Nº 2506 - Novembro de 2010
A “Batalha de Dois Portos”, uma batalha “quase” esquecida
Mestre
Venerando António Aspra Matos
 

Por vezes, são os momentos menos espectaculares ou até quase esquecidos, que se revelam decisivos numa guerra prolongada. Foi o caso da chamada “Batalha de Dois Portos”, episódio pouco conhecido da terceira invasão francesa.

No dia 9 de Outubro de 1810, o exército aliado chegava às Linhas de Torres, sempre seguido de perto pela cavalaria francesa, em distância à vista.

Alguns oficiais e soldados da guarnição das Linhas, a cavalo, aguardavam pelas diferentes unidades para as guiarem para as obras ou localidades que lhes eram destinadas.

Desde o dia 7 ou 8, conforme as fontes, chovia copiosamente, obrigando as tropas anglo-lusas, recém-chegadas, “a buscar arrebatadamente o abrigo das casas, que pela maior parte estavam abandonadas”, queixando-se o autor desta descrição, o padre torriense Madeira Torres, de “então se perderam, e” serem “preza dos soldados nacionaes, e alliados, os fructos não só pendentes, e mal começados a colher, como vinho e azeite,” bem como “os mesmos recolhidos nos celleiros publicos e particulares, que não eram guardados immediatamente por seus donos, e munidos de sentinellas, chegando o excesso a serem a maior parte das casas despejadas dos seus moveis, quasi todos os cartorios publicos, e particulares parcialmente roubados, o do Escrivão das Sizas, e de um da Correição totalmente destruídos”[1].

Com a chuva, encheu-se rapidamente o lado direito do rio Sizandro “tornando-se pelo lado de Torres Vedras n’um formidavel obstaculo defensivo sobre o flanco esquerdo da citada linha, não lhe restando então em toda ella, desde o Oceano até ao Tejo, mais do que um intervallo de duas leguas e meia, pouco mais ou menos, não fortificado, ao sul do valle de Runa, entre a villa de Torres Vedras e Monte Agraço”[2].

Entretanto, fustigados pelo mau tempo, as tropas francesas iam-se aproximando lentamente das Linhas, cuja existência desconheciam: “Vinha à frente, comandando a cavalaria de reserva, o general Montbrun, que na manhã de 11, depois de na véspera à tarde ter repelido as últimas fracções do exército anglo-luso, sob o comando de Craufurd (…), mandára reconhecer a estrada em direcção de Vila Franca”. Foi o brigadeiro Pedro Soult, encarregado desta missão, que o informou “dos fortes entrincheiramentos que vira em Alhandra”. A exploração feita na direcção do Sobral, Arruda e Zibreira trouxe-lhe notícias análogas, o que levou o aludido general, por sua vez, a informar o comandante-chefe, então ainda longe, à rectaguarda, de que tinha na sua frente uma linha contínua de fortes entrincheiramentos e estendendo-se até um ponto, para oeste, que não podia ainda precisar.

 

“Os reconhecimentos continuaram nos dias 12 e 13, ocasionando escaramuças, algumas de certa importância, como a que se travou na vila do Sobral (…)”[3].

No dia 12 de Outubro marchou a vanguarda do exército francês para Vila Franca de Xira, “tomando lá as posições que julgou convenientes, distribuindo as tropas pela dita villa, por Povos e Castanheira”. O oitavo corpo marchou de Alenquer para o Sobral, apoderando-se desta vila onde, durante a noite, construiu algumas trincheiras para defesa própria, sendo no Sobral que Massena estabeleceu o seu quartel-general.

“Para alem de Runa a serra do Barregudo e os fortes que se tinham levantado em Torres Vedras não permittiam ao marechal Massena movimento algum de flanco por aquelle lado, não lhe restando portanto mais que a possibilidade de dispor as suas tropas entre Villa Franca e o Sobral, com a vantagem de que emquanto a testa das suas columas ameaçava as partes mais fracas da linha, podia elle em poucas horas concentrar todo o seu exercito no ponto que mais lhe conviesse atacar entre o Tejo e a citada serra do Barregudo. O segundo corpo, continuando a occupar as serras fronteiras da Alhandra, estendia a sua direita até á villa da Arruda, sobre um terreno bastante aberto. Um forte posto de cavallaria, collocado na dita villa, cobria a extremidade da sua direita, ligando-a com o oitavo corpo, cuja frente se achava para diante do Sobral, occupando as menores alturas da citada serra do Barregudo, e guarnecendo tambem as duas margens do rio Sizandro até ás Duas Portas” (sic) “, sobre a estrada de Runa”[4].

 

É na sequência deste posicionamento que tem lugar, em 13 de Outubro, a chamada “Batalha de Dois Portos”.

O combate foi travado entre as tropas de um dos postos avançados das Linhas Torres Vedras, e uma “considerável força inimiga”, que, na tarde do dia 13, avançando sobre o mesmo posto, provocou a batalha. Nela participaram, pela parte aliada, duas companhias do regimento n.ºs 11 e 23[5]. Sabe-se que a posição definida para esses regimentos era, respectivamente, a Portela e a Patameira, entre as posições da Ribaldeira e do Sobral[6].

O registo dessa batalha deve-se à memória anónima de um oficial português que a ela assistiu:

“Por ordem anterior fomos de madrugada formar para o outro lado da ponte de Dois Portos, a qual, assim como outra que ha do lado direito, estão já minadas para saltarem em caso de necessidade. Sendo já dia claro [13 de Outubro] retirámo-nos para os quarteis. - Pelas duas horas da tarde, tendo-se percebido já que os francezes tentavam algum reconhecimento pelo lado do Sobral, para onde tinhamos as nossas avançadas, principiou-se a ouvir fogo, entre elles e uma avançada ingleza que havia à nossa esquerda: viu-se que um forte corpo de tropas francezas, tomava uma altura junto a um moinho. Eu que tinha sido mandado em observação, dei d’isto parte ao general e ao brigadeiro, e quando elles chegaram era já respeitavel a força inimiga, que se apresentava contra as nossas avançadas. A poucos minutos principiou o fogo com os nossos, pois que os estrangeiros se tinham retirado; e tanto valor mostravam as nossas tropas, que obrigaram os francezes a desistir da tentativa depois de bem destroçados. - Não tive eu a fortuna de tomar parte no calor da acção, porque tinha sido mandado pelo general encaminhar a brigada ao alto da outra parte, pelo caminho que no dia 12 tinha reconhecido para retirada, receiando elle que a isso fossemos depois obrigados. Tivemos a sensivel perda do coronel Harvey commandante da brigada, que na acção ficou ferido, a ponto de lhe ser necessario ir tratar de si com todo o cuidado. Esta perda é geralmente sentida por toda a brigada e mesmo pelos officiaes generaes do exercito. - Á noite tornou o inimigo para as suas antigas guardas; nós não baixámos: fizemos saltar as pontes.”[7].

Ao mesmo acontecimento referiu-se o duque de Wellington nos seguintes termos: “O inimigo atacou hoje [13 de Outubro] os piquetes da divisão do general Cole, ao pé do Sobral, porém não teve muito effeito este seu ataque. Tenho sabido com maior satisfação, que as tropas portuguezas da brigada do coronel Harvey, composta dos regimentos 11 e 23, outra vez se hão distinguido n’esta occasião; o coronel Harvey ha infelizmente ficado ferido, porém espero que o haja sido levemente (...)”[8].

No dia seguinte ainda se registaram alguns recontros esporádicos à volta do Sobral, chegando nesse mesmo dia o grosso do exército francês.

Depressa os franceses se aperceberam da impossibilidade de se movimentarem mais para sul, lutando desesperadamente contra a falta de mantimentos. A situação era descrita por Wellington nos seguintes termos: “As difficuldades que o inimigo experimenta em procurar subsistencias, o que é devido a elle por haver invadido este paiz sem o apoio de depositos, e sem que adoptasse medidas para segurar a sua retaguarda, ou as suas communicações com Hespanha, o tem posto na necessidade de que os seus soldados se extraviem com o fim de procurarem com que se mantenham, e por isto mesmo não passa dia sem que venham desertores e prisioneiros”[9].

Rotos, esfomeados, acossados pela guerrilha, as tropas comandadas por Massena iniciaram, em 15 de Novembro, a sua retirada da frente das linhas.

A batalha de Dois Portos foi assim, apesar de pequena, decisiva para impedir que as tropas francesas lograssem romper as Linhas de Torres.

 
 
* Mestre em História Social Contemporânea pelo ISCTE; Professor da Escola Secundária C/3º Ciclo de Henriques Nogueira - Torres Vedras; Investigador de História Local.

 


 

[1] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p. 178.
[2] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 217-218.
[3] J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 415-416.
[4] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 236 e 237.
[5] Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238.
[6] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, p. 222.
[7] do diário de um oficial do exército português, iniciado a 31 de Outubro de 1807 e citado por Claudio de Chaby nos Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.245-246.
[8] Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238.
[9] “officio do marechal general Lord Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz”, de 20 de Outubro, in Claudio de Chaby, Excerptos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra denominada da Peninsula (...), Vol. VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1882, Documento nº74, pp.190 a192.
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REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia