Nº 2554 - Novembro de 2014
Gabriel Espírito Santo (1935-2014): o meu Tenente-coronel de abril

Gabriel Espírito Santo (1935-2014): o meu Tenente-coronel de abril*

Chamam-lhes “anos definidores” na história das nações onde substituem com vantagem o termo mais vulgar de “revolução”, sempre preso a uma descontinuidade exagerada na cabeça dos revolucionários. Do mesmo modo, mas em tempo diverso, contam-se “momentos definidores” na vida das pessoas, por referência ou não a alterações súbitas na sua circunstância.

Foi assim que, na tarde de 25 de abril de 1974, o General Espírito Santo proporcionou, no Estado-Maior do Exército, onde eu prestava serviço como aspirante, um momento definidor da minha vida.

O horário era das treze às dezanove e lá estava naquele dia, tendo tomado o elétrico, direto da Rua Primeiro de Maio até Santa Apolónia. No gabinete onde trabalhava, além dos Majores Gomes Marques e Vicente (citando os nomes de memória), estava o chefe, Tenente-coronel Espírito Santo, e o Capitão Barros, que eu não conhecia. Esforcei-me por confirmar os nomes completos e postos dos meus chefes, visto que só sabia que o Major Vicente tinha morrido1. Este pretendia saber quem era a favor da revolução e começou por mim. Logo atalhou o chefe: “então pergunta a um miliciano? Ele não sabe! ”Mas o capitão insistiu: “a favor ou contra? ”E eu, tendo tido aqueles segundos para refletir, respondi convicto: “a favor”.

Naqueles dias de brasa, toda a família estava esfusiante com duas exceções cautelosas, meu pai, historiador, e a avó de minha mulher, que se lembrava das revoluções dos anos 1920. O próprio Tenente-coronel me diria uns dias depois que estava a ver foices e martelos a mais nas ruas, mas que tudo iria correr bem. Fui mobilizado para a Região Militar de Angola, em Luanda, pouco depois e, tendo votado nas primeiras legislativas, por sinal também na presença do Capitão Barros, enquanto estava colocado no Estado Maior das Forças Armadas em Angola, Fortaleza de São Miguel, chega um pedido de requisição para a 2ª Repartição do EMGFA, onde estava o Coronel Espírito Santo. Estava na altura envolvido com a restruturação do Curso Superior de Economia e tinha o curso a meio, não fui capaz de interromper, o que muito surpreendeu o meu comandante, Coronel Carretas. No Verão, fui o primeiro a assinar o chamado Documento dos Nove, porque ia de licença para o Brasil, onde estava já minha mulher. Todos me diziam para desertar, mas também não fui capaz e terminei a comissão em outubro.

Voltei a conviver com o meu antigo chefe em Bruxelas, quando era representante militar na OTAN e eu diretor das economias nacionais na Comissão Europeia. Com as suas tarefas na Revista Militar surgiram outras oportunidades, através da Academia das Ciências de Lisboa. Assim, quando lançou o seu último livro Da arte da guerra à arte militar, voltamos a encontrar-nos no Instituto de Estudos Superiores Militares, onde, desde o tempo do General Pinto Ramalho, ia todos os anos dar uma aula no curso de estudos africanos. Aqui está o livro, dedicado ao casal “com elevada estima”, em 3 de fevereiro de 2014, quarenta anos e umas semanas depois de ter feito o último juramento de bandeira do regime anterior.

Soube da sua morte súbita por Alexandre Patrício Gouveia, mas não pudemos ir ao enterro. Reencaminhou-me a mensagem do General Pinto Ramalho sobre a missa de 7º dia e lá estava no Centro Social Paroquial de Oeiras, antes das onze horas, mas não era ali, era em Nova Oeiras, disseram-me, chega lá num instante. Só que também não era aí, mas o padre tinha ideia que seria nos militares, onde cheguei passado o meio-dia e encontrei o General Pinto Ramalho a sair. Generoso, como sempre, levou-me à viúva. Eu sorri ao dar-lhe os pêsames, porque tinha sido capaz de ser fiel aquele momento definidor! Estavam também os dois filhos e o General Pinto Ramalho a quem prometi escrever uma breve homenagem para a Revista. Com este “sol nulo dos dias vãos, cheios de lida e de calma” de que fala Fernando Pessoa, imploro: “senhor já que a dor é nossa / e a fraqueza que ela tem / dá-nos ao menos a força / de a não mostrar a ninguém”. Por mim, não fui capaz de fazer outra coisa antes de escrever isto.


* Prof. Doutor Jorge Braga de Macedo, Professor Catedrático na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

1 Esforcei-me por confirmar os nomes completos e postos dos meus chefes, visto que só sabia que o Major Vicente tinha morrido. Apurei que se tratava da 5ª Repartição e que o Major do CEM 51217611 - Joaquim Fernando Lopes Gomes Marques também já teria falecido. Queria agradecer a ajuda que recebi de vários quadrantes do Exército, sempre acompanhada por manifestações de vivo apreço pelo General Espírito Santo.

Gerar artigo em pdf
2015-03-23
1037-1038
474
23
REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia