Nº 2556 - Janeiro de 2015
O Brigadeiro Bernhard Wilhelm Wiederhold (Kassel 1757 – Lisboa 1810) – Tradução, notas e comentários
Mestre
António Pedro da Costa Mesquita Brito

Wiederhold (Bernhard Wilhelm)* – Conforme me comunicou através de um texto sobre a sua vida no próprio ano de 1793: “Nasci em Kassel em 9 de Maio de 1757, e fui criado na religião reformada. Devo as minhas primeiras lições à Instituição do Professor Casparson; no Outono de 1771 matricularam-me no Colégio Carolino de Kassel, que estava por essa altura no seu apogeu. Dediquei-me sobretudo ao estudo da jurisprudência, embora também tenha feito estudos de matemática superior, e não tenha desprezado as línguas estrangeiras, tendo ocupado os mesmos tempos de lazer com as belas letras. Estava prestes a prosseguir os meus estudos em Göttingen[1], quando uma catástrofe familiar[2] me forçou a mudar subitamente de planos, limitou essas minhas aspirações e me levou no ano de 1774 a empregar-me numa posição da Câmara de Guerra e Domínios[3], onde tive ocasião de praticar a actividade de secretariado, e de adquirir os conhecimentos dos negócios administrativos úteis a qualquer posição. A carreira que tinha escolhido pareceu-me não se coadunar bem com os meus estudos. Procurei assim a oportunidade de lhes dar melhor orientação, e encontrei-a quando rebentou a Guerra da América. Como não duvidava que no seguimento dela pudesse conseguir melhor actividade utilizando os meus estudos e conhecimentos de negócios administrativos, e para além da consecução por esta forma tão harmoniosa das minhas aspirações, esperava para além da experiência de guerra, obter os conhecimentos de terras, povos, e do mundo, troquei assim repentinamente a pena pela espada, e fui colocado no ano de 1776 como aspirante a oficial no Regimento da Guarda de Corpo do Hessen. Depois de uma muito difícil viagem marítima, e dum tempo de espera de quási 20 semanas nos navios, o Regimento da Guarda do Hessen passou a tomar parte contínua na actividade da guerra na América, e participou nas operações de White Plains em 28 de Outubro e 1 de Novembro[4]; depois na tomada de Rhode Island, bem como em 1777 na batalha decisiva do rio Brandywine[5], e na não menos importante de Germantown[6]. As vantagens destas vitórias foram em parte perdidas como resultado do multiplicar dos inimigos da Grã-Bretanha no ano de 1778, e o Regimento da Guarda voltou de novo nesse ano para Nova Iorque, e participou em 1779 na expedição a Horseneck[7]. Em 1780 o Ten.-General von Knyphausen avançou para as Jerseys[8] com ingleses e hessianos, e o Regimento da Guarda estava na vanguarda, tendo os seus escaramuçadores em Connecticut Farms trocado tiros com uma brigada inimiga até à chegada do grosso do exército[9]. Recebi duas feridas e uma contusão; segui no entanto o Regimento quási logo a seguir, para estar presente na expedição a Rhode Island, altura em que o coronel e comandante da brigada, que foi depois o Ten.General Wurmb (a quem a seguir passou a pertencer o renomado Corpo) me nomeou ajudante do regimento; ocupei essa posição do estado maior até ao regresso a Hessen. Nesse mesmo ano de 1780 fui promovido a segundo tenente. Tinha utilizado o tempo nos quarteis de inverno em Newport, Filadélfia, Newport e mesmo nas cabanas de Kingsbridge, não só para aprender a língua inglesa, mas também para praticar a teoria militar, e a arte da engenharia. Na minha formação moral procurei seguir o exemplo do excelente major do regimento, e hoje Supervisor-Mor von Stamford[10]. A sua maneira de ser atenta, e esclarecedora aumentava cada vez mais o meu prazer na profissão e nas ciências, na medida em que ele me transmitia as bases da rectidão e dos bons costumes. O General v. Wurmb comandava no ano de 1781 um corpo de ingleses e hessianos, que se destinavam a ser enviados em navios de guerra para apoiar o exército de Cornwallis, de forma que participei numa expedição por mar, e o General comandou em Novembro e Dezembro de 1783 a maior parte das tropas do Hessen de volta à Europa. Este seu corpo invernou em Inglaterra, e só veio no princípio do ano de 1784 para o Hessen.

O fim da Guerra da América poderia ter sido o início de um destino mais proveitoso; tinha começado um noivado com uma jovem e rica americana, mas cujo pai exigia que eu desistisse da minha carreira. Com o meu sentimento de soldado e hessiano, e na esperança de ser ricamente tratado pela pátria, adiei o que se me oferecia, e decidi que, assim que recebesse a ambicionada recompensa, iria buscar a minha prometida ao distante novo mundo, se necessário mesmo contra a vontade de seu pai. Expectativas falhadas[11] impediram que realizasse as minhas intensões.

O Regimento em que me encontrava passara entretanto a ter como coronel em chefe o que fora príncipe herdeiro[12], e que agora passara a soberano reinante como Wilhelm IX, o qual com provas de graça e apreço me incitou na prossecução da minha profissão. Dediquei-lhe um tratado sobre o rodar dos pelotões, que era precedido de um prefácio sobre a legitimidade e a natureza das meditações militares, e de uma introdução sobre a Instrução das Evoluções de Infantaria em geral[13]. Por esta altura enviei vários trabalhos para mensários militares em Berlim, entre os quais um intitulado: “Etwas über die Ausrüstung und den Anzug des Soldatens, besonders des Infanteristen” [Algo sobre o equipamento e o fardamento do soldado, especialmente do infante][14]. No ano de 1787 fui promovido a Primeiro-Tenente no Regimento de Hanstein, tendo sido no mesmo ano transferido para o Regimento de Guardas Granadeiros. Passei a estudar sobretudo história do Hessen, e procurei dar aos meus trabalhos uma orientação patriótica. Apresentei um trabalho sobre a formação de um oficial, especialmente de um oficial do Hessen; apresentei ainda outro “über den kriegerischen Charakter der Deutschen und die Vorzüge des deutschen Militärs” [sobre o carácter guerreiro dos alemães, e sobre as virtudes dos militares alemães][15], e um terceiro “über das Monument, welches dem im J.1400 bei Kleinenglis in Hessen getödteten Herzog Friedrich von Braunschweig allda errichtet worden ist” [sobre o monumento erigido em Kleinenglis no Hessen, ao Duque Frederico de Brunsvique, no local em que fora assassinado, no ano de 1400][16].

No ano de 1788 fui promovido a capitão, supranumerário, e transferido para o Batalhão de Infantaria Ligeira de Lenz, em Rheinfels, onde prossegui as minhas actividades literárias em vários trabalhos a saber: “über die Handgriffe” [Sobre os manejos][17]; “über militärische Historiographie” [Sobre historiografia militar][18]; “über die Schlacht am Brandewyne [Sobre a batalha de Brandywine]”[19], que foram incluidos no jornal militar (ver nº13 p.11). Para me distrair de assuntos sérios dediquei-me ainda nas minhas horas de ócio às belas letras; fiz uma tradução livre da obra inglesa The virgin unmask’d [20] e escrevi poemas, dos quais um: “über den glücklichen Regierungsantritt Wilhelm’s IX” [sobre a feliz subida ao poder de Guilherme IX], Marb(urg ?), 1785. 4 e na continuação outro: “über die Einnahme von Frankfurt durch die Hessen” [sobre a tomada de Francoforte pelos hessianos], Fr(an)k(furt] 1793, impresso, como diversos enviados a um Musen-Almanach [Almanaque das Musas].

No princípio de 1789 fui nomeado Tenente-Quartel-mestre[21], e chamado para junto do altíssimo Príncipe para servir em seguida nos exercícios tácticos que o Mesmo promoveu no início do ano e nos acampamentos do Outono. Em 1790 exerci por um tempo serviço de ajudante junto do Ten.-General v. Kospoth em Hanau, o qual deveria comandar o Corpo enviado a Mainz para pacificação dos tumultos urbanos, e exerci também nesse mesmo ano essa função no acampamento de Bergen[22] para a (guarda da) eleição (do imperador); o que me deu a oportunidade de através de uma descrição minuciosa que foi impressa[23], servir de arauto às excelentes disposições militares do (tomadas pelo meu) Príncipe. Quando Esse mesmo concentrou no ano de 1792 um Corpo (militar) na área do Reno e Meno, para a manter segura contra todo o perigo das perturbações em França, exerci as minhas funções de Estado Maior, e também no Corpo que o Príncipe comandou em Agosto sobre o território francês, e nos progressos iniciais das forças combinadas imperiais e reais (N. do t. – austo-húngaras) e do reino da Prússia, em que tomou parte, às quais prestou em seguida os maiores serviços, colaborando nas maiores dificuldades, constituindo na retirada de França a força da retaguarda, cobrindo em Meccy[24] a difícil passagem pelo desfiladeiro de Longuion[25], e depois através de marchas forçadas conseguindo salvar os depósitos prussianos em Koblenz, e mantendo impregnável o Ehrenbreitstein[26]; também depois de um pequeno descanso no seu território, foi com o exército prussiano ao encontro do General Custine, ajudou a fazê-lo recuar até Mainz, obtendo assim nova fama com a conquista de Frankfurt. Nesse mesmo dia conduzi como Tenente-Quartelmestre a segunda coluna, que forçou a entrada pela porta de Allerheiligen. Recebi de Sua Majestade o Rei da Prússia a Ordem pour le merite, bem como de sua Alteza o meu Príncipe (sinal d)a mais completa satisfação”.

 

E aqui acaba o relato em primeira mão da vida de Bernhard Wilhelm Wiederhold. Algo se passou que o fez acabar aqui a narrativa, que o levou, a curto prazo, a abandonar o serviço do Conde soberano do Hessen, e a procurar serviço em Portugal, onde vai acabar os seus dias. Em comentários finais especularemos sobre essas razões. Entretanto, o seu biógrafo, Strieder, acrescenta uma curta mas esclarecedora conclusão:

 

“O que posso aqui acrescentar, é o seguinte:

No cerco de Mainz em 1793, o Sr.Wiederhold foi colocado no Estado Maior do comandante do Corpo do Hessen, Tenenete-General v. Biesenrodt. Teve nessa condição o azar de ter sido feito prisioneiro, mas alguns dias depois, e em resultado das diligências do mencionado general, foi libertado numa troca de prisioneiros.

Que os talentos e merecimentos do Sr.Wiederhold eram apreciados de forma excelente pelo seu Príncipe era sabido dele e dos seus contemporâneos; parece no entanto que a sua diária e crescente ambição de honrarias não conhecia limites, e resultou que em Março do ano de 1797 ele sofreu uma detenção; isto deve naturalmente ter sido insuportável para ele, um homem que achava só merecer louros; e embora por esta altura já estivesse determinada a sua nomeação para ajudante de campo do Príncipe, à qual ele aspirava desde há já algum tempo, não esperou por esta renovada prova da graça do seu soberano, e abandonou o serviço sem se despedir, passando ao serviço de Portugal, cuja entrada lhe foi proporcionada pelo Príncipe Christian August v.Waldeck, como Marechal do Exército Português (cargo em que este príncipe morreu logo em 24 de Setembro de 1798). (No Exército Português) fizeram-no coronel e Ajudante-General e Chefe do Estado Maior, e daí em diante passou a assinar: v. Wiederhold.

Casou-se com Henriette, de solteira Meyer, viúva desde 1792 do Secretário do Governo em Rinteln Johann Jakob Lotheisen, que o seguiu para Portugal. Ainda em Kassel tinha-lhe dado dois filhos, a saber: Friedrich Henrich Wilhelm, em Outubro de 1795, e Friedrich Henrich Wilhelm, em Setembro de 1796. O mais velho morreu logo em Setembro de 1796.

Bernhard Wilhelm v.Wiederhold morreu em Lisboa em 26 de Outubro de 1810, sendo General e Brigadeiro. (De notícias da família).”

 

Dele foram ainda publicados:

“Ueber das Quartierversagen” [Sobre o falhanço dos aquartelamentos] in Henning’s Genius der Zeit, 1796, Nov. p.316.

Ueber Portugalls Kriegsverfassung, sowohl in Europa als in den übrigen Welttheilen” [Sobre o estado militar de Portugal, tanto na Europa, como nas restantes partes do mundo] in N.[eue] Bellona, 7 Bd., 1804, 2 St., pp. 169 ss. e 3 St. pp.271 ss.

“Beytrag zur letzten Einnahme von Kostheim (in der Nacht vom 7.auf 8. Jul.1793)[27] mit einem Plan” [Contributo sobre a última tomada de Kostheim (na noite de 7 para 8 de Jul. de 1793) com um mapa] idem, 8 Bd. 2 St. pp. 158 ss.

“Kriegsverfassung von Spanien i.J.1804” [Estado militar da Espanha no ano de1804] idem, idem, 4 St., pp.344 ss.

Foi o excelente editor e principal contribuidor do Hess.Exerzier-Reglement für die Infanterie [Regulamento para o exercício da infantaria do Hessen], impresso em 8vo. em 1796[28].

 

Comentários[29]:

Auto-nobilitação

Uma última frase do acrescento biográfico de Strieder levanta o véu sobre as prováveis razões do afastamento do serviço de Hessen-Kassel e da emigração de Wiederhold: “(depois da vinda para Portugal) passou a assinar v.Wiederhold”.

Depois de uma meritória carreira militar de mais de vinte anos, Wiederhold via-se, eventualmente, ultrapassado na sua carreira por variados camaradas de armas de muito menos mérito, mas de condição nobre. Fora essa uma constante dos exércitos do antigo regime, sobretudo na Europa continental (o caso britânico era diferente, até porque a condição de nobreza na Grã-Bretanha tinha características diferentes); o tema já foi abordado pelo autor em pormenor num capítulo que lhe é exclusivamente dedicado – “nobreza e burguesia nos exércitos do fim do Antigo Regime”[30] – e refere-se o leitor para essa informação, que se evita repetir aqui.

O facto é que, no exército prussiano que, com o grande Frederico, se tornara no modelo dos exércitos alemães, e mesmo dos europeus, só depois das derrotas humilhantes de 1806 – especialmente Jena e Auerstedt –, que se deveram grandemente ao conservadorismo imobilista dos seus quadros aristocráticos, é que uma elite de oficiais burgueses (Scharnhorst, Gneisenau) promoveu a reforma que incluía o aproveitamento dos talentos de oficiais não nobres, cujo progresso na carreira fora dificultado pelo próprio Frederico.

Só que, em 1797, essa reforma, não obstante o sucesso já confirmado dos quadros burgueses do exército revolucionário francês – ou provavelmente por razão desse mesmo sucesso –, ainda não chegara aos exércitos alemães, onde uma carreira promissora só era assegurada a quem dispunha no nome da almejada “Silbe”[31]. No de Hessen-Kassel não era esse o caso de Johann Ewald, um experimentado oficial de caçadores com carreira semelhante à de Wiederhold (também na Revolução Americana, sendo embora treze anos mais velho), cuja obra sobre as tropas ligeiras Abhandlung über den kleinen Krieg [Tratado sobre a pequena guerra][32], teve decidida influência no primeiro regulamento oficial europeu para as tropas ligeiras – o prussiano de 1788[33]. Ewald, para se promover na carreira, viu-se forçado a emigrar nesse mesmo ano de 1788 para a Dinamarca, em cujo exército chegou a Tenente-General, em 1809; como burguês, isso jamais lhe teria acontecido no de Hessen-Kassel.

Outro episódio no mesmo sentido, que teria sido do conhecimento de Wiederhold, foi o passado com o Coronel Schreiber que, tendo tomado parte nas campanhas da Guerra da Revolução de 1792-94, em Champagne, no Meno e no Reno (em que Wiederhold também participou), foi compensado com “uma dose de ducados”, enquanto três outros oficiais, que eram nobres, foram condecorados com a “pour le mérite[34]. Obedecia isto ao cliché, que Frederico II também advogara, que só aos nobres interessava a honra – a um burguês como o Coronel Schreiber, o que interessaria era o lucro[35].

Embora o próprio Wiederhold tenha também recebido a “pour le mérite”, terá tido porventura falsas esperanças que o seu Príncipe se empenharia por conseguir do Imperador em Viena uma almejada concessão de nobreza, o que até lhe seria fácil dado os serviços prestados pelo Tenente-Quartelmestre em Frankfurt, durante a eleição desse Imperador, em 1790. Talvez porque, como informa Strieder, “a sua diária e crescente ambição de honrarias parecesse não conhecer limites”[36], desiludido com o que achava ser o reduzido apoio de Wilhelm IX às suas pretensões, ter-se-á manifestado de forma inconveniente, o que teria levado à sua detenção. Tudo o resto é uma sequência lógica, e o abandonar do serviço de Hessen-Kassel sem se despedir seria tão só falta de cortesia, pois não há notícia que tenha sido acusado de deserção.

Curioso é, no entanto, o modus fatiendi para conseguir a nobilitação em Portugal. Primeiro, como acima mencionado por Striedel, teria (abusivamente) passado a assinar v. Wiederhold – traduzindo o ‘de’ que cá adicionara eventualmente ao seu apelido, e que, como é sabido, não tem em Portugal conotação de nobreza. Segundo, o que Striedel não menciona, teria adoptado o apelido de Held (que curiosamente significa “herói” em alemão), mas que era completamente desconhecido em relação à sua família; dado que, ao contrário da Alemanha, por esta altura, ainda praticamente não havia em Portugal coincidência de títulos com os apelidos da família, Wiederhold ter-se-ia visto obrigado a inventar um. Terceiro, e último passo desta mistificação, é ter-se apresentado, quando criado cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (com o nº de ordem de 404), como Freiherr; ora este é, a contar da base, o segundo escalão de nobreza alemã, barão (Freiherrenstand), e a primeira concessão de nobreza costumava ser no escalão mais baixo, o de cavaleiro (Ritterstand), a que correspondia tão só o von ou v [37]. Assim parece ter começado Wiederhold – segundo informação de Striedel –, mas, entretanto, achara por bem promover-se a Freiherr. Isto tinha obviamente uma razão de ser: a única família nobre de apelido Wiederhold citada nas genealogias era uma estirpe do Württemberg que se distinguira na Guerra dos Trinta Anos e alcançara o Freiherrenstand[38] – só que não tinha a relação com a família do Brigadeiro que ele pretendia agora dar a entender.

Esta suposta relação terá sido reforçada num relato que seu filho, o General de Brigada Augusto Ernesto Luís Wiederhold (*1799-†1869) terá comunicado ao futuro General Cláudio de Chaby, e que este incluiu numa longa nota de pé de página dedicada à biografia do Brigadeiro Bernardo Wiederhold[39]. Segundo este relato, o oficial do exército de Hessen-Kassel, e depois brigadeiro do Exército Português, era descendente dum dos seis irmãos de Conrado de Wiederhold que, durante a Guerra dos Trinta Anos, resistira no comando da fortaleza de Hohentwiel (perto do Lago Constança) ao assédio pelas tropas imperiais, desde 1634 até ao fim da guerra, em 1648. Esta família prosperou depois no Württemberg, mas não há sinal nas genealogias alemãs[40] de que existisse qualquer ligação com estes Wiederhold de Hessen-Kassel.

 

Carreira militar no Exército de Hessen Kassel

É completamente lastimável que um distinto oficial como Bernhard Wiederhold tivesse de recorrer a falsificações para poder prosseguir com sucesso a sua carreira militar. Dado os seus biógrafos portugueses[41] desconhecerem completamente a fase inicial dessa carreira, não puderam por isso apreciar a longa experiência operacional na Revolução Americana (sete anos, de 1776 a 1783), como Aspirante, e depois como Alferes de infantaria. Wiederhold foi um das cerca de duas dezenas de milhar de hessianos que Frederico II, conde soberano de Hessen Kassel, “vendeu” à Inglaterra, para que lutassem contra os sublevados das colónias americanas. Como oficial do Regimento da Guarda do Hessen (Hessischen Leib Regiment), Wiederhold participou nas variadas acções, inclusive como explorador[42] em Connecticut Farms, Nova Jersey, onde, segundo conta, sofreu dois ferimentos e uma contusão, que terão sido ligeiros, pois em breve estava de novo pronto para o serviço. O seu comandante, Tenente Coronel Ludwig von Wurmb, fora oficial de caçadores já durante a Guerra dos Sete Anos, e assumira, no ano de 1777, o comando do corpo de caçadores do Hessen, substituindo outro famoso oficial de caçadores, o Coronel Karl von Donop, morto na batalha de Red Bank – era uma elite de especialistas de tropas ligeiras regulares, em cuja escola Wiederhold se vai formar, ao ponto de intervir mais tarde na redação do Regulamento de Infantaria do Hessen de 1796, em que as lições da guerra americana serão tidas em conta. Será Wurmb que o nomeia ajudante do regimento, no mesmo ano de 1780 em que foi promovido a Segundo Tenente – e o futuro comandante da Legião de tropas ligeiras portuguesas considera com razão estar então a assumir funções de estado maior.

Com a sua experiência, Wurmb reconhecera no jovem oficial as qualidades necessárias às importantes funções administrativas e de planeamento operacional que eram então as de um embrionário estado maior regimental. Esse mesmo jovem oficial aproveitou também as especiais condições do seu cargo, e a ociosidade forçada dos quarteis de inverno em vários locais, não só para aprender inglês[43], mas também para se instruir nas ciências da sua profissão: a teoria da guerra e a ciência da engenharia (militar). Preocupara-se também com a própria formação ética, para o que escolhera como exemplo a seguir um major do seu regimento, von Stamford, de quem o biógrafo Strieder dá um curto apontamento biográfico em nota de pé de página.

As herdeiras ricas americanas parecem não ser só um fenómeno de tempos mais recentes; já durante a Revolução Americana elas apareciam a atrair os jovens europeus. Bernhard Wiederhold também se deixa encantar por uma, mas o pai, ricaço americano, quer um genro com vida mais estável e menos aventureira do que a de um militar, e exige que ele abandone a sua carreira. Só abona a seu favor que não o tenha querido fazer, contando embora com recompensas quando do regresso ao Hessen; propõe-se então voltar ao novo mundo a buscá-la, mesmo contra a vontade de seu pai, mas as goradas esperanças nas recompensas da pátria impedem-no de o fazer.

Quando o Príncipe herdeiro de Hessen Kassel, Wilhelm IX, ascendeu ao poder por morte de seu pai (1785), tornou-se automaticamente no Coronel em Chefe do Regimento da Guarda. Wiederhold confessa que o Príncipe se interessou por ele e o encorajou no seu melhoramento profissional – correspondeu ele assim dedicando-lhe um trabalho sobre a táctica de infantaria de linha, a que se seguiram outros publicados em periódicos militares. Mas dois anos depois foi promovido a Primeiro Tenente e transferido para o Regimento de Infantaria de von Hanstein, e porque o 2º Batalhão deste regimento foi depois dividido como reforço do Regimento da Guarda de Corpo de Infantaria, e do Regimento de Granadeiros da Guarda, passou Wiederhold a pertencer a este segundo regimento.

É também, pelo menos, a partir deste ano que promove a elaboração de mapas. De facto, encontra-se no Arquivo Estadual de Hessen em Marburg[44] uma colecção de dezoito mapas e um desenho de fortificação que trazem a assinatura deste jovem oficial: sete mapas e o desenho de fortificação referem-se a várias operações ocorridas entre os exércitos do Hessen e o francês, em 1792 e 1793, os onze restantes a revistas e manobras do exército do Hessen entre 1785 e 1790[45]. Das miniaturas que se podem observar online, fica-se com uma vaga noção do pormenor desses mapas, mas só um técnico os poderá apreciar devidamente depois de, pelo menos, obtidos em dimensão A4. Uma coisa é certa, só com um mínimo de conhecimentos básicos de topografia poderia Wiederhold estimar distâncias e planear mapas – essas funções cabiam geralmente a oficiais com exercício de engenheiros, e dado ele se referir à sua preparação em engenharia como refere acima, essa preparação teria incluído prática de cartografia. De qualquer forma, ao considerar o Coronel Wiederhold em serviço de estado maior no Exército Português, há que ter em mente a sua preparação abrangente.

Em 1788, foi promovido a Capitão como supranumerário, e transferido para o Batalhão de Infantaria Ligeira de Lenz, que guarnecia a fortaleza de Rheinfels, sobre o Reno[46]. No princípio de 1789, foi nomeado Tenente de Quartelmestre, ou seja, 2º Quatelmestre junto da pessoa do Príncipe e, como oficial do seu estado maior, participou no planeamento dos exercícios que este promoveu, no princípio de 1790, e depois no acampamento de Outono desse ano; antes do fim de ano foi transferido para Hanau, para ajudante da força que, sob o comando do Tenente General von Kospoth, iria colaborar na repressão dos tumultos de Mainz, entre estudantes da universidade e as corporações de ofícios[47].

Desde que sucedera a seu pai que Wilhelm IX procurava que os soberanos de Hessen Kassel fossem elevados à categoria de príncipes eleitores – representaria deixarem de ser Landgraffen (condes territoriais) para passarem a Grossherzogen (grão-duques), mas, sobretudo, dar-lhes-ia muito maior peso na política do Sacro Império Romano-Germânico. Assim, quando, na sequência da morte de José II Habsburgo, no início de 1790, a eleição de seu irmão Leopoldo teve logo lugar em Francfort sobre o Meno, como era tradicional, Guilherme IX, que dispunha logo ali às portas de Francfort, em Hanau, do corpo de tropas que se destinara a marchar sobre Mainz, mas que acabara por não o fazer, aproveitou para o pôr à disposição dos príncipes eleitores, assumindo, desta forma, também boa parte do apoio logístico à eleição[48]. Wiederhold, que era ajudante do corpo destinado a Mainz, como ajudante desse mesmo corpo que constituía agora a guarda da eleição, e estava aquartelado num acampamento em Bergen, às portas de Francfort, continuou a desempenhar nele as importantes funções de ajudante. A presença de tantos príncipes e do imperador a eleger ter-lhe-ão, possivelmente, criado as falsas esperanças de conseguir ali a sua nobilitação, o que não aconteceu (a decepção do seu príncipe, ao não conseguir ser então elevado a príncipe-eleitor, não terá entusiasmado este a promover súbditos seus).

Mas, em 1792, agudiza-se a situação em França, ao ponto dos recentes inimigos da Guerra dos Sete Anos, o Império dos Habsburgos e o Reino da Prússia, se aliarem para tentar travar as profundas alterações ao Antigo Regime que os revolucionários franceses iniciavam. Concentrou-se um exército de 80.000 mil homens em Koblenz, composto sobretudo de prussianos e austríacos, mas aos quais se aliaram as tropas de Hessen-Kassel sobre o comando de Wilhelm IX. Nesse exército estava incorporado o capitão Wiederhold, que tomou parte nas operações de conquista dos fortes de Verdun e Longwy, e depois na retirada dos alemães de território francês, que se processou depois da batalha de Valmy, no Outono de 1792. Nesta retirada, pelo desfiladeiro de Longuion e depois numa posição defensiva em Mussy, as tropas de Hessen Kassel, segundo Wiederhold, constituiram a retaguarda em face do inimigo – atingiram Koblenz a tempo de lá protegerem os depósitos prussianos, e impedirem a queda da fortaleza de Erhrenbreitstein.

Depois de curto descanso, e ainda dentro de 1792, as forças aliadas irão enfrentar as revolucionárias do General Custine que, depois de ocupar Mainz, atravessa o Reno e, avançando pela margem direita do Meno, entra em Francfort. Será em 2 de Dezembro de 1792 que Francfort será reconquistado, tendo Wiederhold, segundo as suas palavras, conduzido, como Tenente de Quartelmestre, a segunda coluna através da porta de Allerheiligen, a poente do Römer e da Catedral, e sendo, pela sua actuação, condecorado pelo Rei da Prússia com a “pour le mérite[49].

Aqui acaba o relato pessoal de Wiederhold, mas sabemos pelo seu biógrafo Striedel que, fazendo parte do estado maior do corpo de Hessen, comandado pelo Tenente General v. Biesenrodt, fora feito prisioneiro no cerco de Mainz, em 1793, mas logo em seguida libertado numa troca de prisioneiros por iniciativa deste seu comandante. É também Striedel que nos fala da mencionada detenção, em Março de 1797, mas nada nos diz sobre os quatro anos aproximados que mediaram entre os dois acontecimentos. A informação que obtivemos sobre a actividade militar de Wiederhold para este período consta do já citado curriculum em francês[50]: a seguir ao cerco de Mainz, participa na operação, na noite de 7 para 8 de Julho de 1793, da tomada da posição de Kostheim, na foz do Meno, que é, hoje em dia, um arrabalde de Wiesbaden. A actuação de Wiederhold, descrita em pormenor por ele, parece ter sido decisiva[51].

Embora os aliados já combatessem na Flandres contra as forças da França revolucionária desde fins de 1792, só cerca de um ano depois é que Guilherme IX de Hessen Kassel teve tropas disponíveis para apoiar as dos seu aliados que lutavam na Bélgica; enviou 13 esquadrões e 17 batalhões de hessianos, segundo Wiederhold, sendo ele nomeado quartelmestre deste exército[52]. Participou assim na acção de Dénain, e depois na batalha de Tournay (17 e 18 Maio), onde teria encontrado pela primeira vez o Príncipe Cristiano de Waldeck.

Mas, em Setembro desse mesmo ano, a situação operacional tornou a agravar-se na Renânia, e estando em risco a fortaleza hessiana de Rheinfels, Guilherme IX concentrou 22.000 homens com que marchou a reforçá-la, tendo mandado ordem por correio a Wiederhold, na Holanda, para que se viesse reunir ao dito corpo, o que demonstra especial confiança neste oficial. O Príncipe encarregou-o de algumas missões de responsabilidade, em 1795 e 1796, que se relacionavam com a deslocação de tropas dos aliados prussianos e, depois das pazes feitas com a França, da condução do exército do General Jourdan, pelo Hessen, de forma a preservar a neutralidade e consequente conservação da fortaleza de Hanau. Para quem lê com atenção este currículo militar de Wiederhold, preparado, embora por ele, para consumo em Portugal, não parece óbvio que o decorrer da carreira militar deste oficial hessiano fosse pouco risonha ao ponto de ele abandonar a pátria e os camaradas só porque recebera melhores propostas para serviço em Portugal.

Striedel, porém, levanta-nos realmente a ponta do véu com as informações já referidas. Também nos informa sobre a vida privada de Wiederhold: do seu casamento com a viúva de um funcionário governamental em Rinteln – cidade universitária perto de Schaumburg-Lippe. Chamava-se a senhora de nome de solteira Henriette Meyer, e deu a Bernhard dois filhos: um, Friedrich Henrich Wilhelm, nascido em Outubro de 1795, mas logo falecido em Setembro de 1796. Nesse mesmo mês, deu Henriette à luz novo filho, Friedrich Wilhelm Christian que, juntamente com sua mãe, terá acompanhado o seu progenitor a Portugal. Em 1799, Henriette deu à luz novo filho, Augusto Ernesto Luís, que viria a fazer carreira no Exército português, atingindo o posto de General de Brigada.

 

Carreira militar no Exército Português

Nos dias que precederam a sua morte, a 24 de Setembro de 1798, o Príncipe de Waldeck ditou ao seu compatriota João Guilherme Cristiano Müller duas memórias que pediu fossem entregues ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, Luís Pinto de Sousa Coutinho, nas quais recomenda à magnanimidade do soberano (que por esta altura já era em termos práticos o Príncipe Regente D. João) pessoas com as quais se sentia especialmente obrigado, sendo a segunda dedicada a oito militares estrangeiros, seus colaboradores directos. Destes, o segundo, e sobre o qual ele mais se estende, é Bernardo Guilherme Held de Wiederhold[53]; de facto, é relativamente a ele que o Príncipe tem mais problemas de consciência, pois fora aquele que mais sacrificara ao abandonar a sua posição anterior no exército do Hessen, e fizera-o baseado nas promessas de Cristiano de Waldeck relativamente ao serviço no Exército Português; esse abandono fora brusco, como já referimos, e uma das consequências desse facto era “(…) que escandalizando-se o Governo de Hessen, da sua repentina partida, lhe tinha feito pagar muito mais consideráveis descontos em contas antigas de Companhias, fardamentos, etc., do que havia-de ter pago estando elle presente ao ajuste dellas (…)”[54]. Ora, de todos estes oficiais estrangeiros da comitiva do Príncipe de Waldeck, o que eventualmente lhe tinha sido mais imprescindível fora Wiederhold, atendendo à sua experiência de oficial de estado maior.

Os relatórios mencionados na n.29 abonam bem a favor da qualidade do trabalho deste coronel de estado maior: a sua leitura será proveitosa para o geógrafo e historiador da cartografia sobre Portugal, como outros relatos do mesmo tipo, aos quais já nos referimos em artigo deste periódico[55]. As informações de Wiederhold referem-se aos itinerários desde o Algarve até Almeida e, para além da descrição do terreno, das estruturas defensivas existentes e das suas guarnições, contêm sugestões resumidas de como organizar a defesa contra um hipotético inimigo vindo de Espanha. Ao descrever a linha defensiva do Guadiana (as praças de Mourão, Moura, Serpa e Mértola), que tinha sido particularmente afectada (1707-1712) na Guerra da Sucessão de Espanha, nota com espanto como é que quási um século depois as fortificações ainda se encontravam por reparar – mas o que o surpreende mais é como entre as quatro praças ainda conservavam em depósito um total de quási 2.000 espingardas que, por não terem sido devidamente cuidadas, estavam inutilizadas; também abundantes peças de artilharia, que se encontravam sem reparos e espalhadas à vista por todos os lados, se tinham tornado completamente inúteis[56].

Para Wiederhold, como para os restantes profissionais alemães e franceses desta missão de reconhecimento (incluído o próprio Príncipe de Waldeck), o desmazelo atávico dos comandos portugueses deveria parecer algo de incompreensível, sobretudo no estado de guerra que se aproximava. Em curtos resumos, Wiederhold descreve a desorganização em que Waldeck foi encontrar os regimentos de milícias (Évora, Beja, Campo de Ourique, Tavira, Faro, Lagos e Portalegre), os de infantaria (Tavira, Lagos, 2º de Olivença, 1º e 2º de Elvas, Serpa, Campo Maior, Castelo de Vide, Penamacor e Almeida) e os de cavalaria (Évora, Moura, Olivença e Elvas)[57] – por onde se percebe bem a nossa ineficaz defesa da “Guerra das Laranjas” que se seguiu.

Nela participou Wiederhold, em 1801, e nos faz um relato – ‘As mais recentes operações de guerra’ – que constitui a última parte de “Sobre o estado militar de Portugal…”[58], artigo a que, pela sua importância, voltaremos na rúbrica seguinte. Refere em pormenor as operações em que participou em Chaves, em Junho, sob o comando do Marechal de Campo Gomes Freire de Andrade, no ataque que este tomou a iniciativa de fazer a Monterey, do lado espanhol da fronteira, durante o qual Wiederhold assumiu o comando de uma das colunas; informa no mesmo parágrafo, curiosamente, que o Tenente Coronel Niemeyer[59] teria começado a construção de uma fortificação no Outeiro Seco (a norte de Chaves, antes da fronteira), que permitiria a Gomes Freire formar destacamentos, conforme as conveniências.

Oficialmente, o Coronel Wiederhold desempenhava ainda as funções de Ajudante General, e foi nesses termos que, em 27 de Junho de 1802, o Marechal General Conde Carlos Alexandre von der Goltz, em vésperas de ir gozar uma licença em Altona (Hamburgo), onde tinha a sua residência, o encarregou de entregar, ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, Papéis e Planos que dele anteriormente recebera, bem como os Livros de Registo e outros Papéis da Secretaria do Quartel General da Rua do Sacramento a Buenos Aires[60].

A derrota vergonhosa na “Guerra das Laranjas” intensificara a discussão dos projectos de reforma do exército português onde, sobretudo depois do início das Guerras de Revolução, e da nossa frustrante participação na Campanha do Rossilhão (1793), se tomara consciência da degradação a que se chegara, desde que as reformas do Conde de Lippe (†1777) tinham sido desleixadas. É isto que nos refere em pormenor o filho do Coronel Wiederhold, Augusto Ernesto Luís, que passaria também a brigadeiro, a partir de 1853; em artigo da Revista Militar – “Crise do Exercito Portuguez no anno de 1801; e sua organização em 19 de Maio de 1806” [61] – faz um resumo das vicissitudes dessas reformas, que subentendem um conhecimento do que então (1801-06) se tinha passado para além do que era sabido oficialmente[62]. Embora fosse demasiado novo quando seu pai morreu (em 1810), não sendo assim provável que este tenha tido oportunidade de o informar do que se passara nesse período crucial antes das Invasões Francesas, conservou no entanto muitas das notas do seu progenitor, boa parte das quais doou depois ao Arquivo Militar.

Pouco está publicado sobre a subsequente actividade do Coronel Wiederhold – o que sabemos sobre os oito anos que se seguiram desde a partida de v. d. Goltz até à sua morte (1810) encontra-se na nota biográfica que seu filho forneceu a Cláudio de Chaby (n.39). Assim, em 1803-04, teria estado no Porto a dirigir a redução de forças do norte do país. Promovido a Brigadeiro, em 1805, fora substituir o Marquês de Alorna no comando de tropas ligeiras – há que recordar a experiência que este alemão adquirira como oficial de caçadores do Hessen, na Revolução Americana, e depois nas Guerras de Revolução. A nota de Chaby refere ainda que ele esteve envolvido na reforma do exército de 1806 – e já referimos que espólio documental seu terá influenciado seu filho no artigo atrás mencionado (n.56). Parece que, em 1807, Junot o teria convidado a colaborar e fazer parte da Legião Portuguesa que partirá para França, ao que ele se teria esquivado. Depois da retirada dos franceses da I Invasão, terá sido mandado pelo General Miranda Henriques fazer o levantamento do território entre Mondego e Zêzere, para preparar, durante o ano de 1809, um plano de defesa que obstasse a uma invasão por essa área – foi isso que pôs em prática, mas, em princípios de 1810, caiu doente, tendo morrido durante a III Invasão.

 

“Sobre as forças militares de Portugal”

Conforme relatado pelo próprio, coincidindo com a ascensão ao poder do Príncipe herdeiro do Hessen, Wilhelm IX, em 1785, começou o Alferes Wiederhold, como outros jovens militares empreendedores (Scharnhorst, por exemplo), a publicar regularmente na então muito activa imprensa militar alemã. Um primeiro artigo sobre armamento e equipamento do soldado pode ler-se online no periódico de Berlim Militärische Monatschrifft [Mensário Militar][63]. Tendo sido promovido a Tenente, em 1787, compôs em seguida um patriótico ensaio sobre o “carácter guerreiro dos alemães e as virtudes do militar alemão” que, no entanto, só veio a ser publicado na revista Neue Bellona [Nova Belona], em 1802.

Sobre este periódico militar que era impresso em Leipzig, há que acrescentar alguma informação – como Striedel refere na nota 2 da sua biografia, o pai de Bernhard Wiederhold fora preso quando este planeava estudar direito em Göttingen; Johann Henrich Wiederhold – assim se chamava – perdeu o emprego e acabou por ser recolhido por sua filha, irmã de Bernhard, e casada com o Capitão Bödiker, que residia na localidade de Grossenenglis. Este, também oficial do exército do Hessen, fora adoptado por um tio materno de nome Friedrich Porbeck, que fora nobilitado pelo Imperador, em 1764; o seu sobrinho assumiu o seu nome, tento sido a sua nobilitação também confirmada pelo Imperador, em 1772, e nisso parece ter sido mais feliz do que seu cunhado Bernhard. De qualquer forma, quer ele quer os seus dois filhos se viram finalmente também forçados a abandonar o Exército do Hessen por razões de progressão na carreira, embora só seis anos depois de Bernhard – mesmo assim, o pai e o filho mais velho chegaram a Major-General, e Heinrich von Porbeck foi promovido a esse posto com, tão só, trinta oito anos.

Isto tudo porque se tratava de um oficial de reconhecido merecimento, que pertencia àquele grupo de militares alemães – de cujo escol saiu Clausewitz – que se interessavam tanto pela sua profissão, que eram levados a uma actividade constante de publicação de artigos sobre aspectos variados da mesma – técnicos e políticos. Começou por publicar no Neues Militairisches Journal, periódico que tinha sido fundado em Hanover pelo Aspirante Scharnhorst, em 1788, e que este editou com regularidade anual (fora o período em que comandou uma bateria a cavalo na frente da Flandres, durante as Guerras da Revolução), tendo atingido 13 volumes até 1805[64]. Dado que os autores dos artigos não estão identificados, não se sabe quais atribuir a Heinrich von Porbeck; em 1801, Scharnhorst passara ao serviço da Prússia como Tenente Coronel de Artilharia, mas em funções de especial responsabilidade, que o terão impedido de prosseguir na edição do periódico, e será talvez por isso que von Porbeck, por encargo de um grupo de camaradas seus do Hessen, reiniciou, nesse ano, a publicação de outro periódico militar Neue Bellona[65].

 

Árvore genealógica de Wiederhold e von Porbeck[66]

Há referências a estreita ligação de Heinrich a seu tio, Bernhard Wiederhold, e não admira assim que este, embora deslocado em Portugal, colaborasse com seu sobrinho no conteúdo da Neue Bellona. De facto, e segundo informação do próprio, além do artigo em rúbrica, nela publicou ainda, no volume 3, o já mencionado “Sobre o carácter militar dos alemães…” (1802), e no volume 8 “(…) tomada de Kosteim (…)” e “estado das forças militares da Espanha” (1804)[67]. A ‘Nova Belona’ tinha adquirido prestígio entre os oficiais dos exércitos dos vários estados alemães e Carl von Clausewitz, por exemplo, publicou o seu primeiro artigo[68] no volume 9 da revista, referente a 1805, no 3º fascículo.

Alguns destes artigos pretendiam dar a conhecer o estado das forças de defesa dos vários países e Bernhard Wiederhold publicou dois deste tipo, um sobre a Portugal, outro sobre a Espanha. Juntamos, em anexo, três páginas do artigo da ‘Nova Belona’ passando a tradução duma amostra do mesmo:

IV

Sobre as forças militares de Portugal, quer na Europa, quer nas outras partes do mundo (*)

Situação actual do exército

As forças terrestres de Portugal encontram-se parte em Portugal propriamente dito, parte nas possessões situadas na Ásia, na África e na América.

(*) Este artigo foi retirado do manuscrito de um trabalho extraordinariamente interessante, que deverá ser em seguida apresentado ao público alemão. Abarca o conjunto das forças terrestres – ainda pouco conhecidas – em todas as partes do mundo, e corrige múltiplas ideias muito incorrectas das mesmas. O autor, que serve no estado-maior português, utilizou de forma muito feliz a sua situação e os seus talentos para juntar ao trabalho – que apresenta de forma abrangente todos os ramos das forças – um bonito e correcto mapa de Portugal, gravuras das diferentes componentes do exército, e desenhos tácticos.”

 

No extracto incluído, segue-se a página 180, com uma descrição da Brigada Naval:

“Possui não só os barcos, e ocupa-se do arsenal naval, para além dos abastecimentos e dos fortes com ela relacionados, bem como orienta os trabalhos que lhe dizem respeito. É composta de estado-maior, com 9 efectivos, e 3 divisões; a brigada naval tem um total de 5231 efectivos. Mas nela não está incluída a Companhia de Guardas-Marinhas.”

 

Segue-se um quadro com o total de efectivos das forças portuguesas.

Em abcissas tem indicado:

 “Estado (maior)/Oficiais/Sargentos/Músicos/Praças/Totais /Cavalos”

Em ordenadas:

“Infantaria Regular/Cavalaria Regular/Artilharia a pé regular/Artilharia a cavalo/Tropas ligeiras/Corpo de engenheiros/Corpo independente/Guarda de polícia//Soma das tropas regulares/Milícia//Soma das tropas em Portugal/Tropas supostas na Terceira//Soma das tropas em Portugal e nas Ilhas.”

Com o hábito da classificação de documentos que temos hoje em dia, em que uma simples classificação de “reservado” se aplica a documentos aparentemente inofensivos, fica-se espantado como é que o Ajudante General do Exército Português se dispôs a publicar um quadro aparentemente actualizado de efectivos que ficava automaticamente disponível, inclusive para o estado maior francês, no planeamento de eventuais operações em Portugal. A única explicação cabal é que este quadro não estava correcto, antes fortemente inflacionado, e se destinava a criar um ‘espantalho’ dissuasor dessa invasão, o que, como se sabe, não aconteceu, dado que Napoleão não se deixou ‘espantar’ por efectivos “no papel” e o Corpo de Observação da Gironda com que Junot veio ocupar Portugal constava de cerca de vinte mil homens.

Talvez um dia se proporcione a oportunidade de publicar uma tradução completa deste artigo de Wiederhold, bem como do artigo citado na n. 62 (da autoria do anónimo oficial contemporâneo de Lippe), mas entretanto passaremos a um resumo do artigo do oficial hessiano. Trata-se de um relato de oitenta páginas, que começa por uma descrição exaustiva das forças terrestres portuguesas à data da publicação (1804), incluindo quadros orgânicos dos vários tipos de unidade. Refere a estrutura do comando supremo, desde os tempos do Conde de Lippe, identificando o do Duque de Lafões, o do Príncipe de Waldeck e o do Conde de Goltz. Fala em seguida do recrutamento e do pagamento das tropas, com quadros dos vencimentos e pré, antigos e modernos. Descreve fardamento e equipamento, e organização dos arsenais e fala da manutenção. A justiça militar não é esquecida, começando com a reestruturação da mesma pelo Conde de Lippe, inclusive a introdução dos auditores regimentais. Sobre as instituições de ensino militares descreve a Academia Real da Marinha e a Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho e os seus currículos de estudo – como especialista, refere com especial detalhe a instrução na produção de cartas militares. Fala depois das escolas de artilharia em cada regimento da arma instituídas pelo Conde de Lippe, e do ensino do tiro segundo as instruções originais deste notável artilheiro. A parte que se segue é dedicada à táctica, tal como introduzida pelo mesmo Conde, com referência à utilização do quadrado de companhia e à cruz de Bückeburg[69]. A propósito destas novas tácticas e por entre referências a outras grandes manobras que tinham tido lugar em Portugal, refere a dos Olhos de Água, de 1767, onde elas foram experimentadas.

Como já referimos, a parte final do artigo com o título ‘As mais recentes operações de guerra’ é um curto mas interessante relato da “Guerra das Laranjas”, porque foi feito quási em cima do acontecimento. Mas, Wiederhold não se refere à sua intervenção directa nas operações; de facto, a única referência que faz à sua pessoa – não se identificando com ela, porém – é sobre a comissão que se reunira depois de 1801 para estudar as reformas do exército, ‘da qual o Cor. Wiederhold fizera parte, tendo feito propostas que tinham sido aplaudidas e apoiadas por vários’.

 

Conclusão

Isso não custa a crer, pois, para uma época de ainda incipientes “estados maiores”, Wiederhold devia ser do melhor que se conseguia obter com as necessárias qualificações, e essa mesma noção tinham certamente oficiais generais experientes, como eram o Príncipe de Waldeck e o Conde de Goltz. Será esta explicação suficiente para o facto de não terem reagido às “fraudes nobiliárquicas” do Coronel. Tão bons oficiais de estado maior eram difíceis de substituir e, embora estes generais fossem membros da alta aristocracia alemã e, como tal, certamente conhecedores das genealogias locais – o Príncipe de Waldeck, além disso, nascera e vivera em Arolsen, a escassos quarenta quilómetros de Kassel, terra natal do Coronel – sabendo sem qualquer dúvida quem ‘não’ era Wiederhold, ignoraram isso para efeitos práticos.

Por outro lado, com o aparecimento na Revolução Francesa dos ‘exércitos nacionais’, a figura do militar profissional, que oferecia os seus serviços aos vários exércitos sem grande preocupação de fidelidade ao seu estado de origem, irá gradualmente desaparecendo. Wiederhold passara-se do Hessen para Portugal, mas a mudança dos seus parentes Porbeck ainda fora mais contrastante: do Hessen tinham-se passado para o exército do vizinho Baden e, como este Grão Ducado entrara para a Confederação do Reno, em 1806, passaram a combater como aliados de Napoleão. O Major-General Heinrich von Porbeck veio, em 1808, comandar o destacamento de Baden das tropas napoleónicas na Península Ibérica. Por essa altura, já seu tio Bernhard estava ao serviço do Exército Português há mais de dez anos, e desenvolvera suficiente dedicação ao país para não querer participar na Legião Portuguesa, o que o colocava do lado oposto aos seus parentes Porbeck, muito especialmente a este seu sobrinho, ao qual ligava especial amizade e estreita colaboração quanto à iniciativa editorial dele na Neue Bellona. O facto de, a partir da chegada dos ingleses, a posição conflitual do exército em que servia ser irrevogavelmente anti-napoleónica, poderia levar Wiederhold a uma confrontação directa com esse seu sobrinho no campo de batalha, e isso só não aconteceu por Wellington ter considerado que o Exército Português ainda não estava preparado para participar na campanha de Talavera. Foi na batalha de 28 de Julho de 1809, ao comandar as suas tropas numa carga de baioneta contra a Brigada das Guardas inglesa, que o General von Porbeck foi atingido em cheio por um tiro de metralha[70], tendo caído morto do seu cavalo. Seu tio e mentor, Bernhard de Wiederhold, morria pouco mais de um ano depois em Lisboa, mas de doença.

 

ANEXO A

Mapas produzidos por B.Wiederhold existentes no Arquivo do Estado do Hessen em Marburg (com as respectivas cotas)

 

– Krieg mit Frankreich 1792-1805: Plan der abgesicherten Gebiete der Truppen von Landgraf Wilhelm IX. bei Katzenelnbogen und Hanau, 1792 HStAMWHKWHK 31/2

[Guerra com França 1792-1805: Plano das regiões ocupadas pelas tropas do Conde Reinante Guilherm IX em Katzeenelnbogen e Hanau, 1792]

– Krieg mit Frankreich 1792-1805: Plan des Gefechts zwischen den Hessen und den Franzosen bei Kastel, 11. April 1793     HStAMWHKWHK 31/19

[G………. Plano dos combates entre hessianos e franceses junto a Kastel, 11 de Abril de 1793]

– Krieg mit Frankreich 1792-1805 : Plan des Gefechts bei Homburg, 16. April 1793 HStAMWHKWHK 31/20

[G…….. Plano dos combates junto a Homburg, 16 de Abril de 1793]

– Krieg mit Frankreich 1792-1805: Plan der Stellungen der kaiserlichen, preußischen, kursächsischen und hessisch-darmstädtischen Truppen vor Mainz im Juni 1793 HStAMWHKWHK 31/21

[G……… Plano das posições das tropas imperiais, prussianas, da Saxónia e de Hessen-Darmstadt diante de Mainz em Junho de 1793]

– Krieg mit Frankreich 1792-1805: Plan der Eröffnung der Belagerungsgräben vor Mainz, 20. Juni 1793 HStAMWHKWHK 31/23

[G……… Plano da abertura das trincheiras do cerco a Mainz em 20 de Junho de 1793]

– Krieg mit Frankreich 1792-1805: Plan der Stellungen der 3. hessischen Division bei Tournai, 16. bis 22. November 1793 HStAMWHKWHK 32/9

[G………. Plano das posições da 3ª Divisão do Hessen junto a Tournai, de 16 a 22 de Novembro de 1793]

– Krieg mit Frankreich 1792-1805: Plan der Stellungen der 3. hessischen Division bei Courtrai, 22. November bis 22. Dezember 1793 HStAMWHKWHK 32/9ª

[G………. Plano das posições da 3ª Divisão do Hessen junto a Courtrai, de 22 de Novembro a 22 de Dezembro de 1793]

– Krieg mit Frankreich 1792-1805 : Plan der durchgeführten und geplanten Schanzarbeiten bei Schoorbakke, 1793 HStAMWHKWHK 32/10

[G……… Plano das fortificações executadas e planeadas junto a Schoorbakke, 1793]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des Manövers des Füsilierregiments Erbprinz bei Marburg, 15. Oktober 1785 HStAMWHKWHK 40/32

[Várias revistas e manobras: Plano das manobras do Regimento de Fuzileiros Príncipe Herdeiro junto a Marburg, 15 de Outubro de 1785]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des Herbstmanövers des Fusilierregiments Erbprinz bei Marburg, 17. Oktober 1785 HStAMWHKWHK 40/32ª

[V……… Plano das manobras de outono do Regimento de Fuzileiros Príncipe Herdeiro junto a Marburg, 17 de Outubro de 1785]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des Herbstmanövers des Fusilierregiments Erbprinz bei Marburg, 18. Oktober 1785 HStAMWHKWHK 40/32b

[V……… Plano das manobras de outono do Regimento de Fuzileiros Príncipe Herdeiro junto a Marburg, 18 de Outubro de 1785]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan der Aufstellungen beim Frühjahrsmanöver der hessischen Truppen bei Kassel, 25. Mai 1789 HStAMWHKWHK 40/43

[V……… Plano das evoluções nas manobras do princípio do ano das tropas do Hessen junto a Kassel, 25 de Maio de 1789]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan der Aufstellungen beim Hauptmanöver der hessischen Truppen im Frühjahr 1789 HStAMWHKWHK 40/43ª

[V……… Plano das evoluções nas manobras principais das tropas do Hessen no princípio de 1789]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des Feldlagers der hessischen Truppen unter Landgraf Wilhelm IX. bei Wilhelmsthal, 25. September bis 3. Oktober 1789 HStAMWHKWHK 40/44

[V……… Plano do acampamento das tropas do Hessen sob o comando do Conde reinante Guilherme IX junto a Wilhelmsthal, 25 de Setembro a 3 de Outubro de 1789]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan der Konvois unter Generalleutnant von Kospoth von Kassel nach Hohenkirchen, 1. Oktober 1789 HStAMWHKWHK 40/44c

[V…….. Plano da coluna de Kassel para Hohenkirchen sob o comando do Ten.Gen. von Kospoth, 1 de Outubro 1789]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des Manövers und des Lagers der Hessischen Truppen bei Wilhelmsthal, 2. Oktober 1789 HStAMWHKWHK 40/44f

[V……… Plano das manobras e do acampamento das tropas do Hessen em Wilhelmsthal, 2 de Outubro de 1789]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des ersten Manövers der Hessischen Truppen unter Landgraf Wilhelm IX. bei Kassel, Frühjahr 1790 HStAMWHKWHK 40/49

[V……… Plano das primeiras manobras das tropas do Hessen sob o comando do Conde reinante Guiherme IX, princípio do ano de 1789]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des zweiten Manövers der Hessischen Truppen unter Landgraf Wilhelm IX. bei Kassel, Frühjahr 1790 HStAMWHKWHK 40/49ª

[V……… Plano das segundas manobras das tropas do Hessen sob o comando do Conde reinante Guilherme IX, junto a Kassel, princípio do ano de 1789]

– Verschiedene Revüen und Manöver: Plan des zweiten Manövers der Hessen bei Bergen, 16. Oktober 1790 HStAMWHKWHK 40/56

[V……… Plano das segundas manobras dos hessianos junto a Bergen, 16 de Outubro de 1790

 

ANEXO B

 

 

 

 


* Friedrich Wilhelm Strieder’s Grundlage zu einer Hessischen Gelehrten und Schriftsteller=Geschichte – Von der Reformation bis 1806 [Bases de uma história dos sábios e escritores do Hessen – Da Reforma até 1806], Décimo Séptimo Vol. (Werner a Zwittling) ed. D.Carl Wilhelm Justi, Marburg, 1819, pp.32-9.

[1] (Nota do tradutor – A Universidade de Göttingen fora fundada alguns anos antes – 1732 – por Jorge II, rei da Grã-Bretanha e Príncipe Eleitor de Hanover, e estava assim fora do território de Hessen-Kassel, de onde Wiederhold era originário.)

[2]  Refere-se ao infeliz destino de seu pai Johann Henr. Wiederhold, que acumulava o lugar de Conselheiro de Guerra e Domínios com o de Director da Lotaria de Classes de Kassel. Em razão de um jogo de azar manipulado que lhe correu mal, teve de declarar falência. Perdeu o emprego e, em 12 de Janeiro de 1774, foi condenado a prisão no forte de Spangenberg (n. do t. – onde por esta altura também esteve preso o Conde de Oyenhausen, futuro marido da Marquesa de Alorna, condenado esse por desvio de dinheiros públicos do mesmo estado de Hessen Kassel). Johann Wiederhold foi libertado em Outubro de 1775, mas passou a viver na obscuridade em Kassel, até que se retirou para Grossenglis, onde morreu, em casa de sua filha, mulher do Capitão do exército do Hessen Bödikers (depois v.Porbeck).

[3]  Como escrivão.

[4]  (N. do t.) A Batalha de White Plains teve lugar nesse local de Nova Iorque. O General Howe desembarcou tropas em Westchester County para cortar a retirada ao Exército Continental de George Washington; este recuou ainda mais e deu batalha na aldeia de White Plains. Howe obrigou-o a retirar, expulsando-o de Nova Jersey para a Pensilvânia, e forçando-o a cruzar o Rio Delaware.

[5]  (N. do t.) Em 11 de Setembro, também na Pensilvânia, para além do rio Delaware, em que o General Howe derrotou de novo Washington, e prosseguiu para ocupar Filadélfia.

[6]  (N. do t.) Em 4 de Outubro do mesmo ano, nesse arrabalde a norte de Filadélfia, em que Howe consolidou a sua ocupação da cidade.

[7]  (N. do t.) Ataque às forças do General Putnam, em Horseneck Heights, Greenwich, Connecticut, em Fevereiro de 1779.

[8]  (N. do t.) Possivelmente áreas da colónia de Nova Jersey.

[9]  (N. do t.) Uma área urbana conhecida hoje em dia por Union nesse mesmo estado de Nova Jersey.

[10]  Johann Ludwig Friedrich von Stamford morreu depois, em 19 de Agosto de 1803, com 65 anos de idade, na posição de Conselheiro de Guerra e de Supervisor-Mor do Hospital de Haina (n. do t. – no noroeste do Hesse. Antigo convento cisterciense, foi depois hospital, e ainda hoje em dia é conhecido hospital psiquiátrico.) Desde 1785 que ocupava essa posição. Desde 16 de Junho de 1777 que era condecorado com a Ordem do Hessen pour la vertu militaire. A sua memória é evocada nas Hessische Denkwürdigkeiten de Justi (n.do t. – Karl Wilhelm Justi, 1805) Parte 4, 2. Secção, pp.73-87. Algumas das suas cartas de 1788, como membro da assim chamada União Alemã de Bahrdt, encontram-se em Pott, Degenhard Pragmatische Geschichte und endlicher Aufschluß der Deutschen Union oder der Zwey und Zwanziger, Leipzig: Weygand, 1798, p.205, 318, 320. Baldinger afirma sobre ele, p.183: “O Sr. v. Stamford, um experimentado P(edreiro-livre), é uma grande aquisição.” – Sobre a sua esposa, consultar vol.13 p.200.

[11]  (N. do t.) As da recompensa.

[12]  (N. do t.) De Hessen Kassel.

[13]  (N. do t.) O tradutor e autor dos comentários que se seguem a esta tradução apresentou, no XXII Colóquio da Comissão Portuguesa de História Militar, em Novembro de 2013, um trabalho intitulado “Os Caçadores – origem histórica, teoria e prática” em que tratou da influência dos militares de Hessen Kassel no desenvolvimento desta especialidade de infantaria. O Capitão Bernhard Wilhelm Wiederhold teve importante intervenção no Regulamento de Infantaria de Hessen Kassel, de 1796, mas esse regulamento teve, no entanto, uma vida efémera, sendo substituído por outro, logo em 1802 – provavelmente por essa razão já se não encontram exemplares do de 1796.

[14]  Encontra-se no designado Mon.Schrift 4 Sup. 1786, Outubro, pp.394 ss.

[15]  Está agora impresso e pode-se ler na Neue Bellona, Bd.3, 1.St.pp.33 ss.

[16]  Foi lido numa sessão da Sociedade Antiquária de Kassel, em 11 de Abril de 1797, e está agora publicado em parte nas Hessische Denkwürdigkeiten [Coisas dignas de memória do Hessen], de Justi, 3ªP., pp.393-404.

[17]  Lê-se neste jornal militar, 1789, nº17, p.p.262 ss., nº18 p.281, nº19 p.292.

[18]  Idem nº33 pp.514 ss.

[19]  Idem nº33 pp.521 ss., nº34 pp.527 ss.

[20]  (N. do t.) Trata-se da obra de Bernard Mandeville The virgin unmask’d; or, Female dialogues betwixt an elderly maiden lady, and her niece: on several diverting discourses on love, marriage, memoirs, and morals, etc. of the times, London, 1709

[21]  (N.do t.) “Quartelmestre” designava, então, um chefe de EM e Tenente de “Quartelmestre”, seria, então, nessa lógica, um sub-chefe de EM.

[22]  (N.do t.) arredores de Frankfurt.

[23]  O título completo é: Beschreibung des Lagers bei Bergen, welches von des Herrn Landgrafen zu Hessen Wilhelm’s IX Hochfürstlichen Durchlaucht mit einem Corps Höchstdero Truppen, zur Sicherheit der Wahlstadt Frankfurt am Main, des allda versammelten Churfürstlichen Collegiums und des zu wählenden Reichsoberhaupts, vom 23ten September bis zum 17ten October 1790 gehalten worden. In Form eines Tagebuchs. Mit einem Plan (vom Artill.Capit. Henr.Otto Bolmar), Cassel, 1791, 4 [Descrição do acampamento de Bergen, que o Senhor Conde Soberano de Hessen, Guilherme IX, Alteza e Príncipe, montou com o seu Corpo de Tropas, para segurança da cidade eleitoral de Francoforte sobre o Meno, bem como do Colégio lá reunido de todos os Príncipes Eleitores e do Soberano do Império a ser eleito, e manteve do 23º de Setembro até ao 17º de Outubro de 1790. Em forma de diário. Com um mapa {do Cap. de Artª. Henr.Otto Bolmar}] (N.do t.- Tratou-se da eleição em 1790 para Imperador do Sacro Império Romano Germânica de Leopoldo II, irmão e sucessor de José II) (Veja-se N.[eues] Militär.[isches] Journ.[al] 5. Bd. 10 St. pp.289 ss.]. O Sr.Volmar (nascido em 20 de Outubro de 1762, em Allendorf, no Hessen] fora promovido a Major, em 14 de Setembro de 1801; também já era Tenente de Quartelmestre General, desde 1798. De facto, o plano deste livro é dele. Morreu em 24 de Fevereiro de 1809, e deixou, para além da sua viúva – com apelido Eskuche de solteira –, oito filhos.

[24]  (N. do t.) Trata-se de facto de Mussy-la-Ville, hoje em dia em território belga.

[25]  (N. do t.) Trata-se de Longuyon.

[26]  (N. do t.) O forte de Ehrenbreitstein, em Koblenz.

[27]  Localidade na margem direita do Reno, em frente a Mainz. Foi ocupada durante o cerco a esta cidade.

[28]  Nota 13.

[29]  Nos anos de 1992 e 1997, o técnico superior do Arquivo Histórico Militar (AHM), Lívio da Costa Guedes, editou, em dois Boletins deste arquivo, uma série de relatórios que o Coronel Bernardo Guilherme Wiederhold, que desempenhava o papel de Ajudante General do Exército junto do Marechal Príncipe Cristiano de Waldeck, escreveu sobre as viagens e inspeções realizadas por este oficial general nos anos de 1797 e 1798. Escritas em cursivo gótico, eram, com toda a probabilidade, destinadas exclusivamente aos olhos do Príncipe – de facto Wiederhold dominava perfeitamente o francês, que foi até ao século XX a língua franca europeia, e que era predicado sine qua non para um militar poder aspirar a bem sucedida carreira. Depois de aprovados pelo Príncipe de Waldeck, seriam então estes relatórios eventualmente vertidos para francês, e apresentados aos membros do governo, e eventuais militares a quem competisse ter conhecimento deles; a morte prematura do Príncipe, logo no Setembro seguinte aos meses em que tiveram lugar viagens e inspeções, travaram porventura esta tradução para francês, e fizeram com que Wiederhold retivesse os relatórios em sua posse – foram, como é sabido, doados ao exército por seu filho, o General de Brigada Augusto Ernesto Luís de Wiederhold, e, dada a sua dificuldade de leitura, permaneceram longos anos no AHM sem que ninguém lhes pegasse; deve-se, assim, a Costa Guedes a feliz iniciativa de promover a sua transcrição paleográfica – pelas páginas reproduzidas se deduz não estarem em muito bom estado –, tradução e, finalmente, edição crítica. Não encontrei identificação do paleógrafo e tradutor dos relatórios publicados em 1992, mas já a tradutora dos que foram publicados em 1997 está perfeitamente identificada – Dra. Maria da Luz Cidreiro Lopes – e executou um meritório trabalho, atendendo, inclusive, ao mau estado de alguns dos documentos originais. Títulos dos relatórios, cuja leitura se recomenda: Boletim do Arquivo Histórico Militar, Lisboa, 1992, 60º Volume; “A Viagem de Christian, Príncipe de Waldeck, ao Alentejo e ao Algarve descrita pelo Barão von Wiederhold. 1798”, pp.7-272; Boletim do Arquivo Histórico Militar, Lisboa, 1997, 62º Volume; “A Viagem de Christian, Príncipe de Waldeck, pelas Províncias da Beira e da Estremadura descrita pelo Barão von Wiederhold 1798”, pp.153-256; “Algumas notas sobre os Reais Regimentos de Milícia Portugueses, Ordenanças, Pés de Castelo etc., aos quais passou revista sua Alteza, o Marechal Príncipe Christian von Waldeck nas Províncias do Alentejo, do Algarve e da Beira”, pp.257-282; “Algumas notas sobre os Reais Regimentos de Infantaria Portugueses, aos quais passou revista sua Alteza, o Marechal Príncipe Christian von Waldeck nas Províncias do Algarve, do Alentejo e da Beira”, pp.283-345; “Algumas notas sobre os Reais Regimentos de Cavalaria Portugueses, aos quais passou revista sua Alteza, o Marechal Christian von Waldeck nas Províncias do Alentejo e da Beira”, pp.345-373. A leitura e tradução do texto do presente artigo não implicou, em contrapartida para o autor destas linhas, qualquer esforço paleográfico. O texto estava também em gótico, mas em caracteres de imprensa, de fácil leitura. A razão por que se decidiu traduzi-lo e publicá-lo foi o facto de, embora Costa Guedes inclua entre os documentos adicionais publicados um resumo autobiográfico em língua francesa da vida do futuro Brigadeiro Bernardo Guilherme Wiederhold (Boletim do Arquivo Histórico Militar, 60º volume, pp.75-8), esse resumo não coincide exactamente com o texto também autobiográfico do oficial hessiano. Este oficial, como é natural, exclui do seu currículo militar em francês todos os pormenores da sua vida privada, e mesmo este currículo não coincide exactamente com a matéria militar da sua autobiografia alemã. Por outro lado, o seu biógrafo, Strieder, inclui esclarecedoras referências – como a da sua detenção – que Wiederhold obviamente não relata.

[30]  In O artilheiro Conde de Lippe, no prelo (existe um exemplar do manuscrito na Biblioteca do Exército).

[31]  Silbe = sílaba: von = de (abreviada por v.) A ela resumia o grande poeta Schiller – e autor da letra do Hino da Europa – a condição de nobre, a que será promovido, em 1802.

[32]  Cassel: Johann Jacob Cramer, 1785.

[33]  Reglement für die Königl. Preuß. leichte Infanterie, Berlin : G. J. Decker, 1788.

[34]  Ditfurth, Maximilian von Die Hessen in den Feldzügen in der Champagne, am Maine und Rheine während der Jahre 1792, 1793 und 1794, Marburg 1881, p. 318.

[35]  Wiederhold refere que, em 1793, o comandante chefe das tropas britânicas na Flandres, o Duque de York, o mandara recompensar com 150 libras sterling, que no entanto lhe não tinham sido pagas (Boletim do Arquivo Histórico Militar, 60º volume, p.77).

[36]  Não esqueçamos que, para Friedrich Wilhelm Strieder, era importante ser bemquisto de Wilhelm IX, o ex-patrão de Wiederhold, que entretanto fora ele promovido a Príncipe Eleitor, e ainda era o soberano de Hessen-Kassel quando os Hessische Gelehrten foram publicados, em 1819.

[37]  Este tema dos escalões de nobreza alemã já foram debatidos pelo autor relativamente aos von der Schulenburg e von Oeynhausen, in “A família do Conde de Lippe – As dos seus parentes e dos seus inimigos – Redes de poder”, Revista Lusófona de Genealogia e Heráldica, Porto, 2012, Nº6, pp.192/4.

[38]  Kneschke, Prof.Dr. Ernst Heinrich Neues allgemeines Deutsches Adels-Lexikon, Leipzig: Friedrich Voigt, 1870, 9.Bd., p.567.

[39]  Excerptos Historicos e Collecção de Documentos relativos à Guerra denominada da Peninsula…, Lisboa: Imprensa nacional, 1863, III Vol. – pp.239-41, n(1), que se estende por estas três páginas.

[40]  Kneschke (n.35); Fr.Cast. Historisches und genealogisches Adelsbuch des Königreichs Württemberg [Livro histórico e genealógico da nobreza do Württemberg], Stuttgart: J.A.Gärtner, 1839, pp.384-8; Gothaisches genealogisches Taschenbuch der freiherrlichen Häuser auf das Jahr 1862 [Manual de Gota genealógico dos baronatos para o ano de 1862], Gotha: Justus Perthes, p.8793.

[41]  O autor da sua nota biográfica, em Diccionario histórico, chorographico, heraldico, biographico, bibliographico, numismatico e artistico : Portugal : abrangendo a minuciosa descripção... de todos os factos notaveis da História portugueza,... / obra...redigida, segundo os trabalhos dos mais notaveis escriptores, por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Lisboa: João Romano Torres, Editor, 1904-1915, pp. 704/5, reproduzido na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol.XXXVI, p.873, na qual se supõe erradamente haver dois Bernardos Guilhermes de Wiederhold, um deles contemporâneo do Conde de Lippe, o que é pura fantasia. E Cláudio de Chaby, como citado na n.39.

[42] Ou “escaramuçador” = Plänkler.

[43]  Recorde-se que a língua internacional – também entre militares – era, no séc. XVIII, e depois também no XIX, o francês (que Wiederhold certamente dominava desde jovem) e não o inglês, língua então considerada secundária.

[44]  Hessisches Staatsarchiv Marburg – Friedrichsplatz 15 – 35037 Marburg # http://www.staatsarchiv-marburg. hessen.de/.

[45]  Lista no Anexo A, com cotas, para permitir a eventual encomenda de cópias. Dado estarem já digitalizados, a sua obtenção do arquivo não terá provavelmente custos exorbitantes.

[46]  Cerca de 20 km a sul de Koblenz.

[47]  Estes tumultos, que eram já resultado da vizinha Revolução em França, acabaram por ser dominados por uma força de Hessen Darmstadt, sem que a coluna de von Kospoth se tenha tido de concretizar.

[48]  Não conseguiu imediatamente essa honra, mas, em 1803, quando finalmente foi elevado a eleitor, os seus esforços de 1790 foram provavelmente tidos em conta. Só que a honra de pouco lhe serviu, pois logo em 1806 Napoleão extinguia o Santo Império, e substituía-o pelo seu.

[49]  Esta cruz azul manteve-se como importante condecoração do, depois, II Reich alemão até ao fim da I Guerra Mundial, sendo a almejada mais alta condecoração por bravura em combate, designada familiarmente como “Der blaue Max”.

[50] Boletim do Arquivo Histórico Militar, Lisboa, 1992, 60º Volume, pp.75-8.

[51]  “Beytrag zur letzten Einnahme von Kostheim (in der Nacht vom 7.auf 8. Jul.1793) mit einem Plan” [Contributo para a última tomada de Kostheim (na noite de 7 para 8 de Jul. de 1793) com um mapa], conforme atrás citado.

[52]  Ao leitor actual, com experiência de estado maior, parece incrível como é que efectivos, que se podem computar entre 12 a 15.000 homens têm, por junto um chefe de estado maior com o posto de capitão. Isto só mostra como as estruturas de estado maior eram, por esta altura, incipientes, e só se foram elaborando à medida que as guerras – revolucionárias e napoleónicas – avançaram, como este autor e o General Espírito Santo puderam constatar na preparação da obra em co-autoria, A logística do exército anglo-luso na Guerra Peninsular: uma introdução, Parede : Tribuna da História, 2012 . Esta evolução da orgânica e actividade dos estados maiores no dobrar do séc.XVIII para o XIX merecia, no entanto, outros estudos aprofundados.

[53]  Lima, Henrique de Campos Ferreira, Coronel de Artilharia, Director do Arquivo Histórico Militar “O Príncipe de Waldeck, Marechal do Exército Português”, in Boletim do Arquivo Histórico Militar, Vila Nova de Famalicão: Gaspar Pinto de Sousa, 1937, Volume 7º, pp.250-2.

[54]  Lima p.251. Tendo servido no exército do Hessen durante vinte e um anos, nos últimos em posições de comando de unidades, contratos de fornecimentos para as mesmas – de fardamentos, entre outras coisas – teriam sido feitos com ele, conforme era sistema generalizado no Antigo Regime, antes dos exércitos de conscrição nacionais. A diferença entre a dotação governamental por uniforme, e o custo real do mesmo que saía dos bolsos dos comandantes, podia representar significativo lucro – ou prejuízo; já referimos este tipo de operação financeira em relação ao Conde Alberto de Schaumburg-Lippe, pai do nosso Marechal General (Revista Lusófona de Genealogia e Heráldica, Porto, 2013, Nº7, n.31).

[55]  “As Memórias de Militares Ingleses na Guerra Peninsular, como Fontes da História de Portugal Coetânea – Orientação Bibliográfica. 3.2 Os Papéis de Dickson”, in Revista Militar nº 2489/2490 – Junho/Julho de 2009, Lisboa. Os Dickson Manuscripts encontram-se nos arquivos da Royal Artillery em Woolwich e os 5 volumes reeditados (Ken Trotmann: Cambridge, 1987-91) contêm todas as descrições de itinerários a norte do de Elvas a Lisboa, mas na perspectiva do oficial de artilharia que era a o Major Alexander Dickson R.A..

[56]  Título n.29 “A Viagem de Christian, Príncipe de Waldeck, ao Alentejo e ao Algarve descrita pelo Barão von Wiederhold. 1798”, pp. 123/4, 180, 184, 187. Embora se pudesse dar o caso de serem armas obsoletas, coronhas e canos eram sempre aproveitáveis, se em bom estado de conservação.

[57]  Boletim do Arquivo Histórico Militar, Lisboa, 1997, 62º Volume, pp.255-355, títulos já citados na n.29.

[58]  Neue Bellona, vol.7º, 1804, 3ª fascículo, pp.271 ss..

[59]  De uma estirpe de engenheiros militares originários de Hanover, que serviu em Portugal, tendo depois passado ao Brasil; são antepassados do famoso arquitecto Oscar Niemeyer.

[60]  A actuação do General prussiano Conde de Goltz como comandante do exército português, primeiro (Setembro de 1800 a Julho de 1801) subordinado ao Duque de Lafões, o qual se manteve como Marechal General até ao descalabro das operações, mas depois em plenas funções de Marechal General, tem sido criticada (Amaral, Manuel Olivença, Tribuna da História: Lisboa, 2004, pp.70 a 74). Se, no entanto, se analisar a sua correspondência publicada pelo Coronel Ferreira Lima (“O Marechal Conde de Goltz, comandante em chefe do Exército Português” in Boletim do Arquivo Histórico Militar, 8º vol., 1938, pp.191-247), entende-se como fora difícil actuar sob um comandante como era o Duque, com a avançadíssima idade, para a época, de 82 anos que, não obstante um passado notável, não reunia as condições mínimas para o comando militar, especialmente em estado de guerra. A primeira fase dessa guerra, em que v.d.Goltz praticamente não se mostrou no terreno, envenenou o seu prestígio e, quando pediu para gozar uma licença na Alemanha, por meados de 1802, já previa certamente não regressar. Essa a razão por que estaria a entregar os principais documentos inerentes às suas funções ao Ajudante General, e não a um qualquer ajudante de campo.

[61]  Ano XV (1863) Nº13 pp.341-53. Augusto Wiederhold (*1799 †1869) foi fundador da Revista Militar e, em determinada altura, redactor da mesma.

[62]  Num conjunto de três volumes sobre os prelúdios à reforma de 1806 – A luta política em Portugal nos finais do Antigo Regime, Parede: Tribuna da História, 2010-11 –, o historiador militar Manuel Amaral publica, com alguns comentários, documentos e projectos legislativos do período, mas nada inclui sobre a intervenção do Wiederhold pai, ou o relato do Wiederhold filho. Pesquisa no AHM poderá, eventualmente, trazer mais achegas a este assunto.

[63]  N.14 infra.

[64]  Na fase inicial estava ainda sob a forte influência do Conde de Lippe, de quem fora discípulo – reimprimiu depois no jornal notas biográficas sob o seu mestre que foram logo em seguida reimpressas na obra de seu cunhado Theodor Schmalz Denkwürdigkeiten des Grafen Wilhelms zu Schaumburg-Lippe (Memórias do Conde WSL), Hannover: in kommission der Helwingischen Hofbuchhandlung, 1783. No segundo volume (1789) foi publicado “Vom Königlichen Portugiesischen Millitär, von einem portugiesischen Officer” [Dos militares do rei de Portugal, por um oficial português] (online), que é um relato de trinta páginas (pp.1-31) sobre o estado militar de Portugal, do mesmo tipo, embora menos pormenorizado, do que vamos tratar nesta rúbrica. O “oficial português” será provavelmente um militar alemão dos que vieram com o Conde de Lippe.

[65]  Que prosseguia na tradição de outro periódico – Bellona – cuja publicação fora suspensa, em 1787, um ano antes (repare-se) que Scharnhorst começasse com o Neues militairisches Journal.

[66]  As fontes utilizadas foram Cast, Fr. Historisches und genealogisches Adelsbuch des Grossherzogtums Baden, Stuttgart: J.F.Cast, 1843 / Kneschke Neues allgemeines Deutsches Adels-Lexicon, Leipzig: Friedrich Voigt, 7.vol. p.217.

[67]  Volume 8, fascículo 2, pp.158 ss./Volume8, fascículo 4, pp.344 ss..

[68]  “Bemerkungen über die reine und angewandte Strategie des Herrn von Bülow oder Kritik der darin enthaltenen Ansichten” [Observações sobre a estratégia pura e aplicada do Sr. von Bülow ou crítica dos pontos de vista nela contidos].

[69]  Título da n.30 (infra), rúbrica ‘O pensador militar’.

[70]  Seu irmão Viktor von Porbeck, servindo também no Exército de Baden como capitão, caiu morto em combate em frente a Paris em 1814 mas, sinal da volubilidade da guerra nestes tempos, lutando agora contra Napoleão.

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2015-05-06
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REVISTA MILITAR @ 2019
by CMG Armando Dias Correia