Nº 2539/2540 - Agosto/Setembro de 2013
EDITORIAL
General
José Luiz Pinto Ramalho

Em tempos de crise importa ter presente os princípios e os fundamentos institucionais, designadamente para os militares e para aqueles que, do ponto de vista político, os tutelam. Refiro-me à necessidade do reconhecimento, prática e consideração devidos à condição militar, ao relacionamento político-militar num quadro democrático e às responsabilidades dos agentes políticos para com as Forças Armadas.

A História, com a sua memória – descrição das crises, dos desaires e dos sucessos –, constitui instrumento seguro para clarificar valores, evitar a repetição de erros e, sobretudo, para, numa prospectiva estratégica, saber analisar o presente e, à luz dessa memória, preparar o futuro, mobilizando a sociedade nacional para esse desígnio.

A nível estratégico, quando é necessário encontrar respostas, num ambiente de grande dificuldade e incerteza, em que se exige um espírito inovador, maior é a necessidade de não esquecer os valores e os princípios, que congregam vontades e mobilizam espíritos e mentes; os mais avisados sempre alertaram para que esses fundamentos do raciocínio estratégico não perdessem de vista aquilo que os anglo-saxónicos designam por “back to the basics”.

Não poderia, assim, ter sido mais oportuna a oferta à Revista Militar, pelo Professor Raul M. Rosado Fernandes, do livro “História da Guerra do Peloponeso”, de Tucídides, traduzido por si do texto grego, a que acrescenta o Prefácio e Notas Introdutórias. Não sendo intenção deste editorial fazer a recensão do livro, há no entanto dois aspetos que não podem deixar de ser realçados: a clareza, oportunidade e objetividade da Introdução, por um lado, e, o facto particular, de o Autor dedicar a sua obra às Forças Armadas Portuguesas.

A afirmação, na Introdução, de que a Tecnologia não alterou a natureza do Homem, vem ao encontro de uma prática da Instituição Militar nacional, que coloca no homem, no combatente, a prioridade da sua formação física, técnica, tática e moral, a par da atribuição dos sistemas de armas que lhe são devidos, entendidos como um meio adicional da Força, necessários para que sejam garantidos, em simultâneo, o cumprimento com êxito da Missão e a sobrevivência das tropas em combate.

Igualmente, a ”Oração Imperial de Péricles: o elogio dos mortos e do poder democrático” e a dissertação acerca de “Servir a Pátria”, são textos de reflexão atual, para se compreender o patriotismo, a condição militar, o sacrifício dos combatentes pela Pátria e a consideração pelo Estado que lhe é devida, o respeito e homenagem aos mortos em combate e também pelos que ficaram deficientes, o papel, a importância, respeito e apoio que deve ser garantido à família militar, as relações político-militares num ambiente democrático e as responsabilidades do poder político para com as Forças Armadas.

A editora Fundação Calouste Gulbenkian realça a atualidade da obra referindo que, por esse facto, a mesma “constitui texto obrigatório nas grandes academias militares do mundo”; penso que muito se ganharia, que se evitariam decisões inconsequentes e gravosas, quer para a missão de soberania das Forças Armadas quer também para com a preservação e dignificação da condição militar dos homens e mulheres que as servem, se aqueles que as tutelam, ou ambicionam vir a fazê-lo, conhecessem e estudassem esses textos também.

A Revista Militar e os militares que a integram agradecem ao Professor Rosado Fernandes e sentem-se honrados por esta sua Obra lhes ser, também a eles, dedicada.

Gerar artigo em pdf
2014-01-22
669-670
855
4
Avatar image

General

José Luiz Pinto Ramalho

Nasceu em Sintra, em 21 de Abril de 1947, e entrou na Academia Militar em 6 de Outubro de 1964. 

Em 17 de Dezembro de 2011, terminou o seu mandato de 3+2 anos como Chefe do Estado-Maior do Exército, passando à situação de Reserva.

Em 21 Abril de 2012 passou à situação de reforma.

Atualmente exerce as funções de presidente da Direção da Revista Militar.

REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia