Nº 2495 - Dezembro de 2009
José Maria das Neves Costa e As Linhas de Torres Vedras
Coronel
José Custódio Madaleno Geraldo

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Fernando Pessoa
 

Introdução[1]

Falar de José Maria das Neves Costa é falar das origens da cartografia militar de Portugal, que remonta aos fins do século XVIII, princípios do século XIX, é revolver a História no período das Invasões Francesas, é trazer a lume sua ligação às Linhas de Torres Vedras e a importância que estas tiveram na vitória do Exército Anglo-Luso sobre as tropas napoleónicas, por ocasião da 3.ª Invasão, em 1810.
 
A cartografia portuguesa remonta ao tempo dos descobrimentos, e foi neste período, em que “Portugal deu novos Mundos ao Mundo”, que atingiu um dos seus períodos áureos, com reflexos positivos e inovadores no estrangeiro, principalmente na Europa, “O explendor que no século XVI alcançou o auge da perfeição, sob ambos os aspectos artístico e científico, a Cartografia nacional, e assegurou fama imorredoura aos nomes de Pedro e Jorge Reinel, Lopo, André e Diogo Homem, membros de famílias que transmitiam de pais a filhos o ofício de cartógrafo e que nele tanto se notabilizaram;[2]
 

Fig. 1 - Carta Militar que serve de Supplemento á Carta Topographica,
de huma parte da Provincia da Estremadura visinha a Lisboa...
Oferecida ao Marechal Beresford, Comandante em Chefe do Exercito Portuguez,
por José Maria das Neves Costa. Major do Real Corpo d’Engenheiros, 1811.
 
 
A arte de representar a superfície terrestre teve grande incremento no século XVIII, devido à criação da classe dos engenheiros e das escolas de aplicação de Matemática, que levaram à adopção de novos processos de levantamento, de projecções diferentes e de instrumentos aperfeiçoados. Mais uma vez os nossos cartógrafos provaram ser dos melhores daquela época, pela realização de trabalhos rigorosos, nos levantamentos e na execução gráfica, produzindo verdadeiras obras-primas cartográficas; José Maria das Neves Costa foi um dos engenheiros militares que mais se destacou neste período no campo da cartografia topográfica.
 
A principal razão que nos levou a escolher este autor foi o interesse que nos tem vindo a despertar o bicentenário das Invasões Francesas e ele ter sido um dos grandes homens a quem o Exército Anglo-Luso deve a vitória da 3.ª Invasão, praticamente sem combates. Ao longo das próximas páginas vamos tentar falar do homem, José Maria das Neves Costa, e dos seus trabalhos que concorreram para a realização das Linhas de Torres Vedras.
Tentaremos demonstrar como o seu contributo foi importante, mesmo não tendo sido valorizado na altura. Apresentaremos parte do memorando de Wellington, onde estavam descritas as indicações para a construção das Linhas; faremos uma breve apresentação das mesmas e como elas contribuíram para a vitória dos Aliados, assim como para a sua glória.
 
Apelaremos, ainda, para a importância da celebração condigna do Bicentenário das Linhas de Torres (1810-2010) e para a homenagem que, merecidamente, deve ser prestada a um português que teve na sua génese: José Maria das Neves Costa.
 
A base de todo este trabalho é o seu processo individual que encontrámos em óptimas condições no Arquivo Histórico Militar, a Revista Militar e os Artigos que nos foram facultados pela Direcção dos Serviços de Engenharia. Para os responsáveis destas instituições, os nossos sinceros agradecimentos.
 

Síntese Biográfica do Autor 

José Maria das Neves Costa nasceu em Carnide a 14 de Agosto de 1774 e era filho de Manuel Cláudio da Costa e de Josefa Maria Vieira, pais honestos e não abastados. Frequentou o curso de Humanidades no Real Colégio das Necessidades, e posteriormente frequentou a Academia de Marinha (1791-1793), cursando depois na Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho (1793-1796). Aluno distinto, considerado um dos melhores do seu tempo. Com vinte e três anos foi promovido ao posto de Segundo-tenente de Engenharia. Desempenhou funções na secretaria do duque de Lafões.[3] Serviu também na Brigada de Engenharia, desempenhando aí comissões importantes até 1801, ano em que é promovido a primeiro tenente[4], e em Maio do mesmo ano é promovido a capitão de infantaria, da primeira plana da corte, como ajudante de campo às ordens do marquês de Marialva.
 
Em 1802, foi nomeado para o estado-maior da inspecção das praças-fortes da fronteira e costas marítimas, de que era chefe o marquês La Rosiére, oficial que tinha servido na guerra dos sete anos, o mais distinto oficial do estado-maior do exército real de França, na opinião do general Foy.
 
Neves Costa teve a sorte de servir com bons chefes e apreender os bons exemplos. De tal modo que quando ocupou lugar no estado-maior esperava “o governo que ele preencheria este serviço com intelligência, zêlo e actividades proprias de um oficial do seu merecimento[5]. Com o conde de Cambors, chefe da primeira divisão de engenheiros, efectuou o reconhecimento da fronteira do Alentejo. Neves Costa tinha em grande conta La Rosiére e Chambors, de tal modo que nutria por eles grande estimação, para além de os admirar como mestres.
 
Em 1806, o marquês de Marialva escolhe-o para ir organizar o Arquivo Militar. Aí trabalhou até à 1.ª Invasão Francesa, comandada por Junot. Durante o governo deste foi encarregado, por ordem de Vincent, conjuntamente com o coronel Caula, de trabalhos de reconhecimento militar (planta do terreno ao norte de Lisboa e entre o Cabo da Roca e a Ericeira).
 
Foi promovido a major, em 1807, aos 33 anos de idade. Com esta patente foi um dos escolhidos para proceder à triangulação e levantamento topográfico da área entre Lisboa e Peniche, em particular, entre o Cabo da Roca e Peniche.
 
Em 1810, trabalhou nas Linhas de Torres, às ordens do engenheiro inglês Fletcher.
 
Em 1811, dirigiu os trabalhos de fortificação da praça de Almeida e, finda a guerra peninsular, levantou a carta da península de Setúbal.
 
Foi promovido a tenente-coronel, a 22 de Janeiro de 1820, e no final do ano a coronel. Partidário das ideias liberais, foi eleito deputado por Setúbal, em 1822, e, no ano seguinte, (ano da “vilafrancada”), chegou a ser nomeado ministro da guerra, por decreto de 28 de Maio de 1823. Não chegou a exercer, porque foi restaurado o poder absoluto.
 
Tomou parte da reforma do sistema do ensino público militar.
 
Em 1826, “foi chamado a governar o Forte de Lippe, onde, a prol da Carta Constitucional e de Sua Magestade a Rainha, teve vez de prestar conspicuos serviços, cooperando para o acabamento das revoltas acontecidas na praça d’Elvas, nos dias 29 e 30 de Abril de 1827, mediante os tiros que ordenara, e que sendo moralmente efficazes, pouparam recommendadamente os habitantes pacificos; o que lhe valeu não só enthusiasticos elogios particulares, mas os que foram publicos na ordem do exercito.”[6]
 
Ainda em 1827, enquanto prestava serviço no forte de Lippe escreveu “Memoria sobre a organização e disciplina do exercito portuguez, em relação ao systema constitucional”. Nesta obra tratava dos direitos e dos deveres do soldado perante a sociedade civil, que competia respeitar e obedecer.
 
Em 1835, foi Neves Costa chamado para participar na reforma do sistema de pesos e medidas e introdução do sistema decimal. Os outros elementos deste grupo de trabalho foram o Visconde de Vilarinho de S. Romão e o Sr. Manuel Gonçalves de Miranda.
 
Foi reformado com o posto de Brigadeiro, em Setembro de 1837.
 
O então Visconde Sá da Bandeira mandou-o servir no Arquivo Militar, com o propósito do estudo da Carta Itinerária do Reino. Entretanto escreveu uma memória que intitulou: “Considerações militares, tendentes a investigar as localidades parciaes, cuja topographia se precisa conhecer, etc.” Obra de grande valor que foi terminada já quando se encontrava doente.
 
Dedicava-se também este engenheiro militar à tradução e anotação do “Tratado das operações secundárias da guerra”, de Mr. Lallemand.
 
Faleceu a 19 de Novembro de 1841, com 67 anos de idade.
 

Ambiente Técnico-Militar da Época

Tendo o autor nascido em finais do séc. XVIII, importa referir os desenvolvimentos do armamento e a evolução que provocaram no ambiente técnico militar neste século, pois tiveram grande influência no período em que fermentou a sua obra.
 
É de referir que uma das características peculiares do séc. XVIII foi a intensificação da actividade diplomática como instrumento de construção de alianças, realização de casamentos ou de trocas territoriais. Apesar disso, a guerra era dos meios utilizados para resolver disputas e conflitos internacionais.
 
Na segunda metade do séc. XVIII, as grandes potências mantiveram exércitos com mais de cem mil soldados[7]. A técnica de guerra mudou de modo radical e salientam-se duas inovações que levaram ao uso de novas tácticas: Uma delas foi a invenção da baioneta colocada no cimo do cano do mosquete, a outra foi o uso da pederneira no mosquete, que permitiu o disparo de três tiros por minuto.
A táctica consistia em enfileirar-se numa linha fina, manter um pesado fogo de fuzilaria[8] avançando sempre, até chegar a poucos metros dos soldados inimigo, e então atacá-los com baioneta. A cavalaria intervinha para deter a cavalaria adversária, ou era usada nas perseguições. Esta táctica exigia um longo treino dos soldados, além de uma rígida disciplina, que tornaram famoso o exército prussiano de Frederico II.
 
Os exércitos do séc. XVIII eram profissionais, compostos essencialmente por estrangeiros e por voluntários nacionais. Estes últimos pertenciam, na sua grande maioria, às camadas sociais mais humildes e pobres e, muitas vezes, eram recrutados por métodos desleais ou através de falsas promessas.
 

O Major José Maria das Neves Costa e as Linhas de Torres

Os trabalhos topográficos e cartográficos, do terreno a Norte de Lisboa e sua memória

 
“The greatest compliment to the strength of the Lines that can be paid”
A: G. Macdonell[9]
 
José Maria das Neves Costa foi um brilhante Oficial do Exército Português e também um distinto aluno. A sua vocação para a cartografia revelou-se muito cedo e “Os seus primeiros levantamentos de fôlego começaram na fronteira do Alentejo, quando servia na Inspecção-Geral das Fronteiras e Costas Marítimas do Reino, às ordens do Marquês de Rosière. A carta que na altura construiu e desenhou, datada de 1803, e a memória que a acompanhava, feita no ano seguinte, ficaram, como outros trabalhos, em poder de Rosiére.” [10]
Talvez a fama do nosso cartógrafo tivesse chegado a França e Rosiére tivesse dado conhecimento, ao “Corps du Genie” chefiado pelo coronel Vincent, que acompanhou Junot, na I Invasão Francesa, dos trabalhos realizados por José Maria das Neves Costa.
 
O que é certo é que depois de ter chegado a Portugal, Vincent solicitou os préstimos da engenharia militar portuguesa, “escreveu a Carlos Frederico Bernardo de Caula, em Janeiro de 1808, pedindo-lhe que sob a sua direcção, se procedesse à triangulação e ao levantamento da área de Lisboa e Peniche, em particular da costa a Norte do Cabo da Roca, com a ajuda de dois oficiais à sua escolha. Foram então nomeados dois distintos engenheiros portugueses para trabalharem com Caula: Neves da Costa e Xavier de Brito.” [11]. Estes estudos tinham como finalidade táctica a de determinar as posições a ocupar pelos franceses para fazer face a um exército inimigo que marchasse sobre Lisboa. Como podemos verificar já Junot tinha a preocupação da defesa da capital.
E mal imaginava o seu comandante de engenharia - coronel Vincent - que seriam exactamente os trabalhos levados a efeito, nesse sentido por um oficial do Nacional Corpo de Engenheiros - o major José Maria das Neves Costa - que, dois anos depois, em 1810, haveriam de conter o corpo do exército de Massena nas Linhas fortificadas de Torres Vedras, como ali tendo escrito as palavras - Não passarás!”[12]
 
José Maria das Neves Costa pretendia continuar o trabalho que havia iniciado nos tempos da 1.ª Invasão e no requerimento que dirigiu ao Senhor D. João VI, a dar conta dos trabalhos topográficos e cartográficos que realizou, revelando a importância do terreno em prol da defesa de Lisboa, faz o seguinte memorando:
1.º No anno de 1808, antes que o nosso exercito fosse comandado por generaes inglezes, e sendo então major do nacional e real corpo de engenheiros, dirigi ao conde da Feira, secretario da regencia do reino na repartição da guerra, uma carta ou representação em data de 26 de Outubro, na qual lembrava a importancia do terreno proximo ao norte de Lisboa para defeza d’esta capital; visto que, depois da capitulação do general Junot, ella continuava a ficar exposta, assim como todo o reino, ás invasões do inimigo, que então dominava a maior parte de Hespanha.
2.º Na mencionada carta eu affirmava, que n’aquelle terreno existiam posições, que os nossos antepassados não tinham sabido avaliar, e que permitiam grandes vantagens defensivas a um pequeno numero de tropas contra forças mui superiores.
3.º Proponho no mesmo officio a necessidade de uma carta militar do referido terreno; e receando que o governo desistisse d’esta empreza, por motivo do muito tempo que exigiria semelhante trabalhos pelos methodos vulgares, ofereci-me a proceder à construção da dita carta por um mero methodo particular, de que apresentei uma prova na carta de uma porção da costa do Oceano ao norte do cabo da Roca, a fim de persuadir a possibilidade da rápida execução do trabalho que propunha, e que era indispensavel para servir de base ás disposições que podessem ter logar no referido terreno.
4.º Por este modo decidiu o governo d’este reino, que hesitava na empreza do mencionado trabalho, a ordenar-me a sua execução; e para me coadjuvar na mesma, propuz e pedi, que o tenente-coronel Caula fosse encarregado separadamente da triangulação ou medida trigonometrica dos principaes pontos d’aquelle terreno.
5.º Principiámos os sobreditos differentes trabalhos no fim de Novembro de 1808, e por consequência ainda antes de existirem officiaes inglezes no serviço do exercito portuguez. Porém tal era a duvida do governo sôbre a utilidade d’esta empreza, que, nos ultimos dias do mez de Dezembro, elle a fez suspender, e deu outros destinos aos mencionados officiaes, e áquelles que os coadjuvavam, que eram, o major Joaquim Norberto Xavier de Brito, às ordens do tenente coronel Caula; e o segundo-tenente José Feliciano Farinha, ás minhas ordens. Esta circumstancia assás demonstra, que ainda não era bem reconhecida pelo governo a importancia de semelhante trabalho, o qual não teria sido possivel concluir-se com a brevidade que depois se exigio, se eu o não tivesse feito principiar, insinuando a sua facil execução, como acima fica dito.
6.º Effectivamente, passados poucos dias, isto é, no meado de Janeiro de 1809, o governo mudou de opinião, e recebi ordem para, a toda a pressa, continuar o trabalho do reconhecimento que havia começado; mas o tenente-coronel Caula não voltou mais a esta commissão, permanecendo no governo militar de Villa-Franca, de que fôra encarregado.
7.º No mez de Fevereiro de 1809, tive a fortuna de concluir o trabalho do reconhecimento que havia proposto, e ocupei-me, na redacção e configuração da carta topographica militar que se desejava, a qual entreguei ao secretario da guerra em officio de 04 de Março de 1809. Constou-me que ella fôra depois mostrada pelo dito secretario a Lord Wellington, ou a algum dos principaes officiaes do seu seu estado-maior, antes de marchar contra o inimigo que se achava na cidade do Porto.
8.º Tendo-me occupado depois na redacção da memoria descriptiva das diversas posições mais ou menos vantajosas para a defeza da capital, entreguei a dita memoria ao mencionado secretario, em officio datado de 6 de Junho de 1809: e posto que já n’este tempo o marechal Beresford commandava o exercito portuguez, todavia nenhum conhecimento directo, nem influencia teve n’este trabalho, unicamente proposto por mim, e executado por ordem da regencia do reino, debaixo da inspecção do sobredito secretario da guerra.
9.º Quando no outono do mesmo anno de 1809, Lord Wellington veio a Lisboa, e principiou a fazer executar as fortificações das celebres linhas ou posições de defesa, lhe foi dado pelo governo portuguez um extracto em borrão da minha carta topographica, e a memoria descritiva que eu tinha redigido. Foi n’esta occasião, isto é, nas mãos de Lord Wellington, que o marechal Beresford me consta ter visto aquele meu trabalho. O capitão engenheiro João Carlos Tam, que se achava empregado ás ordens do quartel-mestre general do exercito inglez, me disse ter visto n’aquella repartição a dita minha memoria.
10.º A maior parte das posições fortificadas pelos engenheiros britannicos, foram do numero dáquellas indicadas na minha memoria. No anno de 1810, vários membros da regencia e o secretario da guerra, tiveram a franqueza de confessarem verbalmente, que as idéas do general em chefe, concordavam com aquellas, que eu havia enunciado a respeito das posições mais proprias para defeza da capital. Porém quando no fim do mesmo anno a experiência justificou as extraordinarias vantagens de tão feliz projecto, não constando no publico a precedencia honrosa, que eu havia tido em o propôr e indicar ao governo, fiquei excluído da parte de gloria que me competia, e que toda recahio sôbre o general em chefe, e sôbre os engenheiros britannicos a quem o publico vio executar o dito projecto.
11.º Quando em 1810 o nosso exercito chegou ás linhas, se apresentou no archivo militar o capitão Dickinson, com um officio do coronel Fletcher, datado de 26 de Outubro, em que autorisado por Lord Wellington, pedia a carta do terreno visinho a Lisboa. Foi-lhe entregue pelo major, hoje coronel Franzini, uma perfeita cópia da minha carta, a qual o dito capitão affirmou que daria mais satisfação ao general em chefe, do que recebesse naquella occasião um reforço de 4000 homens.
12.º No fim de 1811 instei para que uma cópia da minha carta e da memoria do reconhecimento fosse remetida a Vossa Magestade a fim de ser informado déste importante serviço. Porém estes papeis, foram pedidos com tanto empenho, para serem mandados ao ministro britannico, que foi preciso ceder-lhos, e se mandaram tirar novas cópias para serem remetidos a Vossa Magestade.
13.º Quando finalmente, em 1812, algumas das referidas cópias chegaram á presença de Vossa Magestade, o secretario d’esdado, conde Galvêas, comunicou ao governo d’este reino as ordens determinantes de Vossa Magestade para que eu fosse recompensado. Mas o ministério de Lisboa julgou necessario ouvir a este respeito e consultar a Lord Wellington, que em toda a Europa se considerava como único autor d’aquelle feliz projecto. O resultado pois de tão intempestiva consulta, foi uma contestação ministerial, por effeito da qual eu fui insinuado para que esperasse occasião mais opportuna, para requerer as recompensas de Vossa Magestade, isto é fui abandonado ao esquecimento, e foi sacrificada gloria da nação portugueza, e dos meus camaradas, á tímida dependencia e extrema contemplção para com os estrangeiros.
14.º No fim de 1816, cançado de esperar, e abatido de saude e do espirito, pelo desgosto da injustiça que experimentava, resolvi dirigir pela primeira vez a Vossa Magestade um requerimento, em que expunha as razões, pelas quaes me julgava digno de participar das mercês com que Vossa Magestade recompensava os portugueses benemeritos....
... Se tão honrosas circumstancias se reconhecem verdadeiras, ellas serão sufficientes para me fazerem crédor da benevolencia de Vossa Magestade e de toda a nação portugueza; e se forem falsas, submetto-me a ser castigado como impostor...etc.[13]
 
Correndo o risco de este trabalho ser quase uma autobiografia de José Maria das Neves Costa, não podemos deixar de expressar o que ia na alma do insigne militar, do prodigioso engenheiro, topógrafo e cartógrafo e, sobretudo, do verdadeiro patriota. Depois de consultarmos o seu processo no Arquivo Histórico Militar e de lermos, em letra redonda escrita pelas suas mãos o que acima acabámos de escrever não podemos, também, deixar de nos sentir tristes, por tão valiosos trabalhos não terem sido reconhecidos na altura própria. Talvez não seja demasiado tarde para uma grande homenagem nacional, ao homem e ao povo que ergueu as Linhas de Torres, lembrando também os estrangeiros que estiveram ao serviço de Portugal.
 
Já tomámos conta dos trabalhos topográficos e cartográficos do Major Neves da Costa em prol do estudo do terreno, falta-nos mencionar a memória sobre o dito terreno, cujo original e algumas cópias tivemos oportunidade de ler e de tocar, o que nos sensibilizou. Por ser algo extensa, apenas nos vamos referir a uma nota geral, manuscrita, que também encontrámos no processo:
Temos feito conhecer em algumas das nottas que addicionamos á copia do original desta memoria, que mui injustamente e sem fundamento se tem pretendido desacreditar e desmerecer a dita memoria, allegando que ella induzia a erro por indicar posições que em 1810 os Engenheiros Britanicos julgavam conveniente não defender, isto é, por que segundo o tempo e meios de execução de que podiam dispôr, não poderam justificar; o seguinte quadro fará conhecer que a pezar daquelle suposto erro os Engenheiros Britannicos não podem roubar-me a gloria que só a falta de justiça tem podido escurecer; gloria que eu os havia prevenido, perante o Governo de S. A. Real neste Reino, na indicação das posições defensivas donde se podia esperar mui razoavelmente a defensa da Capital, gloria que me provem de haver proposto e executado por um methodo particular e rapido, o trabalho da Carta militar única que existia, e lhes foi fornecida pelo dito Governo, assim como a presente memoria, muito antes de Lord Wellington fazer conhecer no publico o seu modo de pensar, e os seus projectos relativos á defesa do dito terreno. - Examinemos pois quaes foram as posições escolhidas e fortificadas pelos engenheiros Britanicos, e reconheceremos melhor de que modo desdenhando da minha memoria elles adoptaram os pertencidos erros que ella continha.”[14]
 
 

Posições que formam a 1.ª linha de defeza em 1810

Planicie que borda o Tejo, junto e áquem da villa d’Alhandra: Tinha sido indicada na minha memoria do reconhecimento militar.
Alturas da Subserra: Idem
Valle e alturas da Calhandriz: Idem
Alturas da Do Marão e matto da Cruz: Indicada na memoria
Casal da Portella: Idem.
Alturas a S-º d’Arruda, ou desde o Bolhaco até ao valle da Caneira: Idem.
Serro de Montagraço: Idem.
Alturas da matta da Guerra, aonde se comprehendem as da Patameira, e Furadouro: Idem.
Alturas de Figueiredo e Urgeiriça: Idem.
Altos da Urdasqueira: Mencionados na memoria, mas como inconvenientes para boa defeza.
Cabeços da Forca, de S. Vicente, e do antigo castello de Torres-Vedras: Indicados na memoria como uteis, mas de fraca defeza.
Alturas do Varatojo, e do valle das Adêgas: Indicadas na memoria.
Altos da margem esquerda do valle do Sizandro, desde a Ponte de Rol, até ao mar: Não foram inculcadas na memoria, por não serem posições fortes pela natureza.
 

Posições da 2.ª linha

Planicie que borda o Tejo aquém de Alverca: Indicada na memoria.
Alturas entre Alverca, e o valle de Vialonga: Idem.
Abas do Serro de Servos, junto à Verdelha: Idem.
Serra dos Servos: Idem.
Furadouro do rio Francão áquem de Bucellas: Idem.
Cabeço de Atroque, ou da valla das Ceiras, além de Bucellas: Idem.
Serro de Fanhões, Ribas, e Montachique: Idem
Altos entre Montachique e a Venda dos Pinheiros: Idem.
Alturas da Malveira: Idem.
Alturas da tapada de Mafra e Morugeira: Idem.
Alturas de Chipre ou do Gradil: Idem.
Alturas da margem esquerda do valle da Picanceira, desde a Morugeira até ao mar: Idem.
 

Posições avulsas fortificadas na rectaguarda da 2.ª linha

Alto da Enxara dos Cavalleiros: Não foi indicado na minha memoria.
Alturas de Sacavem: Indicadas na memoria.
Alturas da Carvoeira na foz do rio de Chileiros: Idem.”[15]
 
 
Voltando ao manuscrito que referimos na nota 13, o autor refere o seguinte: “NB. - Não faremos menção das fortificações construidas junto a Oeiras, pois não tinham por objecto a defeza de Lisboa.”
 
Talvez resida aqui a principal diferença dos dois planos. José Maria Neves da Costa concebeu estudos e trabalhos primeiramente para a defesa da capital, enquanto Wellington, no seu plano para a defesa de Portugal colocava “em primeiro lugar, a construção de fortificações destinadas a proteger o local de embarque; e, em segundo lugar, um número de fortificações de campo para bloquear as quatro principais passagens através dos montes a Norte de Lisboa.” [16]
 
Escreve também Wellington:
É difícil, se não impossível, levar combate pela capital até às últimas consequências e, depois, embarcar o exército britânico”.[17]
 
Agindo e pensando desta maneira cada um destes homens estava a cumprir os mais elevados interesses das suas pátrias. Um mais preocupado com a defesa do território português e o outro com a preocupação de salvar vidas inglesas, no caso da defesa correr mal. Foram estes dois pensamentos que concorreram para a realização das inexpugnáveis Linhas de Torres.
 
Vejamos mais um pequeno texto que nos ajuda a perceber o papel que teve o engenheiro português nesta obra: “Visto ele ter lido o relatório de Vincent, o engenheiro de Junot durante a ocupação francesa, para além dos relatórios de um oficial português, Neves Costa, tem-se afirmado que a inspiração veio deles, em vez do próprio Wellington”[18]. “Por outro lado, ninguém melhor do que o vencedor do Vimeiro, sabia das potencialidades daquelas passagens e nem Vincent nem Neves Costa tinham previsto a vasta série de obras em que o plano original,(...) viria a ser posteriormente expandido, à medida que a ameaça de invasão ia sendo adiada da Primavera para o Verão e do Verão para o início do Outono[19]
 
Depois da 2.ª Invasão e da expulsão dos invasores, lembrou-se Wellington das poderosas linhas de alturas que se erguem na região e ordenou a construção das Linhas.
 

A Construção das Linhas

Depois de ler a “Memória Militar, respectiva ao terreno ao Norte de Lisboa por José Maria das Neves Costa, Major do Real Corpo de Engenheiros”, e de fazer os reconhecimentos do terreno, no dia 20 de Outubro de 1809, Wellington enviou o Memorando ao Tenente-coronel Fletcher[20] ordenando-lhe a construção das Linhas.
 
Lisboa, 20 de Outubro de 1809
Tendo em conta o estado em que, actualmente, se encontram os exércitos, aliado e francês, na Península, não parece provável que o inimigo tenha poder para atacar Portugal. Ele terá de esperar pelos seus reforços; e como a sua chegada parece ser previsível, resta considerar que plano de defesa deverá ser adoptado para este país.
 
O grande objectivo em Portugal é o domínio de Lisboa e do Tejo, e todas as medidas devem ser dirigidas para este objectivo. Existe um outro, relacionado com aquele primeiro objectivo, para o qual deveremos, prestar atenção, a saber: o embarque das tropas britânicas, em caso de revês.
Qualquer que seja a época do ano em que o inimigo possa entrar em Portugal, ele fará o seu ataque, provavelmente, por duas linhas distintas, uma a Norte e outra a Sul do Tejo; e o sistema de defesa a adoptar terá de levar em conta este facto.
(...)
 
O objectivo dos aliados deverá ser o de, tanto quanto possível, obrigar o inimigo a atacar com as suas forças concentradas. Deverão permanecer em todas as posições que o terreno possibilite durante o tempo necessário à evacuação da população local das vilas e aldeias, levando consigo, ou destruindo, todos os meios de subsistência e de transportes desnecessários ao exército aliado, tendo cada corpo o cuidado de manter as suas comunicações com os outros e a sua distância relativa do local de reagrupamento.
(...)
 
De forma a impedir o inimigo de contornar, pela sua esquerda, as posições que os aliados poderão tomar para a defesa da principal estrada para Lisboa, junto ao Tejo, Torres Vedras deverá ser ocupada por um corpo de 5000
homens; o monte da retaguarda do Sobral de Monte Agraço, por 4000 homens, e Arruda por 2000 homens.
(...)
 
No caso do inimigo conseguir forçar os corpos do exército estacionados em Torres Vedras, no Sobral de Monte Agraço, ou na Arruda: no primeiro caso, terá de retirar-se, gradualmente, para o Cabeço de Montachique, ocupando todos os pontos defensáveis ao longo da estrada, a seguir ao alto da ajuda; no terceiro caso, terá de rettirar-se para Alhandra, disputando a estrada, partcularmente num local cerca de 5 Km à frente dessa vila.
(...)
 
Para fortalecer estas várias posições, é necessário construir imediatamente diversas estruturas, e planear e preparar a construção de outras.
 
Para tal, solicito ao Sr. Coronel Fletcher, que com toda a brevidade, reveja estas outras posições.
 
1.º - Ele examinará, em particular, as consequências de represar a foz do rio Castanheira; até que ponto a represa tornará esse rio numa barreira, e até que altura ele encherá.
 
2.º - Ele calculará a mão-de-obra necessária para essa obra e o tempo que levará a costruir,...
(...)
 
6.º - Ele criará um posto entrincheirado em Torres Vedras, para 5000 homens. Examinará a estrada de Torres Vedras para o Cabeço de Montachique....
 
7.º - Ele examinará a posição no Cabeço de Montachique e decidirá sobre a sua linha de defesa e sobre as obras de construção necessárias à sua defesa, a ser feita por um corpo de 5000 homens, para as quais calculará a linha e a mão de obra.
8.º - Ele criará uma posição entricheirada para 4000 homens, nas duas alturas que dominam a estrada do Monte Agraço para Bucelas.
9.º - Ele criará uma posição entricheirada para 4000 homens, no Alto da Ajuda entre o Sobral e Bucelas, para cobrir a retirada do corpo do Sobral; para Bucelas; e fará o calculo dos meios e do tempo necessários à destruição da estrada, nesse ponto.
(...)
12.º - Ele calculará a mão-de-obra e o tempo necessários para entricheirar uma posição, que ele determinará, para que 2000 homens possam defender a estrada que vai de Arruda para Vila Franca e Alhandra, e decidirá em que local a estrada de Arruda para Alhandra pode ser destruída, com maior vantagem.
(...)
 
15.º - Ele determinará os locais e calculará o tempo e a mão-de-obra necessários à construção de redutos no monte à direita de Alhandra, de modo a evitar a passagem do inimigo pela estrada; e à esquerda, para evitar, pelo seu fogo, a ocupação dos montes na direcção de Alverca.
(...)
 
18.º - Ele seleccionará os locais onde possam ser colocados postos de sinalização nos montes, de modo a poderem comunicar de uma posição para a outra.
(...)
 
Wellington” [21]
 
Estavam dadas as ordens para a realização das obras necessárias para fazer face ao plano do grande General Wellington. A concretização do projecto apenas sofreu pequenas alterações.
 
“Wellington, após realizar uma avaliação geral das posições, em Outubro de 1809, e outra em Fevereiro de 1810, deixou todo o resto ao seu subordinado.[22]
 
As Linhas de Torres Vedras[23] estavam prontas a receber os invasores e consistia essencialmente em três linhas:
- A primeira estendia-se desde Alhandra, junto ao Tejo, até à foz do rio Sizandro, na costa marítima, numa extensão de 46 Km.
- A segunda, situada entre 9 a 16 Km à retaguarda da primeira, estendia-se desde Quintela, junto ao Tejo, até à foz do rio São Lourenço, a norte de Ribamar, numa extensão de 38km.
- A terceira, projectada para cobrir um eventual embarque forçado, estendia-se desde Paço d’Arcos, junto ao Tejo, até à torre da Junqueira, na costa. Aqui, uma linha exterior, construída num raio de cerca de 3 km, incluía um campo entrincheirado, concebido para cobrir o embarque com o menor número de tropas. O Forte de São Julião, cujos altos parapeitos e profundos fossos desafiavam uma escalada, estava armado e guarnecido, de modo a permitir que uma guarda de retaguarda resistisse a qualquer força.
A parte mais próxima entre a Primeira e a Segunda Linha era de, aproximadamente, 38 km.
As principais fortificações foram, por indicação de Welington, o Forte de S. Julião[24], na Terceira Linha de Defesa, o Forte de S. Vicente, em Torres Vedras, com compacidade para entrincheirar 5.000 homens e o Forte de Sobral de Monte Agraço, com capacidade para 4.000 homens, estes últimos na Primeira Linha de Defesa.
 
Uma obra feita em segredo: “Se houve algo tão secreto e executado sem qualquer alarido, foram efectivamente as Linhas de Lisboa; mas porque as primeiras obras começaram a ser construídas em Torres Vedras, elas ficaram a ser popularmente conhecidas pelas Linhas de Torres Vedras e esta designação, embora inadequada, permaneceu até aos nossos dias”.[25]
 
Uma obra feita essencialmente por mão-de-obra portuguesa sob orientação inglesa: “O pessoal de engenharia empregado na obra totalizava somente 18 homens; a mão-de-obra era fornecida pelos regimentos de milicianos de Lisboa, que recebiam mais quatro dinheiros diários extra pelos seus serviços; pela contratação de camponeses, cujos efectivos se situavam entre os 5000 e os 7000, pagos a um xelim diário; e mais tarde, pelo recrutamento obrigatório dos habitantes da província, numa área de 64 km em redor. Os trabalhadores rurais trabalhavam em grupos de 1000 a 1500 homens, cada um a cargo de um oficial engenheiro, e sob a direcção de um total de 150 capatazes, entre furriéis e sargentos. O custo da obra orçou em cerca de 100.000 libras e, por esta módica quantia construíram-se 80 Km de fortificações, incluindo 150 fortes, guarnecidos com 600 peças de artilharia[26].
 

A guarnição dos Fortes e a vitória dos Aliados

O número total de tropas regulares - o exército de campanha - para além das guarnições, era de 34.059 britânicos, 24.539 portugueses e 8.000 espanhóis. Eles estavam agrupados em dois compactos conjuntos; um defronte do Sobral e outro por detrás de Alhandra[27].
 
Na sua maior parte, os redutos eram pequenos, construídos para albergar 3 a 6 peças de artilharia[28] e guarnições que variavam entre 200 e 300 homens. Mas até os mais pequenos eram excelentes, do ponto de vista da sua estrutura: a trincheira normal tinha cerca de 5 m de largura e 3,5 m de profundidade, a muralha tinha entre 2,5 m e 4 m de espessura, e todos estavam devidamente guarnecidos com banquetas. Todos eram circundados por uma paliçada[29].
 
O sistema defensivo de Wellington era invulgar, na medida em que nem um só homem do seu exército de campanha - as suas tropas regulares britânicas e portuguesas - estava destinado a lutar por detrás da protecção destas fortificações. Elas tinham sido construídas de forma a serem guarnecidas por tropas auxiliares, para retardarem os franceses e permitirem Wellington concentrar-se contra qualquer investida...[30]
 
As linhas estavam prontas para deter o exército invasor, comandado por Massena e que ali chegou no dia 14 de Outubro de 1810, surpreendido com o que via e perante as desculpas de um oficial de Estado Maior, por não lhe ter apresentado um relatório sobre aquela linha de defesa imponente, e que Wellington as tinha feito, terá dito “Que diabo, Wellington não construiu estas montanhas[31].
 
Massena ainda investiu com a sua tropa contra um reduto do Sobral, tendo sido repelido.
O combate decisivo da guerra em Portugal foi, também o mais curto e o menos sangrento[32]. No dia 14 de Outubro, uma peça de artilharia montada no reduto 120 disparou uma única salva para avisar Massena a não se aproximar demasiado no seu reconhecimento das Linhas de Torres Vedras. O marechal tirou o seu chapéu em reconhecimento e retirou-se para fora do alcance do canhão...[33].
 
Na manhã de 15 de Novembro, o posto avançado britânico notou que as horrendas sentinelas das suas Linhas se tinham tornado estranhamente hirtas; uma verificação mais de perto mostrou que eram feitas de palha. Os franceses tinham retirado durante a noite, a coberto do nevoeiro. Durante os quatro dias seguintes, os aliados seguiram-mos em direcção ao Norte, ao longo do Tejo[34].
 
A retirada que se iniciou no Sobral na noite de 14 de Novembro de 1810, terminaria em Toulouse, a 11 de Abril de 1814. Os exércitos do Imperador não voltariam a conseguir repetir a experiência de 1810 e reencetar uma ofensiva geral e vigorosa contra Wellington e Portugal[35].
José Maria das Neves Costa contribuiu assim de forma engenhosa para o projecto da construção das Linhas, pois conhecia o real valor militar daquele terreno.
 
 

Conclusão

José Maria das Neves Costa sabia que os seus estudos e trabalhos cartográficos e topográficos, acerca dos terrenos ao Norte de Lisboa, um dia iriam ser precisos e preciosos, só não sabia quando e quem os utilizaria tão magistral e heroicamente. Talvez já calculasse o sucesso do projecto que ali se viesse a realizar. A sua veemente insistência é pelo menos um indício das nossas afirmações.
 
Poucos meses separam o seu precioso trabalho e o início da sua aplicação prática, como se algo sobrenatural estivesse a coordenar estas actividades, a Carta Militar do Terreno ao Norte de Lisboa é concluída em Fevereiro de 1809, a Memória Militar, respectiva, é ultimada em Maio do mesmo ano e Wellington enviou o Memorando ao Tenente-coronel Fletcher ordenando-lhe a construção das Linhas no dia 20 de Outubro de 1809.
 
Perfeito! Não admira que Paulo Alexandre Loução tenha intitulado um dos seus livros: “Portugal: Terra de Mistérios”.
 
Wellington não reconheceu a sua obra, na devida altura, mas ela foi, com certeza, um contributo que o fez ganhar, pelo menos, tempo para a concretização do seu plano.
 
Outras actividades importantes concorreram para o sucesso da empresa, os trabalhos do Coronel Fletcher e da sua equipa, os trabalhos dos portugueses que ergueram os fortes e os redutos, assim como o desempenho e a operacionalidade do Exército Aliado. Tudo contribuiu para a vitória dos Aliados sobre as tropas invasoras. Não esquecendo o esforço hercúleo de um povo que sacrificou vidas, colheitas, lares, e bens de toda a natureza. Portugal inteiro uniu-se, sacrificou-se e venceu sob a batuta de um grande General aliado: Duque de Wellington.
 
Na nossa opinião, José Maria das Neves Costa não realizou os trabalhos, supracitados, sob as ordens do general inglês, mas prestou um elevado serviço a Portugal, são os portugueses que lhe devem respeito e lhe devem prestar homenagem, se assim o entenderem. Na nossa modesta opinião muito merecida.
 
Os serviços que prestou à Pátria não foram devidamente reconhecidos em vida. Como topógrafo foi ímpar, na sua época, e os seus trabalhos contribuíram indelevelmente para o levantamento das notáveis Linhas de Defesa de Lisboa, cuja autoria os ingleses se adjudicaram, e tão grande fama tem dado ao Duque de Wellington. O seu a seu dono! Os estudos do terreno deve-os a História, em grande parte, ao insigne Engenheiro Militar Brigadeiro José Maria das Neves Costa! Se a vida lhe foi ingrata, que a memória lhe seja justa. E a justiça já está a ser feita, como Topógrafo e como Cartógrafo é Patrono do Instituto Geográfico do Exército (IGeoE), por despacho do General CEME[36] de 06 de Outubro de 2005. A sua apresentação pública, como tal, decorreu no passado dia 24 de Novembro, nas instalações do IGeoE, data em que se celebrou o 73.º aniversário desta prestigiada Instituição.
 
Como contribuinte incontornável no levantamento das Linhas de Torres Vedras merece uma homenagem digna desse nome aquando do bicentenário das Linhas de Torres, em 2010.
 
Não tem sido pacífica a reclamação da autoria desta obra gigantesca, para a época, incontornável para a História da Europa, mormente para Portugal, Inglaterra e França.
 
Ninguém faz uma obra desta natureza sozinho, pensamos por isso, que as Linhas de Torres em vez de dividirem as Nações da Guerra Peninsular, reivindicando cada uma delas a sua autoria, através dos seus heróis, devem assumir a sua quota-parte de glória, não menosprezando o trabalho e a contribuição daqueles que concorrem para o sucesso do trabalho final.
 
Por outro lado não pretendemos, de modo algum, tirar o mérito aos estrangeiros que serviram em Portugal, mas também não podemos deixar de dar o valor aos nossos, porque todos os povos têm os seus heróis! A sua lembrança contribui para elevar a auto estima colectiva e esbater as dúvidas quanto às nossas capacidades.
 
Partilhamos da opinião do Coronel Pereira Taveira que reparte assim a glória das Linhas de Torres do seguinte modo:[37]
- “a DESCOBERTA da importância militar do terreno em que foram construídas as linhas deve-se ao engenheiro francês Vincent;
- o RECONHECIMENTO CIRCUNSTANCIADO do mesmo terreno, completando o trabalho daquele engenheiro é a parte que compete a Neves Costa;
- a ESCOLHA DAS POSIÇÕES A FORTIFICAR, constituindo um vasto campo entricheirado para servir de base ao grandioso plano de defesa concebido por Wellington, pertence indubitavelmente a este general;
- a DIRECÇÃO DAS OBRAS de fortificação sobre as posições determinadas por Wellington compete ao engenheiro inglês Fletcher e aos engenheiros ingleses e portugueses sob as suas ordens.”
Nós acrescentamos, ainda, que a REALIZAÇÃO coube ao povo português, fruto de muitos sacrifícios e muitas vontades que se juntaram, daí podermos dizer:
“UMA OBRA DE SUOR E PEDRAS, CONHECIDA POR LINHAS DE TORRES VEDRAS”.
 
Como corolário do nosso trabalho, não podemos deixar de assinalar e de nos regozijar com o que John Grehan refere no seu livro “The Lines of Torres Vedras”[38], concordando connosco quanto aos trabalhos de José Maria das Neves Costa. Entendemo-lo como um reconhecimento estrangeiro. Se fosse vivo, Neves Costa ficaria bastante contente. Este é mais um grande sinal, do que os portugueses deverão fazer pelas Linhas de Torres Vedras, recuperar fortes e caminhos, e contar ao Mundo o que se passou ali, em honra e memória daquele grande patriota e, também, de todos os milhares de portugueses que as ergueram. Esta é a primeira medida que propomos. Comecemos a mexer nas pedras dos fortes, para que a comemoração dos 200 anos das Linhas seja uma evocação condigna, com capacidade para se dilatar no tempo e no espaço. O momento histórico é propício para, mais uma vez, elevar bem alto o nome de Portugal e dos feitos dos Portugueses!
 
 

Fontes e Bibliografia

Fontes Manuscritas
Arquivo Histórico Militar
Processo Individual de José Maria das Neves Costa.
 
Fontes Computorizadas
Atlas Histórico: Revoluções e Transformações da Idade Moderna. (s.l.): Diário de Notícias, 2002. Ref.: MG-41205. CD ROM 7.
Bibliografia de Apoio
BARBOSA, Eduardo - História Militar: Foi um português quem concebeu as Linhas de Torres, Jornal a VOZ de 08/11/1947.
BERGARA, M. Moreira de, Linhas de Torres-Vedras. Revista Militar, 4, 1849 p201-211.
Boletim Informativo da D.A.E. - 14.º Ano, N.º 3, Jul/Ago/Set de 1989.
DIAS, Maria Helena - José Maria das Neves Costa, 1774-1841: Biografia sucinta e aspectos relevantes da sua actividade no campo da Cartografia Militar Portuguesa.
Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa, Rio de Janeiro, (s. d.).
GREHAN, John. - The Lines of Torres Vedras: The Cornerstone of Wellington’s Strategy in the Peninsular War 1809-12. 2.º ed. Staplehurst: Spellmount Limited, 2004. ISBN 1-86227-258-1.
NAPIER, W. F. P. - History of the War in the Peninsula and in the South of France: From the Year 1807 to the Year 1814, London: Frederick Warne And Co.
NORRIS, A. H., BREMNER R. W. - As Linhas de Torres Vedras: As Três Primeiras Linhas e as Fortificações ao Sul do Tejo. 4.ª ed. (1.ª ed. Portuguesa). Torres Vedras: Câmara Municipal de Torres Vedras, Museu Municipal Leonel Trindade, 2001. ISBN 972-98652-2-1.
PALMEIRIM, A. X.‑ Inéditos Militares Portuguezes. Revista Militar.
SOUSA, Gonçalo de V. e - Metodologia da Investigação: Redacção e Apresentação de Trabalhos Científicos. 2.ª ed. Porto: Livraria Civilização Editora, 2003.
 
 
 
 
APÊNDICE I
 
Carta Militar oferecida ao Marechal Beresford por José Maria das Neves Costa, Major do Real Corpo de Engenharia - 1811
 

 
Fig. 2 - Mappa das Linhas de Torres Vedras e sua ligação com Lisboa...,
Gravura anónima, Lisboa: Lithographia da Imprensa Nacional, [s. d.].
 
 

 

 

Fig. 3 - Oficial Engenheiro - 1806 -
Edição da Revista DEFESA NACIONAL.
Lit. de Portugal - LISBOA
 

* Coronel de Infantaria. Director do Jornal do Exército. Sócio Efectivo da Revista Militar.
 
[1] Trabalho realizado no âmbito do Mestrado em História Militar, uma parceria da Academia Militar (AM) com a Universidade dos Açores, e que viria a ser adaptado e incorporado na Tese de Mestrado intitulada “As Invasões Francesas e as Linhas de Torres: Defesa de um Património, defendida a 29 de Fevereiro de 2009.
[2]  Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa, Rio de Janeiro, (s. d.). Vol. 6, p. 51.
[3]  Comandante do Corpo de Exército que lutou contra os espanhóis e franceses em 1797.
[4]  Decreto de 30 de Março de 1801.
[5]  In PALMEIRIM, A. X. - Inéditos Militares Portuguezes. Revista Militar, 1, 1849 p. 39.
[6]  Ibidem. p. 43.
[7]  Extraído, com adaptações, de Atlas Histórico: Revoluções e Transformações da Idade Moderna. (s.l.): Diário de Notícias, 2002. Ref.: MG-41205. CD ROM 7.
[8]  Tiros simultâneos de espingardas.
[9]  Historiador.
[10]  In DIAS, Maria Helena - José Maria das Neves Costa, 1774-1841: Biografia sucinta e aspectos relevantes da sua actividade no campo da Cartografia Militar Portuguesa.
[11]  Idem.
[12]  In BARBOSA, Eduardo - História Militar: Foi um português quem concebeu as Linhas de Torres, Jornal a VOZ de 08/11/1947.
[13]  In BERGARA, M. Moreira de, Linhas de Torres-Vedras. Revista Militar, 4, 1849, p201-211.
[14]  In Processo Individual de José Maria das Neves Costa, manuscrito original, que se encontra junto à memória, datado de 1814, no Arquivo Histórico Militar.
[15]  BERGARA, M. Moreira de, Linhas de Torres-Vedras. Revista Militar, 4, 1849 p209-211.
[16]  NORRIS, A. H., BREMNER R. W. - As Linhas de Torres Vedras: As três primeiras linhas e as fortificações ao Sul do Tejo. Torres Vedras: Câmara Municipal de Torres Vedras, Museu Municipal Leonel Trindade, 2001, p. 13.
[17]  Ten. Cor. Gurwood, The Dispatches of Field Marshal the Duque of Wellington During his Various Campaigns, John Muray, Ltd, 1834-1838.
[18]  O Major João de Paiva Faria Leite Brandão, nos seus Apontamentos Sobre as Linhas de Torres Vedras e a sua Ocupação, afirma: “Deve-se a Wellington a construção da Linhas, em parte em estudos previamente feitos.”
[19]  S. C. P. Ward, Wellington, B. T. Batsford, Ltd.
[20]  Commanding Royal Engineers.
[21]  In NORRIS, A. H., BREMNER R. W. - As Linhas de Torres Vedras: As Três Primeiras Linhas e as Fortificações ao Sul do Tejo. 4.ª ed. (1.ª ed. Portuguesa). Torres Vedras: Câmara Municipal de Torres Vedras, Museu Municipal Leonel Trindade, 2001. ISBN 972-98652-2-1.
[22]  Idem p. 34.
[23]  In NAPIER, W. F. P. - History of the War in the Peninsula and in the South of France: From the Year 1807 to the Year 1814, London: Frederick Warne And Co.(s.d.). Vol. 3, pág. 39-40.
[24]  Conhecido hoje por São Julião da Barra.
[25]  In NORRIS, A. H., BREMNER R. W, ob. cit., p. 17.
[26]  Ibidem, ob. cit. p.17.
[27]  Ibidem, ob. cit., p.21.
[28]  Canhões de calibre 12, fornecidos pelo governo português.
[29]  Ibidem, ob. cit., p. 21.
[30]  Ibidem, ob. cit., p. 21.
[31]  Incidente registado no diário do General Pamplona.
[32]  150 baixas dos aliados e um número mais elevado da parte do inimigo.
[33]  Ibidem, p. 26.
[34]  Ibidem, p. 27-28.
[35]  Ibidem, p. 28.
[36]  Chefe do Estado-Maior do Exército.
[37]  In Boletim Informativo da D.A.E. - 14.º Ano, N.º 3 Jul/Ago/Set de 1989.
[38]  GREHAN, John. - The Lines of Torres Vedras: The Cornerstone of Wellington’s Strategy in the Peninsular War 1809-12. 2.º ed. Staplehurst: Spellmount Limited, 2004. ISBN 1-86227-258-1. p. 34-35. “In October 1809 Wellington undertook a thorough reconnaissance of the countryside to the north of Lisbon. Accompanied by Colonel Fletcher his Commanding Engineer, and the Quartermaster-Generals of both British and Portuguese armies (and, of course, Neves Costa’ maps) Wellington examined the roads, rivers, peaks and passes of the Montachique and Montejunto hills. Immediately following his survey, on 20 October, Wellington issued a formal memorandum to Fletcher detailed his plans for the construction of two successive lines of trenches and redoutbts wich became knouwn as the Lines of Torres Vedras.”
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2010-05-31
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by CMG Armando Dias Correia