Nº 2543 - Dezembro de 2013
Crónicas Bibliográficas - A posição de Angola na arquitectura de paz e segurança africana.

Análise da função estratégica das Forças Armadas Angolanas*[1]

 

O primeiro contacto que tive com esta obra foi na apresentação e defesa da tese de doutoramento, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, uma sessão muito participada com um debate vivo que o tema, aliás, propiciava. Posteriormente, foi-me solicitada uma contribuição para a contracapa da obra, onde efetuei uma breve referência à mesma e relacionei o seu conteúdo com uma atividade que me é sobejamente muito cara –  a Cooperação Técnico-Militar. Mais tarde, foi-me pedido que fizesse a apresentação do livro, aquando do seu lançamento: devo dizer que hesitei.

O livro tem 963 páginas, muita documentação que eu já tinha lido e avaliado; mas a verdade é que também é que eu já conhecia a obra e já a tinha consultado profundamente. Por isso, decidi aceitar por três razões:

– Porque a carreira militar ligou-me bastante a Angola, onde cumpri duas comissões, que significaram cerca de quatro anos, como alferes e como capitão, nos Comandos, na Lunda, numa Companhia Independente, a Companhia de Artilharia 3415, e no Comando da AM 1, como Adjunto para as Operações. Ali conheci e mantive uma relação com diversos oficiais, hoje, alguns deles Generais do Exército de Angola, verdadeiros amigos, com quem abordei muitos assuntos desta Obra;

– Em segundo lugar, porque, enquanto Diretor-Geral de Política de Defesa Nacional, no Ministério da Defesa Nacional, a cooperação com Angola atingiu níveis que não se repetiram, infelizmente. Decerto, no período de 2000 a 2004, estiveram cerca de cinquenta cooperantes no terreno, dispersos por toda a estrutura das Forças Armadas de Angola – lançamento da AM, ISEM, Escola de Oficiais e de Sargentos, Forças Especiais de Comandos e Fuzileiros, assessoria no MDN, no EMGFA e nos EM da FA e da Marinha, na Polícia Militar e na Escola de Aviação do Lobito;

– Em terceiro lugar, porque concluí que este livro é um bom instrumento para permitir um melhor conhecimento e compreensão das Forças Armadas de Angola e da sua realidade; também é, portanto, uma mais-valia para as Forças Armadas, quer ainda para a Cooperação Técnico Militar e para as múltiplas ações de caráter militar, que se desenvolvem no seio da CPLP.

O livro que hoje é lançado faz a história das Forças Armadas de Angola e do seu papel de charneira, que mantiveram a coesão interna e como se constituíram como um instrumento indispensável de política externa angolana, designadamente no contexto regional. É descrita também a sua ação como um exemplo de integração de duas “forças beligerantes”, a construção de uma Força Nacional, em processo de generosidade e de sucesso, em relação ao processo de estabilização e reconciliação da nação angolana. Um claro “case study”, nem sempre devidamente estudado, divulgado e conhecido.

O livro tem três partes, distribuídas por treze capítulos: a I Parte é conceptual, na II Parte é feita uma análise geoestratégica e geopolítica de Angola e também das Forças Armadas Angolanas como potencial e fator estratégico, e a III Parte tem a ver com o papel destas na segurança e defesa regional e da sua participação internacional nas organizações regionais africanas. O livro constitui um trabalho com extrema informação e documentação, desde a independência até 2007 e, mais recente, fruto da preparação do livro, aspetos da atualidade referida a 2010/2011.

Gostaria ainda de realçar alguns aspetos desta obra:

– O livro tem um acervo documental, em anexo, muito importante, quer pelo seu ineditismo, quer pela pouca acessibilidade em qualquer arquivo ou biblioteca, que valoriza e certifica muitas das afirmações que são feitas pelo autor;

– É também feita uma descrição pormenorizada dos Acordos de Bicesse, onde está bem tratada e convenientemente documentada a participação das Forças Armadas Portuguesas (saúdo a presença do General Tomé Pinto, a quem coube muita dessa tarefa), na formação das Forças Armadas de Angola, dando-lhe o caráter de Instituição Nacional;

– Faz a história da constituição, desenvolvendo a ação política militar, dos seus movimentos que se constituem em Angola e fazem parte de todo o processo que conduziu à independência de Angola;

– Descreve o processo de transição e da condução da Paz, designadamente após a morte de Jonas Savimbi, 4 de abril de 2002, e a natural extinção da UNITA na sequência dos Acordos de Luena;

– Aborda também o início e concretização do processo de internacionalização e atuação regional das Forças Armadas Angolanas.

Para terminar, gostaria de referir, apenas, que este livro é um incentivo para que se prossiga este estudo e para a compreensão da instituição nacional Forças Armadas de Angola, do seu papel nacional e da relação com as Forças Armadas Portuguesas, pois isso será certamente uma forma de tornar eficazes e eficientes as relações entre Portugal e Angola.

Este livro serve, e é um bom instrumento, para quem considera que a Cooperação Técnico-Militar é um objetivo estratégico nacional e que a mesma, quer no quadro bilateral quer no quadro da CPLP, e em especial com Angola, tem neste País um parceiro prioritário, e que se pode desenvolver com mútuo interesse e mútua vantagem.

Parabéns ao autor e muito obrigado pela vossa atenção.

 

General José Luís Pinto Ramalho

Presidente da Direção da Revista Militar

 

[1]* Intervenção do General José Luís Pinto Ramalho na sessão de lançamento da obra, no Instituto de Estudos Superiores Militares, em Pedrouços, no dia 21 de Março de 2013.

General
José Luiz Pinto Ramalho
Gerar artigo em pdf
2014-04-14
1121-1123
1307
5
Avatar image

General

José Luiz Pinto Ramalho

Nasceu em Sintra, em 21 de Abril de 1947, e entrou na Academia Militar em 6 de Outubro de 1964. 

Em 17 de Dezembro de 2011, terminou o seu mandato de 3+2 anos como Chefe do Estado-Maior do Exército, passando à situação de Reserva.

Em 21 Abril de 2012 passou à situação de reforma.

Atualmente exerce as funções de presidente da Direção da Revista Militar.

REVISTA MILITAR @ 2017
by CMG Armando Dias Correia