Nº 2512 - Maio de 2011
EDITORIAL - As Crises e a Estratégia
General
Gabriel Augusto do Espírito Santo
As Crises e a Estratégia
 
Pelo que todos vamos ouvindo, diferentemente orquestrado e amplificado e necessitando algumas vezes de descodificadores para eliminar ruídos de fundo, e pelo que muitos já vão sentindo, Portugal vive mais uma crise da sua História. Crise que afecta a soberania e a liberdade de acção do Estado, que afecta a Nação e os seus cidadãos no seu estilo de vida, mas que é diferente de outras do pas­sado. Não há forças hostis nas fronteiras terrestres nem esquadras ameaçadoras na barra do Tejo, mas os cofres vão ficando sem meios para pagar as dívidas contraídas e perdeu-se a liberdade de cunhar moeda. Pedem-se sacrifícios aos portugueses. Felizmente, e desta vez, não se lhes pede que sacrifiquem a vida.
 
Porque chegámos aqui? As opiniões dividem-se. Fiéis aos princípios que orientam o nosso estatuto redactorial fixemo-nos numa causa. Porque esque­cemos a estratégia, o seu método e os seus princípios.
 
Esqueceu-se a estratégia entendida “como a ciência e a arte de, à luz dos fins de uma organização, estabelecer e hierarquizar objectivos e gerar, estru­turar e utilizar recursos, tangíveis e intangíveis, a fim de se atingiram aqueles objectivos, num ambiente admitido como conflitual ou competitivo (ambiente agónico) 1. Estratégia também entendida como ciência e arte na paz ou na guerra, não a limitando à coacção, como a entendem outros autores com rigo­rosa fundamentação, mas e subordinada à política, a quem compete, em cada momento e de acordo com a filosofia que a informa, estabelecer e hierarquizar objectivos e estruturar e utilizar recursos.
 
Esqueceu-se o método da estratégia, que tendo como finalidade o interesse nacional, deve formular objectivos a atingir de acordo com o País que somos, tendo em conta as suas potencialidades e vulnerabilidades estratégicas, e nas enquadrantes de ambiente externo e de ambiente interno que em cada momento o condicionam.
 
Esqueceram-se, também, princípios da estratégia, laboriosa e cuidadosamente formulados através dos tempos, na paz e na guerra, onde queremos sublinhar o da segurança e o da adequação dos meios aos objectivos pretendidos.
 
Em Portugal proliferam as estratégias sectoriais ou parcelares, com alguma vulgarização do termo e sua apropriação para várias finalidades. Mas não há cultura da Estratégia, desconhece-se o método e esquece-se o seu ponto de partida, que é o País que somos. Essa cultura deu os seus primeiros passos no extinto Instituto de Altos Estudos Militares há algumas dezenas de anos, que depois se prolongou para o Instituto da Defesa Nacional, quando criado, e migrou posteriormente para algumas Universidades onde, a custo, se têm sedimentado estudos da Estratégia. Mas a cultura da Estratégia ainda não atingiu a Política e o Estado, com consequências imediatas na formulação de objectivos, no esta­belecimento de prazos, que é o tempo na Estratégia, na dispersão de meios e na falha de consensos e mobilização de vontades para o seu sucesso.
 
Parece-nos que a crise que atingiu Portugal e os portugueses necessita de uma Estratégia (ou de uma Grande Estratégia, como a entendem alguns académicos) para a superar, começando por não esquecer que as crises, em democracia, se superam com mais democracia.
 
Estratégia que tem de voltar a pensar o País que somos, no seu espaço, população, recursos, estruturas e capacidades de inventar e fazer, para avaliar capacidades e vulnerabilidades estratégicas, que permita no ambiente externo e interno que o mundo globalizado criou, a formulação de objectivos realistas e exequíveis.
 
Estratégia que permita adequar recursos a objectivos desejados, sem criar expectativas de ilusão que depois conduzam a frustrações e revoltas, mas que permitam consensos de opiniões diversas, levando à mobilização de vontades.
 
Estratégia que possa ser prosseguida em segurança, criando e fortalecendo essa segurança, num ambiente hostil de ameaças impensadas e riscos perma­nentes. Segurança que não pode continuar descuidada como até agora, sem uma definição clara e perceptível por todos, sem órgãos directores e coorde­nadores, sem informação atempada, com dispersão de recursos e com textos constitucionais desajustados à realidade actual do mundo e da sociedade.
 
Mais uma vez, como noutros períodos da História de Portugal, a crise terá de ter uma grande estratégia para cuidar do Estado, das finanças e da segurança. Teremos de ser nós portugueses a vencê-la.
 
______________
 
* Presidente da Direcção da Revista Militar.
 
1 Tenente-general Abel Cabral Couto, 1998.
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General

Gabriel Augusto do Espírito Santo

Nasceu em Bragança em 8 de Outubro de 1935.

É General do Exército, na situação de Reforma desde o ano 2000, depois de ter servido nas Forças Armadas Portuguesas durante 49 anos.

Além de Tirocínios e Estágios na sua Arma de origem possui os Cursos da Escola do Exército (Artilharia), Curso Complementar de Estado-Maior e Curso Superior de Comando e Direcção (Instituto de Altos Estudos Militares), Curso de Comando e Estado-Maior (Brasil) e o Curso do Colégio de Defesa Nato (Roma).

Falecido em 17 de outubro de 2014.

REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia