Nº 2603 - Dezembro de 2018
Crónicas Biliográficas

Timor-Leste – Da guerrilha às forças de defesa

Luís Bernardino e Nuno Canas Mendes

Mercado de Letras Editores, Lda.

 

Escrito a quatro mãos, nomeadamente pelo Prof. Doutor Nuno Canas Mendes e pelo Tenente-coronel Luís Manuel Brás Bernardino, esta obra, que se apresenta em três línguas: português, tétum e inglês, compreende uma vasta colecção de fotografias coloridas, as quais enriquecem os textos alusivos.

O livro principia com os agradecimentos e a manifestação da gratidão dos autores ao Presidente da República Democrática de Timor-Leste, Francisco Guterres Lú Olo, que escreveu o prefácio, assim como ao Chefe de Estado-Maior General das Forças de Defesa de Timor-Leste, Lere Anan Timur, o qual redigiu o prólogo que antecede a introdução dos autores. Seguem-se três partes com fotografias, aliás dignas de uma exposição, por esta ordem: I – Cartografias; II – Primeira Fase: De Aileu às Forças de Defesa de Timor-Leste; III – Segunda Fase: De Metinaro às Forças de Defesa de Timor-Leste. Por fim, e para que fiquem imortalizados os seus nomes, foram apontados, um por um, «Os Heróis da Mudança».

No prefácio do livro podemos constatar a sensibilidade e a opinião de um cidadão timorense, coincidentemente o actual Presidente da República, quando refere: “Durante a leitura da introdução deste livro, «visitei» emocionalmente recônditos sagrados da nossa Resistência e ressaltaram-me à memória os pequenos e grandes momentos vividos ao longo de vinte e quatro anos da nossa luta pela liberdade e independência. Nesta «visita» a um passo coroado de recordações indeléveis, senti com vivacidade o apoio acarinhado e incondicional do meu povo e os sacrifícios por ele consentidos para sustentar uma guerra prolongada cujo fim parecia imprevisível. Foi, sem dúvida, esta relação simbiótica por um objectivo comum – entre o povo e as FALINTIL [Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste] – que nos deu força e a razão para continuarmos firmes e determinados na nossa luta pela independência nacional. E uma saudade dolorosa me apunhalou, mais uma vez, ao recordar os meus companheiros de luta, homens e mulheres, que hoje não podem saborear o gosto da nossa vitória, o sentimento de pertença, de sermos donos de nós mesmos e de nos constituirmos como Povo, com identidade própria, na nossa Pátria livre e libertada”.

A título de sentida homenagem, o prefaciador continua o seu encómio: “Curvo-me perante os fundadores, líderes e demais combatentes das FALINTIL e felicito todos os meus compatriotas e todos quantos, no âmbito do pacto de amizade e de cooperação bilateral e/ou multilateral, contribuíram para a formação das FALINTIL-FDTL [Forças de Defesa de Timor-Leste] – uma instituição já sólida e capacitada para defender e garantir a soberania de Timor-Leste sob o comando dos ex-quadros superiores das gloriosas FALINTIL.” A recordar a vocação marítima de Portugal, surge, adiante, uma referência digna de registo: “A nossa soberania inclui o mar. Para isso, precisávamos de levantar uma componente naval e de preparar os recursos humanos. Seja permitido lembrar o papel de Portugal neste levantamento, com destaque para o então Primeiro-Ministro, Engenheiro António Guterres”.

O papel de Portugal na formação das forças armadas timorenses está explícito no prólogo do Major-general Lere Anan Timur: “Após a desmobilização de alguns dos nossos camaradas de luta, iniciou-se a formação das F-FDTL em Aileu, no acantonamento aí preparado. A comunidade internacional estava agora mais disposta a ajudar sob forma variada. Apoio logístico e apoio à formação. A decisão de aceitar a ajuda na formação por parte de Portugal teve especialmente a ver com afinidades históricas e culturais, de que destacamos a língua, pois era a que mais facilmente seria entendida pela maior parte dos «instruendos». Assim, iniciámos em Fevereiro de 2001 esse processo de formação das nossas forças armadas. Foi gigante o esforço realizado, pelos instrutores de Portugal e por nós. Ensinar e aprender é um esforço igual e que deve ser partilhado”.

Segundo os autores, o objectivo do livro procura mostrar através de fotografias coloridas, quase duas centenas, a valerem mais de mil palavras cada uma, e de um pequeno texto de enquadramento, os momentos mais relevantes da transformação e desenvolvimento das FALINTIL em FALINTIL-FDTL, revelando a sua importância para a promoção da paz, da segurança e do desenvolvimento em Timor-Leste enquanto Estado independente. Foi um processo inédito que “espantou” o mundo e que constituiu um grande desafio na história da Organização das Nações Unidas, incluindo a formação de umas Forças Armadas a partir de um grupo de guerrilheiros que jurou continuar a servir a sua pátria de outra forma e por outros meios.

Na introdução, os autores tratam o “enquadramento geográfico e histórico”, onde referem que Timor-Leste é um pequeno país com cerca de 15.000 Km2, na metade oriental da ilha de Timor, incluindo o enclave de Oecusse, a ilha de Ataúro e o ilhéu de Jaco, situando-se assim numa zona de encruzilhada de continentes e de oceanos, sempre sujeito a várias influências culturais e à presença de vários povos. Como não podia deixar de ocorrer, foi destacado, ao longo da sua história, o cruzamento com Portugal desde o século XVI até 1974, aquando da alteração do regime que abriu o caminho para a autodeterminação, à formação dos partidos e à contenda entre a União Democrática Timorense [UDT] e a Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente [FRETILIN], perante a incapacidade das autoridades portuguesas, de que resultou um período de grande instabilidade. Neste capítulo é abordada, ainda, a ocupação de Timor-Leste por parte da Indonésia, desde finais de 1975 até 1999, data em que se realizou um referendo para consulta do povo timorense para que este se pronunciasse a favor da (ou contra a) autonomia. O papel decisivo de Portugal como “potência administrante” é evidenciado. É também referido “O processo inicial de criação das FALINTIL-FDTL” seguindo-se a “1.ª Fase: De Aileu às FALINTIL-FDTL”; a “2.ª Fase de Metinaro às FALINTIL-FDTL” e “As FALINTIL-FDTL: O futuro da nação timorense.”

Podemos concluir que estamos perante uma obra oportunamente publicada e que nos traz através da história contida nas palavras e nas imagens um legado do passado que contribuirá para melhor construir o futuro. Como é referido no prólogo: “Assim, esta obra dará conhecimento de um pouco da história da criação e desenvolvimento das nossas forças de defesa, as F-FDLT. Mesmo sendo um trabalho que assenta muito do conteúdo em registos fotográficos, é uma interessante e valiosa recordação desses momentos, mas sobretudo de homenagem a todos quantos participaram nesses momentos excepcionalmente relevantes para a construção da força de defesa, mas sobretudo que contribuíram de forma decisiva para êxito de Timor-Leste como um estado (re)construído após um sério, longo e grave conflito”.

Resta-nos dar os parabéns aos autores, Prof. Doutor Nuno Canas Mendes e ao Tenente-coronel Luís Manuel Brás Bernardino pela iniciativa, profissionalismo e excelente conteúdo e à editora Mercado de Letras pelo sentido estético e qualidade da obra, de índole agradável à vista e convidativa à leitura.

 

Coronel José Custódio Madaleno Geraldo

Sócio Efetivo da Revista Militar

 

 

A Revista Militar felicita os autores e agradece a oferta do exemplar da obra para o seu acervo.

 

Coronel
José Custódio Madaleno Geraldo
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2019-05-10
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by CMG Armando Dias Correia