascido em Aviz. Para D. Nuno, o Graal que demandou, cálice de veneração, símbolo de sacrifícios, era a salvação do Reino. Aliás, a crermos na Crónica de Sant’Ana ele teria dito ao embaixador de Castela que só despiria o hábito se El-Rei de Castela outra vez movesse guerra contra Portugal (se non è vero è ben trovato…). Para D. Nuno, o Homem do seu tempo, o Graal que procurou foi a grande demanda que o Mestre… quer começar por deffemsom destes rregnos…. O seu graal foi Portugal.
 
- Clausewitz, o militar e pensador que tratou a guerra com maior profundidade, naquela que se chamou a definição ternária ou trinitária de guerra, diz que a guerra é constituída por três elementos fundamentais: o racional, o emocional e o aleatório. O racional sustenta a lógica das decisões e do conhecimento; o emocional resulta das paixões e dos estímulos produzidos; o aleatório traz para a guerra a manifestação do acaso. D. Nuno, o Guerreiro, com racionalidade conseguiu encontrar as melhores soluções para os difíceis problemas com que foi confrontado; usou a emoção para despertar nos seus a vontade de defesa, para lhes aumentar o moral, para lhes dar ânimo para vencer; e o acaso rendeu-se-lhe, colaborando com a “fortuna” (como lhe chamava Maquiavel) que acompanhou a sua acção guerreira.
 
- Como um cavaleiro templário que se lançava no combate invocando Deus e dizendo “… para glória do Teu nome”, D. Nuno ofereceu-se a Deus e a Portugal para glória de ambos. D. Nuno, o Militar, empenhou-se no Portugal independente, a terra que o criara, com aquela bela forma de juramento que sua mãe lhe ouviu: antes despenderia seus dias e asparegeria seu sangue por amparo dela…
 
- Comando é a autoridade conferida a um indivíduo para a condução das forças militares. O Mestre de Aviz atribuiu a Nuno Álvares o comando da região antre Tejo e Odiana e, já rei aclamado de Portugal, o comando do exército - nomeou-o Condestável. Porque comando é autoridade, D. Nuno, o Comandante, foi buscá-la ao seu saber das coisas militares, à reflexão e depois à sua própria experiência. Usando essa autoridade, que lhe permitiu ser obedecido, conduziu com sucesso as Forças e aumentou o seu prestígio e autoridade.
 
- Se a eficácia do exército é a resultante da conjugação da força material com a força moral dos seus elementos, as forças portuguesas do fim do século XIV, sempre mais fracas do que as castelhanas, tinham que ir buscar às forças morais o complemento de poder que necessitavam para enfrentar o adversário. Mas as forças morais variam com a motivação e com a qualidade da chefia. D. Nuno, o Chefe, conseguiu que as suas ideias, planos e acções para defender o país passassem a ser os projectos dos homens que comandava, conseguindo dessa forma o diferencial de moral, logo de força, que os conduziu à vitória.
 
- Naquele tempo, como ainda hoje, debatiam-se no combate dois dos seus principais protagonistas: o fogo e a manobra. Naquela época o fogo manifestava-se através do arco e da besta, e a manobra no deslocamento montado e apeado. D. Nuno, o Táctico, utilizou judiciosamente o fogo e o terreno para dificultar a manobra do inimigo e para o vencer.
 
- Quando se debate ir à batalha, com todos os riscos que isso comporta, ou fazer uma guerra guerreada, e se está numa situação de manifesta inferioridade, o senso parece indicar que não se vá à batalha. Mas a defesa daquilo que é fundamental pode exigir os sacrifícios da batalha. Como perdida Lisboa era perdido todo o Reino, D. Nuno, o Estratega, escolheu o modo de agir que a defesa do Reino exigia - foi à batalha, e venceu-a.
 
- Pátria, ou Mátria, se quisermos, é a terra dos seus pais, do seu sangue, do lar, dos sonhos comuns. Nos actos de posse de cargos de direcção importantes jura-se desempenhar com lealdade as funções… Não conhecemos o que o Condestável disse ao ser empossado, mas pelo que se passou posteriormente, ele desprezou bem-estar, mordomias e a própria vida, pela sua lealdade aquele povoo miúdo do Reyno (que) dizia e bradava que o fizessem Rey (ao Mestre de Aviz). D. Nuno, o Patriota, leu Torga antes de Torga e disse - Pátria é um palmo de terra defendida.23
 
 
* Conferência proferida na Universidade Católica, em 20 de Abril de 2009, na semana anterior à canonização de Nuno Álvares.
**     Presidente da Assembleia Geral da Revista Militar.
 1     Como a legenda da ponte de Alcântara sugere.
 2 CIDADE, Hernâni: Portugal Histórico Cultural, Círculo de Leitores, Lisboa, 1973, p. 54.
 3 Da “Correspondência”, in “Nun’Álvares Condestável e Santo”, de António Reis Rodrigues, Serviço Histórico-Militar, Lisboa, 1985, p. 32.
 4 SARAIVA, A.J., As Crónicas de Fernão Lopes, Portugal Editora, Lisboa, p. 332.
 5 FERNÃO LOPES, Crónica de D. João I, Vol I, Livraria Civilização, Barcelos, 1983, Cap CLXIII, p. 349 e 350.
 6 Id., Cap XXXVII, p. 74.
 7 SARAIVA, A.J., op. cit., p. 250.
 8 Crónica de Condestabre de Portugal, M.E.N., Lisboa, 1969, Cap II, p. 3.
 9 Id., Cap XIX, p. 54.
10 FERNÃO LOPES, op.cit., Cap LXXXVII, p. 166 e 167.
11 FERNÃO LOPES, op.cit., Cap XCII, p. 174.
12 Ibid.
13 Id., Cap XCIII, p. 175 e 176.
14 Ibid.
15 Id., Cap XCV, p. 180.
16 Id., Cap XVC, p. 181.
17 Id., p. 183.
18 Cronica do Condestabre de Portugal”, Cap. 42, p. 32.
19 SARAIVA, A.J., op.cit., p. 345 a 349.
20 FERNÃO LOPES, op. cit., p. 182.
21 Id., Vol V, p. 139 e 140.
22 OLIVEIRA, Alcide, Aljubarrota Dissecada, Lisboa, 1988, D.S.H.M., p. 51.
23 [Poema Nun’Alvares], TORGA, Miguel, Poesias Completas, Lisboa: Edições D. Quixote, 2000, p. 710.
 
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REVISTA MILITAR @ 2018
by CMG Armando Dias Correia