Nº 2505 - Outubro de 2010
Guerra Peninsular (1807-1814) - A Batalha de Arapilles ou de Salamanca (22 de Julho de 1812).
Tenente-general
José Lopes Alves
Última Operação Contra as Tropas Anglo-Lusas do Último Exército Francês de Portugal
 
 
I. Pórtico
 
Constitui verdade histórica que o descalabro do Império Napoleónico teve início em Janeiro de 1812 no seu limite oeste, a Península Ibérica, que durante oito anos tentou infrutiferamente dominar e controlar, prosseguindo depois na segunda metade do mesmo ano na Rússia dos Czares onde almejava estabelecer o seu limite leste e donde, decorridas apenas algumas semanas, foi obrigado a retirar.
 
É igualmente verdade que foi também na Península Ibérica, em Lisboa, em meados de Dezembro de 1807, que se deu a primeira reacção violenta contra as forças de ocupação francesas, à qual se seguiriam, então com amplo sucesso, em 2 de Maio, em Madrid e noutras cidades espanholas, bem como por todo o mês de Junho em Portugal, idênticas e então mais mortíferas reacções.
 
 
II. Introdução
 
A Batalha de Arapiles (Los Arapiles), pequena povoação situada em vale pronunciado que borda por norte o planalto do Monte de Azan e onde tem início a Ribeira de Pelagracia, afluente da margem esquerda do Rio Tormes, a 7,5 quilómetros a sul de Salamanca, foi o encontro bélico, embora já deslocado no tempo e no espaço, por que Napoleão Bonaparte tanto ansiava para bater o exército anglo-luso do duque de Wellington. Deslocado no tempo porque deveria ter ocorrido, conforme ele idealizara, três meses antes, em meados de Abril de 1812, e deslocado no espaço porque o seu local deveria ter sido mais a oeste, na região de Ciudad Rodrigo ou no interior do território português, culminando com o empenhamento e a derrota do general inglês na península Ibérica e a sucessiva retirada do País das tropas inglesas. A batalha saldar-se-ia, no entanto, por estrondoso desaire do último Exército Francês de Portugal, comandado pelo marechal Marmont, duque de Raguse, que substituíra o Marechal Massena no seu comando, constituiria a primeira vitória de Wellington na sua penetração em território espanhol e seria a última operação decidida e desencadeada pelo Marechal, após ter sido obrigado a abandonar território português no qual realizara a pouca expressiva quarta invasão.
 
 
 
 
Pela derrota aí sofrida pelo Exército Francês e pelas consequências que dela resultaram para o Império Napoleónico na península Ibérica, Arapiles, como afirma o coronel Michel Molières, conceituado historiador das campanhas napoleónicas na Península, seria para Marmont “o que a Batalha do Vimeiro fora para o general Junot, o que a luta no Porto fora para o Marechal Soult e o que as Batalhas do Bussaco e de Torres Vedras haviam sido para o marechal Massena”. Foi-se em Arapiles, definitivamente, como já o havia sido na região de Sabugal-Castelo Branco, a presença das tropas francesas em Portugal e fortaleceu-se a ideia, tarde compreendida por Bonaparte, de que “a Era da guerra realizada só com tropas estava terminada” e, como iria confirmar nos últimos meses do ano nas planuras da Rússia dos Czares, de que na Península “se abrira novo capítulo da luta, o da guerra total, com intervenção de tropas e populações.”
 
 
 
 
Ao tempo de Arapiles, já se haviam, no entanto, cristalizado há muito as deficiências dos exércitos franceses, nomeadamente para realizar eficazmente a guerra ofensiva que Napoleão determinara contra Portugal, como sejam:
- Incapacidade para reabastecer adequadamente as tropas de víveres, efectivos, fardamento, equipamento e cavalos a partir da França, uma vez que a exploração dos recursos locais lhe estava vedada na generalidade da Península por hostilidade das populações e pela acção das guerrilhas sobre as tropas e as vias de abastecimento;
- A animosidade e a indisciplina entre os seus generais, de que são exemplos o marechal Ney e o general Junot perante o marechal Massena, na 3ª invasão;
- Decisões do comando supremo, estado-maior imperial e Imperador, o Comando Supremo, sem terem em conta os reais problemas que envolviam as tropas;
- Conduta operacional por vezes indisciplinada e desregrada, de acordo com ideias dos comandantes no terreno;
- Subestimação do valor e possibilidades do adversário, nomeadamente no campo dos reabastecimentos e reforços de pessoal que assentavam no apoio permanente dos meios navais.
 
Refere ainda Michel Molières, como exemplo dos sacrifícios sofridos pelas tropas francesas durante os quatro anos efectivos da Guerra Peninsular e dos aspectos operacionais e logísticos citados, que o exército de Massena tinha teoricamente atribuídos um pouco mais de 60.000 homens para a sua invasão, a terceira, mas que este efectivo, na realidade, não ia além, de 45.000, tendo em conta feridos, doentes e destacados noutros corpos e que durante os seus dez meses de campanha sofreria 25.000 baixas, nas quais 2.000 mortos em combate, 8.000 prisioneiros e o resto, 15.000, “vítimas de doença e de fome”.
 
Marmont, que criticou duramente Massena, por vezes sem ter em conta as realidades da situação operacional e logística que defrontou, que ele próprio iria a seguir defrontar, fornece nas suas “Memórias” da luta na Península, os elementos seguintes de panorama geral que deverá aceitar-se verdadeiro para as quatro campanhas.
 
Escreveu, de facto, sobre o Marechal Massena e o seu teatro de operações:
- Sistema administrativo e logístico desorganizado;
- Deficiente ligação com a Administração Central, em Paris, dando origem a que decisões sobre problemas apresentados ao Estado-Maior Imperial ou ao próprio Imperador chegassem muitas vezes atrasadas, já quando esses problemas haviam sido mal ou bem ultrapassados;
- Recompletamentos e reabastecimentos escassos e demorados;
- Deficiente tratamento de feridos e doentes, muitos dos quais eram esquecidos nos centros hospitalares, sem retornarem às suas unidades ou então, depois de tratados, desviados para outros corpos.
 
Também sobre o estado-maior imperial e o Imperador, comentou:
- Decisões superiores sem atenderem á situação real, quer quanto à quantidade e à qualidade das tropas, quer quanto à capacidade estratégica e táctica dos corpos;
- Acção do Imperador quando em Paris mais no campo político do que no estratégico da condução da guerra, tornando-se “palaciano” e esquecendo que era o comandante supremo de todos os exércitos da França;
- Apesar da organização dos correios, a correspondência enviada para Paris e a sua resposta demoravam, em regra, seis semanas.
 
Sobre o que, para além destas críticas, o marechal Marmont “fez ou deixou de fazer” como comandante-chefe na península, a descrição, que faremos a seguir, do ambiente em que decorreu a Batalha de Arapiles e do comportamento das tropas dos dois contendores na luta, permite mais uma vez concluir as características particulares da sua capacidade como profissional militar e, paralelamente, as do seu antagonista, general Wellesley, que o seu Mestre, o Imperador, tanto se empenhava em ver derrotado.
 
É de acrescentar quanto ao não cumprimento da missão que os trouxe à Península atrás abordado que, dos quatro comandantes-chefes, seria Junot o que conseguiria melhor resultado ao levar o seu adversário a assinar a Convenção de Sintra, ainda que a projecção desta, ao conduzir à retirada das suas tropas do território com meios e valores e ao prosseguimento da ocupação inglesa que deveria ter combatido, não seria bem aceite, quer pelo governo inglês, quer por Bonaparte. E Junot, o mais próximo e mesmo o mais íntimo elemento do estado-maior do Imperador desde os tempos de Toulon, seria o primeiro a sofrer-lhe os efeitos visto, apesar da sua inteira devotação até 1813, o ano da sua morte, jamais ter obtido a dignidade de “marechal do Império” com que o Imperador lhe acenara quando lhe transmitiu a sua missão.
 
 
 
III. Preliminares da Batalha
 
Queda de Massena e Ascenção de Marmont
 
Como foi dito e é conhecido, esfumara-se desastrosamente em Fuentes de Onõro, Espanha, a seguir à fronteira das Beiras, em 5 de Maio de 1811, com uma derrota perante a pressão de Wellington, o empenhamento do Marechal Massena como comandante-chefe do Exército Francês que realizou no fim do verão de 1810 a terceira invasão de Portugal e que tivera por missão, como as duas invasões anteriores, em 1807/1808 e 1809, derrotar as tropas anglo-lusas e levar os ingleses a abandonar o seu território. Teve definitiva e preponderante influência nessa derrota o deficiente comportamento operacional do general conde de Loison, o célebre “maneta bem conhecido por todos os portugueses, que, após o Bussaco e Torres Vedras, por ser o general comandante de divisão mais antigo, substituíra, por indisciplina perante o comandante-chefe e por ordem deste, o marechal Ney no comando do 6º Corpo do seu Exército. Na realidade, permanecendo na primavera de 1811 na região das Beiras, tentando resistir à pressão de Wellington e tendo dado ordem aos corpos para descerem sobre o vale do Tejo e preparar-se para prosseguir sobre Lisboa, Ney, com o apoio de Junot, comandante do 2º corpo, recusou-se a cumprir a ordem e foi substituído. O recontro de Fuentes verificou-se logo a seguir durante a tentativa de Massena de socorrer a Praça de Almeida, também ameaçada pelos anglo-lusos.
 
A seguir à derrota, Massena não perdeu tempo. Desconcentrou as tropas, deixou atrás de si um exército anglo-luso eufórico pela situação, de posse das duas bases-depósito, Ciudad Rodrigo e Badajoz, que eram ao mesmo tempo entradas para prosseguir em território espanhol, arrastou o que restava dos seus desmantelados corpos para bases dispersas no vale do Tejo, a sul de Salamanca, parta sobreviver e aí iniciou de imediato, entre populações hostis e grupos de guerrilha, “em expectativa estratégica”, a sua possível recuperação e reorganização, esperando recursos e efectivos que só podiam com muita dificuldade, sabia-o, chegar-lhe de França.
 
Reacção do Imperador
 
Bonaparte, desagradado com o comando de Massena, que criticou duramente, vai insistir, no entanto, na sua ofensiva contra a Inglaterra em território português, obrigando as suas tropas a abandoná-lo. Nomeia por isso novo comandante-chefe para o Exército de Portugal em substituição do Marechal, dando ordens para que fosse reorganizado, dotado de meios e nele fosse criado o espírito de luta indispensável que, como já admitia entre a generalidade das tropas, sabia faltar-lhe. Escolhe para o efeito outro dos seus oficias generais dos primeiros tempos, o Marechal Auguste Fréderic Luois Viesse de Marmont, duque da Dalmácia (Croácia), região que acabara de comandar contra a presença turca e de que pedira transferência para outro comando pelo facto de a nomeação de novo governador para a região pelo Governo de Paris lhe diminuir as prerrogativas de comandante-chefe e se sentir, portanto, diminuído na sua importância.
 
E será este cidadão e militar, que ascendeu a marechal do Império em 1809 e que obtivera o seu título nobiliárquico pela acção operacional e administrativa que exercera em Raguse, “indo contra a opinião de outros oficiais generais que conheciam as suas qualidades e os seus defeitos, nomeadamente o seu Chefe de Estado-Maior Imperial, marechal Berthier”, que Bonaparte nomeou em 4 de Abril de 1811 para comandante-chefe do que seria o último Exército Francês de Portugal, em substituição do marechal Massena.
 
Na realidade, apesar de ser tido como o oficial general de mais lata cultura geral e profissional entre todos os generais que mais proximamente serviam o Imperador, eram-lhe apontadas características pessoais “de rapidez na construção de ideias estratégicas, mas tímido e hesitante na sua aplicação no campo de batalha, embora se batesse denodadamente logo que a luta fosse iniciada, ficando subitamente paralisado perante situações que exigiam decisão imediata. Apontavam-lhe, além disso, espírito vaidoso, orgulhoso e crítico, pouco cooperante com outros comandantes e não poucas vezes a atitude de atribuir a outros a culpa dos desaires sofridos e de se atribuir os resultados positivos por outros conseguidos”.
 
Empenhamento de Marmont antes de Arapiles
 
O marechal assume o seu comando-chefe do Exército, em Salamanca, em 12 de Maio de 1811, e procede de imediato, com a anuência do Imperador, à substituição de todos os seus oficiais generais e superiores, apenas mantendo o marechal Ney, que se havia indisciplinado perante Massena, mas atribuindo-lhe apenas o comando da Praça de Salamanca, sem funções operacionais, e um tenente-coronel Gerard que era um administrativo sabedor do quartel-general. Mesmo este oficial seria afastado para o destacamento de forças que guardavam a Praça no exterior quando opinou, contra a sua ideia, que o convento em que estava instalado o comando-chefe não tinha condições de segurança adequadas.
 
A intenção transmitida pelo Imperador visava: “impedir a entrada de forças anglo-lusas, dar-lhes batalha e obrigá-las a recolher a território português e, as primeiras, ao seu sucessivo abandono”. Esta missão seria a preliminar, visto ir sendo depois progressivamente modificada de acordo com as ideias do Imperador ditadas pela situação e capacidade que imaginava para as suas tropas e com o conhecimento que havia da evolução da estratégia de Wellington e da capacidade do seu potencial para a executar.
 
Na sua concepção para cumprir a missão, a que se dedicou logo que admitiu o Exército reorganizado e mais ou menos reabastecido, constatou de imediato que lhe cumpria em primeira necessidade “manter na sua posse as bases-depósito de Ciudad Rodrigo, a norte, e Badajoz, a sul”, situadas sobre as linhas de comunicação com a França, portas de entrada em território espanhol de que os anglo-lusos tentariam apoderar-se em primeira prioridade e indispensáveis ao seu próprio apoio para actuação em território português. Deste modo, nos dias e meses seguintes, desde Maio de 1811 a fins de Julho de 1812, a movimentação do adversário levou o marechal Marmont a empenhar as forças do Exército Francês de Portugal nas operações seguintes, nas quais foram patentes as características positivas e negativas da sua capacidade estratégica e táctica:
- Acção contra o cerco de Badajoz estabelecido pelas forças anglo-lusas entre 19 de Maio e 10 de Junho, obrigando Wellington a levantar o cerco e a recolher a território português. Marmont foi reforçado para o efeito com um destacamento do Exército do Sul, do marechal Soult, contando a sua força 48.000 homens, dos quais 5.000 cavaleiros e 80 bocas-de-fogo. O destacamento de reforço, no entanto, ser-lhe-ia retirado logo a seguir e foi com este pretexto que não realizou a exploração do sucesso, perseguindo Wellington, embora tivesse superioridade local de meios.
- Acção contra a tentativa de cerco de Ciudad Rodrigo por Wellington dois meses depois de do cerco de Badajoz, entre 10 e 20 de Julho, cujas divisões foram obrigadas também a levantar o cerco e a recolher a território português. Recebeu para o efeito o reforço de destacamento do Exército do Norte, então sob comando do general Dorsenne, dispondo no total de cerca de 58.000 homens. Indecisão perante as forças anglo-lusas, que admitia erroneamente, superiores às suas, e discordância com Dorsenne quanto ao comando da operação também desta vez o impediram de perseguir Wellington e de obter possível vitória.
- Acção contra Ciudad Rodrigo e invasão de Portugal, após Wellington, fortemente reforçado na segunda metade de 1811, ter ocupado a Praça em 17 de Janeiro de 1812 e o Imperador, depois de ter adiado a realização da sua intenção de nova invasão de Portugal, lhe ter comunicado em meados de Dezembro “estar-lhe efectivamente reservada a conquista de Portugal e a imortal glória de bater os ingleses” e lhe ordenar concretamente logo a seguir: “Preparar-se para conduzir ataque em Abril ou Maio a território português de modo a conseguir o refluxo do Exército Anglo-Luso de Ciudad Rodrigo, dar-lhe batalha e levá-lo a abandonar o País .”
 
Marmont, no entanto, decide não cumprir a missão. Julga, o que vai dar-se efectivamente em fins de Março e princípios de Abril que Wellington, já de posse de uma das entradas em território espanhol, vai empenhar-se agora na conquista da segunda, Badajoz. Ordena, em conformidade, que duas das suas divisões passem o Tejo para sul e vão reforçar as forças de defesa da Praça.
 
Reacção de Bonaparte e Invasão de Portugal
 
O Imperador, todavia, insiste no cumprimento da sua ordem, e o marechal, “à contre coeur”, manda recolher as duas unidades e cerca de 15.000 homens que tinha destacados noutros corpos e, de imediato, deixa a margem direita do Rio Tormes com três divisões desfalcadas, apenas 25.000 homens e, nos primeiros dias de Abril, marcha sobre Ciudad Rodrigo.
 
Cerca então a Praça e convida a guarnição a render-se, o que esta rejeita. Então, já com e Exército completo com as unidades que haviam estado destacadas, em vez de tentar o ataque segue com o Exército para a fronteira do Águeda, deixando dois corpos de observação na área da Praça e reforçando com outro a guarnição de Almeida, esperançado de que Wellington o perseguisse para evitar o corte da linha de comunicações com Portugal e lhe proporcionasse a batalha que o Imperador requeria e os efeitos subsequentes. Era a quarta invasão de Portugal.
 
Em 10 de Abril, efectivamente, entra no território por Alfaiates e Sabugal, destaca colunas volantes sobre Penamacor e desce para o Fundão. Sofre o ataque ao flanco direito de um corpo de 2.500 guerrilhas do general Silveira que desce da Guarda, ao qual causa numerosas baixas e faz 1.500 prisioneiros.
 
Entretanto, os anglo-lusos de Ciudad Rodrigo não se moveram. Então, com os comandos e tropas descrentes e com inúmeras deficiências, Marmont vê confirmado o fracasso, que previa, da invasão. Encaminha-se então para a área das nascentes do Rio Zêzere e a notícia de que estava a marchar ao seu encontro, saído das forças de Badajoz, um corpo de 30.000 homens comandados pelo general Hill, apressa-lhe a descida para Castelo Branco onde entra a 12. As suas tropas, famintas de tudo, cometem as maiores atrocidades sobre a população. Não se sentindo com forças capazes de derrotarem os anglo-lusos do general, Marmont apressa-se a retirar e a reentrar em território espanhol, indo ocupar as suas bases a sul de Salamanca onde, de novo  “em expectativa estratégica”, aguardando a movimentação de Wellington, reorganizará e reabastecerá tanto quanto possível as suas tropas.
 
A ideia de manobra subsequente do general inglês, que conhecia as deficiências das forças do Imperador, era por demais conhecida: “Uma vez na posse de Ciudad Rodrigo e Badajoz, progredir na direcção de Valência sobre o Mediterrâneo de modo a dividir o território peninsular em duas grandes regiões para mais facilmente realizar o seu controlo e conseguir a sua absorção.”
 
Irá viver-se, afinal, um combate de encontro de duas massas de tropas marchando em sentidos opostos com a finalidade cada qual de aniquilar a outra. Esse encontro dar-se-á em Arapiles e decorrerá conforme se descreve a seguir.
 
 
IV. A Batalha
 
Os Exércitos em Presença
 
Acompanhando o general Teixeira Botelho, os exércitos franceses na Península abrangiam em Janeiro de 1812, constituídos em corpos, divisões, brigadas, trens de artilharia, trens de engenharia e serviços, o dispositivo que se descrimina no quadro a seguir embora com pessoal mais cansado, menos apoiado e menos experiente do que o dos últimos meses do ano anterior, em especial generais, outros oficiais e graduados, em virtude de o Imperador ter começado, então, a retirar para França e a concentrar os efectivos destinados a constituir o Grande Exército de 678.000 homens que iria invadir a Rússia em 22 de Junho:
 
Eram esses exércitos e o seu dispositivo:
- Exército do Norte, sob comando de Dorsenne e, a seguir, Carapelli, que o substituiu, com 88.000 homens, que ocupava a Galiza, Navarra, Biscaia, parte das Asturia, Valladolid, Burgos e guardava a linha de comunicações do norte com a França;
- Exército da Catalunha, comandado por Macdonald, com 3.000 homens, com comando em localidade variável, como Zaragoza;
- Exército de Aragão, sob comando de Suchet, com 30.000 efectivos, ocupando Aragão, Nova Castela e Valência;
- Exército do Sul, sob comando de Soult, com 90.000 efectivos, instalado na Estremadura, Andaluzia e cerco de Cádiz e com comando em Sevilha;
- Exército de Portugal, comandado por Marmont, com 57.000 homens, comando em Salamanca e unidades dispersas ao longo do vale do Rio Tejo, em condições de acorrer a norte e a sul;
- Finalmente, Exército do Centro, comandado pelo próprio Rei Joseph Bonaparte, com 23.000 homens e sede de comando em Madrid, onde estava o monarca.
 
Estas forças totalizavam 350.000 efectivos os quais, contando com feridos e doentes, se reduziam a 290.000.
 
 
 
 
Opunham-se aos Exércitos Franceses quatro Exércitos Espanhóis:
- Exército da Galiza, com 3 divisões e 15.000 homens;
- Exército da Estremadura, com 2 divisões e 6.000;
- Exército de Múrcia, com 4 divisões e 14.000;
- Exército de Valência, com 4 divisões e 20.000.
 
Estes efectivos atingiam um total de 59.000 com alguns destacamentos (4.000 homens) resultantes do antigo Exército da Catalunha e estavam reforçados com grande número de unidades de guerrilha.
 
O Exército Anglo-Luso, sob comando de Wellington, abrangia cerca de 80.000 homens (número muito variável) e dispunha de largo apoio de milícias e de muitas unidades e grupos de guerrilha. Estava instalado ao longo de toda a fronteira com Espanha e formava duas bolsas de penetração em território espanhol, já consideradas, com centro em Ciudad Rodrigo, a norte e Badajoz, a sul.
 
Atitudes Ofensivas e Ideias de Manobra de Wellington e Marmont
 
Os dois comandantes-chefes em presença decidem prosseguir ofensivamente o seu empenhamento na Península. Wellington dispunha efectivamente de dois eixos para continuar para o seu interior:
- Ciudad Rodrigo - Salamanca, a norte,
- Badajoz - Mérida, a sul.
 
Opta pelo primeiro e vai penetrar com grande superioridade de efectivos visto o Exército Francês de Portugal se encontrar disperso entre as Astúrias e o vale do Tejo e requerer algum tempo para se concentrar.
 
O general inglês sabia por outro lado, o que era verdade, que as transferências de tropas francesas experientes para França, os desaires sofridos no território e o aumento das deserções por todo o Império, que os generais e as tropas descriam já acentuadamente do brilho da Águia Napoleónica e da viabilidade de Napoleão estabelecer domínio pacífico na Europa e no Mundo, não exibindo já, como o próprio Imperador viria reconhecer, o mesmo espírito de corpo cimentado nas ideias da revolução e da grandeza do Império e da França e que o seu antagonista no terreno, o marechal Marmont era um desses descrentes embora continuasse, adentro as suas características pessoais, fiel ao Mestre e a empenhar-se denodadamente.
 
Marmont dispôs-se também a passar à ofensiva logo que tem conhecimento da movimentação das tropas anglo-lusas, ou seja, “retomar o cumprimento da missão fixada pelo Imperador”, que não tinha realizado na sua última acção sobre Ciudad Rodrigo, primeiro, e depois durante a sua curta invasão do território português, e que era a de “dar batalha às forças de Wellington”, tomando as medidas adequadas.
 
Propunha-se efectivamente, do que dá conhecimento ao Rei Joseph:
- Primeiro, deter o inimigo no seu deslocamento para leste;
- Segundo, forçá-lo a adoptar manobra que o levasse a criar flancos sobre os quais pudesse actuar.
 
Iria movimentar-se, portanto, para oeste ao encontro do adversário até posição que lhe permitisse realizar as duas finalidades, desenvolvendo a manobra de modo a impedir que, vendo-se em situação desfavorável, Wellington possa retirar-se do combate e recolher a Ciudad Rodrigo, sua base de apoio. Recomenda, além disso, às suas divisões a maior disciplina no deslocamento para a acção, respeitando os intervalos estabelecidos, e atenção permanente às suas decisões.
Será no incumprimento destas determinações, como vai constatar-se, que se situará a sua derrota no combate.
 
Meios em Presença
 
A Infantaria era dominante nos dois exércitos que se opunham, constituindo-se em divisões, brigadas, regimentos e batalhões e tendo cada divisão 4.500 a 6.000 efectivos.
Wellington dispunha dos seguintes meios:
- 8 divisões anglo-lusas, uma das quais ligeira;
- 1 divisão espanhola;
- 2 brigadas portuguesas;
- 3 brigadas de dragões;
- 1 brigada de cavalaria ligeira;
- 25 canhões;
- 15 obuzes.
 
O número total de efectivos do adversário, segundo diz Marmont nas suas “Memórias”, era de 51.000.
 
Marmont dispunha para combater a penetração de:
- 9 divisões, estando 8 instaladas a coberto do Rio Douro e 1, a do general Bonnet, destacada nas Astúrias, que iria mandar regressar;
- brigadas de dragões e de cavalaria ligeira;
- 54 canhões de diversos calibres;
- 13 obuzes;
- reforços possíveis, mas não seguros, dos Exércitos do Norte (Cafarelli) e do Centro (Rei Joseph).
 
Não tinha conhecimento de disposições do Exército do Sul (Soult) para acorrer a norte e tomar parte na luta. O número de efectivos na realidade disponíveis era de 46.000 infantes e 3.600 cavaleiros, considerando na carta para o Rei Joseph em que o informava das suas intenções que havia paridade de efectivos dos dois lados. Nessa carta acrescentava, no entanto, que tinha sobre Wellington a “vantagem de comandar um Exército homogéneo no plano nacional, praticamente só com tropas francesas, alguns mercenários estrangeiros e portugueses”. Nada dizia, todavia, comentará o general Thiebault, sobre “a grande capacidade inventiva e manobradora, conhecida, do seu adversário”.
 
Movimento dos dois Exércitos
 
Efectivamente, no âmbito da sua estratégia de atingir o mais rapidamente possível Madrid e Valência, Wellington saiu da área de Ciudad Rodrigo cerca de 15 de Julho e encaminhou-se para leste. Marmont, alertado, fez passar as suas divisões para sul do Rio Douro em 17 em Tordesilhas para o deter ou actuar sobre o seu flanco. Não efectuou a passagem na ponte de Toro, mais a oeste, por recear haver já alguns destacamentos anglo-lusos na margem esquerda que lhe dificultassem a travessia Efectivamente, nesse dia 17, já algumas unidades avançadas de Wellington se encontravam estendidas, aquém de Salamanca, na área a sul de Tordesilhas e no vale do Rio Tormes, prosseguindo em marcha cuidada para leste.
Ao depararem com os primeiros efectivos de Marmont que procuravam manobrar no sentido de os deter e dar-lhes batalha, Wellington ordenou imediata retirada, mas vigilante, dos seus efectivos para oeste na direcção de Salamanca e Ciudad Rodrigo, na mira, diz o Marechal nas suas “Memórias”, como normalmente procediam, de “encontrar posição defensiva, como o Buçaco, que lhes permitisse deter e envolver depois a seu modo as tropas francesas. E verificou-se então a marcha escalonada dos dois exércitos para oeste, o Francês de Portugal, mais recuado, em perseguição do Anglo-Luso (algumas unidades), e na situação de, por vezes, se poderem observar a distância de tiro.
 
A posição, embora fraca, de Arapiles, sete quilómetros e meio a sul de Salamanca, seria, no seguimento do movimento encetado, onde os dois exércitos finalmente se deteriam. Compreendia, conforme a carta junta, um terreno planáltico plano, pouco arborizado, de cerca de 5.000 metros onde nascia a Ribeira de Pelagarcia, afluente do Rio Tormes, a qual, após rodear uma colina se encaminhava para norte. Esse planalto apresentava duas linhas de colinas sucessivas e linhas de água com tufos de vegetação e alguns caminhos que atravessavam o vale, destacando-se a norte a do cume rochoso “pequeno Arapile” e o “teso de San Miguel” e, a sul, o cume também rochoso do “grande Arapile e o Monte de Azan. Na baixa sobre a nascente da ribeira situava-se a pequena aldeia de Arapiles que viria a dar o nome à batalha. Nos dias ante-
riores e na madrugada do dia da Batalha chovera copiosamente sobre toda a área, embora não continuamente, “ensopando” o terreno, homens, cavalos, armamento e equipamento já instalado. Os cortes do terreno não facilitavam as manobras da artilharia e da cavalaria.
 
A região a sul do planalto estava coberta de sobreiros e azinheiras, destacando-se no centro a colina de El Serro em torno da qual iriam travar-se duros recontros.
 
 
 
 
Wellington, deslocando-se as suas forças mais a norte, foi o primeiro a chegar à área. Depois de observar o terreno cuidadosamente, fez instalar a sua guarda de retaguarda atrás do vale da ribeira de Pelagarcia e dispôs o grosso das tropas para oeste ao longo da linha de colinas de norte, incluindo a ocupação da aldeia de Arapiles. Para evitar surpresas vindas de norte, mandou instalar um pequeno destacamento de segurança, que logo a seguir retiraria, na margem direita do Rio Tormes sobre a estrada que conduzia a Salamanca.
 
Marmont, que vinha a deslocar-se mais a sul, iria deter-se na frente leste e sul do dispositivo anglo-luso com a ideia de o fixar frontalmente e de o envolver pela sua esquerda, escalonando em conformidade as suas divisões. O que iria verificar-se, no entanto, inicialmente, seria, afinal, o embate entre a retaguarda de Wellington e a guarda avançada do Marechal, ambas reforçadas, em torno da colina do Pequeno Arapile, ocupada pelos ingleses, que dominava no extremo leste o vale da ribeira.
 
Acções Preliminares
 
Existem muitos testemunhos, nem sempre coincidentes, da forma como os dois exércitos se bateram. É, no entanto, claro que Marmont, como escreveram os seus generais de divisão Clauzel e Foy, quis aproveitar os dois dispositivos para atacar o adversário numa parte da frente, estender-se ao mesmo tempo para oeste com as outras divisões, transbordá-lo e envolvê-lo a seguir pela sua direita. Wellington, que adivinhou a manobra do seu adversário em face do dispositivo realizado à chegada e da sua sucessiva movimentação, iria opor-se-lhe com resistência frontal sem espírito de recuo, tentativas de penetração pelos intervalos por ele eventualmente criados e, fazendo estender o seu flanco direito mais para oeste, evitar o transbordamento e cair sobre as unidades francesas que tinham por missão realizá-lo.
 
Logo ao romper do dia, as forças que se defrontavam no vale da Ribeira de Polegarcia e tinham ocupado posições para não serem surpreendidas, empenharam-se em recontros esporádicos. A luta mais acesa verificou-se em torno da capela de Nª Sª de la Peña, da qual os anglo-lusos continuaram possuidores, aguentando-se, todavia, os franceses na zona arborizada mais a norte, ao longo da colina e do vale. Pelo meio da manhã essa frente activa estabilizou, entregando-se o pessoal das unidades a proceder à limpeza dos materiais e equipamentos que haviam estado á chuva nas horas precedentes.
 
Conduta da Batalha
 
Ao fim da manhã, as divisões de Marmont começaram a chegar à região a sul do planalto e, conforme a ordem recebida, a divisão Bonnet foi ocupar a área do Grande Arapile com reforço de alguma artilharia, que teve, no entanto, de puxar a braço para vencer as dificuldades do terreno rochoso. As outras divisões, à medida que chegassem, seriam encaminhadas para oeste para as sucessivas colinas que se estendiam até Miranda de Azan. Assim se procedeu com as divisões Marcunne e Thomiers pouco antes das duas da tarde, cientes os dois comandantes, como aliás todos os que se seguiriam, de que a manobra gizada pelo comandante-chefe era delicada, complexa e que exigia a maior disciplina nos deslocamentos e a maior atenção aos intervalos entre elas criados.
 
Entretanto, pelas onze horas, compreendendo a manobra de Marmont e a importância que a colina do Grande Arapiles teria para o seu desenvolvimento - era a unidade que cobria a concentração e seria a chave do rosário divisionário a leste - Wellington ordenou o seu ataque pela divisão Leith. O ataque, no entanto, não se realizaria de imediato, em virtude de o general Beresford ter aconselhado o seu cancelamento por algum tempo dado que a divisão poderia ficar exposta às outras unidades de Marmont ainda em movimento para o planalto.
 
O general Leith interrompeu, de facto, a operação, apenas desviando algumas companhias ligeiras para ocupar Arapiles. Todavia, o apoio necessário ao projectado ataque e o seu cancelamento deram origem a movimentos entre as unidades de Wellington que se encontravam no centro e na retaguarda do seu dispositivo. Observando esses movimentos, que até algum pó que se levantava no terreno, então já mais seco, denunciava, Marmont voltou à sua congeminação de dias antes de que os anglo-lusos se preparavam para retirar sobre Ciudad Rodrigo e evitar o combate. Manda, em conformidade, acelerar o deslocamento das suas unidades para oeste para atacar o seu flanco direito em conjugação com esforços a exercer simultaneamente no centro e a leste e, pelas catorze horas, estava já a reforçar os seus elementos avançados da ala esquerda do Monte Azan.
 
Vai surgir, no entanto, de imediato para o Marechal, a primeira contrariedade que iria ter importância decisiva no desenvolvimento da sua manobra e na sucessiva derrota: no seu deslocamento para oeste, ao atingir a frente da povoação de Arapiles, a divisão Marcunne recebeu alguns tiros de elementos da divisão Leith que estavam a ocupar a povoação, deteve-se uns minutos para “espingardear” os inimigos e atrasou-se, criando um intervalo de cerca de um quilómetro e meio, entre ela e a divisão Thomiers que a precedia no movimento, deixando as duas divisões de poderem apoiar-se. Seguir-se-ia por último a divisão Clausel e em movimento mais largo, para o Pico de Miranda, alguns regimentos das divisões de cavalaria.
 
Refere um oficial que fazia parte da escolta do Marechal, tenente Parquin, a propósito do ambiente que por essa hora reinava em relação ao comandante-chefe:
“Verificava-se entre as tropas a maior confiança nele e os generais das divisões estavam entusiasmados por irem finalmente bater-se contra os ingleses. À chegada ao campo de batalha, fez uma proclamação anunciando que, pela primeira vez em dois anos o Exército Inglês, que esperava sempre as tropas francesas em posições formidáveis, acabara de mudar de atitude e descera finalmente à arena para combater. Seguidamente, acompanhado pelo Estado-Maior, subiu a pé a colina do Grande Arapiles e apontou a luneta para os adversários postados do outro lado, na povoação. Alguns criados que sempre o acompanhavam começaram então a servir-lhe um pequeno-almoço frio, bem como aos seus generais e ajudantes. Nesse momento, porém, caíram sobre a colina algumas granadas de artilharia que puseram termo ao aparato da refeição. Seguiu-se debandada pelas encostas abaixo. Porém, logo a seguir, ordenou ao general Foy que repusesse a situação anterior, tendo a posição sido reforçada com infantaria e artilharia de posição.”
 
 
 
 
O Exército sem Marmont
 
O marechal voltaria, no entanto, a subir à posição do Grande Arapiles para observar o comportamento das suas divisões, em especial o da divisão Thomiéres, agora a caminhar na vanguarda para oeste. Os ingleses, que devem ter observado a aglomeração de oficiais na posição, reabriram novamente fogo sobre ela cerca das dezasseis horas, ferindo-o gravemente no braço direito, tendo de ser evacuado. Foi chamado o general Clauzel, que lhe devia suceder no comando, mas já se encontrava também muito ferido. Então, o comando-chefe do Exército passou a ser exercido por outro general divisionário, o general Bonnet.
 
Este acidente contribuiu naturalmente para influenciar negativamente o comportamento futuro das tropas francesas que, uma vez conhecido, gerou grande confusão entre as divisões. E produziu-se, então, o inesperado: Wellington, que retomara a sua intenção ofensiva cerca das 15h00, vendo a extensão atingida pela linha dos franceses ao longo do Monte Azan e o descontrolo que entre elas se estabelecera, deu ordem às unidades da sua ala direita para se rebaterem sobre as do inimigo à sua frente e empurrá-las para sul e sudoeste, afectando duramente o primeiro escalão, avançado, de Marmont, substituído por Bonnet, e as suas reservas. Ao mesmo tempo, aproveitando o espaço criado entre as divisões Macunne e Thomiéres atacou de frente o seu dispositivo central, acorrendo a divisão Clausel a fechar a brecha, até então apenas defendida por um regimento de linha.
 
Pelas 17h30, vendo que o combate lhe era inteiramente favorável, Wellesley faz avançar a sua reserva, até então na Aldeia de Tejada, para dar o golpe final sobre os franceses, produzindo-se de facto o descalabro lento e sucessivo do Exército de Portugal, que retirou para sudoeste a coberto das também já muito castigadas divisões Sarrut e Ferey. Segundo o general inglês, foi a acção oportuna da divisão de Clinton, que desceu do Teso de San Miguel sobre Arapiles quando a luta estava já generalizada, que obteve o sucesso final das suas tropas.
 
A retirada das tropas francesas foi feita sobre o vale do Rio Tormes através do bosque de sobreiros e azinheiras que cobriam o terreno, sendo a ponte de Alba de Tormes o destino mais procurado. O general Claudel que, embora ferido, tomara o comando-chefe, conduziu a retirada de forma irrepreensível, ainda que as baixas sofridas pelo Exército de Portugal tivessem sido foram consideráveis: 12.500 homens fora de combate (14.000, diz Teixeira Botelho), entre os quais 7.000 mortos, e 12 canhões. Elementos de informação colhidos em arquivos ingleses dizem que o Exército Anglo-Luso teve 5.220 baixas - 694 mortos, 4.270 feridos e 256 desaparecidos. Destas baixas, 61% foram inglesas (3.176 oficiais e soldados) e 39% portuguesas (2.038 oficiais e soldados). Uma divisão espanhola que se associou à luta ao lado de Wellington teve apenas 6 baixas. Nas suas “Memórias”, o marechal Marmont aponta cerca de 6.000 baixas para as suas tropas e sensivelmente o mesmo número para os adversários, o que, como se verifica, fica muito aquém dos valores anteriores.
 
Está fora de dúvida que Wellington, inteligente e manobrador, teve por si o facto de conhecer melhor o terreno, que teve ocasião observar, pela menos uma vez, antes da luta, e de lhe terem sido favoráveis o comportamento deficiente e, num ou noutro caso, indisciplinado, das divisões francesas. O acaso dos ferimentos de Marmont e de Clausel, que deixou as suas tropas sem comandante-chefe capaz, foi também contributo muito importante para a sua vitória.
 
Marmont justificou a sua derrota pelo facto, verdadeiro, “de as suas divisões terem feito movimentos sem sua ordem e por ter ficado gravemente ferido e ter de abandonar o comando antes do confronto principal.”
 
Fim do Exército de Portugal
 
Marmont seria evacuado em condições muito difíceis para Baionne, em França, onde se fizeram todos os esforços para não lhe amputar o braço ferido, o que foi conseguido. Pelo que respeita ao último Exército Francês de Portugal, que ele comandou durante 14 meses, de Maio de 1811 a Julho de 1812, seria dissolvido e extinto logo a seguir a Arapiles no âmbito da reorganização dos exércitos franceses tornada indispensável pelas duras campanhas de 1813 e 1814 que o Imperador teve de enfrentar após o outro descalabro, de maior volume que o da Península, que foi a campanha da Rússia de 1812.
 
O marechal voltaria ao serviço meses depois com o braço entrapado, comandando corpos independentes ou integrados noutras grandes unidades, mas sempre com o comportamento decorrente das suas características pessoais, merecendo, portanto, elogios e críticas do Imperador.
 
Refere Bruno Colson que no mesmo dia em que estava a decorrer a batalha de Arapiles, Napoleão, então integrado na grande campanha da Rússia, em Gloubokoie, comentava com o general Gouvion de Saint-Cyr o que julgava dever ser o comportamento dos seus comandantes-chefes, opinando que o carácter dos generais era mais importante do que o seu espírito militar, comparando-os a um barco com as suas velas e o seu calado, aquelas quanto ao espírito e, este, quanto ao carácter. E concluía: “É preciso para bem navegar que o calado e a mastreação esteja na mesma proporção, equilibrados”. E falando concretamente do duque de Raguse, acrescentou: “Marmont, por exemplo, foi mandado para Espanha, para comandar o Exército de Portugal. Ele tem muito espírito, mas eu não conheço bem e desconfio do seu calado. Mas vou ter, sem dúvida, oportunidade de o conhecer dentro em pouco, porque nesta altura já foi abandonado à sua sorte.”
“O resultado negativo da Batalha de Arapiles seria, de facto”, conclui o historiador, “a resposta que faltava ao Imperador”. E o relatório de Marmont que dias depois recebeu de Paris mereceu-lhe o seguinte e lamentoso comentário: “O texto que Marmont me enviou sobre o prélio tem mais alavancas e rodas do que um relógio. Mas nada dele se pode colher que permita conhecer a realidade do que se passou.” No prosseguimento do comentário, Napoleão censurou ainda duramente Marmont por ter travado a batalha sem ordem do Comandante-Chefe da Península, o Rei Joseph, visto que, visando os Aliados continuar a penetração para leste, sobre o Mediterrâneo, estavam a inserir-se inteiramente no seu poder de decisão estratégica, havendo até lugar para o incriminar por insubordinação. E perguntava-se: “Porque não esperou pelo reforço de 15.000 a 17.000 homens que o Rei lhe enviara?... Queria a vitória só para si, para aumentar os louros pessoais?...”
 
Outras apreciações sobre Marmont e sobre a Batalha
 
Afirma o general Thiebault, já citado nestas notas, que “a Batalha de Arapiles não é menos criminosa do que infeliz” e refere o general Marbot, que foi comandante de divisão de Massena como comandante-chefe, que “A nomeação de Marmont fora um erro de Napoleão. Imaginava nele talento militar que a forma como conduzia as operações nunca justificaram. Substituto de Massena no comando do Exército de Portugal, anunciou que venceria Wellington mas deu-se o contrário.”
 
Escreve tmbém a propósito o mencionado tenente Parquin que, quer o Rei Joseph, quer o marechal Soult, ficaram desolados com a ambição de Marmont de ser ele apenas a intervir na Batalha. E Napoleão, quando retirava da Rússia, comentando os desastres também colhidos na Península Ibérica, falava ao General Caulaincourt das “faltas de meninos de escola que eram os seus lugares-tenentes merecedoras de palmatória e que Marmont, com superior capacidade de julgamento e de raciocínio quando dissertava sobre a guerra era mais do que mediano na sua execução.”
 
Sobre a questão do reforço de tropas para a batalha destacado pelo Rei, que o Imperador admitiu ter sido efectivado e que Marmont teria de receber e, com ou sem vontade, empenhar, o general Jomini pôs em dúvida sobre o se o marechal terá ou não recebido mensagem do monarca a anunciá-lo, em virtude de as guerrilhas que batiam permanentemente os itinerários a poderem ter interceptado. Nos seus comentários culpa a seguir o general Macunne da responsabilidade de ter criado condições para a derrota ao abrir intervalo no dispositivo e julga Marmont infeliz por ter de enfrentar um general como Wellington de “golpe de vista táctico, seguro e rápido”.
 
Louis Adolphe Tiers, político e historiador da Revolução e do Império, expressa idêntica opinião à de Jomini quanto ao eventual reforço de tropas vindas do Exército do Centro e salienta “a sorte do general inglês ao deparar com condições tão favoráveis para a sua manobra, entre as quais os graves ferimentos recebidos pelo comandante-chefe e pelo general que devia suceder-lhe. Culpa o Rei e o seu Estado-Maior pela derrota em virtude da marcha lenta desse reforço para Salamanca, onde só teria chegado a 21 de Julho, de informações tardias sobre a sua marcha e da impossibilidade de o marechal saber no dia seguinte, dia da Batalha, que a mensagem correspondente havia chegado. Acrescenta que, “ainda que sem grande expressão no conjunto das forças, o reforço teria pelo menos obrigado Wellington a rever a sua manobra e a abrir ao marechal, eventualmente, outras possibilidades.”
 
Apreciando a actuação geral de Marmont na Batalha, Thiers considera:
“Os soldados franceses do Exército de Portugal não estavam bem comandados por Marmont, Este Marechal, com espírito, instrução, bravura e talento para bem manter a tropa nas suas mãos, possuía algumas qualidades de comandante-chefe, mas não as tinha todas. Pensava afincadamente no que tinha de fazer, talvez demais, já que vale mais na acção a precisão de ideias do que a sua abundância. Esta, com efeito, sem ter atrás de si julgamento firme e pronto, confunde em lugar de esclarecer e, quanto a isto, o Marechal não era muito feliz.”
 
 
V. Notas Complementares
 
Os últimos combates de Marmont
 
Aproveitando os escassos trinta por cento de efectivos válidos que lhe restaram da Campanha da Rússia e os limitados reforços a seguir recebidos do território francês, Bonaparte reuniu sobre os rios Elba e Reno alguns corpos com deficiências, um dos quais, o 6º Corpo, entregue a Marmont. O Exército Francês era, então, inferior em qualidade e quantidade ao dos Aliados, nomeadamente em Cavalaria, o que o levou a alterar o sistema de combate “em linha” para o “de quadrado”, aliás já ensaiado, para se defender contra os ataques da Cavalaria inimiga - à “romana”, sem escudos mas com baionetas.
 
O Marechal, adentro das características de comportamento pessoal que lhe eram reconhecidas, toma, assim parte como comandante-chefe nas batalhas de Lutzen, em 2 de Maio de 1813, Bautzen, em 20 e 21, e Dresde (Boémia), contra os prussianos. Nesta última, que envolveu diversos recontros durante vários dias, Marmont revelou-se, ao contrário dos outros comandantes-chefes, comandante decidido e activo ainda que com deficiente apoio de outros Corpos.
 
Em Outubro seguinte, o Imperador idealizou uma concentração do Exército na área de Leipzig para, utilizando a sua estratégia e a sua táctica predilectas bater sucessivamente cada um dos corpos aliados que o cercassem. Marmont encontraria então oportunidade de lhe referir o esquecimento e mau tratamento físico e psicológico a que eram geralmente votados os feridos e doentes, concluindo que comportamento contrário permitiria recuperar para o serviço 50.000 ausentes das fileiras. Diz a propósito o historiador italiano Guglielmo Ferrero que “após a campanha da Rússia, Napoleão adoptou estilo de guerra aventurosa, com larga incidência em actividade febril e improvisação, o que o impedia de tomar medidas adequadas em relação aos feridos e doentes”. Alargando o campo da sua apreciação, o Marechal acrescenta nos seus estudos e memórias “que o Imperador era pródigo em incentivar a formação e entrada em serviço de novas unidades, mas jamais se dedicou verdadeiramente a tratar as que já tinha, enveredando por resultado final contrário ao que pretendia.”
 
A referida Batalha de Leipzig foi um desastre para as armas napoleónicas, sendo Marmont mais uma vez acusado de ter concentrado tarde as suas tropas e de ter privado o Imperador de 20.000 com as quais pretendia actuar contra os prussianos. Tal sucedeu, de facto, mas Marmont considerava que isso se deveu ao facto de o Imperador ter feito previsões erradas quanto à atitude do adversário, atacando mais cedo do que ele imaginava e colocando Marmont na situação de ter de defender uma povoação - Mochern - com aqueles efectivos contra o assalto de 72.000 prussianos.
 
Para cúmulo de todos os azares, as tropas do Marechal sofreram logo a seguir uma epidemia de tifo, que ele, no entanto, com os seus proverbiais cuidados com a saúde do pessoal, conseguiu debelar.
 
O Princípio do Fim
 
Em meados de Janeiro de 1814 era já evidente a falta de efectivos e de equipamentos do que o Grande Exército Francês e, o que era mais grave, a convicção generalizada entre grande parte das tropas e, principalmente, entre ao generais e marechais de que se estava no limite da resistência. A acção do Ministro da Guerra, o General Clark, na retaguarda exercia-se também sobre uma população descrente que se recusava já a colaborar pois perdera a confiança e o espírito de exaltar os feitos do seu Imperador.
 
Marmont, pelo que lhe diz respeito, consegue reorganizar o seu 6º Corpo com os restos das suas causticadas divisões, restando-lhe apenas 12.000 e 13.000 homens, e é com eles que irá juntar-se aos “restos” dos outros Corpos para travar a batalha de “La Rothiére” contra os 100.000 prussianos e russos de Blucher já a ameaçar Paris. Durante 6 dias foi o Marmont dos primeiros tempos das campanhas que ressurgiu, tendo os aliados perdido 20.000 dos 55.000 homens que lhe opuseram, grande parte da sua artilharia de apoio e as volumosas bagagens.
 
Em Fevereiro e Março, conjuntamente com o Marechal Mortier, prosseguiu a sua incansável acção na defesa de Paris, quer no exterior, quer no interior, de modo a evitar que a cidade fosse destruída. Efectivamente, a 30 de Março os aliados ameaçavam já as suas portas e penetrariam logo a seguir nos seus arrabaldes. Embora conhecedor da situação, o Imperador dizia em carta para o Ministro da Guerra, sobre o Marechal Raguse: “As cartas de Marmont que me enviaste nada dizem, nelas ressaltando toda a sua vaidade; ele é sempre mal interpretado por toda a gente, é ele que tudo faz e tudo aconselha. É triste que com tantos talentos não possa desembaraçar-se dessas tolices ou, pelo menos, da forma como as expressa”. O Imperador estaria então a lembrar-se também do combate de Laon, em 9 de Março, contra Blucher, no qual, então instalado em Soissons e sabendo que iria ser atacado, Marmont não tomou as medidas adequadas e deu origem a que a cavalaria prussiana, dum total de cerca de 9.000 homens, lhe causasse 700 baixas entre mortos e feridos, lhe fizesse 2.300 prisioneiros e se apoderasse de toda sua artilharia. O Duque de Raguse, acrescentou Napoleão a propósito: ”comportou-se como oficial subalterno”.
 
Marmont e o estertor do Império - A “traição” de Essonnes
 
Em 30 de Março de 1814, sempre combatendo, Marmont e Mortier defenderam as entradas de Paris, acorrendo a toda a parte em que as mesmas estavam ameaçadas. “É o mais belo dia duma vida”, diz o General Paul Segur sobre o Duque de Raguse, “em que tantos dos seus dias foram remarcáveis”. Cerca do meio-dia, porém, vendo que já não era já possível opor-se à pressão do adversário, o Tenente-general Joseph Bonaparte, auxiliar do Imperador, abandona a cidade e ordena a Marmont que trate da sua entrega o qual, segundo o historiador Saint Beuve, “não escondeu o orgulho que sentia ao ver-se arvorado em árbitro da França.”
 
O Exército Francês, embora em grande parte disperso em vários núcleos exteriores à cidade, desorganizado e desmotivado, comportaria então cerca de 180.000 homens, dos quais, em estado de agir, estavam cerca de 40.000 com o Imperador na zona de Fontainebleau e 20.000, como guarda-avançada, com Marmont, em Essonnes.
 
Pelas duas horas da manhã de 31, o conde Orlow, enviado do comandante-chefe do Estado da Boémia e então a maior autoridade aliada na capital, o Príncipe Schwarzenberg, informou Marmont de que estava autorizado a assinar as condições de rendição que ele ditasse e a concentração das tropas francesas na Normandia. Investido na autoridade que, através do Príncipe Joseph, nele fora delegada, o Marechal reuniu-se de imediato com os seus comandantes de divisão, tendo todos concordado que o Exército reunido seria factor de peso nas conversações do termo das hostilidades e do destino do Império e do Imperador. Todavia, tendo o Czar da Rússia entretanto informado de que “não negociaria coisa alguma com Napoleão nem com a sua família”, o Imperador deu ordem para se continuar a luta. Nesse momento, portanto, a ordem transmitida pelo Príncipe Bonaparte a Marmont para tratar da rendição ficou sem efeito.
 
Ao decidir-se pela continuação da luta, Napoleão opunha-se a reconhecer a situação real que o envolvia e da qual eram factores visíveis a falta de meios e de espírito combativo da maior parte das tropas, o cansaço da população em face da guerra, a oposição de muitos generais, entre os quais o Duque de Raguse, à continuação da luta e a aclamação que as tropas prussianas estavam a receber em todas as povoações por onde passavam, A França estava cansada, sem meios e queria a Paz.
 
Entretanto, o Senado não ficaria inactivo nesta situação. Nomeou um governo provisório e informou o Príncipe Schwarzenberg de que o Exército Francês devia subordinar-se ao poder legítimo que ele no momento representava e, em conformidade, o acordo previsto com Marmont já não poderia ser assinado. Informado da situação, que acatou de imediato, o Marechal foi a Essonnes informar os seus comandantes do que se passava, de que ficava sem efeito o acordo da reunião do Exército prevista e de que ninguém deveria mover-se sem sua ordem.
 
Marmont regressa a Paris e toma conhecimento de que o Imperador havia abdicado. De facto, em 4 de Abril, perante a atitude do Czar, a autoridade assumida pelo Senado e a instabilidade da situação política, militar e social, que poderia até evoluir para guerra entre facções do Exército ou guerra civil, os marechais Berthier, Lefèbvre, Ney e Moncey foram informar o Imperador da gravidade do ambiente que se vivia, levando-o a abdicar do poder em nome do Rei de Roma, seu filho, ficando entretanto a regência do trono a cargo da Imperatriz Maria Luísa. Napoleão ordena aos quatro marechais que dêem conhecimento da sua decisão ao Marechal Marmont e que, para seu maior peso junto dos aliados, ele se junte à delegação, o que ele fez. Este projecto de tratado não seria aceite, como é conhecido, decidindo os aliados de acordo com as ideias do Czar para depor o Imperador.
 
Perante esta situação, os generais subordinados de Marmont, receosos de que o previsto acordo com o Príncipe da Boémia fosse conhecido pelo governo provisório e pudesse prejudicar de algum modo o seu futuro, declararam-se desligados do comando do Marechal e entregaram-se aos aliados. Ficava deste modo sem efeito a possibilidade de constituir um Exército Francês cuja força, pela ameaça de intervenção, tivesse influência nas negociações do Tratado que levou à queda do Imperador e do Império e à Imposição à França, para além da ocupação por forças estrangeiras, de diversos tributos.
 
Como consequência pessoal, que perduraria por muitos anos e ainda hoje é lembrada, o Marechal Marmont Duque de Raguse foi considerado “traidor” pelas suas tropas e por todos os militares pró-Imperador por, dispondo duma força aglutinadora, ter aderido a situação que consideravam desprestigiante para a França. Assim o considerou também o próprio Napoleão quando, na Ilha de Santa Helena, procurou recordar a história da sua vida, considerando-o na mesma linha de Murat e Berthier. É conhecida a sua afirmação quando comenta: “Marmont, um homem educado, que conhece a história, que não pode ser enganado, como é que se deixou perder pela ambição?! Para que lhe serve o espírito...Era o mais medíocre dos meus generais e eu apoiei-o e defendi-o contra todos porque acreditava no seu espirito de honra.” E acrescenta em 27 de Março de 1816, evocando o passado: “Fui traído por Marmont, que podia dizer meu filho, meu benjamim, minha obra; ele a quem confiei o meu destino ao enviá-lo a Paris no momento em que pode consumar a sua traição e a minha perda.”
 
Na realidade, muitas são as opiniões de conteúdo análogo aos anteriores, como muitas são as que dizem que, com a sua atitude, ele salvou Paris e a França, havendo mesmo outros que lhe apontam erros conscientemente cometidos nas campanhas em que tomou parte apenas com o objectivo de prejudicar a Revolução e o Império.
 
O historiador Saint-Beuve, já citado, escreveu a propósito:
“Marmont, no seu comportamento dos últimos dias de Março e primeiros de Abril de 1814, compreendeu melhor do que os outros generais a desastrosa situação política em que a França se encontrava. Não houve nada de egoísmo, de interesse pessoal, na sua decisão. Ele já tinha cumprido perante o Imperador na campanha que terminara todas as obrigações que lhe devia. Era necessário, agora, sonhar um país que fosse agradável.”
 
Mas é o próprio Imperador que em 1 de Fevereiro de 1817, já os eventos arrefecidos, confessa a Gourgaud, certamente pensando no seu exílio:
“Marmont é bem mais infeliz por ser um homem de elevados sentimentos. Enganou-se quando acreditou estar a salvar o seu país quando se lhe empenhou daquela maneira: deve ter tido um lapso de espírito. Confesso que sou seu amigo e que faz pena porque muitos outros foram mais maus que ele e não sentem a vergonha que o aflige.”
 
 
Nota Final
 
O Marechal Marmont, Duque de Raguse, tomou o partido de Luis XVIII em 1815, quando Napoleão Bonaparte teve o seu “Império de 100 Dias”, desempenhando depois diversos cargos militares até ao reinado de Carlos X. Em 1834 iniciou uma longa viagem pelo Globo, dedicando o seu tempo a registar as impressões colhidas (5 volumes) e a escrever as suas “Memoires” (8 volumes) e o livro, que teve larga aceitação em diversos países da Europa e do Novo Mundo, “De l’esprit des Instituitions Militaires.” Faleceu aos 78 anos em Chatellon-sur-Seine, França, em 1852.
 
 
Bibliografia
 
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Colson, Bruno, Le Maréchal Marmont, Chefe de Guerre et écrivain militaire.
Prefácio do Tomo anterior.
Maréchal Marmont. De l’Esprit des Instituitions Militaires.
Mathiew, Paul. Refutations des Mémoires du Maréchal Marmont.
Détaille, Edouard. L’Armée Française, 1790-1885.
Teixeira Botelho, J. J. A Guerra da Península.
Vitorino, Pedro. Invasões Francesas, 1807-1810.
Pigeard, Alain (2005). La Garde Impériale.
Chardigny, Louis. Les Maréchaux de Napoléon.
Robert, Andrew (2002). Napoleão e Wellington.
 
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*      Sócio Efectivo da Revista Militar.
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Tenente-general

José Lopes Alves

Ex-Presidente da Direcção e Sócio-honorário da Revista Militar. Falecido em 30 de abril de 2018.

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