Nº 2615 - Dezembro de 2019
Crónicas Bibliográficas

Voando sobre um ninho de “Strela’s

Tenente-general António Martins de Matos

Edições Booksfactory, novembro de 2018

 

O Tenente-general António Martins de Matos ingressou na Academia Militar, em 1964, e, em 1971, foi qualificado como piloto operacional de F-86 e depois de Fiat G-91. Entre 1972 e 1974, com a patente de tenente, serviu na Guiné onde efetuou 387 missões em Fiat G-91 e 113 em DO-27. Ao longo da sua carreira foi piloto da Esquadrilha Acrobática “Asas de Portugal”, serviu na NATO, em Bruxelas, foi 2.º Comandante do Comando Aéreo de Torrejón e Comandante Operacional da FAP e do Comando Aéreo de Monsanto.

Homem de ação e dotado de uma forte capacidade de liderança, atributos que revelou durante a exigente comissão de serviço na Guiné, veio agora apresentar um livro que titulou “Voando sobre um ninho de Strelas”, onde relata as suas experiências no teatro de operações daquele território, no atribulado período de 1972 a 1974.

O título da sua obra reporta a um filme de 1975, de Milos Forman, que conquistou 5 óscares, e tem como protagonistas principais Jack Nicholson e Louise Fletcher, cuja ação é passada numa enfermaria psiquiátrica e cujo trama revela o conflito entre os que necessitam de ser protegidos e os responsáveis das instituições que é suposto terem o dever de os proteger. Situação análoga à do período em que Martins de Matos serviu na Guiné, onde se assistiu ao incrementar da conflitualidade, até aí de baixa intensidade, provocado pela introdução de novos sistemas de armas, entre elas os mísseis Strela, ficando muitas vezes as populações civis apanhadas entre o fogo das forças portuguesas e da guerrilha do PAIGC.

Sendo fundamentalmente um livro de interesse para a História Militar, relatando a atuação, os dramas e as glórias da nossa intervenção militar na Guiné, revelou-se também importante para uma melhor compreensão da envolvente político-social daquele tempo. Porque descreve, para além dos meandros políticos e militares do conflito, a geografia do território, a postura das forças portuguesas, a procura da paz e a posição das populações da Guiné.

 

Figura 1 – Strela.

 

Passo agora a caracterizar a estrutura desta obra de António Martins de Matos:

– Sob o ponto de vista espacial, após a passagem pelas bases aéreas onde completou a sua formação, o ambiente geográfico em que decorre a ação é o território da Guiné, que o então tenente Matos percorreu de “lés-a-lés”, voando em DO, em missões de reconhecimento, transporte ou evacuação sanitária, ou sobrevoando-o em missões de combate, voando em Fiat G 91;

– No domínio temporal, atravessam-se duas épocas distintas, cobrindo o período de formação, entre 1970 a 1972, e depois o tempo decorrido entre maio de 1972 e março de 1973, passado na Guiné;

– A nível social, deparamos essencialmente com uma comunidade militar, vivendo espartanamente nos aquartelamentos, espaços quase exclusivamente reservados a homens, na maior parte jovens, sujeitos a um clima inclemente e ao cumprimento de missões, disciplina e práticas castrenses;

– Quanto à linguagem, o autor, ao descrever as suas experiências, e ao longo da obra, utiliza primeiro um jargão próprio do ambiente da instrução e das atividades operacionais, num segundo momento emprega uma linguagem mais técnica, quando se refere à descrição das instalações e às características dos equipamentos militares e, na parte final, utiliza uma linguagem erudita e urbana, quando se pronuncia sobre os meandros históricos, políticos e militares do conflito em que esteve envolvido.

Martins de Matos dividiu a sua obra em várias partes, que se distinguem pelos diversos tempos e pelos distintos lugares onde decorre a ação:

– Na primeira parte, o autor descreve os seus primeiros voos, até se tornar piloto operacional na Base Aérea de Monte Real, voando F-86 Sabre e Fiat G-91;

– Depois, é a chegada à Guiné, em maio de 1972, a descrição da Base Aérea n.º 12 e da cidade de Bissau, da babilónia do mercado de Bandim, do palácio do governador e da Avenida da República, das amenidades da cidade e ainda uma explicação das características técnicas das nossas aeronaves e equipamentos e de algumas das faltas e constrangimentos revelados para o cumprimento eficiente das missões;

– Segue-se a narrativa das primeiras missões, a rotina dos alertas, dos voos de setor, dos destacamentos fora de Bissau, das evacuações sanitárias e do apreço pelo labor das enfermeiras paraquedistas, verdadeiros anjos que desciam dos céus, para acudir a feridos e doentes;

– De seguida, em março de 1973, surgem os Strela nos céus da Guiné, que causaram danos insanáveis nos meios humanos e aéreos do Grupo Operacional, causando, em 10 meses, o abate de 8 aeronaves (5 Fiat G-91, 2 DO e 1 T-6) e a morte de 4 pilotos, colocando um fim à supremacia aérea e afetando o moral das forças terrestres, que deixaram de poder contar com o apoio imediato e incondicional da vertente aérea;

 

Figura 2 – Fiat G-91 5419, abatido na Guiné.

 

– Em seguida, narra os acontecimentos dramáticos de Guidage, Guilege e Gadamael, em maio e junho de 1973, locais onde as nossas forças e nosso poder aéreo foram empenhados em plenitude, para travar as investidas da guerrilha, tempos em que “voar era preciso, viver não era preciso”;

– Em junho de 1973, tem lugar a conhecida reunião de comandos, presidida pelo General António de Spínola, da qual foi redigida a importante ata, na altura classificada de “Muito Secreta”, que se encontra na página 303, e que constitui um documento fundamental para se compreender a situação político-militar em meados de 1973;

– Em 6 de agosto de 1973, o General Spínola regressa a Lisboa, após 5 anos de serviço na Guiné, durante os quais empregou todos os instrumentos de que dispunha para tentar alcançar a paz, passando pelo político, pelo militar, pelo económico e social, e ainda pelo diplomático, quando tentou obter os apoios de mediação do Senegal e do Presidente Léopold Senghor nas negociações de Cap Skirring; o seu substituto, General Bettencourt Rodrigues, chegou à Guiné em 21 de setembro.

A vivência de António Martins de Matos na Guiné, que ficou vertida nesta sua obra, contribui para que “a verdade dos factos”, fique mais clara e é um extraordinário aditamento, a somar aos programas de TV produzidos sobre o conflito e aos livros e artigos, até agora publicados.

Redigida com uma linguagem arejada, a todos acessível, mesmo quando trata de questões técnicas ligadas à aviação militar, assumindo o fracasso nas missões menos bem sucedidas, afastando-se do modelo romântico e aventureiro do célebre herói ficcionado Major Alvega, agregando à sua volta todos aqueles que contribuíam para o sucesso da missão, integrando um capítulo a que chamou “O Sabor do Medo”, falando mais na primeira pessoa do plural do que na primeira do singular, não esquecendo todos os que deram a vida na Guiné, apercebendo-se dos paradoxos daquela “guerra esquecida”, que só aos que lá estavam parecia dizer respeito, António Martins de Matos prestou a Portugal mais um serviço relevante, não permitindo que se apague a memória.

Finalmente, não resistimos à tentação de transcrever um pequeno texto da autoria do General Robin Olds, USAF (1922-2007), citado a página 145 desta obra, militar que também passou pela angústia provocada pelos ataques dos mísseis SAM, incluindo os Strela, no conflito do Vietname:

When I saw my first SAM, there were a few seconds of sheer panic, because that’s a most impressive sight to see that thing coming at you. You feel like a fish about to be harpooned. (…) It means to kill you and I’ll tell you right now, it rearranges your priorities. (…) We had been told to keep our eyes on them and not to take any evasive move too soon, because they were heat-seeking and they, too would correct, so I waited until it was almost on me and then I rolled to the right and it went on by.

Criteriosamente apresentado, num volume de 375 páginas, com capa contendo um sugestivo voo de um Strela, agregando imensas fotografias e importantes anexos, fica esta obra à disposição dos leitores interessados, constituindo um valioso contributo para a História do conflito na antiga Guiné Portuguesa, verdadeiro confronto de vontades.

A Revista Militar agradece a oferta da obra “Voando sobre um ninho de Strelas” e felicita o Tenente-general António Martins de Matos.

 

Major-general Manuel de Campos Almeida

Vogal da Direção da Revista Militar

Major-general
Manuel António Lourenço de Campos Almeida
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