Nº 2656 - Maio de 2023
Pessoa coletiva com estatuto de utilidade pública
Editorial
General
José Luiz Pinto Ramalho

Na atualidade, três ordens de razões apontam para a alta probabilidade da Ucrânia iniciar uma ação ofensiva sobre a frente russa: a necessidade estratégica de contrariar uma visão de “frentes estabilizadas” e consolidação da ocupação territorial russa; as referências do Secretário Geral da OTAN e dos EUA, pela voz do General Mark Milley, de que o Ocidente já entregou mais de 90% do material necessário à Ucrânia, para esta nova fase da guerra; por último, mas não menos importante, a realização da Cimeira da OTAN, em Vilnius, em meados do próximo mês, onde será importante a apresentação de ações que materializem a conquista de território ocupado pela Rússia ou a concretização do objetivo estratégico declarado, de chegar ao Mar de Azov, quebrar a continuidade territorial e isolar a Península da Crimeia.

Para essa ação, a Ucrânia contabiliza uma Força Ofensiva constituída por doze Brigadas, mais seis Brigadas de Defesa Territorial, na ordem de 70 000 militares, dos quais cerca de 40 000 treinados em países europeus, no quadro dos acordos com os países da Aliança e da União Europeia, dispondo de nove Brigadas equipadas pelo Ocidente, com 300 Carros de Combate, cerca de 800 Viaturas Blindadas de Combate de Infantaria e da ordem de 150 Peças de Artilharia, na linha daquilo que tinham sido as solicitações do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas ucraniano, o General Zaluzhny.

Os eixos de esforço mais prováveis por parte da Ucrânia serão dirigidos na região de Zaporizhia, procurando atingir Melitopol, Berdyansk e Mariupol, quebrando a continuidade territorial russa e chegando ao Mar de Azov e, eventualmente também, na região de Kherson, eixo esse dirigido ao isolamento da Crimeia. Neste último caso, a existência da Barragem de Novakarkova, como ponto de passagem praticamente único, sobre o Rio Deniepre, pressupõe uma Operação de Forças Especiais para o seu controlo, antes ou simultânea com o desencadear da ofensiva.

Face a duas realidades bem concretas para a Ucrânia – a ausência de capacidade aérea para apoiar as ações terrestres ofensivas e o conhecimento da organização defensiva por parte da Rússia, com uma clara Zona de Segurança e várias Linhas Defensivas, apoiadas em campos de minas, obstáculos, “dentes de dragão” e fossos anti-carro, implica um aturado Estudo de Informações e do Terreno, por forma a identificar eventuais “Pontos Fracos” da defesa russa, de modo a evitar que as formações ucranianas sejam travadas, quer por obstáculos ou campos de minas e expostas a fogos de artilharia pré-planeados.

De uma forma algo surpreendente, fontes ocidentais têm desvalorizado a situação da falta da capacidade aérea ucraniana, referindo que essa circunstância não impediu “os êxitos de Kharkiv e Kherson” (?) e que, também, “a malha das defesas antiaéreas tem impedido que os meios aéreos operem com eficácia”. Como é sabido, a Ucrânia tem vindo a solicitar com insistência o fornecimento de aviões F-16 e de helicópteros Apache.

Por outro lado, será prudente não criar expectativas, baseadas nos acontecimentos de Kharkiv, onde as forças russas recusaram o combate e se deslocaram para posições mais recuadas, ou a situação verificada em Kherson, onde se assistiu a uma retirada das forças russas, sem pressão de combate por parte da Ucrânia, para a margem esquerda do Rio Deniepre. Será igualmente pouco prudente admitir e antecipar fragilidades operacionais russas, decorrentes de uma deficiente preparação militar, ou de falta de vontade para combater.

Importa ter presente que alguma pressão política e diplomática tem vindo a ser feita sobre a Ucrânia, não só pela proximidade da realização da Cimeira da OTAN, a ida da Zelensky à Cimeira e os desenvolvimentos futuros do seu relacionamento com a Aliança, mas também do lado Ocidental pela necessidade desejável de apresentar êxitos operacionais ucranianos, que justifiquem e motivem as opiniões públicas nacionais, dos dois lados do Atlântico a continuarem a apoiar a ajuda militar e todo o envolvimento financeiro que se tem materializado nos diversos domínios, à Ucrânia.

Será altamente inconveniente se a Ucrânia desencadear a ofensiva, tendo apenas motivações políticas, sem a perceção de que poderá conseguir efetivos êxitos militares, na linha dos objetivos estratégicos e operacionais, declarados para a ação ofensiva, que parece estar iminente, apoiada também em expectativas pouco fundamentadas. A não concretização dos mesmos, quer por falta de meios quer por deficiente planeamento ou expectativas irrealistas, podem comprometer a credibilidade militar da Ucrânia, correndo o risco de degradar o seu potencial militar, material e humano e poder colocar dúvidas, quer sobre o treino internacional, conferido às tropas, quer quanto à utilização, com eficácia, eficiência e rendimento visível, dos equipamentos ocidentais fornecidos.

O risco das ações ofensivas ucranianas serem detidas ou demoradas na Zona de Segurança, ou uma eventual quebra do ímpeto ofensivo, pode transformar a realidade dos combates em ações de desgaste e atrito, mais prejudiciais para a Ucrânia que ataca do que para a Rússia que defende, e que poderá executar e ampliar esse desgaste, com helicópteros de ataque e ações anticarro, através de uma defesa avançada flexível.

Quer do lado ucraniano quer do lado dos países do Ocidente Alargado, que apoiam o esforço de guerra por parte da Ucrânia, existe a convicção e o reconhecimento de que esta ofensiva, se obtiver sucesso, pode constituir uma viragem decisiva no resultado desta guerra e abrir a possibilidade para um cessar fogo, para de forma mais ampla, um processo negocial que conduza à Paz e, por consequência, à construção de uma nova arquitetura de segurança europeia, à definição do futuro da Ucrânia nesse quadro e ao papel a atribuir à Rússia, podendo mesmo confrontar-nos com o desenho de uma nova ordem internacional.

Contudo, só a realidade dos acontecimentos ditará o futuro com que iremos estar confrontados. Em termos estratégicos, podemos refletir sobre três cenários possíveis: o primeiro, é um cenário de sucesso, em que a Ucrânia quebra a continuidade territorial russa, ameaça a integridade da Península da Crimeia, provoca o caos no Kremlin e vai para a mesa de negociações em situação de clara vantagem política e militar; o segundo cenário aponta para êxitos limitados por parte da Ucrânia, que não altera de forma significativa a linha da frente e a extensão e continuidade da ocupação territorial russa, materializa um impasse e pode conduzir a um eventual abrandamento do apoio ocidental e ao “congelamento do conflito”, mesmo que apoiado por um, eventualmente precário, acordo de cessar fogo; o terceiro, mais desfavorável para a Ucrânia, consiste na situação de efetiva incapacidade da recuperação de território ocupado pela Rússia, de uma possível ação ofensiva por parte desta, face a uma degradação do potencial de combate ucraniano, o que poderia levar quer ao enfraquecimento, mais uma vez, do apoio ocidental e haver pressões no sentido de uma negociação da Ucrânia com Moscovo, para evitar uma situação política e militar, ainda menos desejável, com eventuais perdas territoriais e estabelecimento de uma situação política definitiva para a Península da Crimeia.

O resultado desta ofensiva é, assim, muito importante, designadamente se representar o sucesso para a Ucrânia. Ao invés, a guerra já dura há mais de quinze meses, o prolongamento do conflito traz consigo sempre o “sentimento de fadiga” das opiniões públicas europeias e americanas, designadamente se não existirem motivos, nomeadamente êxitos operacionais, para continuar a justificar o empenhamento que temos assistido até agora. Do lado americano tem prevalecido a fórmula do apoio, “for long as it takes”, contudo, estamos a caminhar para as eleições nos EUA, que poderão alterar esta situação, designadamente quando já hoje se assiste, do lado republicano, a uma atitude de resposta, expressa “but would be better if it does not take too long”.

Gerar artigo em pdf
2023-10-23
365-368
37
11
Avatar image

General

José Luiz Pinto Ramalho

Nasceu em Sintra, em 21 de Abril de 1947, e entrou na Academia Militar em 6 de Outubro de 1964. 

Em 17 de Dezembro de 2011, terminou o seu mandato de 3+2 anos como Chefe do Estado-Maior do Exército, passando à situação de Reserva.

Em 21 Abril de 2012 passou à situação de reforma.

Atualmente exerce as funções de Presidente da Direção da Revista Militar e de Presidente da Liga da Multissecular de Amizade Portugal-China.

REVISTA MILITAR @ 2024
by CMG Armando Dias Correia