Nº 2449/2450 - Fevereiro/Março de 2006
As Armas do Irão
Doutor
André Sopas de Mello Bandeira
1.  Uma arte da chama
 
A primeira Arma do Irão é o fogo. O fogo que ardia nos templos de Zoroastro. Não é por acaso que muito do armamento que possui ou diz possuir, se associa a esta nomenclatura ígnea. E também a sua recente retórica1.
 
Certamente que o neo-paganismo e as simpatias germanófilas que o pai do Xá Rheza Pahlevi, destituído em 1941 sob pressão inglesa e russa, se reveriam na imagem. Mas a realidade é que o culto do fogo, da “nafta” (palavra igual em persa antigo ou em farsi moderno, e que designa petróleo) como uma terra combustível interminável ou ainda o primeiro sistema de telégrafo da História com o uso de espelhos que reflectiam o sol, entre torres espalhadas por todo o Império persa, permitindo comunicações de Persépolis até aos confins, em dez dias, denunciam o interesse da ciência iraniana pelo estado plasmático da Matéria.
 
Diremos que a moderna inclinação de Teerão pelo programa atómico, que já fora uma vez oculto durante o regime do falecido Xá Rheza Pahlevi, traduz um pouco este “brincar com o fogo”, típico de certos momentos da grande cultura xiita e zoroástrica da Pérsia. A mesma determina a apetência dos cientistas, numa área da Física onde se pôs em causa as categorias de Sujeito e Objecto, graças a Heisenberg e à indecidibilidade das teorias corpuscular e ondulatória.
 
O Irão acaba de anunciar a retoma do seu programa de enriquecimento de Urânio, invocando um direito que lhe assiste como membro do NPT (Non-proliferation Treaty) mas quebrando o Acordo que fizera com a UE + 3 (Alemanha, França e Reino-Unido) em Paris, pelo qual o Conselho da Agência Internacional da Energia Atómica aceitara não referir Teerão ao Conselho de Segurança da ONU. Mas fê-lo como se o anterior vinténio de comprovado incumprimento do NPT não fosse um elemento legalmente relevante e não apenas legítimo, aos olhos da comunidade internacional - a qual, não havendo um governo mundial, aplica o Tratado.
 
Por outro lado, é de Ali Akhbar Rafsandjani - o candidato derrotado nas eleições Presidenciais de Junho último por Mahmmoud Ahmedinejad - a famosa frase de que “as armas químicas e biológicas são a bomba atómica do pobre”. A frase teve grande sucesso jornalístico e Rafsandjani acrescentou, na ocasião: “Devemos, ao menos, considerá-las para a nossa defesa. Embora o uso de tais armas seja desumano, a guerra ensinou-nos que a leis interna­cionais são apenas bocados de papel”2. Ora o Irão, durante a guerra com o Iraque, de 1981 a 1988, na qual perdeu cerca de meio milhão de pessoas, conseguiu provar em Genebra, na Comissão de Desarmamento da ONU, que Saddam lhe estava a mover uma guerra química, dotando-se, por conseguinte, ante as delongas da ONU, com os elementos adequados de resposta ou de dissuasão do inimigo.
 
Por outro lado, o Irão passou a beneficiar - durante o período imediatamente posterior à dissolução da URSS - de uma série de fluxos de tráfico de material físsil, de pessoal técnico altamente qualificado em situação de desemprego e de um certa euforia da Comunidade Internacional para acumular o seu próprio “pé-de-meia” no recurso energético e de Defesa, que a energia atómica constitui.
Em 1982, a Central Atómica de Bushehr foi evacuada pelos técnicos alemães que a assistiam ao abrigo de um acordo bilateral. Estando o acordo denunciado, Teerão estabeleceu um novo com a Rússia. Nada disto parece estranho a quem conhece a história recente do Irão (o soberano da Dinastia Qajar, o reformador Nasr al-Din Shah, foi debalde confrontado com a possibilidade de dar um golpe audacioso no Corpo expedicionário britânico, exaurido pela Guerra da Crimeia, retorquindo: “mesmo assim, ainda teríamos o urso do Norte para enfrentar”3).
 
Ora fôra o Conselheiro norte-americano do Governo de Teerão, Morgan Schuster, quem aconselhara o Xá a gerir cautelosamente as reservas de petróleo, nos anos cinquenta, optando pelo nuclear. Chegara assim o momento, do então aliado de Washington e com o beneplácito desta, para mandar jovens do seu país estudar física nuclear no Estrangeiro. O regime do Xá tinha previsto edificar as centrais nucleares Irão I e Irão II em Bushehr, para entrarem em funcionamento em 1980 e 1981. Ante o receio geral, em Abril de 1977, o Xá comprometia-se, durante um congresso de mais de quinhentos técnicos nucleares, em Chiraz, a que o “Irão empenhe todo o seu esforço na utilização pacífica da energia atómica”4.
 
Ora, passada a Guerra com o Iraque, era tempo de o alegado mofaz (o homem pobre) tentar enriquecer a sua panóplia de alternativas e dotar-se da arma nuclear ou do que a ela conduz. A polémica moral sobre a operaciona­lidade das armas nucleares não foi muito diferente daquela que se passou no Ocidente. Primeiro, foi tida discretamente entre portas. Concluiu-se que, apesar de desumano e arriscado, era um meio de defesa viável e, no fim de contas, talvez a dissuasão nuclear poupasse as imagens horríveis das vítimas das armas químicas em guerras esquecidas pelos Tratados internacionais. Depois de uma Guerra do tipo daquela com o Iraque, não restava senão procurar um dissuasor regional, como o encontraram a Índia e o Paquistão, isto antes que Saddam chegasse lá primeiro. Ora Saddam saiu, mas permaneceu Israel. A Inglaterra deu a independência aos micro-estados e shaykdoms do Golfo, nos anos setenta, a França perdeu a cara na crise do Suez em 1956 mas os EUA vieram para ficar no Golfo arabo-pérsico, logo ao fim da Segunda Guerra Mundial.
 
 
2.  O Combustível e o Comburente
 
O elemento comburente desta conjuntura são sem dúvida as forças armadas iranianas. Não adianta exagerar muito os seus meios materiais, cuja reprodução, actualização e expansão, estão enormemente cerceadas pelas sanções económicas. O elemento verdadeiramente comburente é, afinal, aquilo que das suas Forças Armadas mostra disposição para aplicar a política de Teerão.
 
As Forças Armadas iranianas atravessaram um período de desorganização quando foram atacadas de surpresa pelo Iraque em 1981. Como resultado, vários oficiais do Xá que se encontravam presos, foram postos em liberdade para retomarem postos de comando. Alguns deles tinham já traído o Xá, pouco antes ou pouco depois deste ser deposto, vendo oportunamente na revolução Kohmeinista um inusitado renascimento persa que o Xá, oscilante entre o não-alinhamento neutral e o enfeudamento aos EUA, nunca conse­guira induzir. Além disso, não tinham alternativa, em termos da sobrevivência física, a própria e a das suas famílias. Alguns desertaram quando puderam mas outros embrenharam-se na constituição de uma classe comercial abastada que o Ocidente confundiu durante algum tempo de desanuviamento, com o sector reformista, chamando-lhes até, com aquela ligeireza que acompanha tantas vezes os jornalistas ocidentais (mesmo os científicos), de “yuppies iranianos”.
 
2.1 As forças convencionais iranianas
 
As forças convencionais iranianas, comparadas com aquelas do Xá, no seu tempo de país detentor da segunda maior frota de helicópteros do Mundo, ou do Iraque, no início da Guerra, eram geralmente obsoletas e dependentes de fornecedores ocidentais que se encontravam de mãos atadas. Apesar disso, entre 1988 e 2003, o Irão conseguiu arranjar fornecedores alternativos e desenvolver uma panóplia de mísseis - alguns deles, de longo alcance - bastante efectiva, com as gerações Fadj (espantalho) e Shahab (meteoro ou estrela cadente) baseadas nos Scud originalmente soviéticos e nos Taepedong norte-coreanos.
 sobretudo de pequenos países europeus - senão no fim da guerra, em 1988, precisamente na altura em que o Iraque contra-atacou com sucesso, o que se traduziu numa perda de entre 40 e 60% do material recém-adquirido por Teerão, em campo de batalha. Contudo, após o fim da guerra, entre 1988 e 1992, a Rússia forneceu ao Irão, por exemplo, uma gama moderna de blindados e aviões.
 
Calcula-se que o material bélico iraniano dependente do Ocidente desde o tempo do Xá, está, em geral, desactualizado, obsoleto ou não oferece confiança. Quanto às forças de Terra, destacam-se os tanques Chieftain, M-47/M-48, M-60A1 e M-109 (155 mm SP) e os Helicóteros de ataque AH-1J. Na Força Aérea, destacam-se os I-Hawk SAM, os F-5E/F FGA. Na Marinha, os vasos de guerra da gama Bayandoff FF e os Hengeman LST.
 
Para contar apenas os acordos de fornecimento e fornecimentos efectivos mais recentes (2000 e 2003), o Irão importou armamento sobretudo da Rússia, da China e do resto do Mundo, não importando nada, durante esse período, nem do Ocidente em geral, nem da Europa em particular.
 
Mesmo assim, calcula-se que as importações iranianas correspondem apenas a cerca de 35/50% do necessário para recapitalizar ou modernizar as suas Forças Armadas5, tentando Teerão compensar o restante com uma indústria militar doméstica de cujos êxitos há pouca confirmação indepen­dente.
 
As despesas militares iranianas teriam descido de 5,4% do PNB, em 2000, para 2,4% em 2003, segundo o International Institute for Strategic Studies, baseado em Washington. De acordo com fontes governamentais norte-americanas, a Despesa de Defesa teria descido já, de 6,4%, em 1989, para 2,9%, em 19996.
 
2.1.1 Modernização e capacidades domésticas
 
2.1.1.1 Forças de terra: o Irão é ainda a maior força convencional do Golfo. Com os seus meio milhão de homens e cerca de 350 000 reservistas, além dos 120 000 Pasdaran, conta ainda com um milhar e meio de tanques e outro tanto de veículos blindados. Tem alegadamente obtido, desde 1990, fornecimentos de tanques modernos da Rússia (380 do tipo T-725) e da Polónia (100 do tipo T-72M1). A mesma Rússia terá concedido licença para a produção de T-72 e BMP. Estaria a produzir uma versão chinesa deste último, denominada “Boragh” e um tanque doméstico “Zolfaqar”, semelhante ao M48/M-60. Teria também melhorado tanques iraquianos capturados durante a Guerra. A nível dos mísseis de teatro, além dos que adquiriu da China e da Rússia, desenvolveu as suas próprias gamas de “Hadid”, “Arash”/“Noor” (variante dos 122 mm russos e chineses) e “Haseb” (variantes do 107 mm chinês). Desenvolveu ainda domesticamente, os foguetes com combustível sólido “Shahin” 1 e 2, “Nazeat” 5 e 10 e “Zelzal” 3, além do “Oghab” e a já referida gama “Fadj”, 3 e 4, com 45 Km de alcance.
 
2.1.1.1.1 Mísseis balísticos: o Irão produziu um novo SSM, com 200 Km de alcance (eventualmente um Frog modificado), está a desenvolver o Zelzal-3, com 900 Km de alcance, beneficiando, para tal, do apoio chinês e norte-coreano. Também com apoio russo, o Irão teria já feito entrar na fase operacional o Shahab-3, do qual já disporia de 20 unidades (este míssil, com 1500 Km de alcance, é uma versão equivalente do russo SS-N-4/Scud B, do norte-coreano No-Dong-1 e do Ghauri II paquistanês). Com base nos Taepedong-1 e 2, norte-coreanos, estaria a desenvolver os Shahab, 4, 5 e 6, com um alcance intercontinental e capacidade de transporte de uma carga explosiva muito maior7. O sistema de transporte afecto a estes mísseis, denominado “Badr”, é aparentemente de origem iraniana, requerendo um transporte acompanhado de camiões-cisterna e dum sistema de comando e controlo, bem como de comunicações instalados noutros veículos. Entretanto, o Irão tem tentado receber aço da China e da Rússia para produção de mísseis e há sinais de construção de túneis reforçados para o respectivo posicionamento.
 
2.1.1.2 Força aérea: o Irão possui um total de três centenas de aviões de combate e cinquenta helicópteros. Contudo, na maior parte dos casos, não conta com a sofisticação técnica para renovar o material norte-americano, com mais de vinte anos que possui neste capítulo. Mesmo assim, a indústria de Defesa iraniana produz peças sobressalentes para radares, sistemas mísseis, avionics, vasos de guerra e carros blindados. Teerão diz ainda (segundo declarações do Chefe do Estado-Maior do Exército, Gen Arasteh em Abril 1997) ter começado a produzir um caça próprio, o Azaraksh (relâmpago) a partir dos F-4 Phantom e F-5, bem como, alegadamente outros, o Parastu (pardal), o Dorna (estorninho) e o Owj (Zénite). Alega também ter começado a produzir peças sobressalentes que satisfariam 90% das necessidades de equipamento defensivo, nacionais8. O Irão assinou um acordo com a Ucrânia, para produzir o avião de transporte Antonov 140, em 1996, e afirma que, em 1997, assinou um contrato de aquisição de 10 Antonov An-74. Teria melhorado alguns dos seus F-4s (com um moderno sistema de míssil guiado por vídeo), F-4D/E Phantom (caças-bombardeiros dotados de um novo sistema de míssil SM1), os seus F-14s e os C-130s que possui.
 
O então Presidente Rafsandjani anunciou, em 11 de Outubro de 1997, que o seu país testara um novo míssil terra-ar, com uma alcance de 250 Km, sendo que a descrição fornecida então o fazia assemelhar ao SA-5 russo. Entretanto soube-se da aquisição de lançadores de mísseis SA-6 e de SA-5, por parte de Teerão.
 
2.1.1.3 Forças navais: o Irão detém cerca de 60 navios de combate, três submarinos e dez embarcações anfíbias. Alegou ter começado a produzir 6 destroyers, ter adquirido uma larga gama de minas marítimas, torpedos de fabrico russo e desenvolvido mísseis de cruzeiro anti-navio, copiados dos FL-2 e FL-7 chineses. Teria montado localmente mísseis (de combustível sólido) anti-navio Karus (YJ-1 C-801) e Tondar (YJ-2 C-802)9. O Irão possui também um tipo de hovercraft, interceptador de alta velocidade, do género Boghammer.
 
2.1.1.4 Armas de destruição maçiça: o Irão possui stocks de gás mos­tarda, cianeto de hidrogénio, fosgénio e clorina. Possivelmente detém também stocks de sarin e tabun. Quanto ao arsenal biológico, detém provavelmente reservas de Antrax e outras biotoxinas. O programa nuclear, na sua maioria divulgado pelas fontes internas de Intelligence dos Mujaheddin e-Kalk (organização que patenteia uma taxa de quebra informativa muito signifi­cativa) é tema de discussão diplomática. Contudo, foi também objecto de um longo processo de dissimulação.
 
 
3.  Os Guardas da Revolução Islâmica ou Pasdaran
 
Os Pasdaran ou Guardas Revolucionário Islâmicos contam com cerca de 120 000 elementos, dos quais 20 000 estariam afectos à força naval, 5 000 são marines e uma Brigada de combate. Contaria com cerca de 40 navios de patrulha ligeiros, 10 Houdong, barcos patrulha teleguiados dotados de C-802, mísseis anti-navio e uma bateria de HY-2 Seersucker, de artilharia de costa.
 
A Força naval dos Pasdaran controla vários postos em zonas nevrálgicas dos Estreitos de Ormuz, como em Al-Farsiyah, Halul (uma plataforma petrolífera), Sirri, Abu Masa, Khorramshahr, Larak e o porto histórico de Bandar-Abbas.
 
Os Pasdaran, que controlariam toda a defesa costeira do Irão (um privilégio adquirido sobretudo durante a Guerra com o Iraque, em particular durante a fase de 84/87 ou tanker war) têm ao seu alcance a Arábia Saudita, várias Ilhas do Golfo e vários países do Conselho de Cooperação do Golfo, onde contariam com o apoio de importantes minorias Xiitas. Note-se que sustentam aí, também, uma campanha activa contra o tráfico de droga (muita da heroína afegã e paquistanesa atravessa aquela zona do Golfo e interna-se pelos Emirados Árabes Unidos ou pela Somália antes de chegar à Europa, estando os traficantes equipados com armamento sofisticado).
 
Os Pasdaran são considerados ter representantes na rede consular e Diplomática iraniana e mantêm escritórios próprios em vários países, como no Sul do Líbano, onde treinariam o Hezbollah ou na Palestina, onde prestam apoio ao Hamas. Declararam-se capazes de construir em massa UAV (Unmanned Aerial Vehicles) do género Mohajer e planadores. Parece que administram também os campos de treino para “voluntários” estrangeiros dos quais o principal é o da Universidade Imam Ali, em Sa’dabad, a norte de Teerão, e nas regiões de Qoom (campo de Manzariah), Tabriz e Mashhad. O Rahab ou líder supremo, Ali Khamenei, anunciou em 2003 que tinha entregue aos Pasdaran, mísseis do tipo Shahab 3.
 
Os Pasdaran contam com um Ministro próprio que reporta directamente ao líder, Ali Khamenei. Parecem ser os principais gestores das Indústrias de Defesa iranianas, bem como de um Orçamento próprio que não é divulgado. Estão envolvidos nas actividades de Intelligence, sobretudo por meio da sua força Al-Qods. O Al-Qods (Jerusalém) contaria com 5 000 homens divididos em pequenas unidades da dimensão de uma larga Brigada, apesar de se denominarem, em alguns casos, Divisões, e são preparados para operações assimétricas sobretudo no Exterior, onde detém várias Directorias, seja na Europa, na América do Norte, nas antigas Repúblicas soviéticas da Ásia Central, no Norte de África, no Sudão ou, aparentemente, na África do Sul. Os Serviços Secretos iranianos constituem um quebra-cabeças, onde é difícil distinguir a Polícia Secreta (VEVAK), os Pasdaran e o próprio Ministério dos Negócios Estran­geiros, combinando localmente equipas de todos e sendo controlados por um Conselho de Operações Especiais, ao qual pertencem o líder supremo, Khamenei, o Presidente, Ahmedinejad, o Ministro das Infor­mações e o Conselho Supremo de Defesa Nacional10.
 
Depois de se terem recusado a reprimir motins internos, em Setembro de 1994, os Pasdaran retiveram, contudo, o controlo do corpo de voluntários a quem tal tarefa passou a ser confiada, os Basij. Neste corpo, que se soma às tropas do Ministério do Interior, os comandos e formação são atribuídos em função de critérios étnicos. Os Basij (apesar da sua pequena capacidade combativa, contam com 90 000 homens, uma reserva de 300 000 e uma capacidade de mobilização de cerca de 1 milhão, divididos por 740 batalhões regionais) constituem, apesar de tudo, um instrumento muito útil de mobilização das forças tribais, na eventualidade de um conflito armado com o Exterior. A sua fraca capacidade combativa em Guerra convencional pode ser largamente compensada em Guerra de guerrilha.
 
 
4.  Conclusão - a Combustão iraniana
 
O Irão é, geograficamente, um extenso Planalto orientado no eixo noroeste-sudeste, em grande parte coberto por estepes e desertos salgados. De todos os lados, é rodeado por cadeias montanhosas (os montes Elbruz fechando o Norte, os montes Zagros, a Oeste e a cadeia do Baluquistão, a Sudeste). Tirando Isphaan e Querman, o centro do Irão é desabitado e desértico. ‘“Por isso “, como dizia o Xá Rheza Pahlevi11 “a Pérsia, no decurso dos séculos, teve por capital uma ou outra das grandes cidades periféricas: antes de Teerão, sob o Império, faz cabeças do país Susa, Ecbátana e Persépolis; Isphaan, Tabriz e Ardabil, no Azerbeidjão, sob os Safávidas.” No que respeita às aberturas, tem a Norte o mar Cáspio e a Sul, o Golfo Arabo-pérsico e, um pouco mais a Sul, o quase esquecido Mar de Oman. Por terra, o Irão liga-se ao Mediterrâneo por meio da Síria e do Iraque. Ora isto traduziu-se historicamente numa dominação da rota terrestre para o Mediterrâneo e na visão do Mar como algo fechado que servia para controlar o acesso a terra, mas não para se expandir.
 
É do Mar que o Irão aguarda historicamente um inimigo inteiramente exterior. Da plataforma continental, o Irão aguarda um inimigo que conta sempre com um aliado, consciente ou inconscientemente, no interior.
 
A eleição de Ahmedinejad, originalmente um radical de Direita, que quereria, enquanto estudante12, invadir a Embaixada russa, em vez da norte-americana, foi uma surpresa para a classe abastada que se aproximara, por razões de interesse, dos reformistas. Mas o candidato consentido por estes, Ali Rafsandjani, detém ainda o cargo de Presidente do Conselho de Expediente, organismo que, no fundo, determina todas as Leis. O facto de se não ter ainda aceite um nome para Ministro do Petróleo, após três nomes propostos, é disso sinal, sobretudo com o manancial de receitas que esta matéria-prima gera, na actual conjuntura, para Teerão.
 
O movimento Abadgaran, a Direita revolucionária que Ahmedinejad formara a partir duma Pequena-burguesia recentemente urbanizada, não é, no fundo, muito diferente do movimento reformista e pragmático que Rafsandjani liderara nos anos 90, os Kargozaran (“construtores”). O radicalismo dum Presidente que, afinal, é quarto ou quinto na hierarquia da Teocracia iraniana, continua a ser o expoente do zelo duma população extremamente jovem e com 14% de desempregados, clamando pela sua parte nos dividendos do desenvolvimento e sobretudo, nos réditos de um Petróleo caro. A mesma juventude que o elegera para Mayor de Teerão em 2003 e, para Presidente, com 63% dos sufrágios, poder-se-á depressa cansar e mudar de ídolo, no seu radicalismo, inclusive fazendo descarrilar um pró-ocidental moderado (como aconteceu com Bazarghan em 1978). A volatilidade xiita e a tradição civiliza­cional persa dar-lhe-ão margem de manobra para tal.
 
Mas o Irão é uma potência continental. A Geografia dotou-o de um Mar interior, o Cáspio e de um estreito, onde conta com comunidades xiitas leais, de cada lado. O Mar mais aberto que poderá ambicionar será o Mediterrâneo mas, daí, a História ensinou-lhe que proveio sempre uma grande instabili­dade. A expansão da sua civilização, que, inclusive, levou até os primeiros Cristãos (nestorianos) à China, no Séc IX, nunca fez dos Irão - ao contrário da Turquia Otomana - um país de marinheiros.
 
Ora, como diz a mundividência oriental, o fogo não se apaga com água, nem com a fluidez eventualmente trazida por uma potência marítima. O fogo apaga-se com o elemento terra. Por isso, a cultura mais antiga dos iranianos se exprimiu na preservação e controlo duma chama, no “centro”da Terra, como penhor da estabilidade do Céu e da Terra.
 
Há forças certamente que, a fim de prevalecerem numa luta interna, dentro da complexidade da sociedade iraniana, poderão arrancar decididamente no sentido da construção de bombas atómicas. Para isso, beneficiarão das suas conexões continentais com a China (por intermédio da Coreia do Norte), com a Rússia (enquanto Teerão aponte além do actual estatuto de observador da Organização da Cooperação de Xangai) e com o irredentismo terceiro-mundista de certo Islão, seja ele sunita, xiita ou ismaelita, repescando aqui os antecedentes iranianos do Sufismo, que percorrem transversalmente todo o Islão.
 
Mas o Irão baseou o seu saber no controlo da chama, pelo peso da terra. Na terra, o Irão constituiria um caso muito mais sério de guerrilha urbana generalizada do que o Iraque. Assim, os Pasdaran tiveram mais de vinte anos para criarem uma rede interna, regional e internacional que os sustente numa guerra sem fim, recorrendo, para isso, ao mais variado instrumental assimétrico. O Hezbollah libanês constitui o seu expositor e Laboratório13. Estão certa­mente bem envolvidos em guerras continuadas, como na Chechénia, no Iraque, na Palestina, no Líbano e talvez até no Xinjiang. As fronteiras que mantêm com a Al-Qaeda, o narco-tráfico ou certas bolsas de Terceiro-mundismo radical, depressa se poderão confundir numa rede que vai até aos anti-global, os jovens dos arredores de Paris, a ETA, as FARC colombianas, certas forças em Pretória ou outras nas antigas capitais imperiais Pequim e Moscovo.
 
A sua fraqueza reside nos excessos de “chama”, de que Ahmedinejad tem sido ultimamente protagonista mas não, certamente, no cuidadoso uso da “ameaça da ameaça nuclear” (ameaça da proliferação) com que jogaram com a Comunidade Internacional, durante vinte anos e fizeram recentemente perder a face à União Europeia. Ao contrário da Pyongyang, que está encravado entre o mar, a China e a Oblast (região) mais longínqua de Moscovo, o Irão está igualmente encravado, dum lado, pelo Mediterrâneo, ou seja, a Europa (sim, com a Turquia).
 
Além disso, Teerão, detém recursos energéticos e económicos que lhe permitem beneficiar de uma grande margem de manobra. Como se não bastasse, as estatísticas e modelos norte-americanos há muito que consideravam o Irão um exemplo de Estado-canalha14, com as máximas pontuações nos items “possibilidade de se envolver num conflito armado”, “iniciá-lo” ou “atacar primeiro”, todos avaliados no período 1990/2001, quando só teria sido ultrapassado pelo Iraque, quanto ao último índice.
 
A Teocracia iraniana não representou uma revolução contra o sistema imperial. Durante muito tempo foram os ayatollah a impedirem que a Monarquia se transformasse em República. A teocracia iraniana representa a substituição aristocrática e oligárquica de uma Monarquia com mais legitimidade externa que interna e de uma Dinastia saída de um pronunciamento militar, geradora dum fraco Rei. O Germanofilismo de Rheza Xá traduziu tanto o seu brio militar como a sua falta de tacto política. Por outro lado, o clero está profundamente inserido e disseminado pela sociedade iraniana. Tem suficiente flexibilidade para se adaptar a ela e não se encontram, no seu seio, as divisões regular/secular do clero de outras religiões. Ao contrário: estes clérigos têm as energias de um e de outro. Mas, seja qual for o regime, o Irão, na sua tradição de potência regional, precisa de um líder como foi Khomeiny e não o é certamente o tribuno popular Ahmedinejad quem o substituirá.
 
A actual classe dirigente iraniana poderá não saber dominar ou regular a chama de Zoroastro, mas só uma potência continental tem a densidade da terra para a apagar, como foram os mongóis. A fluidez trazida pela influência de uma potência marítima, só atiçará o fogo iraniano, levando-o a pegar-se por toda a região. O Ocidente poderá vir a estar face a uma questão de sobrevivência energética na zona, mas a cultura iraniana, que tem muito de ocidental, associa o fogo - o estado plasma da matéria - ao céu e ao ar, o que traduz a consciência de quanto o que se passa no Irão, tem repercussões globais.
 
O Irão não olha para baixo quando tem de fazer opções geopolíticas (a descoberta de Dario - o primeiro Imperador que mandou abrir um poço de petróleo, de onde a Nafta, ou as “lágrimas de Ahriman”, Senhor das Trevas, ardiam quase sem fim - habituou-os a um estado “plasma” entre o Universo de baixo, a Terra, e o Universo de cima, o Cosmos ou entre as necessidades geopolíticas regionais e o prestígio universal). Os persas fizeram uma síntese notável entre as culturas assírio-caldaica e o mundo já globalizado do Séc III antes de Cristo, quando até o seu relacionamento com a civilização helénica era de respeito mútuo, algo que ficou demonstrado na intervenção de Alexandre, o Grande, por um partido dinástico persa e na sua conversão sincretista que deu origem à Cultura de Gandara. No centro do Mundo, ou Aryiah, os iranianos consideravam-se também no ponto focal do Cosmos e, daí, a sua grande tradição astronómica. Por isso, o Irão tem uma noção do Globo, das mais antigas da Humanidade.
Em cenário de invasão do Irão, num momento de uma conjuntura petrolífera bastante favorável, um dos piores cenários para o Ocidente, seria, por um lado, o reacender da Guerra-Fria, onde ela começou (com a proclamada República Democrática do Azerbeijão - iraniano - em 1946). Por outro lado, seria obviamente a invasão do particularismo sunita que se encontra contido desde a Batalha de Lepanto, por um fino cimento legitimista e irredentista xiita, o qual faria certamente a transição entre o terceiro-mundismo radical dos anos 70 e o Islamismo. Ao contrário do sahada que é o primeiro dever do muçulmano sunita, o muçulmao xiita tem a faculdade, se não mesmo o dever, da taqqya, ou dissimulação da sua fé em tempos adversos.
 
Enquanto forças como a Al-Qaeda não oferecem senão um Terrorismo milenarista, o xiismo ofereceria uma flexibilidade política muito vasta, abrangente quer do nacionalismo árabe, quer dum conservadorismo que combina bem com civilização urbana e pujança científica. O Irão teve tempo suficiente de Revolução islâmica para acumular um manancial logístico muito superior ao que alimenta os Baathistas no Iraque. Os Pasdaran não se comparam, por formação e apetência, às Divisões blindadas da Guarda Republicana de Saddam Hussein, sendo até pioneiros em Guerra assimétrica anfíbia. O seu relacionamento com formas modernas de Guerra assimétrica e formas mais resquícias da Guerra-Fria é muito maior, a sua vocação universalista muito mais nítida que a Al-Qaeda e o seu laicismo muito mais amplo.
 
Para quem está atento ao desenvolvimento científico dos novos carbu­rantes, cuja combustão se processa no vácuo, nomeadamente os chamados propergol, há uma diferença clara entre detonação e deflagração, que não é apenas linguística: a aceleração crítica da temperatura faz-se entre o momento de decomposição da matéria e o chamado período de ebulição.
 
Ora, não é desajustado utilizar esta imagem em relação ao Irão: um vácuo de Poder faz do Irão um engenho prestes a deflagrar, sobretudo quando a decomposição da matéria social está como nunca, na História da Pérsia, perpassada por um clero que se confunde com os laicos, a todos os níveis. Eles não precisam de ar para manter a terra iraniana em estado permanente de deflagração, como um propergol. Qualquer discurso que minimize os “reformistas” considerando-os iguais aos outros e advogando simplesmente uma solução de mudança do regime a partir do Exterior, está a tirar o ar indispensável ao controlo da chama antiga do Irão. As recentes declarações de Moqtada al-Sadr, em Bagdad, que a sua milícia do Mahdi, se baterá ao lado do Irão, caso este seja atacado, só aduzem nesse sentido.
 
O perigo, no Irão, não é uma explosão. Sem minimizar a existência de um programa nuclear militar, o perigo no Irão é o de uma combustão explosiva permanente ou, usando as palavras bem, uma deflagração.
 
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* As opiniões expressas pelo autor neste artigo são de carácter pessoal.
**     Diplomata e Auditor do Instituto de Defesa Nacional, presentemente exercendo funções diplomáticas na DELNATO, em Bruxelas, foi anteriormente Conselheiro de Investigação do Colégio de Defesa da NATO, em Roma.
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 1 Vd. www.diepresse.com (Das iranische Präsidente zitierte), 42-01-06.
 2 Discurso feito no Majlis, em Teerão, em 1988.
 3 V. Peter Avery in “Balancing Factors in Irano-Islamic Politics and Society”, Middle East Journal, V.50, n.2, Primavera 1996, Nota 5).
 4 M.Rheza Pahlevi,”Réponse à l’Histoire”, Albin Michel, Paris, 1980. p. 77. Mais abaixo, o Autor surpreende-se com os que o acusavam, em 1978, de ser esse o seu maior “crime”, uma desmedida ambição pessoal, e anotava todas estas críticas surgirem ao mesmo tempo que se negava à RATP francesa a construção do Metro de Teerão. De facto, a energia nuclear num país contendo 3/4 das reservas de Petróleo do Médio-Oriente, ocupando uma posição ambivalente na Eurásia, podia bem ter-lhe custado a Coroa, como as simpatias germanófilas de seu pai já lhe haviam custado a sua.
 5 Vd. Anthony Cordesman in “Iran’s Developing Military Capabilities”, CSS, Washington, 2005.
 6 Vd. Anthony Cordesman in “World Military Expenditures and Arms Transfers 1999-2000” US Department of State, Washington D.C..
 7 Vd. Al Venter in “Iran’s Nuclear Option - Tehran’s Quest for the Atom Bomb”, Casemate, Philadelphia, 2005, pp. 205.
 8 Vd. www.fas.org.
 9 Vd. Jane’s Defence Weekly, 09-12-1998.
10 Vd.Jane’s Defence, Junho de 1995.
11 Vd. M. R. Pahlevi, Ibidem, p. 77.
12 Marie Thérèse Delpech in “’’’ Les Trois Européens à Tehéran”, Politique Internationale, n.109, Automne 2005, pp.165, 176.
13 Vd. Karin Kneissel in “ Hizbollah: Libanesische Widerstandsbewegung, Islamische Terrorgruppe oder Bloss eine Politische Partei - Eine Untersuchung de Schiitischen Massenbewegung Hizbollah im libanesischen und regionalen Kontext”, Landesverteidigungsakademie (Schriftenreihe), Viena, Abril 2002, pp. 38/45.
14 Vd.Mary Caprioli e Peter Trumbore “ Rethoric v. Reality: Rogue-States in interstate conflict”, in Journal of Conflict Resolution, V.49, n.5, Outrubro 2005, pp. 770/791.
 
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2006-05-01
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Doutor

André Sopas de Mello Bandeira

Conselheiro de Embaixada.

Doutor em Ciência Política (Teoria Política) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2010.

Investigador para a Câmara de Comércio luso-brasileira de Minas Gerais;

Professor do Centro de Estudos de Direito Internacional de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Encarregado de Curso sobre a União Europeia do Centro de Estudos de Direito Internacional de Belo Horizonte.

Membro do Departamento de Investigação do Colégio da NATO.

Cônsul Em Belo Horizonte, entre 2009 e 2014.

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by CMG Armando Dias Correia