Nº 2509/2510 - Fevereiro/Março de 2011
EDITORIAL - A Europa e o Mediterrâneo
General
Gabriel Augusto do Espírito Santo
A Europa e o Mediterrâneo
 
A importância do Mediterrâneo para a Europa demonstra-se pela geografia, pela história e pela cultura. Une continentes, o controlo das suas margens foi palco de disputas e de conflitos violentos e como via de comunicação serviu o encontro de culturas.
 
No novo mundo geoestratégico que se viveu na última década do século passado, depois de um século em que dois conflitos mundiais tiveram como área de operações importante o Mediterrâneo e cujo controlo se manteve em disputa durante o período da guerra-fria, a Europa, numa nova configuração económica e estratégica, voltou de novo a sua atenção para o Mediterrâneo. Em 1995, na Conferência Europa - Mediterrâneo, a União Europeia, manifestando a sua intenção de iniciar uma parceria para fortalecer as relações com os países do Mediterrâneo, iniciou aquilo que nas relações internacionais contemporâneas se designa pelo “Processo de Barcelona”.
 
Com uma agenda cobrindo áreas específicas de cooperação (as de Política e Segurança, a Económica e do Comércio, a Sócio-Cultural e a da Justiça e Assuntos Internos), a intenção inicial tem-se fortalecido, proliferando em tratados e parcerias, das quais a mais recente se designa por União para o  Mediterrâneo, que data de 2005 e engloba 27 países membros da União Europeia e 16 países do Mediterrâneo (Norte de África, Médio Oriente e Balcãs; a Líbia não integra a parceria).
 
Os esforços desenvolvidos permitiram melhorias significativas nas trocas comerciais entre as duas margens do Mediterrâneo, fortalecendo algumas interdependências entretanto consolidadas com a globalização, com relevo para os recursos energéticos que faltam na Europa e abundam em países do Norte de África e do Médio Oriente. A navegação no mar interior e condicionado pelas suas entradas naturais ou construídas pelo homem, como o canal de Suez, tem-se processado sem grandes sobressaltos, mesmo quando os Balcãs entraram em crise.
 
Os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 vieram trazer novos dados de instabilidade para esta região geoestratégica fragmentada no espaço, nas economias e nas culturas, que se têm agravado progressivamente. Os conflitos latentes não avançam para soluções estáveis e outros nasceram com rápidas e preocupantes escaladas na violência e no alargamento geográfico. O Mediterrâneo continua a ser uma área fundamental para a segurança europeia, mas a Agenda para a região, demasiada preocupada com as questões da economia e comércio, justiça e assuntos internos, têm, também aqui, esquecido as questões de segurança e da defesa.
 
Resultados? Estão à vista. Na margem europeia do Mediterrâneo as economias estão em crise ou colapso. A defesa da Europa sem estratégia, sem meios humanos, sem equipamentos e sem orçamentos tem esquecido esta área fundamental para a sua segurança e defesa e tem orientado os seus esforços para a diplomacia, esquecendo instrumentos fundamentais para lhe dar credibilidade.
 
Nas outras margens do Mediterrâneo instalou-se a instabilidade. Não há choque de civilizações, há falta de esperança e de dignidade no viver. Quem pode foge. Quem fica é morto ou acomoda-se.
 
É urgente que a Europa, das ilusões e promessas, actue. Lembrando a história do Mediterrâneo e das suas convulsões, recordando passados recentes, olhando com pragmatismo para as suas debilidades e dependências. Activando rapidamente o seu Processo de Barcelona, revendo a Agenda e procurando activar soluções regionais para que as Nações Unidas não estão preparadas. Revendo a sua Estratégia de Segurança e Defesa Comum e levando os estados membros da União Europeia a reverem rapidamente os seus Conceitos que estão desajustados à situação. A Europa não deve, mais uma vez, esperar que os EUA actuem por si e no seu interesse. Em cada dia que passa, a resposta torna-se mais difícil.
 
 
*      Presidente da Direcção da Revista Militar.
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General

Gabriel Augusto do Espírito Santo

Nasceu em Bragança em 8 de Outubro de 1935.

É General do Exército, na situação de Reforma desde o ano 2000, depois de ter servido nas Forças Armadas Portuguesas durante 49 anos.

Além de Tirocínios e Estágios na sua Arma de origem possui os Cursos da Escola do Exército (Artilharia), Curso Complementar de Estado-Maior e Curso Superior de Comando e Direcção (Instituto de Altos Estudos Militares), Curso de Comando e Estado-Maior (Brasil) e o Curso do Colégio de Defesa Nato (Roma).

Falecido em 17 de outubro de 2014.

REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia