Nº 2527/2528 - Agosto/Setembro de 2012
Crónicas Bibliográficas

O Exército Português

e as Comemorações dos 200 Anos

da Guerra Peninsular

- III Volume (2010-2011) -

Desde 2007, a evocação dos factos históricos ocorridos durante a Guerra Peninsular tem contribuído para reavivar a memória colectiva, estimular o ensinamento e incentivar o interesse pela História de Portugal.

Ao dinamizar ou associar-se a cerimónias evocativas, através da Comissão Coordenadora para as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular, o Exército deixa nota dos eventos realizados, como preito de homenagem e respeito ao patriotismo dos que, ao tempo, combateram, se sacrificaram ou morreram em defesa da independência nacional.

A obra – O Exército Português e as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular –, com o primeiro volume, apresentado em 2009, no Porto, e o segundo apresentado em 2010, em Mafra, reporta as diferentes modalidades de apoio ou de participação, levadas a efeito.

O III Volume (2010-2011) regista as actividades correspondentes aos principais acontecimentos da III Invasão, tendo o Exército organizado ou participado em cerca de meia centena de eventos comemorativos ou evocativos (com o empenhamento de unidades militares), sessões solenes, colóquios e conferências, concertos por bandas militares, exposições temáticas e bibliográficas [com a participação da Direcção de História e Cultura Militar (através do Arquivo Histórico Militar, dos Museus Militares e da Biblioteca do Exército), da Direcção de Infra-estruturas, do Instituto Geográfico, do Centro de Audiovisuais e do Jornal do Exército] e edições filatélicas e numismática (dos CTT e da Imprensa Nacional – Casa da Moeda).

A notícia destes acontecimentos, que contou com a colaboração do Tenente-coronel Álvaro Urze Pires, é antecipada de análises históricas correspondentes às temáticas mais importantes do período, para as quais foi fundamental a disponibilidade de especialistas, civis e militares, cujas colaborações enriquecem o livro e a quais se agradece reconhecidamente.

Assim,

– O Tenente-general António José Maia de Mascarenhas enquadra estrategicamente a Cronologia da 3ª Invasão;

– O Dr. Pedro de Avillez perspectiva O Pensamento Político e Militar de Napoleão, no meio dos acontecimentos políticos, sociais, económicos e militares da época nas vertentes, nacionais e internacionais;

– O Dr. João Torres Centeno, realçando o papel de Miguel Pereira Forjaz e de Beresford, sintetiza as etapas da reorganização do Exército Português, praticamente extinto por Junot, na 1ª Invasão, para que Portugal pudesse receber Auxílio britânico e (participasse de forma eficaz na) preparação do Exército anglo-português;

O papel das Milícias e Ordenanças durante a Terceira Invasão Francesa é tratado pelo Tenente-coronel Nuno Barrento Lemos Pires, dando a conhecer a importância das mesmas, designadamente nos níveis político, estratégico, operacional e táctico;

– O Dr. Manuel Amaral, disseca a problemática (d)a defesa do interesse nacional e das populações (e) A política na Guerra Peninsular e sublinha a decisão britânica de Portugal passar a ser base principal de operações na península e reduto fundamental da resistência ao invasor, deixando de ser base secundária, de apoio ao esforço militar espanhol;

– O Major-general José Carlos Antunes Calçada contextualiza O Combate de Fuente de Cantos, (em) 15 de Setembro de 1810 [no quadro geral das acções da Guerra Peninsular e nas circunstâncias particulares da evolução dos acontecimentos na Estremadura espanhola e na Andaluzia], descrevendo a actuação da brigada de cavalaria portuguesa;

Do Buçaco às Linhas de Torres. Duas Semanas de Operações constitui uma referência cronológica, em que o Major Carlos Dias Afonso aborda, ainda que de forma genérica, o modo como o exército de linha aliado se articulou com as milícias e ordenanças, após o dia 27 de Setembro, até às Linhas de Torres Vedras;

– No mesmo período, o Prof. Doutor António Ventura dá Uma Visão Francesa (dos acontecimentos), De Coimbra às Linhas de Torres Vedras, com testemunhos autobiográficos de militares de diversas nacionalidades que integraram o exército francês, contribuindo para se compreender, na pluralidade de opiniões, o quadro dramático em que decorreu esta invasão e o choque dos invasores perante as Linhas;

– Por sua vez o Tenente-coronel José Paulo Ribeiro Berger compara Os Exércitos em confronto e (a disposição d)a População da Capital sob a Protecção das Linhas de Defesa de Lisboa, mostrando que durante muitos séculos, poucas campanhas decorreram na Europa mais gloriosas do que a de Portugal, contra Massena, e com o apoio incondicional e objectivo das populações;

A Retirada de Massena. O fim de um pesadelo ou o princípio do fim de um sonho, pelo Major-general Rui Baptista Moura constitui um estudo da perseguição e expulsão dos franceses, de que resultou a libertação do país, após o impacto das Linhas de Torres e derrotados de diversas ousadias tentadas durante o primeiro semestre de 1811;

– O Dr. Francisco Galego descreve a importância (d)O Cerco de Campo Maior, em 1811, durante a Guerra Peninsular e no âmbito da retirada das forças francesas de Portugal, com relevo para o desempenho do major engenheiro José Joaquim Talaya, ali chegado no ano anterior para orientar as obras de restauro e melhoramento da fortificação;

– A Prof. Doutora Maria Antónia Lopes, em Sofrimentos das populações na Terceira Invasão Francesa – De Gouveia a Pombal dá uma ideia da dimensão dos massacres cometidos pelos invasores nesta vasta região da zona Centro do nosso país e faz uma avaliação dos sacrifícios impostos às populações, pelos flagelos da guerra;

– O Major António Pedro Cordeiro de Menezes, descreve a actividade (d)As Informações (na Guerra Peninsular), em França e em Inglaterra, e demonstra como sistema de informações das forças anglo-lusas permitiu incrementar a sua capacidade de resposta, ao dar o conhecer os pontos fortes e as vulnerabilidades de Massena, mitigando a incerteza relativamente às capacidades e intenções francesas e conseguindo, além do mais, reduzir ao mínimo a capacidade de pesquisa do inimigo, obrigando-o a operar amiúde “às cegas”.

O motivo de capa deste volume é uma pintura a óleo da autoria do Coronel Almiro Canelhas alusiva à “Batalha do Buçaco – Setembro de 1810”.

Esta publicação, que teve apoios da Comissão Portuguesa de História Militar e do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é uma co-edição do Exército e da Tribuna da História, Editora a quem a Revista Militar agradece, a obra ofertada.

Major-general Adelino de Matos Coelho

Diretor-Gerente da Revista Militar


 

Do Cacine ao Cumbijã, 67 Guiné 68

Do Cacine ao Cumbijã, 67 Guiné 68, Lisboa, Chiado Editora, 2011, é a narrativa romanceada da experiência guineense dum jovem alferes miliciano natural da Madeira.

Guilherme da Costa Ganança percorre com vagares de ilhéu os caminhos que levaram os homens da Companhia de Caçadores 78081 para a Guiné. Naquele território inóspito, cortado de bolanhas e infestado de malária, o autor vê-se confinado durante meses intermináveis em aquartelamentos onde a comida é intragável, o alojamento exíguo e despojado, a preocupação com a segurança imperiosa e o medo um companheiro de todas as horas. Curiosamente, encontra lenitivo na correspondência com várias “madrinhas de guerra”, não hesitando em desvendar como o seu relacionamento com uma delas evoluiu primeiro para a amizade e depois para sentimentos mais complexos. E arranja forma de fixar, para recordar mais tarde com sentimento e perspicácia, os jogos de cartas, os assaltos dos mosquitos, a lenta e inexorável submissão à saudade, os traumas e os medos nas vésperas da actividade operacional.

O autor dedica igualmente um olhar desencantado, mas atento, aos ritmos, aos cheiros e às cores da África, levando o leitor a visitar os “homens grandes” e as bajudas e atirando-o sem contemplações para o lodo e o tarrafe, onde os soldados da Companhia de Caçadores 78081 suaram durante as cruas horas do meio-dia, sob céus de chumbo e de tormenta.

Como seria de esperar, a actividade operacional ocupa um lugar central na memória de Guilherme Ganança. Utilizando uma linguagem ágil e frequentemente poderosa, passa em revista a ansiedade que se instalava no coração dos homens durante os preparativos para as operações, a angústia que sentiam durante os ataques inimigos aos aquartelamentos, o terror que os combatentes sentiam quando tinham de percorrer trilhos armadilhados ou onde se suspeitava da existência de minas, esse inimigo insidioso e letal, que mata à traição.

No meio do pesado sacrifício quotidiano, havia tempo para sorrir: quando se inaugurou a escola primária em Cabedú; todos os dias que o avião trazia o correio, desencadeando sentimentos poderosos e avassaladores; quando alguém desencantava uma garrafa de “pomada” metropolitana ou quando o desenrascanço trazia para a cozinha um porco ou um cabrito.

Justifica-se uma última referência para o sentimento de dever que nunca abandona o autor. Apesar de todos os momentos de desânimo, apesar da raiva que lhe crescia no coração quando um camarada era morto ou ferido com gravidade e a despeito de ser um jovem miliciano com reduzida preparação militar, ele não se entregou à auto-comiseração e nunca deixou de ser o comandante dos seus soldados.

Coronel Nuno Bravo Mira Vaz

Vogal da Direção da Revista Militar

Coronel
Nuno António Bravo Mira Vaz
Major-general
Adelino de Matos Coelho
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2013-03-25
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Coronel

Nuno António Bravo Mira Vaz

Sócio da Revista Militar. Vogal da Direcção da Revista.

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Major-general

Adelino de Matos Coelho

Habilitado com os Cursos de Infantaria, da Academia Militar, Geral de Comando e Estado-Maior e Superior de Comando e Direção, do Instituto de Altos Estudos Militares; possui outros Cursos de que se destacam o de Oficial de Informação Pública do Comando Aliado da Europa da OTAN (Bélgica), o Curso Militar de Direito Internacional dos Conflitos Armados, do Instituto de Direito Humanitário de Sanremo (Itália) e o Diploma de Pós-Graduação em Estudos Europeus da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Ao longo da sua carreira, prestou serviço em várias Unidades e Órgãos do Exército, nomeadamente, no Regimento de Infantaria de nº 3, em Beja, que comandou, e no Estado-Maior do Exército, onde desempenhou o cargo de Chefe da Divisão de Pessoal. Além disso, também desempenhou carg

REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia