Nº 2609/2610 - Junho/Julho de 2019
Crónicas Bibliográficas

100 anos de Aeronáutica Militar

Força Aérea Portuguesa em Alverca

Comissão Histórico-Cultural da Força Aérea

 

Alverca, terra sagrada da aviação (…), ninho de águias e, durante anos, testemunha de belos acontecimentos. Assim se referia o jornal “A Capital”, de 5 de junho de 1968, a Alverca do Ribatejo.

Outros espaços e locais portugueses poderão querer compartilhar essa distinção, tais como Vila Nova da Rainha, Sintra, a Doca do Bom Sucesso, Amadora, etc. Mas nenhum deles esteve durante tanto tempo ligado à aeronáutica, com tanta diversidade de meios, tanto espaço ocupado e tanta multiplicidade de funções, nem teve uma localização tão privilegiada, com proximidade ao porto de Lisboa e acessos próximos e desimpedidos às vias férrea, fluvial e terrestre.

Alverca tornou-se, ao longo dos anos, o centro de excelência e o núcleo mais importante da Aeronáutica e da Aviação Militar Portuguesa:

– Ponto de partida de viagens intercontinentais, nos tempos heroicos da aviação;

– Sede de unidades aéreas operacionais;

– Primeiro aeródromo internacional de Lisboa;

– Centro de manutenção e reparação de aeronaves, reconhecido a nível internacional;

– Base logística dotada de grandes espaços e armazéns, fundamentais para o apoio às unidades aéreas;

– Local onde se instalaram os órgãos de apoio às infraestruturas da aeronáutica militar;

– Sede do Museu do Ar, repositório e preservação de valores e património aeronáutico.

Esta obra, agora publicada, vem enriquecer e complementar o trabalho feito anteriormente por diversos investigadores, é o resultado de intensa pesquisa em arquivos documentais e fotográficos, militares e civis. Enriquecida pela inserção de centenas de fotos notáveis, referentes aos últimos 100 anos da aeronáutica em Portugal. Numa breve análise estruturalista, poderá ser sintetizada da seguinte forma:

– No aspeto espacial, Alverca domina a maior parte da narrativa, embora também sejam feitas referências pontuais a outras localidades ligadas à aviação, tais como Vila Nova da Rainha, Amadora e Sintra;

– No domínio temporal, abarca o período de 1918 (data da criação do Parque Militar Aeronáutico) a 2018, e por isso, a celebração centenar, ainda que também sejam feitas referências aos percursores, militares e civis, envolvidos na aventura aeronáutica, de 1910 até à Grande Guerra;

– O estilo de linguagem é estribado na tecnologia e na ciência e, por isso, clara, direta, descritiva e objetiva nas palavras e nos conceitos;

– A estrutura é orgânica, baseada nos órgãos que foram sendo criados em Alverca, na sua maior parte de natureza militar, isto sem esquecer as personalidades que neles se foram destacando ao longo dos 100 anos de narrativa;

– Prevalece o dever de cumprimento da missão, a vontade de superação e conquista, independentemente dos perigos associados, numa constante dialética entre arrojo e prudência, risco e alcance;

– A crença domina toda a atividade desenvolvida em Alverca, ideias e credos, neste caso a fé no progresso, na ciência, na tecnologia, no desenvolvimento material e social, na capacidade de o homem realizar o que antes era apenas sonho;

– O recurso à simbologia, a integração de motivos figurativos, agregadores, ideal de pertença a um grupo, capazes de unir as pessoas em torno da missão a cumprir e, por isso, a inserção da Cruz de Cristo (a dimensão mística e sagrada), das asas da aviação (o sonho de voar) e da águia (rainha dos céus, com a sua majestade, perspicácia, inteligência e acuidade visual);

– O elemento pessoal encontra-se sempre presente e devidamente vincado, o homem emancipado, dotado de vontade, capaz de se autodeterminar, que procura dominar a máquina e os contratempos, gente de ação e de pensamento, dotada de fortes personalidades e convicções.

Observadores e investigadores atentos e meticulosos, patriotas no sentido amplo do termo, linguagem descomplexada, arejada e descomprometida, os autores dividiram a sua obra em vários capítulos, baseados numa estrutura de natureza orgânica e temporal, essencialmente descritivos e narrativos, numa espécie de balanço para a posteridade:

– O Tenente-general Piloto Aviador Mimoso e Carvalho fez uma abordagem introdutória aos 100 anos de aviação militar em Alverca, seguida de uma narrativa sobre a aerostação e sobre a criação, em 1922, do Parque de Material Aeronáutico-PMA, momento a partir do qual foi encetado, sob o comando do Major Ribeiro de Almeida, um notável plano de expansão e edificação de novas instalações. PMA que toma a designação de OGMA em 1928, período a partir do qual tem lugar a edificação de modernos hangares e a construção dos primeiros aviões em Portugal, além da constante melhoria da pista e da área ocupada. Inaugura-se ainda um período notável de prestação de serviços a clientes civis e militares de várias partes do mundo, sem ter sido descurado o extraordinário apoio que foi prestado às forças militares portuguesas envolvidas no conflito do Ultramar (1961-1974);

– O historiador e investigador Dr. Carlos Serejo descreveu, em seguida, as unidades aéreas e as aeronaves que estiveram sedeadas em Alverca, no período de 1919 a 1938. A Esquadrilha Mista de Depósito-EMD (1919-1921), a Esquadrilha de Aviação de Treino e Depósito-EATD (1925-1928) e o Grupo Independente de Aviação de Bombardeamento-GIAB (1928-1938);

– Depois, o Dr. Henriques-Mateus, também historiador e investigador, deu-nos a conhecer o Campo Internacional de Aterragem-CIA, usado durante as décadas de vinte e trinta como ponto de chegada e de partida dos aviões de carreira que demandavam Lisboa. E ainda a aliciante narrativa das intrépidas viagens aéreas que partiram de Alverca, nas quais “quantas vezes o esforço individual, o arrojo e a vontade se sobrepuseram à razão e à prudência”;

– O Capitão Engenheiro de Aeródromos Henrique Rodrigues, técnico e chefe do Laboratório de Solos e Pavimentos da Repartição de Engenharia de Aeródromos, relatou a atividade deste importante órgão da Força Aérea, também sedeado em Alverca, empenhado na construção e grande reparação de infraestruturas aeronáuticas e rodoviárias militares, quer em tempo de paz quer em tempo de conflito.

– O Dr. Mário Correia, historiador e ex-conservador do Museu do Ar, deu-nos a conhecer o repositório material e documental deste espaço cultural, inaugurado em 1 de julho de 1969. Acima de tudo, segundo este autor, cinquenta anos passados após a sua criação, o Museu do Ar, espaço de cultura e de memória aeronáutica, vem perpetuando todos aqueles que têm engrandecido a aviação portuguesa.

– O Tenente-coronel Técnico de Abastecimento Óscar Rodrigues, discorreu sobre o Depósito Geral de Material Aeronáutico-DGMFA, plataforma logística que tem contribuído para o sucesso e segurança das missões da Força Aérea, disponibilizando os produtos, materiais e equipamentos necessários, no local adequado e no momento preciso. Complexo com milhares de m2 de armazenamento, o DGMFA, centro da cadeia geral de abastecimento, está envolvido em todas as fases de exploração e sustentação operacional das aeronaves militares, desde o seu aumento à carga até à sua desativação.

Com tamanha diversidade e complexidade, esta obra só poderia ser possível recorrendo a diversas competências e conhecimentos. Trata-se, por isso, de um trabalho coletivo, conduzido sob a coordenação do Tenente-general Mimoso e Carvalho.

Conforme deixou escrito, na sua nota de abertura, o General Manuel Teixeira Rolo, Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, “… a estrutura militar no complexo aeronáutico de Alverca, constituiu-se como retaguarda do Poder Aéreo e da sua permanente sustentabilidade, associada a um património histórico material e imaterial, cujo valor indiscutível, marca indelevelmente um centenar de anos de honroso passado”.

Criteriosamente apresentado, pela editora By the Book, num volume de 224 páginas, dotado de centenas de magníficas fotografias e excelente aspeto gráfico que tornam a leitura muito agradável e fluente, fica esta obra à disposição dos leitores interessados, passando a constituir um valioso contributo para a história da aeronáutica em Portugal.

A Revista Militar agradece a oferta do livro “100 anos de Aeronáutica Militar, Força Aérea Portuguesa em Alverca” e felicita todas as personalidades envolvidas na sua produção e, em particular, o coordenador Tenente-general António Mimoso e Carvalho e as Dras. Margarida Oliveira e Veronique Pipa pelo excelente design, paginação e iconografia, que muito contribuíram para a manifesta qualidade deste trabalho.

 

Major-general Manuel de Campos Almeida

Vogal da Direção da Revista Militar

Alverca, complexo aeronáutico, vista atual

Major-general
Manuel António Lourenço de Campos Almeida
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