Nº 2521/2522 - Fevereiro/Março de 2012
Sobre as condicionantes políticas e diplomáticas de Portugal durante a Guerra Peninsular (1808-1814)
Doutor
Pedro de Avillez
I - O Pensamento Político e Militar de Napoleão
 
O sistema europeu do mando de Napoleão
 
Napoleão dizia “há muitos e bons generais na Europa, mas vêm demasiadas coisas; eu não vejo mais que uma...” Também dizia “o meu talento é ver claro”.
 
Para o estudioso de História contemporânea o problema está exactamente em ver claramente uma só coisa, em discernir no meio do turbilhão dos acontecimentos sociais, económicos militares, nacionais e internacionais, a última e firme linha política, o argumento, o fio condutor. Falar do pensamento político e militar de Napoleão também tem essa dificuldade, discernir entre tantos escritos.
 
Luteranismo, cartesianismo e liberalismo de Rousseau levam-nos, em termos nacionais, às teses políticas do individualismo, da pessoa. Tudo foi empurrado pelo desenvolvimento do movimento iluminista de Rousseau. A idade contemporânea, pós-renascimento, viverá do problema “constitucional”, que irá abordar a situação do indivíduo na comunidade nacional. Já em termos de relações internacionais, será a afirmação da “pluralidade” e da “soberania” das nações. A Comunidade Internacional procurará uma ordem, uma norma de vida na variedade das nações.
 
Para falar da ordem internacional entre as nações temos que começar por distinguir qual o racional ou a definição de uma direcção da organização do poder. Em termos lógicos só temos quatro soluções: manda um, mandam vários, não manda nenhum, mandam todos. Nos finais do século XVIII e princípios do século XIX, na Europa viveu-se em torno de três destes quatro modelos. O mando de um, que foi o Império Napoleónico europeu, o mando de vários, o Directório e o Congresso de Viena, e o mando de nenhum, a Europa dos “equilíbrios de poder”.
 
Debrucemo-nos então neste ensaio sobre o mando de um, na organização Napoleónica. O mando de todos, só começará a realizar-se mais tarde, no século XX com a Sociedade das Nações e a O.N.U….
 
Estudar Napoleão
 
A grande dificuldade de estudar o período napoleónico começa por ser a abundância asfixiante de bibliografia. Já no princípio do século XX Bainville dizia que uma boa biblioteca napoleónica deveria ter uns 10.000 livros e o essencial seriam cerca de 500 obras. A Bibliographie des Napoleonischen Zeitalters publicada por Kircheisen em Berlim em 1908-12, referia mais de 100.000 títulos! Segundo Jean Tulard hoje serão pelo menos 200.000 títulos... Em termos pessoais, possuo apenas umas modestas 900 obras, incluindo os cerca de 60 livros publicados pela Tribuna da História sobre esta época, e confesso que tenho dificuldade em as assimilar todas...
 
Tentar definir Napoleão
 
Um dos biógrafos de Napoleão, Teixeira de Pascoaes, dizia “Napoleão não cabe na sua época. É um Deus da Antiguidade que se atrasou no caminho”. Mas Napoleão afinal era apenas um ser humano, como nos lembra a cena, imortalizada no quadro de David, do jovem general Bonaparte trajando paramentos teatrais e avançando com grande pompa para o altar na Catedral de Notre-Dame, onde o esperava o Papa para o seu coroamento, o sacre, rodeado de uma multidão de dignitários ricamente aperaltados, alegadamente se voltou para o seu irmão mais velho, sussurrando: “José, se o nosso pai nos visse!..”.
 
Todos os seus actos foram recolhidos, analisados, discutidos. Todas as suas palavras também. Dai a confusão no que respeita às suas concepções políticas, às suas ideias e ao “sistema napoleónico”. A contradição dos textos provoca muitas confusões. Por vezes dizia uma coisa, outras vezes dizia o contrário. Talvez tenha sido sincero as duas vezes, talvez não tenha sido sincero nenhuma. Hilaire Belloc (Napoleon, Londres 1934 p.12) concluía: “uma breve leitura de Napoleão convence-nos que fala livremente e contraditoriamente, às vezes com um objectivo, por vezes com outro. Amiúde, é tão-somente a expressão momentânea de qualquer fantasia que lhe passa na cabeça, de uma paixão ou de alguma desculpa.” Em 31 Março 1797 em Klagenfurt, dirigindo-se ao Arquiduque Carlos, generalíssimo austríaco, Napoleão, como general vitorioso de Itália, disse: “Senhor General-Chefe, os militares valentes fazem a guerra e desejam a paz... se a proposta que tenho a honra de vos fazer pode salvar a vida de somente um homem, sentir-me-ei mais orgulhoso dos louros cívicos que haverei merecido, que das glórias que podem advir das minhas vitórias militares”. Porém em Dresden, em 26 de Junho de 1813 Napoleão assegura a Metternich: “vós não sois soldado e não sabeis o que se passa na alma de um soldado...um homem como eu não se preocupa com a vida de um milhão de homens!”. Em cada momento utiliza a linguagem adequada, que a ocasião faz contraditória.
 
De jovem oficial a figura política
 
Em 1789, jovem oficial com 20 anos é mandado reprimir os habitantes de uma aldeia sublevada com quem a sua consciência política simpatiza. Antes dos seus soldados dispararem grita: “que a gente honrada volte a suas casas. Só disparo sobre a canalha!” A multidão dispersou-se… não queria ser associada à canalha! A sua militância revolucionária levá-lo-á, quando da repressão violenta em Paris no cerco popular à Assembleia em 20 de Junho 1792, a dizer a Bourrienne: “varridos 400 ou 500 com os canhões, o resto desaparecerá a correr...”. Mais tarde no 13 Vendimário, depois da queda de Robespierre, enquanto se discutia o direito de usar a força contra a força, contra as revoltas populares realistas, contou ele próprio nas suas memórias ter dito: “estão à espera que o povo lhes dê autorização para atirar contra eles?... Então abandonei os advogados que se afogavam em palavras, e fiz marchar as tropas!”.
 
Desde cadete já era devorador de livros, em particular leitor entusiasta de Voltaire e Rousseau. Anteriormente à revolução francesa militava no ódio à França, em defesa da sua Córsega natal anexada à monarquia francesa. As suas actividades políticas na adolescência obrigam-no a refugiar-se em França onde envereda na carreira de oficial de artilharia, e segundo testemunhos consagra todo o seu tempo livre na leitura do ideário iluminista do seu século. Com o rebentar da Revolução Francesa adere logo ao movimento revolucionário. Este desprendimento de pátria e de adesão ideológica preferencial, explica talvez a sua insensibilidade aos sentimentos nacionalistas que mais tarde a sua política externa irá provocar na Europa.
 
As ideias do primeiro cônsul
 
Abandonando o seu exército expedicionário da República no Egipto, chega a Paris em Outubro de 1799, rodeado dos seus fiéis oficiais e começa, com a colaboração de seu irmão Lucien, Presidente do Concelho dos Quinhentos, e de republicanos Jacobinos moderados, a preparação para o golpe de estado que irá substituir o Directório jacobino por um triunvirato de Cônsules. Napoleão envereda pela sua carreira política convencido do seu destino histórico. Mas irá procurar uma base de apoio consensual. Já Cônsul, em Novembro de 1799, na sua proclamação de Consulado diz: “para consolidar a República é preciso que as leis sejam baseadas na moderação, na ordem e na justiça. A moderação é a base da moral e a primeira virtude do homem. Sem ela o homem não é mais que uma besta feroz, sem ela pode existir uma facção mas nunca um Governo nacional”. Mais tarde dirá a Cambacérès: “governar com um partido é colocar-se tarde ou cedo na sua dependência. Não cairei nisso. Eu sou nacional”. Ao assumir a função de membro do triunvirato do Consulado em Dezembro de 1799, declara no Concelho de Estado: “acabemos a novela da Revolução, agora é preciso começar a História”. Mas não esquece que a sua legitimidade política será a sua ligação ao período revolucionário. Depois de escapar a um atentado em Dezembro 1800 na rua St. Nicaise, dirá: “queriam destruir a Revolução atacando a minha pessoa; defendê-la-ei porque eu sou a Revolução!”
 
Madame de Staël no entanto em 1798 advertia já da ilusão com o jovem general herói com propostas de ditador, com quem todos os políticos se entusiasmavam na ânsia em conseguir a paz social numa França cansada de violência e dizimada por anos agrícolas sucessivamente catastróficos, e escrevia: ”Era a esperança de uns e outros; republicanos, monárquicos, todos viam o presente e o futuro no apoio da sua mão forte”. (Madame de Staël será expulsa de França em Outubro de 1803). Os franceses procuravam um conciliador que conseguisse unir as mudanças políticas e sociais da Revolução com a França tradicional e cristã. O pensamento de Napoleão neste ponto era bem claro, o governo da República terá que se esforçar para que as lutas entre franceses tenham que acabar.
 
A Constituição que irá criar o governo executivo da República entregue a um triunvirato de Cônsules será aceite por um plebiscito. Napoleão como Primeiro Cônsul irá iniciar o seu trabalho de união da República com a França religiosa, ele que era ateu, celebrando uma Concordata que conseguiu com alguma dificuldade fazer aceitar pelos seus correligionários Jacobinos, assinada em julho de 1801. Seguir-se-à o seu casamento religioso com Josefina e depois o coroamento pelo Papa, ambos em Dezembro de 1804.
 
Depois ocupou-se da facção monárquica da França profunda. Primeiro, para afastar o perigo latente de conspirações monárquicas, irá organizar em 15 de Março de 1804 o rapto na Alemanha do duque d’Enghien, membro da família Bourbon, sobrinho de Filipe d’Orleans, que cinco dias depois será discreta e sumariamente julgado e rapidamente fuzilado na fortaleza de Vincennes, num processo atabalhoado, injusto e cruel. “Bonaparte cesse d’être un possible Monk pour devenir un futur usurpateur...” (Alfred Fierro, Histoire e Dictionaire du Consulat et de l’Empire, Laffont, 1995). Mas a França está ansiosa para ultrapassar os 15 anos de violências, e conseguir um viável entendimento social. Já antes no Directório haviam começado amnistias, entregas de patrimónios confiscados e pequenas indemnizações, o que irá facilitar o trabalho de Napoleão “aglutinador” dos franceses.
 
A criação do império francês
 
A criação do Império em Dezembro de 1804 será plebiscitada, com o voto favorável de 92% dos três milhões e meio de votantes, cerca de 10% da população francesa. A República dos Jacobinos foi construída na base de poder de uma elite burguesa de notáveis. No exílio em Santa Helena Napoleão dirá: “quanto mais o povo é esclarecido, mais haverá gente convencida da necessidade das leis, da necessidade de serem defendidos e mais a sociedade será sensata, feliz e próspera” (Las Cases, Memorial, 29 de Novembro de 1815). Longe de considerar a promoção social e cultural, Napoleão só pensava na importância e influência de uma elite poderosa, fundamento e senhora da gestão da sociedade, e é a esta criação e ao seu reforço que se irá consagrar. Neste sentido, a fusão dos vestígios dos “antigos privilegiados vítimas da Revolução”, com os “novos poderosos” nascidos com esta, passou a ser o seu imperativo. O essencial era deixar bem visível a autoridade política como fonte fundamental de todo o poder social. A ideia de reservar de facto a vida política a uma elite já vinha da Constituinte, onde a distinção entre cidadãos passivos e activos permitia conciliar a teoria com a realidade. A “igualdade entre todos”, mas pragmaticamente a utilidade de reservar o poder aqueles que conciliavam a inteligência e o interesse. Na realidade quis conciliar a igualdade e a riqueza, mas esta última de facto impôs-se como único fundamento da selecção! Através de eleições para órgãos das várias Assembleias, que se delegavam em escalões sucessivos, os deputados da Assembleia final, a Assembleia Nacional, acabavam sempre por ser recrutados entre os notáveis da sociedade.
 
No sentido de conciliar a República com a nobreza do Antigo Regime, que como acima referimos fora já iniciado com o Directório e com o Consulado, os cadastros de “emigrados” continuaram a ser encerrados, algumas propriedades devolvidas e indemnizações parciais concedidas. Napoleão irá criar 3.600 títulos de nobreza (22.5% a originários de nobreza antiga, 58% de origem burguesa e 20% de origens humildes) sendo 59% concedidos a militares, e cria dezassete mil famílias de nova nobreza de Império que se juntarão aos cento e cinquenta mil familiares nobres do Antigo Regime, numa França de cerca de trinta e cinco milhões de habitantes em 1804. Napoleão irá acelerar essa fusão dos “Flor de Lys” e dos “Abelha”. Numerosos embaixadores e altos funcionários do regime são já de origem nobre. Em 1814 43% dos Prefeitos (Governadores Civis) em França são de origem nobre! A sociedade francesa do Império está longe da França republicana da Convenção e mesmo do Directório.
 
E o povo e as classes trabalhadoras? Difícil de encontrar estatísticas e trabalhos credíveis. A escola de historiadores marxistas apresenta-os como aliados objectivos da burguesia, outros insistem nas suas misérias. Mas o mundo rural, cerca de 80% da população, evoluiu melhor nos finais do século XVIII e mesmo depois da revolução. Os preços de produtos cresceram 20% de 1800 a 1810 e os salários de 30%. Uma boa parte do dinheiro ganho e poupança vai para a compra de terrenos, servindo uma “fome de terra” que será a grande característica dos camponeses franceses até ao século XX. O operariado, que representava cerca de 7 a 10% da população francesa, acompanha o crescimento da industrialização ainda incipiente. A supressão das corporações irá multiplicar o número de pequenas oficinas nas cidades, mas destas a única grande cidade é Paris, com 600.000 habitantes em 1814, pouco mais do dobro de Lisboa. As restantes vêm as suas populações reduzirem-se em relação ao final do Antigo Regime. Até 1810 o emprego esteve próximo do pleno, sendo o elemento mais marcante deste período a quantidade de trabalho “por realizar” por insuficiência de mão d’obra, lacuna acentuada pelo peso da conscrição. Esta situação que se prolongou até 1811, fez subir a média dos salários na época napoleónica na indústria e serviços, entre 1804 e 1810, de 25% na província e 33% em Paris. De 1811 até ao final do Império, as dificuldades agrárias e na indústria têxtil, a guerra em solo francês e a decadência política, farão cair todos os rendimentos e salários cerca de 30%. (André Palluel-Guibert, Les Événements en France, Laffont, 1995).
 
A política externa herdada e a construção do império
 
Todas as teses sobre a política exterior de Napoleão, que criou conflitos e guerras em toda a Europa, podem reduzir-se a duas:
 
1.ª)     Que as guerras foram meras lutas defensivas contra a agressão dos inimigos da França Republicana;
 
2.ª)     Que pelo contrário, foi uma agressão ambiciosa de imperador conquistador.
 
No nosso entender não se tratou nem de uma nem de outra tese, mas da continuação de uma política herdada. Napoleão é totalmente herdeiro da Revolução, que formou a sua mentalidade e lhe deixou uma situação política nacional por resolver. Os grandes movimentos da sua política externa não são mais que a continuação das ambições políticas da monarquia francesa dos reis Bourbons, como aliás sempre o foram no período do Directório e do Consulado. As políticas encetadas ultrapassam de muito as manobras de defesa fronteiriça, ou os apoios ideológicos a facções revolucionárias de este ou aquele país! Quando Napoleão continua a política girondina de alargamento das fronteiras francesas, não o faz para libertar populações, mas primeiro para reconstruir aquilo que os seus antecessores chamavam as fronteiras naturais da França.
 
Mas Napoleão quis ir mais longe. Já em 1803, ainda Primeiro Cônsul, dizia a Miot de Melito:
 
“O meu projecto exigia a ordenação da Europa debaixo de um só chefe, que tivesse como oficiais às ordens os reis, que distribuísse reinos aos seus lugar-tenentes, que fizesse um rei de Itália, ao outro da Baviera, a este landamman de Suíça, àquele stauthouder da Holanda, todos com cargos na sua casa imperial, com os títulos de copeiro-mor, reposteiro-mor, mordomo-mor, monteiro-mor.... Dir-se-á que este plano não é mais que uma imitação de como o Sacro Império Alemão foi estabelecido, que estas ideias não são novas; mas nunca há nada de absolutamente novo; as instituições políticas não fazem mais que andar á roda, e por vezes há que voltar a fazer o mesmo.”
 
O império franco-cêntrico de Napoleão foi construído na perspectiva da grandeza da França e do seu soberano, reconstruindo o mítico império de Carlos Magno, visando assim a alimentação da sua Glória pessoal à custa dos seus vizinhos, que arruinava. “Eu tinha querido o Império do mundo!” confessou Napoleão durante os Cem Dias a Benjamin Constant. Nenhuma nação anexada ou aliada viu a sua economia prosperar. O imperador era um déspota num Estado omnipresente. A polícia e censura que instalava eram um retrocesso em relação à relativa tolerância das sociedades do Antigo Regime, porque mais militantemente política. O Império matou as liberdades, desfez culturas e nações, tirou poder e relevância às Assembleias, e esqueceu-se voluntariamente da Revolução Francesa que considerava utópica e insustentável. A Europa tinha no seu seio várias nações, com origens étnicas diferentes, com percursos históricos profundamente vividos e com opções de organização política e social diversas. Napoleão despreza as personalidades nacionais dos estados europeus e os seus patrimónios. Nenhuma nação aceitou a “pax napoleónica” de bom grado. A habilidade no uso da força militar é a grande qualidade napoleónica. É certo que o sucesso militar e a meritocracia que promete criar, irá criar de início uma proposta romântica e entusiasmará na altura muitos sectores da juventude europeia. No entanto os povos europeus invadidos ou coagidos não se entusiasmarão pelas suas promessas de reformas e não se iludirão com a sua proposta imperial. Fora da França Napoleão não será popular. Viam que na essência tudo era para servir a ambição de um homem que tinha a pretensão de desenhar e impor um mundo, que ele achava ideal e obrigatório, a todos os países da Europa. A epopeia napoleónica será mais uma tentativa de criação de um império europeu ao serviço de um e imposto aos outros. Como todas as outras tentativas que tiveram lugar desde o império romano até aos nossos dias, de agregação das nações europeias pela força num grande império europeu, o projecto napoleónico irá falhar com tremendos custos humanos para os Franceses e para os outros povos da Europa.
 
 
II - A Revolução Francesa, Napoleão e a Génese do Liberalismo em Portugal
 
Muitos escritores portugueses têm querido explicar a génese do liberalismo em Portugal no início do século XIX como sendo uma corrente de pensamento político nascida com a Revolução Francesa e,
 
- Trazida para Portugal pelos soldados dos exércitos napoleónicos que nos invadiram, e/ou
 
- Trazido para Portugal e pelos oficiais e soldados portugueses que seguiram para França com a depois chamada Legião Portuguesa, e/ou
 
- Propagada em Portugal pelos civis que privaram com as forças ocupantes francesas.
 
Seria assim a ideologia da Revolução Francesa que nos teria arrancado ao Antigo Regime, à monarquia Absoluta de D. João VI e à influência política abusadora da Grã-Bretanha na sociedade portuguesa. Os conspiradores afrancesados de 1817 e 1820 seriam os promotores nacionais desta ideologia importada.
 
A influência da revolução francesa e as consequências das invasões
 
Esta interpretação da história, acima referida, é importante e consequente. Explica-nos assim a razão por que alguns textos em livros e revistas que têm recentemente vindo a público, se refiram com simpatia por vezes mal disfarçada aos soldados napoleónicos que, com brutalidade inegável, invadiram o nosso país, chegando mesmo a enfatizar que esses exércitos eram portadores de civilização e ciência! Acrescentam alguns que os soldados britânicos aliados estavam cá a defender os seus interesses (que interesses deveriam defender?) e que faziam mais destruições que os soldados franceses, opinião que nunca se viu demonstrada em textos da época. Há como que uma intenção em inverter papéis de protagonismo histórico.
 
À luz de uma historiografia mais recente, menos ideológica e mais escrupulosa não encontramos no seu trabalho evidência histórica que possa suportar a interpretação de que o ideário liberal, que representou um avanço histórico na democratização progressiva da sociedade portuguesa, seja essencialmente uma criação das ideias da Revolução Francesa, e que este ideário nos tenham sido trazido hipocritamente pelo exército invasor napoleónico. Pensamos que no ideário político português anteriormente às revoluções americana e francesa, vivia-se já uma evolução significativa da sociedade portuguesa, no sentido da progressiva implementação de estruturas e instituições de cariz liberal e democrático. A rejeição da grande maioria da população portuguesa das ideias e valores franceses, à época das brutais invasões, é um facto histórico bem documentado. Porque mais do que uma ideologia, Napoleão tentava impor um projecto Europeu Franco-cêntrico. O entusiasmo dos portugueses era difícil de mobilizar para um Império Napoleónico. Se tinham já rejeitado cento e cinquenta anos antes, e com 28 anos de guerra e sacrifícios, a inserção da nação portuguesa num império Ibérico, porque raio do diabo os portugueses se iriam entusiasmar em serem uma província do Senhor Napoleão, que só lhes trazia lágrimas, suor e sangue, e a integração num modelo de sociedade que lhes era estrangeiro?
 
Em 1812, os anos de glória, promessas e esperança do projecto europeu de Napoleão estavam já para trás. A sua proposta política estava desacreditada em toda a Europa ocupada, e os estados ainda independentes foram forçados a alianças prepotentes. Mesmo aqueles que como Beethoven em 1805 tinham saudado a chegada do novo herói redentor, levantavam-se agora a partir de 1807 contra a proposta da nova sociedade napoleónica, que mascarava apenas a sua ambição de emulação de Carlos Magno, num projecto imperial Europeu de dominação francesa. Em todos os países “libertos” por Napoleão as populações procuravam a revolta. Aos que esperavam mais prosperidade, mais liberdades, mais direitos garantidos e maior participação política, Napoleão oferecia só a sua sociedade militarizada, hierárquica, policiada e comandada de Paris, sem considerar as heranças históricas e as culturas próprias de cada povo, nem interesses económicos ou simplesmente comerciais para os quais tinha pouca sensibilidade e paciência. As políticas de Napoleão irão provocar o aparecimento de um forte nacionalismo na Europa. Cada povo procurou a evolução política e social na sua cultura própria, desenvolvendo o progresso social em que já antes estavam envolvidos (uns mais avançados, como a Holanda e Grã-Bretanha... outros menos, como a Rússia e a Prússia).
 
A rejeição em Portugal do invasor napoleónico
 
Portugal evoluía para uma sociedade mais liberal que as guerras napoleónicas vieram suspender, provocando mesmo o acender de reflexos reaccionários na sua própria população. Quais eram então as origens ou génese do pensamento político liberal português no próprio Portugal? Parece-nos plausível que a génese dos valores liberais se tenha tratado de uma tomada progressiva de consciência política nacional desde os primórdios da Fundação, com a criação sistemática de forais concedidos não a senhores feudais mas a grupos geográficos, corporativos e a ordens religiosas, de que é exemplo significativo o movimento emancipalista, e a revolução de 1385. Com a Restauração veio a necessidade de procurar o apoio popular e municipal para o esforço de financiamento da Guerra, que levou a Nação a revalorizar instituições de mobilização de valores populares. Depois veio a reflexão trazida pelas ideias iluministas que inspiraram a criação das instituições sociais e do aparelho de Estado no século XVIII. Finalmente os ideais liberais tomarão forma e expressão com as consequências do impacto da agressão napoleónica, como aconteceu na época com muitas outras nações europeias. Mas em Portugal as invasões francesas foram também acordar raízes populistas e tradicionais profundas, com ideários sociais e políticos reaccionários, que provocarão fracturas na sociedade.
 
Temos que ter presente que as brutais invasões militares sofridas pela população portuguesa, causaram no país a maior calamidade de guerra de sempre, gerando um défice populacional (mortos, emigrados e diminuição de nascimentos) de cerca de 300.000 portugueses (10% da população, ou seja, relativamente da ordem do holocausto sofrido pela URSS quando da invasão hitleriana). Houve uma mobilização consensual profunda e largamente maioritária, do interesse nacional e de defesa da independência. Todas as Juntas mobilizadas na revolta nacional anti-napoleónica de 1808 se declaram pela legitimidade da soberania do Príncipe Regente Dom João, apesar da sua distância física, a meses de comunicação no outro lado do Atlântico. Se em Espanha a revolta teve tonalidades nacionais e políticas diferentes, os exércitos estavam geograficamente dispersos em diferentes corpos provinciais e as guerrilhas eram por vezes unidades de “irregulares”sem coordenação nacional, tudo isto é compreensível porque a Espanha era, com hoje, uma união numa coroa de várias nações diferentes. Em Portugal as Juntas eram nacionalmente unitárias, as guerrilhas eram “regulares”, organizadas e enquadradas por oficiais de Milícia ou de Ordenanças, e todos mobilizados pela febre nacionalista e de repúdio dos afrancesados. Poucos meses após o seu aparecimento expontâneo, as Juntas extinguiram-se voluntariamente e sem hesitação, para entregar o poder e consolidar o novo Conselho de Regência nomeado novamente em 1808 por Dom João a partir do Brasil, com o afastamento de apenas três dos anteriores membros da Regência acusados de demasiada colaboração com a administração de Junot.
 
Será no entanto a já referida distância longe de Portugal, tanto do rei como da principal nobreza de corte, que irão acelerar as mudanças políticas para o modelo de governação liberal. Os membros proeminentes da Grande Nobreza, que no Antigo Regime ocupavam os principais postos de comando militar e que também constituíam uma parte importante da oficialidade, seguiram uns para o Brasil com o Príncipe Regente, outros refugiaram-se nos Açores e Inglaterra, outros ainda, talvez um terço, seguiram voluntariamente para França na futura Legião Portuguesa levantada por Junot. Finalmente outros oficiais, representando cerca de metade dos oficiais mas na grande maioria de patentes menos elevadas, oriundos da aristocracia provincial do Norte, foram desmobilizados do exército quando da ocupação de Junot, retirando-se para as suas terras. Com as urgentes necessidades de oficiais criadas pelas mobilizações em 1808 e 1809 para fazer face às 2ª e 3ª invasões francesas (1809 e 1810-11), e à continuação do esforço militar na Guerra Peninsular (1812-1814), a maioria destes corpos antigos de oficiais serão substituídos. Muita da nova oficialidade será recrutada na aristocracia provincial e na burguesia citadina, prevalente nas unidades de Milícia, com origens sociais novas que irão marcar a maioria dos oficiais do novo exército, mais abertos a mudanças de sociedade e a ideias políticas mais liberais, certamente afectados culturalmente por muitos dos seus monitores britânicos, procedentes de uma sociedade mais liberal e espiritualmente mais independente. Este facto é bem presente nos textos da literatura ingl