Nº 2493 - Outubro de 2009
Aquisição de inteligência militar na Antiguidade: Alexandre e César, dois estudos de caso
Professor Doutor
Vicente Dobroruka
Nos dias que correm, a mídia vende a imagem de que uma guerra - qualquer guerra - é vencida pelo lado que dispuser de maior “inteligência”1; o espetáculo tecnológico (simbioticamente vinculado à cultura adolescente dos videogames) nos faz crer, ou tenta fazê-lo, que a aquisição de inteligência vence guerras ou, ao menos, batalhas. A mística em torno da espionagem moderna, os escândalos em torno das defecções de espiões ingleses pró-soviéticos durante a Guerra-Fria e toda a publicidade pós-1973 em torno das façanhas dos matemáticos poloneses que quebraram as chaves de código da Enigma, máquina criptográfica alemã contribuíram em muito para a deificação da inteligência militar.
 
Este artigo dedica-se ao estudo do uso da inteligência militar por dois dos maiores generais do mundo antigo - por isso, não é o local mais indicado para se recordar as inúmeras oportunidades em que, mesmo nos tempos mais recentes, um dos lados em conflito dispunha de inteligência à vontade e isso não lhe assegurou a vitória. Lembremos apenas que até hoje a chave de código da Enigma usada pela Gestapo jamais foi quebrada; que o general Freyberg sabia tanto quanto os alemães acerca da invasão de Creta, e mesmo assim perdeu a batalha; e finalmente, quantas vezes o acaso fez pender para um lado melhor informado - ainda que mais fraco, como os EUA em Midway - a vitória?
 
Feitas essas observações preliminares, é conveniente atentar para o fato que, dos tipos de “inteligência” básicos (“humana” ou humint, convenção para human intelligence, i.e. aquela adquirida por meio de espiões, observação direta ou demais formas clandestinas - incluindo a interceptação e interpretação de mensagens - e sigint, a detecção visual de imagens, atualmente feita cada vez mais por meio de aparelhos não-pilotados), a estrela da mídia é a sigint; por motivos óbvios, no mundo antigo essa forma de aquisição de conhecimento do inimigo era virtualmente inexistente - dir-se-ia que até a transmissão em tempo real das informações, primeiramente pelo telégrafo, depois pelo rádio - humint foi a forma por excelência da aquisição de informações. É dela portanto que tratarei neste artigo; paradoxalmente, à medida em que os recursos “incruentos” que a tecnologia proporciona mostram-se cada vez menos eficazes, o recurso à humint parece promissor num futuro próximo2.
 
Em todo caso, o mundo antigo não dispunha de meios técnicos para a aquisição de sigint; humint era a única ferramenta disponível aos generais e também aos políticos. Como funcionou, no caso de campanhas longas como as de Alexandre e de Júlio César, o processo de cinco fases da humint (aquisição, entrega, aceitação, interpretação e implementação3)?
 
Uma distinção inicial deve ser feita: Alexandre, ainda da esteira da reviravolta tática e de treinamento implementada por seu pai, defrontou-se com potências letradas, i.e. com organismos políticos (notadamente o persa) que faziam uso rotineiro da escrita (o que não implica no letramento maciço de suas populações como um todo), inclusive - e em muitos casos, principalmente - para o registro dos assuntos de Estado4.
 
O primeiro registro digno de nota de humint parece-me o citado por Tucídides em em sua História da Guerra do Peloponeso 4.50: um enviado (ou seja, um espião persa) a caminho de Esparta foi detido pelos atenienses, que lhe confiscaram um documento escrito em aramaico:
Durante o inverno subseqüente Aristides filho de Arquipo [...] deteve [...] às margens do rio Strímion o persa Artafernes, que ia para Esparta mandado pelo rei. Ele foi levado para Atenas e os atenienses fizeram traduzir do assírio [i.e. do aramaico] as cartas encontradas em seu poder e as leram [...].
 
Como de hábito, Tucídides nos deixa sem saber qual o conteúdo preciso do documento em questão; mas é digno de nota que mesmo em Atenas houvesse gente capaz de entender o aramaico (o que, inversamente, atesta a universalidade do mesmo antes da difusão do koiné). Dificilmente esse caso terá sido o primeiro de uso deliberado de humint por qualquer dos lados em conflito, mas é de especial importância por exibir com relativa clareza algumas das etapas do processamento da inteligência no mundo antigo: ao menos as quatro primeiras fases mostram-se de modo inequívoco (aquisição, entrega, aceitação, interpretação da informação adquirida das mãos do enviado persa; não sabemos o que os atenienses fizeram depois, mas é razoável supor que a última etapa, a “implementação”, consistiu, nesse caso, em simplesmente frustrar os planos de persas e espartanos e obrigá-los a mudanças).
 
Aqui convém estabelecer outra distinção importante, quer no mundo antigo quer no moderno, quanto à aquisição de humint: onde termina o “batedor” ou “explorador” e começa o “espião”? Ambos estão aptos a fornecer ao inimigo a informação tão necessária; ao mesmo tempo, no mundo antigo como no moderno, o indivíduo capaz de acessar e entregar tais informações é, compreensivelmente, mal-visto. Em Alexandre, o destino especialmente cruel de Bessus, o sátrapa que traiu Dario III, é exemplo dessa repulsa:
Duas árvores retas foram dobradas e uma parte de seu corpo amarrada a cada uma; quando cada parte foi solta, a metade de seu corpo que lhe estava agarrada partiu junto com a árvore 5.
 
Bessus roubou de Alexandre a glória da captura de Dario vivo e, ao mesmo tempo, mostrou-se indigno da confiança de Alexandre ao tentar ganhá-la (como todo traidor, se Bessus fez tamanho mal ao seu antigo mestre, porque não o faria ao novo?).
 
Mas em sentido estritamente militar, a tarefa da aquisição de inteligência nas campanhas de Alexandre era, via de regra, moralmente anódina e tecnicamente indiferenciada quanto aos informantes (pelo menos é esse o quadro que emerge das fontes de que dispomos para falar de Alexandre, para devemos lembrar de que tudo de que dispomos de testemunhos contemporâneos são fragmentos, o que não ocorre com César). É conveniente lembrar ao leitor que, por praticidade, farei uso de exemplos romanos ou gregos posteriores ou, mais raramente, anteriores a César. Tal procedimento parece-me razoável uma vez que, do séc. I a.C. ao IV d.C. a natureza essencial das atividades de inteligência militar pouco mudaram6.
Humint em Alexandre significava, o mais das vezes, a autópsia impetuosa, nem sempre bem-vista entre analistas mais tardios (e que conduz em sua forma moderna ao dilema bem exposto por Keegan quanto à natureza da exposição do comandante diante de suas tropas - quando estar à frente, e portanto, visível e arriscando-se? “Sempre”, “nunca” ou “por vezes”?7
 
No caso de Alexandre, os exemplos de sua crescente necessidade de exposição aos riscos da batalha com seu envelhecimento são inúmeros e unanimidade em todos os autores; o mesmo se pode dizer do aumento de sua credulidade quanto a augúrios e presságios:
Alexandre, por essa época, havia se tornado sensível às indicações da vontade divina e ficado com a mente apreensiva e perturbada, e transformava cada evento, por estranho que fosse, em algo significativo, num prodígio e augúrio: e sacrificadores, purificadores e adivinhos enchiam seu palácio. Assim, vejam, do mesmo que é perigoso ser incrédulo com relação às indicações do que é divino e desprezá-las, a superstição é igualmente perigosa [...]8.
 
Mas todo tipo de inteligência militar necessita de um contexto para interpretação; e nesse sentido, os augúrios só merecem espaço neste artigo por estarem tão intimamente ligados às atividades militares de Alexandre9. Os exemplos para César são mais austeros, notadamente no que diz respeito ao seu uso da autópsia como forma de aquisição de humint em primeira-mão.
 
Em Alexandre, encontramos principalmente em Plutarco exemplos notáveis da crença nos oráculos como meios eficazes de determinar processos decisórios. Desse modo, antes da expedição indiana, o aparato religioso-logístico-oracular é notável - ou antes, o descaso de Alexandre com o mesmo:
Ele mesmo [Alexandre] se fazia acompanhar por oito cavalos, enquanto banqueteava-se noite e dia com seus companheiros [meta ton hetairon] [...] e incontáveis carroças os seguiam, algumas com coberturas em púrpura e bordadas, outras protegidas do Sol por ramos de árvores que eram mantidos sempre verdes, levando o restante de seus companheiros e comandantes, todos usando guirlandas e bebendo. Não se via um capacete, nem um escudo, nem uma lança [...]10
 
Antes da expedição tomar feições de baderna, entre os preparativos nota-se que Alexandre,
[...] prestes a cruzar as montanhas rumo à Índia [...] [Alexandre viu] uma ovelha com o que parecia, pela forma e cor, com uma tiara sobre sua cabeça, com testículos dos dois lados. Alexandre desprezou o augúrio e fez-se purificar pelos babilônios, que sempre trazia consigo para tais finalidades; em conversa com seus amigos, alegou não estar preocupado consigo mesmo, mas com a sorte deles 11.
 
Deve-se notar que seus adversários também serviam-se dos mesmos recursos como forma de aquisição de sigint, como Dario o faz:
Dario, vindo para a costa a partir de Susa encontrava-se exaltado pela extensão de suas forças (pois liderava um exército de 600 mil homens), mas também encorajado por um certo sonho, que os Magi interpretaram mais com o intuito de agradá-lo do que como as probabilidades exigiam 12.
 
Eis aqui um exemplo interessante - no original grego Plutarco não fala, evidentemente, em “probabilidades”, mas em mallon he kata to eikos.
 
Mas seria um erro imaginar que Alexandre confiava apenas nos oráculos para suas decisões: em mais de uma ocasião ele serve-se de “medidas contra-inteligência” (i.e. destinadas a confundir o inimigo), como por exemplo na expedição contra Porus, na Índia:
Em sua campanha contra Porus [...] diariamente ele fazia grande barulho em seu campo, de modo a acostumar os bárbaros ao mesmo e fazer com que não se alarmassem 13.
 
O mesmo depoimento é encontrado em Arriano, fonte bem mais comprometida com o relato isento e político de Alexandre do que Plutarco que, como ele mesmo nos diz, não está fazendo historiografia mas biografias:
Vendo isso [a guarda que Porus havia montado], Alexandre houve por bem manter seu exército movendo-se em diferentes direções, para manter Porus na incerteza de suas intenções 14.
 
E o exemplo mais eloqüente de todos: quando criança, Alexandre mostra-se extremamente curioso quando seu pai recebe enviados persas, e faz aos mesmos perguntas de todo tipo com relação ao seu país - perguntas lógicas e que relacionam-se não com práticas mágicas ou oraculares, mas que soariam razoáveis aos ouvidos modernos, e que certamente divertiram os atônitos diplomatas persas:
[Alexandre] conquistou-os por seu encanto, e por não fazer perguntas triviais ou infantis, mas argüindo acerca das estradas e sobre a natureza de uma viagem para o interior, sobre o próprio rei, que espécie de guerreiro ele era e qual o poder e habilidade dos persas 15.
 
O padrão a ser observado aqui é novamente o de que Alexandre, com a idade, passou de um lado a expor-se cada vez mais e de modo mais insensato e ao mesmo tempo, a dar menos atenção (a julgar pelos testemunhos de que dispomos, insisto - tardios e/ou fragmentários) ao uso de humint no sentido convencional que o termo pode ter modernamente (ainda que entendido em termos da Antigüidade, guardando-nos tanto quanto possível do anacronismo). Ao mesmo tempo, sua crescente exposição aos riscos da batalha tornava-o involuntariamente um praticante cada vez mais assíduo da autópsia em campo de batalha.
 
É de se notar que numa fonte especialmente confusa, mas tornada útil pela escassez de outras em primeira-mão ou mais próximas da vida de Alexandre, encontramos o gosto pela autópsia detalhado ao ponto de se ficar sabendo que Alexandre tinha atração pelos disfarces, como um Canaris antigo; mesmo levando-se em conta que se trata de obra nada confiável historiograficamente, a passagem pode ter sido inspirada em Onesicrito, um dos que escreveram à época de Alexandre16.
 
Por fim, humint e sigint no sentido oracular parecem unir-se de modo especialmente interessante num oráculo relacionado às primeiras perseguições de Alexandre a Dario:
[...] Alexandre encontrou um guia para conduzi-lo pela Pérsia [CF> ARRIANO]. O homem falava duas línguas, pois seu pai era lício e sua mãe persa; e era ele, dizia-se, de quem a pitonisa falava ao dizer que Alexandre teria um lício [i.e. um “lobo”, lykos] como guia em sua marcha contra os persas 17.
 
Aqui vemos a simbiose dos dois elementos: o oráculo que prevê o “lobo” como guia e a função que este, ao menos no relato de Plutarco, exerce efetivamente, e não apenas no plano religioso ou oracular, já que o rapaz efetivamente conduz Alexandre e seu exército.
 
No entanto, semioticamente, há uma diferença essencial no que dispomos para falar da signint nos dois casos estudados neste artigo. Seja pela natureza de seu estilo de comandar18, seja pelo seu temperamento como um todo ou seja apenas pelo capricho das fontes, o peso dos oráculos era muito maior entre os exércitos de Alexandre (ou dos gregos antes dele; é eloqüente como exemplo de planejamento tático associado ao uso de oráculos a defesa de Atenas por via naval na guerra contra os persas)19. Por outro lado Josefo enfatiza a inutilidade de tais práticas - sem dúvida como apologia ao rigor do monoteísmo judaico - no episódio em que Mossolamo, mercenário judeu do período de Alexandre e dos Diádocos, afronta acintosamente os oráculos condutores de uma coluna militar da qual fazia parte20. Portanto, ainda que isso soe menos compreensível aos olhos modernos, o exame de oráculos religiosos desempenhava um papel muito maior (juntamente com a autópsia) no tempo de Alexandre, dos Diádocos e dos reinos helenísticos do que entre César, Pompeu, Agrícola e mesmo militares bem posteriores, como Juliano ou Procópio.
 
O chamado “ciclo de informação” descrito anteriormente encontra um de seus melhores exemplos na Antigüidade em Amiano Marcelino, 18.521:
[Após falar da ineptitude de Sabianus, envolvido n campanha contra os persas ao tempo de Juliano (361-363)] [...] nossos batedores informaram que o inimigo estava em estado febril de preparação, e isso era repetidamente confirmado por desertores, deixamos o homenzinho [Sabianus] espreguiçando-se e marchamos à toda força para a defesa de Nisibis [...] e vimos fogueiras vindas do lado do Tigre [...] em tamanho volume que estava claro que o inimigo havia cruzado o rio. [...] Encontramos um garotinho bem-vestido no caminho, de uns oito anos de idade, que nos disse ser filho de um homem de boa família mas que havia sido deixado para trás por sua mãe, que o considerou um estorvo na fuga. [Trouxe o garoto em segurança para uma de nossas torres].
 
Depois do episódio do abrigo do garoto, Amianus continua com dois novos detalhes interessantes acerca de como obter informações em meio à batalha: numa área florestal denominada Meiacarire, abandonada por seus habitantes, foi encontrado apenas uma pessoa - um soldado persa, de quem sabemos muito para as circunstâncias:
 
Ele era um nativo da Gália nascido na Lutécia e tinha servido num regimento de cavalaria, mas para escapar da punição por alguma infração havia desertado para a Pérsia. Lá ele casou-se e constituiu família, e era tido em tão alta conta que era empregado como espião, e com freqüência trazia informações confiáveis de nossas linhas. Naquela oportunidade ele tinha sido enviado por Tampsapor e Nohodares, os mais graduados no setor dos ataques, e já estava voltando para informá-los. Após nos contar o que sabia das operações inimigas foi morto. Esse incidente aumentou nossa anxiedade [...] [Em Amida, cidade em pé-de-guerra], nossos batedores juntaram-se a nós, e trouxeram um pedaço de pergaminho escrito em código e escondida numa bainha. [Segue-se o conteúdo]. Quando a mensagem foi decifrada, com grande dificuldade, pudemos traçar um plano inteligente.
 
Aqui, o quadro da aquisição de humint apresenta-se quase que de modo completo: aquisição (misto de autópsia por Amianus e batedores, mais o garoto e o desertor), entrega (a mensagem capturada na bainha), aceitação (dificultada pela “cifragem”), interpretação (termos obscuros ou anacrônicos usados para proteger seus portadores de represálias) e implementação (o plano que envolvia a simpatia e os serviços de Corduenus, um estado-tampão entre a Pérsia e o Império Romano).
 
A sofisticação dos métodos empregados por César em pouco diferia dos de Amianus tecnicamente, embora distante quatro séculos no tempo. Todavia, enquanto o testemunho de Amianus é fragmentário - algo de que nos esquecemos com freqüência, dado o tamanho considerável dos fragmentos, algo que também ocorre com Tácito e Políbio, para citar apenas dois exemplos - o de César encontra-se virtualmente completo para nossos fins. Talvez não encontremos nos textos de César - ou nos que lhe são atribuídos - um exemplo tão completo do “ciclo de inteligência” tal como o de Amianus descrito acima, mas a variedade de estratagemas usados por César contra inimigos de todos os tipos (de Pompeu às tribos gaulesas e ibéricas) é desconcertante.
 
Na Gália Júlio César não podia contar, obviamente, com a boa-vontade de reis-clientes (outra fonte essencial para a humint na Antigüidade), mas dentro dos limites que a civilização essencialmente rural da Gália lhe impunha, ele fez bom uso de aliados como informantes. Assim, vemos que no começo de 57 a.C. os senones, preocupados com os movimentos dos belgas, são deliberadamente utilizados por César para mantê-lo a par dos movimentos destes últimos:
Ele encarregou os senones e os gauleses restantes vizinhos dos belgas para descobrir o que os últimos pretendiam fazer e mantê-lo informado sobre isso22.
 
Os meios pelos quais César obtinha essas informações não fica de todo claro, mas envolvia a variedade de fontes de humint que é sempre desejável teoricamente - e esse é um ponto que César deixa claro, já que mantendo-se a uma distância de 15 dias de marcha dos belgas, os aliados entre ambos permitem-lhe, coisa rara em se tratando de aquisição de inteligência militar na antigüidade, planejamento não apenas tático como estratégico. O leitor deve ter percebido que a maior parte dos exemplos fornecidos até agora neste artigo trata de humint ou mesmo de sigint aplicadas a situações táticas e não estratégicas23. Por vezes o uso de exploratores combina-se com o de habitantes locais, dotando César de um quadro bem completo do que o aguarda (caso dos remi, hostis aos belgas, juntamente com os exploratores; também aqui a variedade é fator-chave para o sucesso no uso da humint). Deve-se notar, contudo, que mesmo no caso de um comandante hábil na seleção de uso de humint como César, seu uso estratégico é esporádico; podem ser reflexo das fontes, ou ainda da cartografia da época e suas limitações24.
 
O mesmo procedimento é observado na expedição de César às Ilhas Britânicas em 54 a.C., quando cinco tribos forneceram, como parte do “pacote diplomático”, informações detalhadas sobre um forte mantido pelo líder Cassivellaunus:
Quando os trinobantes foram postos à salvo dos ultrajes das tropas, os cenimagni, os segontiaci, os ancalites, os bibroci e os cassi enviaram delegações e renderam-se a César. Deles ele [César] soube que o reduto de Cassivellaunus não ficava longe dali, protegido por florestas e pântanos; e que ele havia reunido quantidade considerável de homens e gado 25.
 
As patrulhas de exploratores, por sua própria natureza “romântica” (mais do que os procursatores, que desempenhavam um papel de reconhecimento imediato), tendem muitas vezes a ter seu papel exagerado na época de César; todavia, após o séc. II d.C., com o crescente interesse nos movimentos dos marcomanni passam a ser estacionadas de modo mais sistemático no limes danubiano, como atestam inscrições. Ao tempo de César até o séc. II, os mercadores, intermediários naturais entre o mundo bárbaro e o romano, são fator fundamental na aquisição de humint - os prejuízos que o deslocamento de mercados podia causar aos comerciantes locais em detrimento da segurança romana é atestado por várias fontes26. O tipo de informação obtido por meio de comerciantes é exemplarmente atestado por Tácito ao referir-se à Irlanda e o que dela pôde Agrícola saber por intermédio dos negociantes:
[A Irlanda] é pequena em comparação com a Britânia, mas maior do que as ilhas do Mediterrâneo. Em solo e clima, e na natureza de seus habitantes, parece-se muito com a Britânia; e seus acessos e portos tornaram-se agora melhor conhecidos pelos mercadores que fazem negócios lá 27.
 
Retornando a César, é em seus escritos que encontramos o uso mais consistente do elemento adversário como forma de humint. Noutra passagem da Guerra das Gálias, vemos que sua campanha contra Ambiorix em 52 a.C. foi precedida de razoável trabalho de inteligência:
Assim, tendo resolvido esses assuntos, por estar convencido de que Ambiorix não lutaria uma batalha decisiva, ele [César] começou a examinar que outros cursos de ação lhe estavam abertos 28.
 
Como conclusão da natureza do trabalho de procursatores, exploratores e kataskopoi deve-se dizer que, sem o acesso direto ao alto-comando o “ciclo de inteligência” demoraria mais tempo para fechar-se do que o necessário para a obtenção de uma vitória. Também aqui César mostrou-se extremamente prático ao permitir o acesso desses soldados especializados à sua pessoa a qualquer momento e sem mediações.
 
Em suma, toda a discussão travada neste artigo baseia-se, em última análise, em algo que persiste em todos os esforços sistemáticos de aquisição de inteligência militar, da Antigüidade aos dias de hoje - no fato do inimigo, como um animal de caça, tem hábitos relativamente previsíveis29. Entre a impetuosidade de Alexandre, que nos chegou com séculos de atraso dos testemunhos contemporâneos ou em fragmentos dos mesmos, e a meticulosidade de César - e de seus sucessores na arte militar até o séc. IV d.C. - observamos duas mudanças decisivas.
 
A primeira, o fato do comandante supremo não necessitar mais estar “sempre” à frente de suas tropas (César podia fazê-lo quando lhe conviesse, ou mais raramente, quando não tinha escolha; Amianus viu-se em situações perigosas também, mas não se pode comparar os dois líderes em envergadura de comando, nem no escopo de suas ações). O risco de sua exposição conduzia cada vez menos a sucessos espectaculares como os de Galério, no tempo de Diocleciano (na Armênia, 297-298): por meio de sua autópsia, ele obteve a aquisição de humint tão perfeita que resultou numa vitória completa, que incluiu a captura da família de Narses e numa quantidade imensa de saque30.
 
Todavia, pode-se dizer que tais episódios, além de raros - ao que parece, começava-se a perceber que a reposição de um oficial capaz era custosa demais para arriscá-lo num episódio gladiatorial - passavam a ser mal-vistos. Plutarco, em sua Vida de Marcelo, falando de um período bem anterior ao de César (208 a.C.) afirma, com certo desdém, que ele morrera a morte de um tocaieiro (prodromos) ou de um batedor (kataskopos)31. Raros são, por comparação, episódios como o que Tácito narra nos seus Anais 12.35, em que a autópsia levada a cabo pelo comandante romano Ostorius Scapula levou à vitória contra os bretões em 50 d.C.. É sintomático que somente após o séc. IV passemos a ter notícia do aumento de oficiais seniores nas operações de reconhecimento - possivelmente relacionado à desqualificação do soldado comum a ser treinado para semelhantes tarefas32.
 
Em segundo lugar, e como função da profissionalização do ofício militar, nota-se o declínio geral dos oráculos como forma de sigint. Por estranhos que possam parecer à sensibilidade moderna, na ausência de tropas especializadas em reconhecimento, os oráculos preenchiam uma lacuna importante (o que não significa dizer que o fizessem de forma eficaz) no conhecimento do que estava “do outro lado da colina”, na definição concisa de Wellington sobre a natureza da atividade humana - em última análise, ver o que não pode ser visto em condições normais, ou, para utilizar um termo popularizado por Ginzburg, servir-se de um “saber indiciário” que permitisse identificar o animal pela sua pegada. Nesse sentido, a realização romana é notável - mas é ainda mais surpreendente que, entre a origem venatória de tal saber e sua aplicação ao “inimigo” tenham se passado tantos milênios.
 
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* Para autores clássicos, utilizei as edições da Loeb Classical Library, a não ser quando indicado.
**     Docente na Universidade de Brasília, tem-se dedicado de modo especial ao Projeto de Estudos Judaico-Helenísticos. Orientador de mestrados e doutoramentos.
 
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 1 Utilizo o termo sempre no sentido propriamente militar, i.e. de conjunto de informações adquiridas, coligidas, aceitas, interpretadas e implementadas com o fim da derrota do inimigo (cf. John Keegan. Inteligência na guerra. Conhecimento do inimigo, de Napoleão à Al-Qaeda. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Pp. 19-21), e não no sentido corriqueiro de “capacidade intelectual”.
 2 Exemplo notável é o fracasso da tecnologia na recente guerra (2001) no Afeganistão; por um lado a mídia busca vender a imagem de que cada vez menos baixas ocorrem, quer entre civis, quer entre combatentes, em função do desenvolvimento tecnológico. Certamente há um fundo de verdade nisso - a tecnologia faz com que seja necessário um número cada vez menor de homens para conquistar e manter terreno - mas por outro há certas tarefas que, por sua própria natureza, parecem destinada a serem eternamente “privilégio” e risco dos soldados de carne e osso, como as operações de limpeza de cavernas no Afeganistão. E esse tipo de operação sempre custará mais baixas do que a opinião pública está, atualmente, preparada para enfrentar. Cf. Mir Bahmanyar. Afghanistan Cave Complexes 1979-2004. Mountain Strongholds of the Mujahideen, Taliban & Al Qaeda. Oxford: Osprey, 2004. P.16 ss. A isso acrescente-se que, num mundo que vê cada vez com menos simpatia as soluções militares (quando adotadas pelas grandes potências: quando recurso de tiranetes ou fundamentalistas do Terceiro Mundo são aceitáveis e amiúde louvadas pela mídia), o establishment militar vê-se diante de um impasse. As baixas domésticas são inaceitáveis; a substituição de profissionais ou conscritos natos por mercenários (caso da Legião Estrangeira Francesa e da Espanhola) é tida como imoral e as baixas do inimigo erradas por princípio. Para o bem ou para o mal, em muitas operações especiais de aquisição de inteligência e mesmo da execução de missões os veículos não-pilotados simplesmente não resolvem a questão; é necessário o uso de mais homens e conseqüentemente, ocorrem mais baixas - algo que a opinião pública não mais aceita. Este parece, de momento, o limite prático para a aquisição de sigint.
 3 Keegan, op.cit. pp.21-22.
 4 Arnaldo Momigliano. “Eastern Elements in Post-Exilic Jewish, and Greek, Historiography” in: Essays in Ancient and Modern Historiography. Middletown: Wesleyan University Press, 1987. Pp.28 ss..
 5 Plutarco. Vida de Alexandre 63.3. A atitude de Alexandre parece ter origem centro-asiática e não ser uma invenção própria; encontramos o mesmo requinte de crueldade na punição aos adúlteros no relato de Ibn Fadlan, em 921, refereindo-se aos guzos. Cf. Arthur Koestler.Os khazares. A 13a. tribo e as origens do judaísmo moderno.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005. Pp.40-41.
 6 Keegan, op.cit. p.28. Em todo caso, é necessário tomar cuidado com as mudanças no uso de certos termos específicos que não são bem atestadas pelas fontes literárias, mas de modo claro pelas epigráficas e papirológicas - tal como do termo speculator, cuja natureza alterou-se visivelmente entre César e Amiano Marcelino. Do séc.I d.C. em diante, speculatores são também dois tipos distintos de oficiais do exército romano, que, a julgar pela evidência disponível, nada tinham em comum com os speculatores tão úteis a César (indivíduos altamente treinados para operações clandestinas atrás do que hoje denominaríamos “linhas inimigas”, ou chamaríamos, ao tempo dos romanos, de limes. Cf. Norman Austin e Boris Rankov. Exploratio. Military and Political Intelligence in the Roman World from the Second Punic War to the Batlle of Adrianople. New York/Abingdon: Routledge, 1995. P.54 ss.
 7 É a pergunta que anima o estudo de John Keegan sobre a natureza do comando militar em seu magistral A máscara do comando. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1999.
 8 Plutarco. Vida de Alexandre 74.5.
 9 Tácito observa, ao falar de Vitélio, que sua ignorância quanto à inteligência reforça sua ineptitude noutros aspectos (Histórias 3.56). Cf. Austin e Rankov, op.cit. p.6.
10 Plutarco. Vida de Alexandre 67.1.
11 Idem, 57.1-3.
12 Idem, 18.4.
13 Idem, 60.1. Modernamente, o exército fictício montado sob o “comando” de Patton na Inglaterra e que destinava-se a confundir os alemães nas vésperas da invasão da Europa realizaria sua tarefa de modo semelhante - apenas o “ruído” aqui é de natureza radiofônica, e obteve resultados semelhantes.
14 Arriano. Anábasis de Alexandre 5.9.
15 Plutarco, Vida de Alexandre 5.1. É interessante notar que embora notáveis como perguntas feitas por uma criança, as informações obtidas devem ter contribuído mais para a lenda da sagacidade precoce de Alexandre (como os emissários persas observam na passagem que segue-se às perguntas) do que para a expedição propriamente dita, na qual não se faz menção desse tipo de humint obtido durante a infância.
16 Romance de Alexandre, versão grega. Cf. Richard Stoneman (ed.). The Greek Alexander Romance. London: Penguin, 1991 e Donald W. Engels. Alexander the Great and the Logistics of the Macedonian Army. Berkeley/London: University of California Press, 1978.
17 Plutarco. Vida de Alexandre 37.1. Compare-se o episódio todo em Plutarco com o uso criterioso que Amianus faz de um “informante não-combatente” nas páginas seguintes; na obtenção de inteligência militar - humint ou sigint a variedade de fontes atestando o mesmo fato é, como na historiografia, penhor de verdade - mas na atividade militar a variedade de fontes é crucial, o que não ocorre com a historiografia. Idealmente, o “ciclo de inteligência” deve compor-se de fontes tão variadas quanto possível, desde que todas ou a maioria atestem a verdade almejada. Evidentemente, fontes diferenciadas como não-combatentes, desertores, civis e comerciantes não responderão de modo uniforme ao que lhes é indagado, e nisso reside o risco de imprecisão que suas informações acarretam. Cf. Austin e Rankov, op. cit. p. 67.
18 Como outros comandantes modernos - mas por razões inteiramente diversas, já que a monarquia macedônica exigia de seu líder a façanha militar - Alexandre expunha-se não só por temperamento como também por necessidade aos riscos da batalha face-a-face; cf. Keegan, Máscara, pp73; 78 e 97.
19 Heródoto. Histórias 7.141..
20 Josefo. Contra Apião 1.201.
21 Ammianus Marcelinus. The Later Roman Empire (A.D. 354-378). London: Penguin, 1986. Seleção, tradução e notas por Walter Hamilton e Andrew Wallace-Hadrill).
22 César. Guerra das Gálias 2.2.
23 Austin e Rankov, op.cit. p.22.
24 É o caso do exemplo fornecido por Plíno em sua História natural 6.141, ao referir-se a um certo Isidoro ou Dionísio de Charax enviado à Armênia por Augusto no ano 1d.C., como parte de uma força de reconhecimento que teria implicações de longo alcance.
25 César. Guerra das Gálias 5.21.
26 Tácito. Germânia 41.1; Histórias 4.64; Cássio Dio 71.11 ss.; Amianus 27.5; Procópio. Guerras 2.28 ss. - mesmo os dois últimos lidando com períodos bem tardios.
27 Tácito. Agrícola 24.2.
28 César. Guerra das Gálias 6.5 ss.
29 Disso já estavam bem conscientes Procópio (Guerras 2.18) e antes dele, Vegécio (Epítome da ciência militar 3.6; 4.27).
30 Eutrópio 9.25; Festus. Breviário 25; Amianus 16.10; Sinésio. Sobre a realeza 17).
31 Plutarco. Vida de Marcelo 29; cf. também Apiano. Guerra anibálica 50. Políbio também censura a imprudência com que Marcelo e Cispinus partiram para um reconhecimento com o apoio de apenas 220 cavalarianos.
32 Amianus 24.4.
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2010-02-26
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REVISTA MILITAR @ 2018
by CMG Armando Dias Correia