Nº 2536 - Maio de 2013
As Enfermeiras Pára-quedistas em acção na Guerra do Ultramar
Coronel PilAv
António Joaquim Viana de Almeida Tomé

Pórtico

Há uns bons treze anos, ao representar, a seu convite, o General Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, numa sessão solene comemorativa do aniversário do Aeroclube de Águeda, e de ter referido, ainda que brevemente, e de forma elogiosa, a actuação do Corpo de Tropas Pára-quedistas dentro do contexto e do enquadramento operacional da Força Aérea Portuguesa (FAP) na guerra do ultramar (nessa data ainda fazendo parte integrante da Força Aérea), com uma menção especial à valorosa acção em ambiente de combate das respectivas Enfermeiras militares, terminei agradecendo a sua prestação inestimável ao serviço do terceiro e mais jovem Ramo das Forças Armadas e da Pátria Portuguesa. De súbito, e de entre os rostos mais ou menos emocionados da numerosa assistência, levantou-se lá do fundo um homem alto e entroncado, de aspecto imponente, na casa dos cinquenta e tal anos, que se encaminhou lentamente para a mesa onde me encontrava, olhos marejados de lágrimas; ali chegado, abraçou-me emocionado e, com a voz embargada pela emoção, mas suficientemente audível, disse-me: “Obrigado meu Coronel; depois de ter passado à disponibilidade como 2º Sargento pára-quedista e passados tantos anos, é a primeira vez que ouço referências aos pára-quedistas tão elogiosas e sentidas proferidas em público por um Oficial da Força Aérea”!

Nesse momento de forte comoção, recordei aqueles eventos intensos vividos em campanha durante os quais, sob condições muitas vezes extremas de combate, tinha entrado com eles em inúmeras operações. E de imediato me vieram à memória as marcantes e abnegadas acções praticadas debaixo de fogo pelas primeiras mulheres militares, também elas pára-quedistas, com quem tinha partilhado riscos em comum e ao lado das quais era impossível ter medo!

Por ter entrado em operações de combate, durante os cinco anos cumpridos em duas comissões de serviço, por imposição, no antigo Ultramar português, e ter estado lado a lado com algumas dessas Enfermeiras, em situações operacionais envolvendo assinalável risco e mesmo algum perigo de vida, o Autor considera ser seu dever dar à estampa e relatar dois desses episódios que pessoalmente mais o marcaram para sempre, ao ter tido o privilégio de presenciar em directo a actuação dessas abnegadas e valentes mulheres militares que muitas vezes, com risco da própria vida, nunca hesitaram em “sair” para missões envolvendo elevado grau de perigosidade para salvar vidas; vidas por vezes já moribundas as quais, de outro modo e sem a sua ajuda vital e presença voluntariosa e determinante, ficariam perdidas na eternidade, caídas em lugares recônditos da selva africana e esquecidas nas brumas da guerra, impedidas para sempre de regressar à Pátria dos nossos Maiores e ao convívio dos seus.

Esta é apenas uma singela homenagem àquelas valentes mulheres que se dedicaram de alma e coração à sua missão de salvar vidas e de recuperar outros militares, maioritariamente do Exército, feridos e gravemente estropiados que lhes ficaram para sempre a dever, uns, a própria vida e, outros, o regresso à condição de um retomar de vida normal, ainda que por vezes com limitações, mas permitindo-lhes reatar uma relação saudável com as suas famílias e conhecer filhos e netos; situações que, de outro modo, e sem a pronta intervenção das enfermeiras pára-quedistas nos momentos mais cruciais do combate, jamais lhes teria sido possível.

Estas militares servirão para sempre como exemplo impar de abnegado sacrifício pela salvação de outros e como paradigmas do sentido de missão, de coragem e de forte determinação no cumprimento do dever. Nós, os veteranos de uma guerra que nos foi imposta, sentimo-nos orgulhosos de as ter conhecido e tido como camaradas de armas, juntamente com o sentimento de uma eterna dívida de gratidão que jamais esqueceremos; dívida que as gerações actuais e as vindouras, poupadas a situações de extremo risco e privações, pelas quais passou a anterior geração nascida nos anos trinta e quarenta do século passado, deverão sempre ter presente na memória histórica colectiva, através da recordação dos seus feitos praticados em silêncio e como exemplos de coragem e de sacrifício pelos outros. Mulheres militares que actuaram em cenários de guerra por vezes violentos, deverão ser sempre recordadas pelas suas intervenções em campanha e pela sua denodada luta contra a morte, procurando salvar vidas, por vezes já despedaçadas, muitas vezes com o sacrifício da própria vida.

Parafraseando a célebre frase de Winston Churchill, quando se referiu ao sacrifício supremo da nata da juventude dos pilotos de combate ingleses, prestando homenagem à sua acção determinante ao salvarem a Inglaterra da ocupação alemã, também eu aqui me atrevo a recordar toda essa imensa gratidão de toda uma comunidade nacional, a nossa, mas dirigida agora como preito e homenagem às enfermeiras militares pára-quedistas:

“Nunca tantos deveram tanto a tão poucas”

 

Dia 12MAR1974, Base aérea de Mueda, Província de Cabo Delgado, Norte de Moçambique

O autor desempenhava nessa altura as funções de 2º Comandante da Base Aérea de Nacala, mas em acumulação com o Comando do Aeródromo de Manobra de Mueda – AM51, situado em pleno planalto Maconde, para onde tinha sido destacado em permanência e ali colocado, em Fevereiro de 1973, por Despacho do General do Pessoal do Secretariado de Estado da Aeronáutica, por razões que ficaram até hoje por apurar, mas que julgo se deveram apenas à sua prepotência!

A actividade operacional era todos os dias intensa e variada, como o provam as inúmeras missões constantes na sua Caderneta de Voo, havendo dias em que chegou a cumprir cinco missões operacionais, com três ou quatro delas na execução de apoios de fogo próximo e imediato às tropas do Exército e da Força Aérea lançadas em acções de contra-guerrilha e a actuar no terreno.

Nesse dia, o autor tinha regressado de uma operação de héli-assalto a um ponto forte da guerrilha em que, pelas suas funções, tinha sido o responsável pela decisão e coordenação de toda a operação, com o envolvimento de cerca de dezanove aeronaves e o lançamento de mais de oitenta homens.

Dirigindo-se à sala de operações, depois de um almoço tardio, preparou-se para o habitual briefing das cinco da tarde, com o seu pessoal operacional e com os comandantes das Unidades do Exército ali baseadas, visando a definição e a coordenação das missões do dia seguinte. Momentos depois, entrava apressado o sargento das comunicações exibindo uma mensagem na qual era pedida, de imediato, uma acção de apoio de fogo e de evacuação urgente de, pelo menos, um ferido do grupo de combate lançado, que tinha deparado com inusitada e forte resistência nas imediatas proximidades da “base beira”, um dos pontos fortes dos insurrectos, localizada numa área a cerca de trinta quilómetros a norte de Mueda.

Accionados os mecanismos habituais para descolagem imediata de um helicóptero AL-III sob escolta de dois aviões T-6 Harvard armados de “foguetes” e de metralhadoras, o Comandante consultou a escala dos pilotos disponíveis; mas, por se tratar de uma área de forte concentração de mísseis e armas anti-aéreas, decidiu ser ele próprio a comandar a missão de escolta e protecção ao AL-III juntamente com o Capitão comandante da Esquadra, com comprovada experiência em voos sobre áreas críticas e que pilotaria o segundo avião.

Em menos de dez minutos, os dois oficiais pilotos dirigiram-se às aeronaves equipados com os respectivos pára-quedas e as armas de defesa pessoal; os aviões já se encontravam com os motores em marcha e estavam a ser ultimados pelos mecânicos e pelo pessoal de armamento. Antes, o comandante dirigiu-se ao helicóptero, já com o rotor principal em marcha, para recomendar prudência e cuidado ao oficial piloto na sempre difícil e perigosa aterragem numa qualquer clareira da cerrada floresta. Ao lado deste já se encontrava a Oficial enfermeira pára-quedista Rosa a colocar os cintos de segurança, depois de supervisionar as macas, atrás, para os feridos a evacuar.

Pouco depois, o helicóptero elevava-se do taxiway e a parelha dos dois aviões alinhava na pista descolando de imediato com o armamento ligado. Em minutos alcançavam o Al-III, iniciando a escolta em formação aberta de combate para abrir caminho à progressão em segurança da aeronave de evacuação; entretanto, e ao lado do piloto, a enfermeira acenava com o polegar da mão direita apontado para o alto, em sinal de confiança e de que tudo iria correr bem.

As três aeronaves progrediam em voo rasante para evitar entrarem na altitude inferior de alcance dos mortíferos mísseis anti-aéreos soviéticos Strella, de elevada precisão, e recentemente introduzidos em Moçambique pela guerrilha; essa “nova” arma obrigava as aeronaves mais lentas, como era o caso, a voar muito baixo para evitarem serem atingidas, o que, por sua vez, expunha essas aeronaves ao fogo das armas automáticas ligeiras e anti-aéreas.

Vinte minutos depois, o presumível local de evacuação já se encontrava à vista, apenas se divisando uma pequeníssima clareira que a tropa em terra de imediato assinalou via rádio para a sempre perigosa aterragem do helicóptero. Já com a pequena clareira a escassos quinhentos metros, ladeada de altas árvores que iriam dificultar a aterragem, os dois aviões avançaram para proteger a área e responder às armas antiaéreas e, principalmente, tentar neutralizar as posições de morteiros do adversário que começavam a enquadrar o local de aterragem com fogo de morteiros 82, com vários rebentamentos e explosões a aproximarem-se.

Com perícia, o piloto do Al-III iniciou a descida por entre o estreito círculo de árvores à sua volta, até atingir o solo numa estreita faixa e com o rotor de cauda a menos de dez metros da cintura de árvores mais próximas. Exactamente nessa altura, dois rebentamentos de granadas desses morteiros caem a menos de vinte e cinco metros do helicóptero.

Apreensivo, o autor e comandante da missão aérea inicia voltas apertadas tentando bater os pontos próximos de onde eram disparados tiros de balas tracejantes contra os dois T-6, enquanto o avião asa tentava localizar e atacar os pontos a partir dos quais eram disparados os morteiros. E, nesse momento angustiante, vê a porta da frente do helicóptero abrir-se e dele saltar a enfermeira militar a qual, sem qualquer tipo de hesitações, abre a porta de trás e, de seguida, ajudada por um militar das tropas terrestres, que entretanto tinha ocorrido para ajudar, inicia uma corrida com a maca para a orla da floresta onde se dissimulava o nosso grupo de combate e onde se encontrava o ferido grave que teria de ser evacuado, ao mesmo tempo que ocorriam mais duas explosões.

Face à gravidade da situação e ao perigo iminente de o Al-III poder ser atingido a qualquer momento, bem como o piloto e a própria enfermeira pára-quedista, que entretanto se encontrava já em terra a retirar a maca, o autor dá ordem para abortar a missão nesse local, solicitando ao nosso grupo para se deslocar cerca de mil metros mais para noroeste para uma outra clareira que proporcionava melhor protecção e condições de evacuação. Circulando por cima do local, o Comandante ouve pela rádio o piloto gritar para a enfermeira (que entretanto já se afastava rumo à orla da floresta) para regressar ao helicóptero ao que a mesma responde que “isto não é nada, vou recolher o ferido e regresso depressa...”, prosseguindo a correr para o local em que se encontrava o militar ferido!

Já alarmado e preocupado com as vidas do piloto e da enfermeira, pois mais explosões indiciavam um sucessivo enquadramento do helicóptero, o autor continua a bater a mata circundante com fogo de foguetes, tentando atingir as bases de lançamento, em estreita coordenação com o outro avião que entretanto já tinha sido atingido numa asa por fogo de arma automática do tipo Kalashnikov.

Foram cerca de cinco minutos de extrema angústia, pois as explosões sucediam-se e os rebentamentos ocorriam cada vez mais perto da aeronave no solo.

E foi nessa altura que, para seu relativo alívio, o chefe da missão vê novamente a militar sair da orla da floresta, ajudada por dois militares do grupo de combate e, os três, transportando em passo acelerado a maca e o invólucro de soro que alimentava o ferido, olhando repetidamente para cima, mostravam o polegar erguido em sinal de que tudo estava a correr bem!

Esta imagem de grande desprendimento e abnegação da enfermeira, debaixo de fogo, demonstrativa de uma serena valentia no cumprimento do dever, nunca mais abandonou o autor, que ainda hoje retém com nitidez toda a cena, e revê com frequência a calma e a determinação da militar! Mais dois minutos que pareceram intermináveis e a maca entrava para o interior do AL-III, as portas fecham-se finalmente iniciando de imediato o piloto a cuidadosa subida vertical de descolagem por entre a cortina de árvores. Nesse preciso momento, e quando o AL-III começava a sair da vertical da clareira para iniciar a translação para o voo horizontal, três grandes rebentamentos ocorrem exactamente no centro do local onde o helicóptero se encontrava estacionado, apenas há escassos segundos; a tragédia não se tinha consumado apenas devido ao sangue frio da enfermeira pára-quedista e certamente também do piloto comandante do AL-III!

De regresso à Base, em voo de escolta ao helicóptero que transportava o ferido evacuado, o comandante ainda pensou admoestá-la logo após a aterragem, por ter arriscado a vida e por não ter obedecido a uma ordem directa baseada no que a lógica do momento exigia; mas logo desistiu porque, de facto, tinha-se salvo mais uma vida e a rapidez e o sucesso da evacuação, em pleno “território” da guerrilha, tinha-se devido em grande parte à valentia e à determinação da militar.

Em vez disso, e momentos após a aterragem, o autor dirigiu-se à ambulância onde a oficial providenciava o transporte do ferido em adequadas condições clínicas para o hospital de Mueda onde, como rotina, se procedia às primeiras amputações e cirurgias. Em sentido, cumprimentou-a e fez-lhe a continência dizendo apenas “muito bem”, após o que a enfermeira pára-quedista modestamente retribuiu, entrando de seguida para a ambulância que arrancou a caminho do hospital; mas não sem, antes, ter sido ainda retribuído com um largo sorriso de serena tranquilidade, pela consciência de mais uma evacuação bem sucedida e do dever profissional cumprido em condições de risco extremas.

 

Dia 22JUN1974, Base de Mueda, Província de Cabo Delgado

Dez horas da manhã. Beneficiando da cada vez maior precariedade quanto à falta de munições de armas pesadas de defesa em todos os nossos aquartelamentos militares situados na Província de Cabo Delgado, em grande parte devido a acções internas insidiosas de sabotagem, a guerrilha bombardeia e ataca o Quartel da Companhia de Infantaria do Exército baseada em Nakatari, a coberto de canhões sem recuo e morteiros 82, localizado a sul e a escassos quinze minutos de voo directo de helicóptero da Base aérea de Mueda. A guarnição integra uma Companhia reduzida, servida por uma pista extremamente curta rodeada por árvores nas duas cabeceiras finais e cujo perfil era fortemente a descer de ambos os lados com uma pronunciada lomba no seu ponto mais alto onde se situava o quartel.

Através dos únicos rádios disponíveis e fiáveis, tipo Racall, começam a ser recebidas em catadupa mensagens na Base aérea, oriundas do Aquartelamento sob forte bombardeio, pedindo apoio aéreo de fogo próximo para suster o ataque e a evacuação de feridos, cuja confirmação é recebida cinco minutos depois.

Reunido na sala de operações com o pessoal de voo, o Autor analisa a situação e decide enviar de imediato duas parelhas de aviões T-6 armados de “foguetes” e metralhadoras ao mesmo tempo que, e obedecendo à escala das missões, se prepara ele próprio para pilotar o avião Dornier DO-27 de ligação, evacuação e transporte ligeiro para proceder à evacuação dos feridos, no máximo duas macas e mais um auxiliar do hospital, para além da Sargento enfermeira pára-quedista Aurelina, que assistiria no local os feridos antes de embarcarem de regresso a Mueda. Esta limitação de pessoas a bordo devia-se à “carga” máxima a transportar à descolagem, condicionada pelas características e fortes limitações da pista à descolagem.

Definidas as condições da missão que se revestia de risco acrescido, devido à presença de inúmeras armas anti-aéreas da guerrilha no local, e provavelmente de mísseis terra-ar, e depois de serem colocados em alerta os dois jactos F-G91 baseados em Porto Amélia, na eventualidade de algo correr mal, o Comandante dirigiu-se de imediato ao avião com o motor já em marcha devido à preciosa ajuda dos mecânicos, munido da sua arma de defesa pessoal (por ironia uma kalasnikov soviética, capturada em missões anteriores, por as nossas G-3 encravarem com facilidade). Entrou no posto de pilotagem, com a cadeira à sua direita já ocupada pela militar pára-quedista no lugar do mecânico; estes eram dispensados sempre que se tratava de missões de alto risco.

Depois de ter sido saudado militarmente pela enfermeira a quem “garantiu” que tudo ia correr bem, iniciou a rolagem pelo caminho de acesso à pista e iniciou a descolagem dois minutos depois, logo atrás dos quatro T-6 que se encontravam já no ar e a virar pela direita.

No ar, e logo após ter também virado pela direita a rasar as árvores, devido à sempre possível presença na área dos mísseis antiaéreos já referidos, iniciou de imediato uma rápida trajectória descendente acompanhando a acentuada escarpa do planalto de Mueda e apontou à rota que o levaria ao seu objectivo. Entretanto, e via rádio, continuavam a chegar indicações do Aquartelamento de que o ataque prosseguia e que pelo menos um morto e dois feridos já jaziam no seu interior.

Doze minutos depois, sobressaindo por cima das árvores em frente, divisou já relativamente próximo duas colunas de fumo negro, o que era indicativo da violência do ataque; sem hesitar, e pela rádio, ordenou a descolagem de Porto Amélia dos dois jactos armados que se encontravam de alerta, meios de fogo mais potentes do que os T-6 ocorrendo em auxílio da guarnição em dificuldades.

Cerca de um minuto depois, e sempre em voo rasante, tinha a pista à vista, que, felizmente, parecia não ter sido atingida; depois de ultrapassar a última barreira de árvores no topo da estreita faixa, accionou a alavanca dos flaps de sustentação a baixa velocidade e desceu ao encontro da pista. Depois de bem sucedida a “aterragem curta”, parou exactamente na lomba central da pista, frente e ao lado do Aquartelamento onde estrondeava a artilharia, o fogo das armas automáticas e, aqui e ali, o som cavernoso dos rebentamentos dos morteiros lançados pelos atacantes.

De imediato, e sem hesitar, a enfermeira pára-quedista a seu lado saltou para o solo e, auxiliada por três elementos do exército, abriu a porta de carga de trás e extraiu as duas macas que distribuiu por si e pelos outros militares, após o que se lançou em corrida para o interior do aquartelamento debaixo de fogo das balas tracejantes do inimigo e por entre as explosões que se iam sucedendo a escassos intervalos, com algumas assustadoramente muito próximas.

Angustiado pela segurança da militar, quanto ao que lhe poderia acontecer durante o fornecimento dos primeiros cuidados aos feridos e no transporte dos mesmos de volta ao avião, e que entretanto já tinha saído do seu campo de visão, o Oficial observava estupefacto todo o cenário quase irreal em que estilhaços de granadas “voavam” por todo o lado, tudo agravado pela poeira e os fumos de material combustível a arder, qual “Apocalipse Now!”. Passados dez minutos que lhe pareceram intermináveis, e por entre o ruído ensurdecedor, apareceu finalmente de volta a Sargento enfermeira segurando os tubos e os dois recipientes de soro para os respectivos feridos, deslocando-se entre as duas macas e gritando instruções de transporte dos feridos, transportados por quatro militares da guarnição que se deslocavam em passo acelerado.

Em cerca de um minuto, as portas de trás estavam fechadas, com os dois feridos e mais um militar, e a enfermeira pára-quedista sentava-se novamente na cadeira ao seu lado a apertar os cintos de segurança. Acelerando o motor, o Autor desceu mais uns metros na pista a partir da anterior posição que ocupava na lomba e rodou 180 graus para iniciar a corrida de descolagem e aproveitar as poucas dezenas de metros disponíveis. Accionou os flaps para a posição de descolagem e tudo parecia bem mas, sem o saber, aparte um forte abanão sentido no aparelho, tinha sucedido o imprevisto: conforme viria a confirmar mais tarde, a roda de cauda tinha sido atingida por um estilhaço de morteiro, com o inevitável rebentamento do pneu, e encontrava-se gravemente danificada.

Em consequência disso, e pouco depois de ter iniciado os procedimentos de “descolagem curta”, e alguns metros após ter passado a lomba do meio da pista, ainda a baixa velocidade devido ao forte atrito gerado pelos danos sofridos, no que agora era apenas um simples couto de metal, só bastante mais tarde que o normal conseguiu levantar a roda de cauda; foi, contudo, o bastante para que a velocidade de aceleração inicial de descolagem se encontrasse abaixo dos limites, e agora as árvores situadas no final da cabeceira da pista começavam a aproximar-se vertiginosamente, com o avião “a recusar-se” a subir na escassa dezena de metros que restavam da pista, por ainda não ter adquirido a indispensável sustentação aerodinâmica!

E desses segundos cruciais, o autor continua ainda hoje a reter na memória a face angustiada da enfermeira olhando de relance para si, face ao desastre iminente, e ao seu instintivo cruzar dos braços à frente da cabeça como frágil protecção contra o impacto à vista. Nesse momento, muito devido aos reflexos naturais de quem tinha cerca de 8000 horas de voo, o piloto puxou para cima com força a grande alavanca dos flaps de sustentação, posicionando-os todos em baixo. De imediato, e em menos de dois segundos, com a morte à vista, o Divino resolveu intervir: de forma miraculosa o avião elevou-se bruscamente no ar, aproximadamente uns oito metros quase na vertical o suficiente para, e embora raspando ainda com o trem principal nas copas das árvores, e arrastando consigo alguns pequenos ramos, continuar a voar em frente, mas ainda com a velocidade muito ligeiramente acima da velocidade de perda.

Passado o susto, ainda a rasar a floresta, mas com o lento aumento da velocidade para aquela de segurança, o piloto olhou então para a militar, agora de semblante sereno como se nada tivesse acontecido, que esboçou um pálido sorriso de encorajamento, pois, pessoalmente, o autor também devia estar “branco”.

O voo prosseguiu até à aterragem em Mueda, após o que, saltando prestes do avião, a pára-quedista providenciou a saída das macas e o seu transporte para a ambulância que aguardava, não sem antes de entrar saudar militarmente o Comandante, com extrema serenidade, como se afinal se tivesse tratado apenas de mais uma missão de rotina sem incidentes de maior, quando na realidade a vida dos cinco elementos a bordo tinha estado suspensa por um fio!

 

Nota final

Com o relato destes dois eventos, de entre alguns que presenciei, ou em que estive envolvido durante a intensa actividade operacional vivida diariamente na Base aérea de Mueda, durante cerca de dois anos (1973/1974) situada em pleno “planalto maconde”, é minha intenção prestar uma sentida e devida homenagem, em nome de todos nós, os veteranos de guerra, à acção determinante, abnegada e muitas vezes de sacrifício supremo das “nossas” militares enfermeiras pára-quedistas, mulheres de fibra e de elevado espírito de missão, a quem centenas ou mesmo milhares de sobreviventes ficaram a dever a vida pela assistência imediata altamente profissional prestada, logo nos primeiros minutos de graves ferimentos e quando já o sopro da morte parecia rondar.

Foram (as que já faleceram), e são (as que continuam vivas), mulheres militares cuja destemida acção, espírito profissional e de missão, e feitos que poderão ser considerados de heróicos, ficarão para todo o sempre retidos na miríade de acontecimentos vividos em combate da memória histórica de todos nós, aqueles que as vimos actuar nos espaços de batalha de elevadíssimo risco durante os catorze anos de guerra em que combatemos uma guerra politicamente perdida, mas nunca militarmente; guerras que travámos em condições de extrema adversidade e em que o armamento do adversário foi quase sempre superior ao nosso, nomeadamente em qualidade.

Por estas razões, considero que todas as que sofreram no terreno as agruras de elevado risco e perigo de morte deverão ser galardoadas como tendo praticado serviços distintos, extraordinários e relevantes ao País, pelo que representam de lustre e prestígio para as Forças Armadas Portuguesas.

Em jeito de conclusão destes acontecimentos históricos, termino evocando a epopeia dos últimos portugueses de antanho, reportando-me aos Lusíadas: “As armas e os barões assinalados que da ocidental praia lusitana por mares nunca dantes navegados cumpriram com fé e denodo a defesa dos interesses da Pátria oitocentana”.

Destes, muitas centenas de milhar conseguiram, mercê de sacrifícios inenarráveis e de entrega das próprias vidas, manter a integridade de territórios que, durante séculos, outras Potências tentaram conquistar. E se os actuais Países de expressão portuguesa, independentes e herdeiros destes territórios, os receberam com a dimensão territorial, geopolítica e geoestratégica que hoje têm, e com os enormes recursos naturais e riquezas de que são detentores (como os casos do Brasil, de Angola e de Moçambique), deverão estar permanentemente gratos aos portugueses europeus e de outros continentes representantes de centenas de gerações que por esses territórios se sacrificaram e deram a vida, ao manterem até aos tempos de hoje as respectivas integridades territoriais e que legaram como Países que actualmente se constituem como Estados soberanos.

Todos eles, sem excepção, devem-nos essa grande epopeia e sacrifício pela manutenção da Pátria que então, e até ao último quartel do século XX, era pluricontinental e nos era comum.

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2013-10-30
517-526
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REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia