Nº 2597/2598 - Junho/Julho de 2018
O caso dos bombardeiros Canberra e as relações luso-britânicas durante a guerra colonial

José Matos

No início dos anos de 1960, com as suas esquadrilhas de caça equipadas com aviões de origem americana (F-86F e F-84G), a Força Aérea Portuguesa (FAP) procurou adquirir novos aparelhos de combate para fazer face à guerra que tinha começado em Angola. Não podendo contar com a habitual ajuda de Washington, que não autorizava o envio de material militar para a África cedido no âmbito da NATO, Portugal procurou apoios em Londres e noutros aliados europeus com vista a compensar a falta de apoio norte-americano. Não são, pois, de estranhar, as tentativas que os portugueses fizeram para comprar aviões de combate britânicos, no período inicial da guerra colonial, numa altura em que os governos conservadores de Macmillan e de Douglas-Home estavam ainda disponíveis para vender aviões militares a Portugal. Esta investigação aborda principalmente o caso dos bombardeiros Canberra, que Portugal tentou comprar junto do seu velho aliado.

O primeiro problema que a FAP tentou resolver com o eclodir da guerra em África, em 1961, foi a falta de um bombardeiro táctico e de apoio próximo, que pudesse ser usado nos teatros de operações ultramarinos. Nesse sentido, nos primeiros meses de 1962, o Governo de Salazar manifesta junto das autoridades inglesas a intenção de adquirir seis bombardeiros britânicos Canberra, que era, na altura, o melhor bombardeiro que a Grã-Bretanha podia oferecer. O pedido português é analisado a 7 de Março de 1962, pelo Strategic Exports Committee (SEC), que tinha a responsabilidade de emitir um parecer antes de qualquer venda ser autorizada. No parecer que emite, esta entidade considera que os aviões podiam ser vendidos a Portugal, mas que o Governo português devia dar garantias de que os Canberra não seriam usados nas colónias africanas[1]. Como é óbvio, Londres não queria ver aviões de origem britânica a combater em África, numa guerra impopular, embora a verdadeira intenção da FAP fosse substituir os velhos bombardeiros PV-2 Harpoon que tinha destacado para Angola e Moçambique.

O modelo pedido para substituir o Harpoon era o Canberra B.Mk 2, uma das primeiras versões do bombardeiro britânico que, na altura, já não estava em produção, sendo apenas possível adquirir aparelhos usados pertencentes à Royal Air Force (RAF). O B.Mk 2 tinha entrado ao serviço da RAF em 1951, mas, no final dos anos 50, vários aviões desta versão estavam armazenados e disponíveis para venda a outros países. A compra de seis destes aviões pela FAP fora avaliada em 500 mil libras, segundo a proposta apresentada pela British Aircraft Corporation (BAC), um consórcio de empresas aeronáuticas inglesas, onde estava a English Electric Aviation, que fabricava os Canberra[2]. Para Londres a venda tinha duas grandes vantagens: em primeiro lugar, possibilitaria qualquer concessão de facilidades de trânsito de que a RAF dispunha na ilha do Sal, em Cabo Verde, e também nos Açores, e que eram importantes para as capacidades expedicionárias britânicas. Em segundo, amenizava a crispação portuguesa contra o Reino Unido, depois da invasão indiana de Goa, em que Londres não tinha feito nada para defender as posições portuguesas[3].

 

Uma aliança anacrónica

No entanto, a questão dos Canberra surgia numa altura em que Londres manifestava algumas reservas quanto ao fornecimento de material militar a Portugal. Em Junho de 1961, o primeiro-ministro conservador Harold Macmillan tinha feito uma declaração na Casa dos Comuns em que considerava razoável o fornecimento de equipamento militar a Portugal no âmbito da NATO, mas relativamente a equipamento para ser usado em África todas as vendas estavam suspensas[4]. Além desta divergência com Lisboa, o Governo de Macmillian não tinha ajudado militarmente Portugal quando a Índia invadiu e anexou a Goa portuguesa, em Dezembro de 1961, o que foi encarado pelo Governo de Salazar como uma quebra dos tratados de defesa mútua entre Portugal e o Reino Unido, que previam que, em caso de agressão externa às colónias portuguesas, caberia aos ingleses defender os portugueses. Num discurso na Assembleia Nacional, a 3 de Janeiro de 1962, o próprio Salazar acusava Londres de se ter eximido “ao cumprimento de obrigações certas que tiveram a devida contrapartida em vantagens concedidas por Portugal ”[5].

O problema é que a diplomacia britânica considerava a aliança anglo-portuguesa ultrapassada perante a realidade da época. Num memorando, datado de 10 de Abril de 1962, e dirigido ao Gabinete do primeiro-ministro britânico, o Foreign Office considerava que a relação com Lisboa tinha sofrido devido à invasão indiana de Goa, mas que a obrigação de defender as colónias portuguesas não era conciliável com a visão britânica sobre o problema colonial português. Na opinião do Foreign Office, qualquer compromisso a esse nível seria impopular, não só na opinião pública como também junto das Nações Unidas. Para a diplomacia britânica a questão era “como nos livramos com elegância do nosso compromisso anacrónico e sem provocar reacções hostis em Lisboa”.

No documento em questão, o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Lorde Home, defendia que “numa primeira instância não devemos fazer mais do que abordar o governo português de um modo informal e amigável com o propósito de discutir com eles como poderemos ultrapassar as dificuldades presentes nas relações Anglo-Portuguesas.” Ou seja, explicar como as circunstâncias complicavam as possibilidades de os ingleses honrarem as suas obrigações políticas e militares em relação às colónias portuguesas. Mesmo assim, acreditava que o Reino Unido deveria reafirmar o seu compromisso de defender a metrópole portuguesa (que incluía os Açores e a Madeira) e também Cabo Verde. Para Home, Londres não podia prescindir da aliança que tinha com Portugal, pois os ingleses tinham facilidades de trânsito e escala em Cabo Verde e nos Açores, que eram importantes no caso de qualquer intervenção britânica na África Meridional. Neste seguimento,
o chefe da diplomacia inglesa mostra-se disponível para conversar com Franco Nogueira durante o Conselho da NATO de Atenas, em Maio, de forma a explicar as dificuldades que Londres tinha em cumprir os seus compromissos em relação à defesa das colónias portuguesas[6]. Não temos nas fontes portuguesas qualquer informação sobre o teor deste encontro, nem Franco Nogueira faz no seu diário qualquer referência a esta conversa com Home durante a reunião da NATO, na capital grega, no entanto, sabemos pelas fontes inglesas o resultado deste contacto. Nogueira mostrou pouca compreensão pelas dificuldades britânicas e nenhum interesse por uma possível revisão dos tratados luso-britânicos, embora não tenha excluído a hipótese do tema ser discutido pelos canais diplomáticos[7].

 

As restrições inglesas