Nº 2548 - Nº Temático - Maio de 2014
O livro do general Bernhardi - A Alemanha e a próxima guerra
Tenente-Coronel
Victoriano J. César das Neves

RM, 68, 1, Jan, 1916, pp. 65-82

O general Bernhardi é um dos mais distintos oficiais do exército alemão, sendo conhecidissimos no nosso meio militar alguns dos seus livros.

Ainda não há muito tempo que se publicou a Guerra de hoje, obra em dois volumes, e que um grande numero de oficiais do nosso exercito mui bem conhece.

Não menos notavel, porém, é o seu mais recente trabalho – A Alemanha e a próxima guerra.

Esta obra, publicada em alemão em 1912, obteve um verdadeiro sucesso, pois já em 1913 contava seis edições.

E´ esta ultima edição (a versão espanhola de 1916) que conhecemos e de que nos vamos ocupar, tão notavel se nos afigura o que o autor ai expõe, e que vem lançar um jorro de luz nas causas da atual guerra.

Publicado pouco antes de se ter desencadeado essa luta tremenda que no momento atual assola o mundo, toma um valor extraordinario, visto que põe bem em evidencia quais as intenções e fins que a Alemanha formava e premeditava.

Não venho fazer a defesa de doutrinas alemãs, nem das idéas imperialista que de ha muito a dominavam, mas tão sómente pôr em relevo as correntes de opinião que nessa nação preponderavam, e que são tão lucidamente expostas pelo general Bernhardi no seu referido livro.

Contém ainda o livro um certo numero de conceitos filosoficos, que se oferecem á nossa meditação e que, para um país pequeno como o nosso, mas ainda com um vasto dominio colonial, muito convém examinar e que devem ser ponderados não só por militares, mas por governantes.

Sobre eles, muito terão que refletir os nossos homens de Estado.

Em primeiro logar, vejamos como Bernhardi considera a guerra. Esta, diz o ilustre general, representa uma necessidade e um beneficio para a conservação e progresso das sociedades humanas. A guerra é a pedra de toque do valor politicao fisico e intelectual de uma nação. Sem a guerra as raças inferiores degeneradas constituiriam um enorme obstaculo ao desenvolvimento dos elementos sãos, e d´ai resultaria uma decadencia universal. Na guerra triunfa a nação que pode apresentar em luta uma maior potencia fisica e mental, material e moral, social e politica. A guerra é não só uma necessidade biologica, mas ainda um meio indispensavel para se fazer a selecção das raças, um dos maiores factores de civilização e de cultura.

Citando Hegel, diz que a guerra é a condição sine qua non do desenvolvimento espiritual da humanidade, pois vigorisa as nações que a paz tem enervado, consolida os Estados, dá o imperio aos mais dignos, e comunica o movimento, a luz e a vida a tudo, que contribue para a grandeza da humanidade. Põe ainda em evidencia que Renan professa as mesmas idéas.

Friza ainda, com um certo proposito, que «a guerra conduzida de uma maneira cavalheiresca, com armas liaís, representa uma luta com um caracter mais moral do que a que é feita, sob aparencia pacifica, pelo dinheiro, e pelas intrigas diplomaticas».

Acrescenta que a guerra deve ser imposta aos Estados que começam a degenerar, e apresenta a seguinte frase de Guilherme II: – “que enquanto houver homens, haverá inimigos e invejosos, e, emquanto houver inimigos e invejosos, é licito combatê-los, e portanto recorrer á guerra”.

A Alemanha, diz Bernhardi, tendo 67 milhões de habitantes, não pode permitir que 45 milhões de ingleses queiram ser os arbitros do Velho Mundo e persistam em ter a supremacia dos mares. Tambem a França, com 40 milhões de habitantes, não pode ser considerada no mesmo pé de igualdade que a Alemanha.

Os povos débeis não teem o mesmo direito á existência como os fortes e poderosos, e serão estes que terão o direito de impôr a sua civilização aos pequenos.

A potência naval inglesa assoberba a Alemanha, diz Bernhardi, e por isso é preciso preparar o aniquilamento daquela; e, emquanto isso não se torna possivel, deve-se organizar a defesa. Devemo-nos preparar para a próxima guerra e organizar todos os meios que garantam o aniquilamento daqueles que procuram opôr-se á expansão alemã.

Todo o povo alemão sente a necessidade dessa guerra, de forma que o pangermanismo, com a sua tendencia militarista e imperialista, é o fruto de um convencimento, e a sua base está no patriotismo, e não na imposição do elemento militar.

Em 1911 (questão de Agadir) todo o povo alemão estava convencido que só a guerra iria resolver a questão de honra e patriotismo, sendo para todos uma magoadora desilusão a ação diplomática do governo.

Formada a Triplice Entente, radicado está no povo alemão a iminencia da guerra, que para a Alemanha importa o ser, ou não ser. Necessario é, pois, que todos os alemães conjuguem os seus esforços para a defesa comum, sujeitando-se a todos os sacrificios para dar ao exercito a maxima potencia.

A guerra, diz Bernhardi, não assusta ninguem, pois só os espiritos fracos se deixam levar por ideais filantropicos de caracter geral, quando o mundo politico se rege unicamente pelo interesse.

E´ apoz a guerra de 1870 que o comércio e a indústria alemãs tomaram o maior desenvolvimento. As casas de comercio alemãs estabeleceram-se por todo o mundo, e até uma parte do comercio inglês está nas mãos dos alemães.

O comercio alemão é mais industrioso que o inglês; os engenheiros e mecanicos alemães são superiores aos dos ingleses, tanto que em Manchester numerosas fabricas são dirigidas por alemães.

A Alemanha, que até aqui tem imperado no dominio do pensamento, precisa agora tomar o seu logar no dominio comercial e industrial do mundo.

Uma proxima guerra torna-se, pois, uma necessidade, e que terá as consequencias da guerra dos sete anos, e é por isso que o exercito deve ser sustentado e alentado pelas forças morais e materiais da nação; e, não só as tropas, mas todo o povo unido, deve ter uma fé ardente em lutar pela defesa dos seus mais sagrados interesses.

E´ preciso que o povo alemão tenha uma plena confiança na missão especial que a Providencia lhe ha confiado, visto que é o maior povo civilizado que tem existido.

Bernhardi, no capítulo I do seu livro, procura demonstrar o direito á guerra, rebatendo a opinião de Kant, que no seu livro Tratado sobre a Paz perpetua, considerava a guerra como a destruição de todo o bem e a origem de todo o mal.

Avança o mesmo general que a creação dos tribunais arbitrais, que os Estados Unidos quizeram organizar, não era mais que uma mistificação, e que nisso a Inglaterra andava representando um idealismo teatral. A guerra é a lei suprema. O Direito só é respeitado emquanto é compatível com as vantagens que dele se obteem. A guerra é a luta supersocial que guia o desenvolvimento externo das sociedades, das nações e das raças.

A colonização é um direito que os povos mais civilizados teem, ocupando o território dos menos civilizados. O povo mais culto não reconhece o direito de independência ao que é menos progressivo.

O Direito está da parte do vencedor, e não do possuidor.

Ainda modernamente dão-nos exemplos disto a Italia na Tripolitana, e a França em Tunis, na Argelia e em Marrocos.

A vida dos homens e dos povos deve ser considerada como um fragmento da existencia universal, e, portanto, deve ter em vista o desenvolvimento das energias espirituais e morais. O homem deve considerar-se como um elemento do organismo social, procurando trabalhar para a coletividade. O individualismo puro é um criminoso egoismo.

A pequenez do homem deve desaparecer perante a grande idéa do Estado.

Os actos isolados de barbarismo que se dão nas guerras são incidentes de pequena monta perante levantado idealismo em que a mesma guerra se inspira.

A politica de um grande Estado, diz Bernhardi, deve ter em vista fins politicos; e, recorrer às armas, é um sagrado direito de Estado, quando se trate de resolver conflitos que influam de uma maneira decisiva no progresso e bem estar da nação, devendo-se procurar manter bem viva esta convicção na alma popular.

Se se tem o direito á guerra, ter-se-há o dever de fazer a guerra, isto é, de provocar a guerra?

Bernhardi responde afirmativamente, e desenvolve esta afirmação no capítulo II do seu livro.

Assim diz – que o homem de Estado, tendo reconhecido a necessidade politica de fazer a guerra, não deve deixar escapar a melhor oportunidade de fazê-la, devendo para isso provoca-la, se tanto fôr preciso. O homem de Estado deve empregar toda a energia e decisão, sendo uma debil política causa desastres.

Frederico o Grande, reconhecendo a necessidade politica de aumentar a Prussia, não hesitou em provocar a Austria; emquanto que a indecisão de Guilherme III em 1805, querendo a todo o custo conservar-se em paz, levou o país á ruina em 1806.

A energia e decisão de Guilherme I e de Bismarck lançaram a Prussia na guerra, e só esta deu lugar á unificação alemã.

Da mesma forma o Japão se tivesse hesitado em fazer guerra á Rússia em 1904, teria deixado escapar a ocasião de se engradecer e teria perdido toda a influencia na Coréa e na região de Amur. Uma nação mesmo pequena, não deve hesitar em fazer, se o povo tem as necessarias energias para entrar na luta.

E, Bernhardi, cita o exemplo dos Booers, declarando a guerra á Inglaterra. Esta, ainda que vencendo pelo numero, não conseguiu dominar aquela forte raça, considerando de boa politica obter uma fusão politica pacifica, sob a bandeira inglêsa.

De forma que a guerra levada a efeito por um homem politico energico, ainda que trouxe a derrota dos Booers nos campos de batalha, com tudo a sua importancia politica não foi aniquilada, e, moralmente, foram eles que sairam vencedores.

Portanto, todo o homem de Estado digno deste nome, todo e qualquer meio lhe é permitido para proteger e desenvolver os interesses da colectividade. Meios considerados imorais, quando empregados pelo individuo, não teem a mesma significação quando empregados pelo Estado. A moral do Estado deve guiar-se pela natureza e razão de ser do próprio Estado, e não pela moral privada, só propria do individuo.

Comtudo um Estado tem obrigação de ser sincero nas suas relações com os outros Estados. Os subterfugios são prova de fraqueza e de ruim espirito diplomatico.

Todavia, se entre dois Estados existe uma guerra latente, licito é proceder como na guerra, empregando-se ardís e enganos. O direito estabelecido terá em muitas ocasiões de ser protraído pela politica, pois aquele direito não é incondicional, e até muitas vezes assenta em tratados impostos pela força, tendo portanto uma base imoral.

Portanto, conclue Bernhardi, o direito de recorrer ás armas existe e constitue um dever para um Estado, não só quando este seja atacado, mas quando a politica seguida por outro Estado é atentatoria do proprio Estado e o põe em perigo. É preciso estar sempre preparado para a guerra, pois, dizia Frederico, negociações sem armas é musica sem instrumentos.

Circunstancias ha em que fatalmente se terá de recorrer á guerra: 1º – Quando a um Estado se torna materialmente impossivel suportar por mais tempo as despezas de armamento, impostas pelo poderío dos adversários; 2º – Quando se reconhece que o poder dos adversarios vai aumentando, e que se não poderá igualar, se se deixa decorrer mais tempo; 3º – Quando se tem noticia de uma aliança entre Estados, que estão esperando uma ocasião favorável para nos fazer a guerra.

É preciso que o homem de Estado não deixe fugir a ocasião; pois de contrario, como já dizia Schiller, tarde ou nunca esta voltará. Reconhecida a necessidade e a oportunidade de fazer a guerra, todos os interesses particulares e quaisquer idéas de sentimentalismo teem de se calar, não se devendo pensar nas diversas calamidades inherentes á guerra.

Já Lutero dizia, que a guerra, quando visa a um fim moral elevado, torna-se um dever divino, tão necessário e tão util, como o comer e o beber são para o corpo humano.

Tais são, em sintese, as idéas apresentadas por Bernhardi.

Depois, num novo capítulo (III.º), apresenta um breve resumo do desenvolvimento histórico da Alemanha.

Esboça as fases porque teem passado os povos da raça germanica, mostrando que, apoz a queda do Imperio romano, na organisação dos estados modernos exerceram a maior influencia os germanos e o cristianismo. Este, pregando igualdade dos direitos dos homens, formolou o codigo mais elevado de moral até então conhecido; os germanos, vindo fundir-se com os povos decadentes do Império romano, trouxeram novos elementos de vida, dando ensejo a uma nova organisação social.

Os germanos que vieram estabelecer-se ao sul dos Alpes, são os que mais assimilaram a civilisação romana, mas tambem os seus vicios. São os povos da raça latina. Os germanos que se fixaram mais do Norte conservaram-se mais puros.

Inutilmente teem os povos latinos procurado formar um grande imperio. Efémera foi a tentativa de Carlos Magno para reconstruir o Império romano do ocidente.

Também os germanos propriamente ditos, procuraram sob Othão o Grande formar um vasto imperio. As lutas com o Papado fizeram fracassar esta nova tentativa: porém o valor moral e material dos povos germanicos não desapareceu, manifestando-se de uma maneira intensiva na Liga Hanseatica.

Ainda nas grandes lutas religiosas o sangue germano corre em torrentes, fundamentando o grande progresso intelectual da humanidade. E´ em vão que, primeiro a Espanha, depois a França, procuram subjugar o espirito de liberdade dos alemães. Estes consomem as suas forças nessas lutas, fracionam-se em pequenos estados, e assim não podem tomar parte nas grandes descobertas.

Um desses estados, porém, a Prussia, em luta constante com a natureza, conserva as qualidades atavicas da grande raça germanica, e consegue, por diversas etapes, em luta armada, exercer a hegemonia e realisar o ideal germanico. Bismarck, um dos fundadores do novo Imperio, não conseguiu ver completa a sua obra, que era levar o dominio germanico desde o Mar do Norte até ao Adriatico e Mediterraneo.

O desenvolvimento e consolidação do poder germanico devia inevitavelmente provocar invejas, lesionar interesses criados, e provocar da parte dos interessados uma aproximação, que os levaria a constituir uma aliança verdadeiramente ofensiva.

Por outro lado, diz Bernhardi, a situação interna da Alemanha tem-se modificado nos ultimos quarenta anos. As industrias, o comercio e a agricultura tomaram um crescente desenvolvimento e deram lugar ao socialismo, em luta com as classes burguesas; as antigas rivalidades entre o Norte e o Sul tambem não teem permitido a constituição de uma homogenea e forte nacionalidade. Como contribuir então para alcançar essa fusão?

A história já o tem mostrado – recorrendo a uma guerra.

Eis, pois, postas em evidencia por Bernhardi as causas da guerra actual. Foi uma necessidade resultante da situação externa e interna da Alemanha.

Ainda Bernhardi aponta o perigo que corre a Alemanha da invasão eslava pacifica, pois é enorme a massa de eslavos que se teem infiltrado na Alemanha, vindo estabelecer-se até no centro da Vestefalia. A Austria corre também o perigo das influencias eslavas, e não é por meios pacificos que esse perigo será desviado. E´ preciso recorrer á guerra. E assim se vê, pela comunidade de interesses; a necessaria aproximação da Alemanha e da Austria.

Ainda a Alemanha precisa colocar o excesso de população, a superprodução das suas fabricas, e para isso carece de extensas colonias; e, para ter mercados nas colonias, precisa ter livre os caminhos maritimos. A França tem aumentado o seu dominio colonial e a Alemanha, diz Bernhardi, tem o pleno direito de ter uma parte mais importante no dominio da terra.

Esta necessidade da Alemanha se tornar uma grande potencia colonial e mundial pois de contrario será arruinada pelos seus adversarios, é plenamente desenvolvida por Bernhardi num outro capitulo.

Ele ahi diz: O direito, e até o dever, em nome de civilisação, que a Alemanha tem em se tornar uma potencia mundial, será coartado pelas condições de posse das outras nações que a precederam, e que procurarão defender pelas armas os seus dominios.

Sendo, pois, indispensavel a guerra, é evidente que o poder politico da Alemanha tem de se apoiar no poder militar.

Acidentalmente a Italia está aliada á Alemanha e á Austria.

Os interesses da Italia são antagónicos com os da Austria.

Esta nação e a Alemanha, diz Bernhardi, cometeram um grande erro em não terem auxiliado a Italia na sua expansão na Africa. Assim teriam feito desaparecer o irredentismo.

Se a Italia tivesse ocupado Tunis, ter-se-ia creado um poderoso motivo de antagonismo entre a Italia e a França, que se traduzia em beneficio da Triplice. Porém a Austria e a Alemanha deixaram que a Inglaterra e a França se aproximassem da Italia na questão da Tripolitana, de forma que, é de esperar que no caso de uma guerra contra aquelas nações, esta ultima nação se conservará, pelo menos, neutral (não se enganou Bernhardi na suas previsões).

Tambem os interesses balkanicos são antagonicos entre a Italia e a Austria.

A Alemanha cometeu ainda outro erro permitindo que a França anexionasse Marrocos, o que deu ensejo a que esta nação aumentasse o seu poder colonial; e é esta expansão colonial que permitirá á França aumentar o seu poder militar, pois em breve poderá recrutar forças importantes nas suas colonias africanas.

A aliança da Russia com a França e a Inglaterra terá no futuro uma importancia grande. Actualmente o exercito russo não é para temer. Os seus quadros são insuficientes e pouco instruidos; o soldado russo é uma massa sem iniciativa e sem decisão. Comtudo, diz Bernhardi, devemos contar com o seu ressurgimento, e que a sua politica futura será apoderar-se da desembocadura do Vistula, dando-lhe a supremacia do Baltico, e procurara exercer o seu predomínio na Peninsula Balkanica, e o livre acesso ao Mediterraneo.

A Russia não tem grandes interesses ligados á França, e a sua aliança tem antes por fim obter os recursos monetarios que lhe faltam para a sua reconstituição.

Também os convenios da Russia com a Inglaterra relativamente á Asia oferecem pouca estabilidade e por isso a sua aliança não terá grande consistencia.

É, possível porém que a Rússia, antes de consolidar o seu poder militar, se veja forçada a provocar uma guerra, para assim desviar as atenções e afastar os graves perigos que ameaçam, de um intenso movimento revolucionário.

Já a aliança franco-inglesa oferece mais segurança, pois a Inglaterra tem o maior interesse em provocar uma guerra com a Alemanha, visto que esta lhe está criando graves dificuldades na Turquia asiatica e na Africa Central.

O movimento nacionalista na India e no Egipto e o crescente poder do islamismo podem pôr em risco o poder inglês.

A´ Alemanha compete explorar este campo.

A Aliança com a Turquia será, pois, de uma boa politica, pois este Estado pode eficazmente ameaçar por terra o dominio inglês no Egipto, e uma guerra entre estes paizes deve reflectir-se no movimento islamico que assim ameaçará o poder mundial da Inglaterra.

A´ Alemanha interessa ainda que a Turquia conserve Constantinopla e Andrinopla.

Do Japão, diz Bernhardi, que puco ha recear na Europa; mas para a Alemanha manter as suas possessões na China, deverá procurar manter a rivalidade entre esta nação e o Japão.

Bernhardi também julga conveniente que a Alemanha tenha uma aliança com a Espanha, aproveitando as rivalidades que esta nação tem com a França por causa de Marrocos, e com a Inglaterra por causa de Gibraltar, cuja perda muito fére o orgulho nacional.

Nos países Balkanicos deve-se contar com o odio irreconciliavel da Servia á Austria, mas como a Bulgaria é inimiga daquela, ha toda a conveniencia em procurar um entendimento com esta nação, o que constituirá um importante auxílio.

Relativamente a Portugal, diz o general Bernhardi, apenas contaremos com ele para nos apoderamos das suas colonias. A Alemanha precisa de colonias que já estejam em condições de receber o seu excesso de população.

Um desastre financeiro ou político em Portugal poderá dar ocasião a que adquiramos uma parte das suas colonias. Um acordo já existiu entre a Alemanha e a Inglaterra para essa partilha, acordo que não tem tido publicidade, e que até parece ter sido posto de parte pela Inglaterra, visto que num convenio recente garantia áquele país a posse de todas as suas colonias.

Bernhardi ainda aborda a questão de se respeitar o território dos países neutros no caso de uma guerra europêa.

A este proposito, diz ele, – os tratados internacionais feitos no começo do seculo XIX em condições e até com conceitos muito diferentes sobre a essencia do Estado, não teem actualmente valor.

Assim quando a Belgica foi declarada neutral, ninguem pensava que viesse a ocupar o Congo, e esta ocupação, mudando a essencia do Estado, fez ispo facto desaparecer a neutralidade, por isso que, toda a nação que se subtrai ao perigo da guerra não tem direito a entrar em competencia política com outros Estados.

Num outro capitulo (o VI) trata Bernhardi da importancia social e politica da preparação para a guerra, e nele desenvolve a tese, (aliaz sabida), de que hoje os exercitos devem estar preparados desde o tempo de paz nos mais insignificantes promenores para que possam mostrar a maxima potencia na guerra, e que essa preparação deve ser considerada sob o ponto de vista militar, politico e social.

O sistema e a extensão da preparação para a guerra dependem das condições politicas exteriores de uma nação e do conjuncto de interesses internos.

Quando um estado carece de condições para uma vida nacional independente, quando não tem os meios de cultura própria, quando não dispõe da força para defender a sua existencia politica, está sempre ameaçado na sua integridade por um Estado visinho mais poderoso, ainda que a sua independencia seja justa, ou a sua neutralidade esteja declarada por convenios internacionais. Um país pequeno deve porém ter meios defensivos que lhe permitam lutar até que seus aliados possam intervir.

Os provaveis aliados teem porém o direito de ter uma certa influencia a exercer a sua intervenção na preparação para a guerra de um tal Estado, aproveitamento ao mesmo tempo as suas circunstancias locais, a sua posição geográfica e a natureza do seu território[1].

Os pequenos Estados não devem confiar demasiado nas alianças, pois as combinações politicas podem confiar demasiado nas alianças, pois as combinações politicas podem variar, e todo o Estado que quer manter a sua independencia deve procurar desenvolver a maior potencia militar, ainda que tenha de fazer sacrificios; e, se tiver por visinho um Estado mais forte, mais uma razão terá para procurar desenvolver um maior esforço militar e a maxima actividade politica. Todavia o desenvolvimento militar não deve exceder a capacidade dos recursos economicos, baseando-se sempre no desenvolvimento harmonico de todos os elementos de forças fisica, intelectual, moral, financeira, e militar.

Tratando do sistema organico do exercito, Bernhardi diz, que o sistema de improvisar massas armadas ou mal instruidas não pode dar um exército consistente, podendo até constituir um perigo.

Dada a perfeição da tecnica e das armas modernas, maior necessidade ha em aumentar o grau de preparação para a guerra tanto em relação ao pessoal, como ao animal e material. A instrução superficial dos soldados constitue um mero engano. A preparação de todas as forças vivas da nação para a defesa, é uma verdadeira preparação para a guerra, e que deve abranger a preparação moral do povo.

Todo o homem de Estado tem pois o dever de estimular e coordenar todas as forças vivas da nação, interessando-as e aproveitando-as para a defesa comum.

Em novo capítulo (o VIII) examina Bernhardi qual deverá ser o caracter da proxima guerra. Para isso aprecia as forças militares dos países que entrarão no conflito armado, analizando as da França, Russia, Inglaterra, Italia, Austria, Turquia, Servia, Bulgaria, Montenegro, Grecia, Romania, Belgica, Espanha, etc.

Tratando do exercito inglês, considera-o com um fraco valor tático, como se manifestou nas mais recentes manobras de 1912. Conta que a acção da Russia será em parte paralisada com movimentos revolucionarios internos, como já sucedeu na guerra com o Japão.

A próxima guerra, diz Bernhardi, terá o caracter de uma grande energia, será uma guerra de destruição, pois os exitos medianos dariam logar a que se renovasse a guerra dentro de um curto prazo, e isso não convirá aos interesses dos aliados.

A guerra terá, pois, de ser decisiva e importará o aniquilamento dos vencidos.

Em capítulos especiais, trata o escritor de que nos vimos ocupando, da organização do exercito, da instrução militar e da educação nacional.

Como axioma estabelece – que toda a preparação para a guerra deve procurar desenvolver a maior força combatente e a maior capacidade tática para que seja possível realizar com êxito a guerra ofensiva.

A força combativa de um exercito, diz Brenhardi, fundamenta-se na instrução, no armamento, no elemento humano e na organização das tropas.

Para que um exercito seja organicamente forte, é necessário que possua desde o tempo de paz os quadros de oficiais correspondentes aos efectivos de guerra; que sejam grandes a capacidade e o espirito dos chefes, oficiais e sargentos; que em todos exista a mais completa disciplina, decisão e iniciativa.

Emquanto á força numérica dos quadros, diz que, sendo dependente do orçamento, torna-se dificil ter numerosos quadros de sargentos, visto que para chamar a concorrencia é necessário dar-lhes um regular vencimento e vantagens pecuniarias futuras ou empregos civis.

Tratando da composição das unidades, diz que a capacidade operativa provém, não só da boa relação das diversas armas, mas ainda da organização das unidades em cada uma.

Condena a organização binaria, porque dificulta a constituição das reservas, visto que, para formar estas, tem-se de desfazer as unidades, deixando os chefes sem comando.

Considera muito superior a organização ternaria, tornando-a até extensiva ao corpo d´exercito, dotado de 3 divisões, e estas a 3 regimentos, suprimindo-se assim as brigadas.

Relativamente á cavalaria, julga indispensavel dotar cada divisão com um regimento de cavalaria a 3 esquadrões, e que as unidades ciclistas que devem apoiar a cavalaria devem-lhe estar distribuidas desde o tempo de paz, para aprenderem a atuar em conjunto.

Tratando da instrução militar, diz que ela deve vizar o desenvolvimento da personalidade e da individualização, especialmente na infantaria e na artilharia, e que na cavalaria em exploração deve haver a maxima iniciativa.

Os terrenos cobertos ou acidentados, obrigarão frequentemente a artilharia a constituir-se em grupos, e em formações separadas e escalonadas, isto é, a dispersão, mas concentrando os fogos sobre o objectivo tático mais importante. Tal dispersão dificulta a acção do comando é certo, mas torna-se necessaria.

Ainda que seja conveniente dar grande importancia á técnica do tiro, comtudo, não se deverá descurar o emprego tático da artilharia.

Bernhardi julga indispensavel que no tempo de paz se façam marchar atravez dos campos brigadas e divisões, tanto de dia como de noite, levando secções de sapadores nas vanguardas, e que se deveriam organizar colunas com a profundidade de 25 a 30 quilometros, ainda que esta profundidade não correspondesse aos efectivos dessas coluna, mas para assim se formar uma idéa mais exacta do funcionamento do serviço de reabastecimentos.

Não se pode aprender teoricamente, diz Bernhardi, o mecanismo do reabastecimento de grandes unidades, sendo preciso pratica-lo, e para isso dever-se-ha nas manobras efectuar os reabastecimentos como no tempo de guerra.

Ainda o mesmo autor chama a atenção para o facto de algumas vezes se dar o comando nas grandes manobras a generais que estão prestes a ser reformados.

Tratando da instrução dos oficiais de cavalaria, diz que estes precisam ter uma grande preparação scientifica, pois na cavalaria a parte operativa é ainda mais essencial que o combate, mas devendo-se ligar este com aquela, e que estes oficiais não se devem limitar a praticar só a equitação, e que as escolas de equitação muito tem contribuido para que a cavalaria siga por um mau caminho.

Diz Bernhardi que a Academia superior de guerra na Alemanha apenas prepara para o Estado Maior, tornando-se necessario um Instituto Superior de instrução militar, onde os oficiais se habilitassem para o alto comando, estudando os grandes problemas militares sob um ponto de vista filosofico, como a legitimidade da guerra, as suas relações com a politica, a cooperação das forças materiais a importancia da personalidade nos sucessos da guerra, etc.

Ocupando-se da educação nacional, diz que o poder militar assim como a força politica do Estado, teem suas raíses na educação do povo, não só fisica, mas espiritualmente.

É preciso educar a vontade do povo, porque é preciso que o Estado se apoie neste. Sob o ponto de vista militar, é necessário cuidar do desenvolvimento corporal e intelectual da juventude, para que esta, ao entrar na vida militar, cuja duração é hoje muito reduzida, traga já uma preparação que facilite a aprendizagem, e mesmo os quadros actuam mais facilmente sobre individuos de inteligencia desenvolvida e bem dispostos. Esta preparação deve ser ministrada nas escolas, onde o ensino deve ser orientado neste sentido.

O ensino da historia patria é duma alta importancia, mas encontra-se muito descurado na Alemanha, como se viu em 1910, em que sendo interrogados 63 recrutas de uma companhia, nenhum soube dizer quem tinha sido Bismarck.

Sob este ponto de vista, o ensino nas escolas japonêsas é digno de ser imitado; de forma que, quando os rapazes são chamados ás fileiras, é isso um motivo de festa nas famílias, que celebram com alegria o cumprimento do mais honroso dever civico. Foi este espirito educativo que fez com que o Japão triunfasse da Russia, onde se considerava a guerra como um anacronismo, e o serviço militar como uma deshonra.

Não são menos interessantes os dois capítulos em que Bernhardi trata da preparação para a guerra naval e do caracter que a proxima guerra naval deverá ter.

O futuro da Alemanha está no mar, diz Bernhardi, e para isso é necessario que se torne uma potencia naval de tal ordem, que possamos combater contra a Inglaterra. Só Guilherme II soube reconhecer essa necessidade, de forma que só a partir de 1900 é que se estabeleceu um criterioso plano naval, que deverá estar completo em 1914. As hesitações que tinham havido, procurando-se resolver o problema gastando pouco, foi um erro que muito demorou o desenvolvimento naval da Alemanha. Ao princípio só se pensou em defender as costas e o comercio marítimo, mas não se viu que, para garantir a liberdade dos mares, seria preciso combater, tornando-se assim necessario ter unidades de combate de alto mar.

Estas unidades devem ter superioridade sobre tipos ingleses em velocidade e poder ofensivo. Torna-se indispensavel desenvolver o mais possivel a construção de submarinos com grande velocidade e grande raio de ação, podendo atuar a grandes distancias no alto mar. É preciso ainda desenvolver o serviço aeronautico, que deverá coorperar com a ação naval. Os aeronavios deverão empreender ataques estrategicos ás costas inglêsas, e procurar destruir os navios de comercio dos inimigos, devendo os cruzadores auxiliares ter T.S.F para receber ordens e se transformarem em navios de guerra.

Diz ainda: A organização defensiva das costas deve permitir ter fortes bases navais, onde se recolham as nossas esquadras, e donde possam saír, logo que chegue a oportunidade de tomar a ofensiva. A nossa ação deve vizar principalmente a Inglaterra que foi quem impediu que fossem satisfeitos os nossos interesses em Marrocos, e devemos ter presente que a Inglaterra não hesitará em provocar a guerra antes que nós tenhamos completado o nosso programa naval.

Emquanto não adquirimos a superioridade naval, teremos de adoptar a a defensiva, pelo menos ao principio, mas sem perdermos a esperança de passar á ofensiva.

Bernhardi, considera depois a forma como a Inglaterra procurará realizar o bloqueio das costas alemãs, e a maneira de contrariar esse bloqueio não só fortificado determinados pontos de apoio, mas procurando evitar desembarques, empregando de dia os submarinos e de noite estes e torpedeiros.

A posse de Sund e so Grande Belt, dará aos alemães a chave do Baltico e permitirá o ataque á linha de bloqueio inglêsa.

O ataque aos navios de comercio será feito de uma maneira energica e surpreendente. As destruições devem ser completas, sem nos embaraçarmos em fazer prezas, atacando mesmo os navios neutrais, que conduzem contrabando de guerra. O trafico maritimo inglês deverá também ser embaraçado semeando nas linhas de navegação sistemas de minas.

Relativamente á maneira da Alemanha continuar a receber viveres e materias primas para as suas industrias, Bernhardi julga indispensável que sejam tomadas as disposições necessarias para que a Alemanha possa receber tudo por intermedio da Holanda, da Belgica e mesmo da Dinamarca, e, acrescenta ele, se estas nações, receando a acção naval da Inglaterra, tentassem pôr embaraços ao comercio alemão, deveríamos ataca-las pelas suas fronteiras terrestres. Todas as medidas necessarias para que nos seja garantido o comercio teem de ser preparadas com antecipação em tempo de paz, devendo haver uma repartição especial para este serviço, e pelo qual se tornará responsável, repartição que deverá fazer parte do ministerio do comercio, e que procederá de acordo com as mais importantes casas comerciais.

Finalmente, ainda Bernhardi se ocupa num ultima capitulo da preparação financeira e política da guerra, cuja necessidade põe em evidencia, tendo-se em vista as imensas despesas que exigirá uma guerra moderna, e sendo indispensavel que se organize a mobilização politico-comercial, que deverá assegurar o abastecimento de todas as materias necessarias á industria e á alimentação do povo.

Torna-se também indispensavel uma preparação politica externa, procurando-se, por meio de alianças, isolar o mais possível os inimigos provaveis na guerra.

Dever-se-ha considerar como fazendo parte de preparação para a guerra, tudo que tenha em vista desenvolver a riqueza pública, a capacidade produtora dos ceriais e da carne, assim como de todas as industrias que mais directamente se tenham de utilizar no fabrico de artigos militares.

O aumento da riqueza publica importa uma melhoria nas condições do trabalho operario, cujos salarios aumentarão.

E´ preciso que o Estado procure auxiliar as classes trabalhadoras, pois estas bastante contribuem para o aumento da riqueza pública. E´ preciso, porém notar, que se deverá antes melhorar as condições em que se executa esse trabalho, do que reduzir o numero de horas de trabalho.

Não se deve, porém, procurar melhorar a situação economica á custa dos orçamentos da guerra e da marinha.

A força militar é o maior apoio do crédito; e por isso, diminuir a força militar, equivale a pôr em perigo a segurança financeira. A nação que tem um forte exercito e poderosas esquadras oferece garantias de credito.

Relativamente ás alianças politicas, diz Bernhardi que – um verdadeiro estadista só deve contrair alianças quando tenha a convicção que cada um dos contratantes te nisso um verdadeiro interesse. “Não ha no mundo aliança que possa considerar-se sólida, senão se funda em comuns e reciprocos interesses; se o proveito pertence somente a uma das partes e nenhuma á outra, a desproporção anula a obrigação”. Assim dizia Frederico o Grande, o melhor mestre em politica. Um Estado que procura numa aliança só os seus interesses, sem favorecer os interesses do aliado, corre risco de não encontrar este na ocasião do perigo.

A política que se não fundamente em bases sólidas, é uma política de aventuras, como foi a de Napoleão III no México e da Italia na Abissinia. A guerra deve ser preparada politica e militarmente, como fez o Japão antes de atacar a Russia.

 

*

*  *

 

Já vai longo este artigo, mas pelo que deixamos dito acêrca do livro do general Bernhardi, o leitor concluirá a importância dos assuntos nêle tratados, alguns dos quais dizem respeito a Portugal. Muitos dos meios de ação empregados na actual guerra ali estavam indicados. Resalta com toda a evidencia, pelo que diz Bernhardi, que esta guerra era inevitavel, e que tanto a Inglaterra como a Alemanha, se estavam preparando para ela. As alianças que Bernhardi apontava como necessárias á Alemanha, esta as rializou. Emquanto ao importante papel da Turquia na presente guerra, não tardaremos em vêr se se confirmam as previsões de Bernhardi. Emquanto á teoria, de que os países fortes absorverão os pequenos, porque estes não teem razão de existir, a propria historia se encarrega de demostrar que isto não é de uma exactidão absoluta. A missão historica dos povos não é unicamente função da sua extensão territorial. Na propria natureza se vê que os pequenos organismos também são chamados a desempenhar um papel importante no vasto e complexo funcionamento do universo.

 

VICTORIANO CESAR

 


[1]  Naturalmente Bernhardi quer referir-se à acção da Alemanha na Turquia.

 

__________________

Este artigo foi selecionado pelo Coronel Nuno António Bravo Mira Vaz, Vogal Efetivo da Direção da Revista Militar.

Foi publicado originalmente na Revista Militar, 68, 1, Jan, 1916, pp. 65-82.

Gerar artigo em pdf
2014-09-19
473-487
921
23
REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia