Nº 2453/2454 - Junho/Julho de 2006
Crónicas Bibliográficas
 

A Arte da Guerra

Maquiavel

 
A sublime ciência a que os gregos chamaram Estratégia continua a desenvolver-se nas Edições Sílabo, colecção “Clássicos do Pensamento Estratégico, com A Arte da Guerra de Maquiavel. A preparação da obra é da responsabilidade do Coronel David Martelo, tradução a partir de Tutte le opere storiche e letterarie di Niccolo Machiavelli, de 1929 (Florença), Estudo Introdutório e Notas.
 
A Introdução distribui-se por 21 páginas destacando-se a descrição do cenário histórico-militar em que a obra foi escrita, Península Itálica do final do século XV e início do Século XVI, na sequência da crise militar e moral resultante da invasão francesa de 1494; fórmula escolhida
pelo autor para apresentar o seu pensamento
, diálogo entre diversas personagens, género peça teatral do âmbito da tragédia; análise do contexto, protagonizado pela humilhante realidade do solo italiano ter servido de zona de operações de diversos exércitos estrangeiros e uma nota final onde se explica que o termo Capitão no significado do século XVI não é o jovem Oficial dos nossos dias, mas militar maduro a quem eram cometidas responsabilidades de alto nível militar, semelhantes às assumidas pelos Oficiais-Generais da actualidade.
 
Nicolau Maquiavel começa a sua Arte da Guerra com oportuna Introdução - Proémio - a anteceder sete livros.
 
Livro Primeiro; Livro Segundo, questões de armamento, “Qual dos modelos de armamento vos merece mais encómios: o alemão ou o romano da anti­guidade? O romano, sem dúvida.”, continuando, “Quanto à aprendizagem
do manejo das armas, queriam que os jovens se exercitassem com armas cujo peso era o dobro das armas verdadeiras, dando-lhes, como espada, um bastão chumbado, incomparavelmente mais pesado
.” e a terminar, “Preocu-
pemo-nos, então, com dar forma a um exército, capaz de se apresentar no campo de batalha preparado para a vencer, que é, no fundo, o motivo da organização da milícia e dos cuidados postos na sua formação.
”; Livro Terceiro onde analisa os postos do exército e se a forma de iniciar o combate se deve fazer com grande ruído, acelerando o passo, para elevar o moral das tropas, ou silenciosamente, em passo normal, isto entre muitas outras oportunas considerações; Livro Quarto, para salientar a necessidade de bem organizar o exército e cuidar das precauções que o líder, na altura Capitão, hoje General, deve tomar antes de travar a batalha e, principalmente, pensando na estratégia de ontem e de hoje, alertando para, “... surgindo qualquer imprevisto durante a mesma, como remediá-lo.”, este Livro termina relevando os valores de fidelidade, experiência e inteligência dos militares que o Capitão tem por perto e a chamando a atenção para a necessidade de Confiança, sendo esta provocada pela superioridade das armas, pela disciplina, por vitórias recentes e pelo alto conceito atribuído ao Capitão; o Livro Quinto diz-nos, “Como se organiza um exército para enfrentar um inimigo que, embora não se mostrando às claras, a todo o momento receamos que nos ataque. E o que acontece quando se opera em território inimigo ou de condição duvidosa.”; no Livro Sexto prossegue-se a matéria falando no alojamento das tropas destacando-se o cuidado com os períodos de repouso e respectiva segurança, “... repouso sem segurança, não é autêntico repouso.”; por fim, no Livro Sétimo, Maquiavel analisa os cuidados com a construção de posições fortificadas e termina com pormenorizadas regras com quais todos devem estar perfeitamente identificados, destacando-se: “É preferível vencer o inimigo pela fome do que pelas armas.”, “Nada há de maior utilidade na guerra do que saber reconhecer uma oportunidade e não a deixar fugir.”, “Na guerra a disciplina vale bem mais do que a exaltação.”, “Dificilmente é derrotado todo aquele que consegue avaliar correctamente as suas forças e as do inimigo.”, e neste resumo destaca-se a terminar, “Aquele que não prepara devidamente os abastecimentos necessários à vida do exército é derrotado sem o recurso às armas.
 
A obra termina com Nicolau Maquiavel, cidadão e secretário florentino, a explicar aos leitores a organização das batalhas e dos exércitos e a preparação dos alojamentos, com auxílio de pormenorizado conjunto de figuras e diagramas.
 
Este esclarecido estudioso e grande pensador, falecido em Junho de 1527, já naquela altura deixava transparecer da sua obra que se pode iniciar uma guerra quando se deseja, mas no que respeita à sua paragem só se consegue quando se pode.
 
A Revista Militar agradece a “Edições Sílabo” o exemplar enviado para a sua Biblioteca, felicita a Editora por mais esta contribuição para a correcta evolução do pensamento e da acção estratégica em Portugal e o Coronel David Martelo pelo envolvimento na obra, em especial pelo seu excelente Estudo Introdutório.
 
António de Oliveira Pena
Coronel, Director-Gerente do Executivo da Direcção
Coronel
António de Oliveira Pena
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2006-10-12
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REVISTA MILITAR @ 2018
by CMG Armando Dias Correia