Nº 2507 - Dezembro de 2010
EDITORIAL - O Final da Primeira Fase dos Encontros da Revista Militar
General
Gabriel Augusto do Espírito Santo

O Final da Primeira Fase dos Encontros da Revista Militar

 
No passado dia 24 de Novembro, na Academia da Força Aérea, terminou o Projecto a que nos tínhamos proposto, em 2008, para esta primeira fase dos Encontros da Revista Militar. O tema centrou-se nas Últimas Campanhas do Império e teve por objectivo transmitir a novas gerações de militares, da Marinha, do Exército e da Força Aérea, representadas pelos Cadetes Alunos das Escolas de formação de Oficiais dos Quadros Permanentes dos Ramos das Forças Armadas, as experiências vividas por uma geração de militares que viveram e combateram nessas campanhas.
 
A Revista Militar deseja, em primeiro lugar, agradecer o apoio que à iniciativa foi prestado, desde a primeira hora, por Suas Excelências o General CEMGFA e os Chefes dos Estados-Maiores da Armada, do Exército e da Força Aérea. Agradecimento extensivo aos Excelentíssimos Comandantes da Escola Naval, Academia Militar e Academia da Força Aérea, que com o Pessoal sob o seu Comando, com as suas infra-estruturas e com os seus Cadetes Alunos materializaram a realização de uma intenção que não seria possível sem o seu apoio.
 
Em 2008, na Academia Militar, foram tratados os temas de Doutrina e Operações, com conferências a cargo dos Excelentíssimos Tenente-general José Lopes Alves, General PilAv José Lemos Ferreira, Almirante Nuno Vieira Matias e Tenente-general Abel Cabral Couto. Foram expostos os conceitos que levaram a uma formulação progressiva de doutrina e de estratégia para enfrentar a guerra subversiva. Havia algumas experiências de exércitos amigos, que se tentaram recolher e adaptar. Visando a protecção das populações, criaram-se estruturas adaptadas a um dispositivo territorial que tinha como objectivo essa protecção. O Batalhão de Caçadores, o Destacamento de Fuzileiros e o Aeródromo Base foram concepções portuguesas, adaptadas a meios e ambiente próprios. As operações, baseadas num conceito de forças de quadrícula, forças de intervalo e forças de intervenção e numa integração em operações conjuntas dos três ramos das Forças Armadas, visaram, simultaneamente, a segurança das populações, a destruição dos grupos armados que se opunham à soberania e ao desenvolvimento dos territórios, começando com tarefas simples de promoção social e económica das populações. Operações que ao fim de treze anos de confronto, ainda que com situações diferenciadas nos TO da Guiné, de Angola e de Moçambique, permitiram que as Forças Armadas Portuguesas nunca tenham sofrido uma derrota, mesmo ao nível da unidade táctica elementar da Secção de Atiradores.
 
Em 2009, na Escola Naval, foi tratado o tema da Logística durante as Campanhas. Foi um esforço hercúleo, inovador, eficiente e com lições tremendas para o futuro. Com uma Base Logística que se encontrava, por vezes, a 17.000 km de distância das forças a apoiar, os transportes marítimos e aéreos até aos Teatros de Operações nem sempre foram seguros e isentos de actos hostis à navegação ou sobrevoo do espaço aéreo. Nos Teatros de Operações, cada um com as suas particularidades para o transporte e movimentação, levar o abastecimento diário às tropas, as munições, os combustíveis, o apoio técnico para a manutenção de materiais e equipamentos (com relevância para as transmissões) ou proporcionar o apoio médico em evacuações e hospitalização exigiu imaginação, vontade e esforço. Traduzido em tarefas tão simples como o abastecimento de água, a imaginação levou a criar sub-unidades especialmente vocacionadas para o Apoio Directo e o Apoio de Área, como os Pelotões de Intendência, os Pelotões de Apoio Directo ou os Hospitais Militares de Campanha. No Natal havia bacalhau, bolo-rei e vinho do Porto na Luiana, no Sudeste de Angola, ou na margem do Lago Niassa. Uma viatura Berliet destruída por uma mina podia ser reparada em Nova Lamego, na Guiné, ou em Mueda, em Moçambique. Um ferido grave tinha tratamento hospitalar, apesar das grandes distâncias a vencer, menos de uma hora após ter sido ferido.
 
A história da logística portuguesa, durante as Últimas Campanhas do Império, a sua concepção e o esforço daqueles que a serviram é dos capítulos mais notáveis da arte militar do final do século XX. E as conferências proferidas nesta Sessão, a cargo dos Excelentíssimos Tenente-general Adelino Coelho, Tenente-general PilAv Fidalgo Ferreira e Vice-almirante Henrique da Fonseca, trouxeram uma visão de cada um dos Ramos das Forças Armadas e dos TO da Guiné, de Angola e de Moçambique para esta ciclópica tarefa.
 
A última Sessão desta primeira fase, na Academia da Força Aérea, abordou as Operações da Força Aérea durante as Campanhas. Força Aérea que desempenhou papel decisivo nas operações e que soube criar antecipadamente o potencial aéreo para enfrentar o conflito. Na aquisição de meios, nem sempre fácil, e que foi evoluindo dos meios da Segunda Guerra mundial (DC-4, DC-6, T-6, Dornier e outros aviões ligeiros) para meios mais sofisticados como o NordAtlas, Boeing 707, Fiat G-91 e Helicópteros Alouette e Puma, com estas aeronaves a representarem um tremendo salto inovador no apoio às operações tácticas e na evacuação de feridos. Na formação de pessoal e seu treino. Na criação de infra-estruturas aeronáuticas que cobriam os territórios, apoiando as operações mas servindo também o desenvolvimento. Durante as Campanhas pertenciam à Força Aérea Portuguesa as Tropas Pára-quedistas, que desenvolveram operações terrestres com elevada eficiência e espírito de corpo, tornando as suas unidades um contributo inestimável para as operações de intervenção.
 
As intervenções estiveram a cargo do Tenente-general PilAv Jesus Bispo e Tenente-general PilAv Pereira da Cruz. Por motivo de doença não pode estar presente o Tenente-general Bação de Lemos que nos falaria das operações das Tropas Pára-quedistas.
 
Este número da Revista Militar publica as intervenções que foi possível recolher nesta primeira fase dos Encontros. Esperamos continuar, abordando temas como o trabalho da Engenharia Militar, a Cooperação Civil-Militar, as Operações Psicológicas, as Tropas Irregulares e outros. Tentaremos reunir dados e opiniões que contribuam para a História das Últimas Campanhas do Império, seguindo uma via da historiografia moderna que tenta abordar a história estudando as mentalidades que a criaram. O que há escrito sobre as Campanhas, factual, muito útil e que representa trabalho feito, ainda foi escrito com paixões e pode transmitir a gerações vindouras uma ideia errada do que foi o pensamento que desencadeou e orientou uma guerra de treze anos.
 
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*      Presidente da Direcção da Revista Militar.
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General

Gabriel Augusto do Espírito Santo

Nasceu em Bragança em 8 de Outubro de 1935.

É General do Exército, na situação de Reforma desde o ano 2000, depois de ter servido nas Forças Armadas Portuguesas durante 49 anos.

Além de Tirocínios e Estágios na sua Arma de origem possui os Cursos da Escola do Exército (Artilharia), Curso Complementar de Estado-Maior e Curso Superior de Comando e Direcção (Instituto de Altos Estudos Militares), Curso de Comando e Estado-Maior (Brasil) e o Curso do Colégio de Defesa Nato (Roma).

Falecido em 17 de outubro de 2014.

REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia