Nº 2683/26784 - Agosto/Setembro 2025
Pessoa coletiva com estatuto de utilidade pública
Coronel Camilo Augusto Miranda Rebocho Vaz
Tenente-coronel
António Lopes Pires Nunes

Introdução

No final de 1998, quando apresentava o meu livro ‘Aspectos da actividade operacional – Angola, livro 1’ no edifício Coleginho, na Mouraria, que fora a sede da Direcção da Arma de Infantaria e era, então, a sede da CECA (Comissão para o Estudo das Campanhas de África), ocorreu algo que despertou a minha atenção: antes do início das comunicações usuais, entrou silenciosamente na sala alguém que se sentou na última fila e que ninguém reconheceu. Era uma figura magra, com um aspecto marcado pela doença ou pela idade, que se limitou a ouvir. Alguém da Mesa fixava-o mais atentamente e disse baixinho: “parece ser o coronel Rebocho Vaz”. Mas persistindo a dúvida, ninguém se lhe dirigiu, como seria natural, ao menos para confirmar a identidade daquele desconhecido.

Finda a sessão, ficou só na sala, o que muito me custou; aproximei-me dele e pude constatar, impressionado com o seu aspecto, ele que tinha sido uma figura de belo porte, que era, de facto, o coronel Rebocho Vaz – o militar que servira em Angola durante mais de cinco anos no RIL (Regimento de Infantaria de Luanda), durante cinco anos como Governador do Distrito do Úige e durante seis anos como Governador-Geral de Angola, depois Estado de Angola. Funções que desempenhou com brilhantismo e sobretudo com grande bom senso, o que o levou a conquistar os corações dos angolanos de todas as raças. Se é possível associar, naquela época (década de 60 e início da de 70 do século passado), Angola a alguma pessoa essa é, sem dúvida, o coronel Rebocho Vaz.

Entretanto deparei com um pequeno artigo, de um jornal regional, que foi publicado por ocasião do falecimento do coronel Rebocho Vaz.

«Li no Público, na véspera de Natal, uma minúscula notícia, que quase foi necessário usar uma lupa para ver de que se tratava. Eram apenas dez linhas de uma reduzida coluna onde se dizia que morrera aos 78 anos o antigo Governador-Geral de Angola, Rebocho Vaz; estava internado no Hospital da Universidade de Coimbra e ai se apagou. Tão ignorado, um homem que foi um dos governadores do maior império do espaço português.

(...).

Rebocho Vaz governou – e governou bem – um território que dependia administrativamente de Lisboa, mas era catorze vezes maior que Portugal Continental.

Era de supor que qualquer regime político que existisse após a descolonização reservasse àqueles que tiveram altos cargos um estatuto de excepção. Rebocho Vaz merecia ser distinguido com esse estatuto.

(...).»

In Jornal de Matosinhos 1-1-1999

Além do jornal Público, nenhum outro órgão de comunicação social produzira qualquer notícia sobre o falecimento do que fora o antepenúltimo Governador de Angola, notícia da qual fez eco o alferes miliciano Ranger João Barroso da Fonte.

Julgando ser de grande justiça divulgar, ainda que postumamente, o valor deste oficial de Infantaria, que foi o primeiro a comandar um batalhão em operações na Guerra de África (1961-1974), tomei para mim essa tarefa. Rebocho Vaz foi esquecido em vida, após 1972, ano em que cessou funções em Angola, e, após 1998, quando faleceu. Atrevo-me a dizer que se podia acrescentar a ele também o peso do desgosto desse esquecimento. Este pensamento levou-me a escrever o escrito que ora apresento, para recordar o militar que já referi em textos isolados, informações que pretendo reunir e complementar com outros elementos.

Camilo Augusto Miranda Rebocho Vaz nasceu em Avis, em 7 de Outubro de 1920, e faleceu em Coimbra, a 23 de Dezembro de 1998. Terminou os estudos liceais em Coimbra e fez na Universidade de Coimbra, à qual foi admitido em Outubro de 1940, os preparativos para ingressar na Escola do Exército, para cursar a Arma de Infantaria. Em 1942/43 seguiu para Mafra, a fim de fazer o tirocínio de Aspirante a oficial.

Em 1943, foi colocado como oficial do Quadro Permanente, no RI 10 em Aveiro, de onde foi mobilizado, esse ano, para os Açores, ficando a prestar serviço na ilha do Faial (BI 17 – Angra do Heroísmo).

Depois da Segunda Guerra Mundial regressou ao Continente, tendo sido colocado como tenente, no RI 12, em Coimbra e, depois, no BMet 2, na Figueira da Foz. Em 1950 foi mobilizado, como capitão, para Angola tendo prestando serviço no RIL. Em 1955, regressou a Portugal Continental e foi colocado na Figueira da Foz. Frequentou o curso de Oficial Superior em 1957/58. Esteve na República Federal Alemã em exercícios de Postos de Comando, após o que, como major, foi destacado para Lamego e Abrantes.

Em de Março de 1959, foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem de Avis.

Em 7 de Outubro de 1960, foi novamente mobilizado para Angola, para 2.º Comandante do RIL, onde iniciou uma curta mas notável carreira de militar. Em 3 de Janeiro de 1961, foi nomeado comandante do Batalhão Eventual de Malange, que partiu para apaziguar as sublevações na Baixa do Cassanje (Malange), pondo fim à rebelião dos trabalhadores da empresa Cotonang; em 16 de Fevereiro estava já restabelecida a normalidade na região. Em 30 de Março foi novamente nomeado para comandar outro Batalhão Eventual (BCaçEvent/RIL), que partiu para o Quanza Norte, como primeira resposta, a nível de batalhão, a um massacre generalizado. De notar que não lhe competia ser nomeado para comandar os Batalhões Eventuais e ainda assim nunca se lhe ouviu uma única palavra a esse respeito e, nessa altura, não foi louvado nem condecorado pelas missões, que cumpriu com brilhantismo. Como veremos, no que respeita às nomeações para Governador do Distrito do Uíge e para Governador-Geral de Angola, que foram feitos em nome de Salazar, começou por recusar e só as aceitou após uma grande insistência. Recebeu o reconhecimento oficial quando foi condecorado com a Ordem Militar de Cristo.

Em 17 de Maio de 1961, foi designado para o cargo de Governador do Distrito do Úige (na altura em que o Distrito do Congo foi dividido em Distrito do Zaire e Distrito de Úige), funções que assumiu a 15 de Junho de 1961 e desempenhou até 1966, durante as quais foi promovido, em 17 de Outubro de 1963, a tenente-coronel; Úige era um distrito muito difícil porque ali ocorrera, a 15 de Março de 1961, um generalizado massacre perpetrado pela UPA (União das Populações de Angola), que marcou o início de uma guerra que terminaria apenas em 1974.

Desde 1966 a 1971, foi Governador-Geral de Angola, em substituição do coronel do Estado-Maior Silvino Silvério Marques, iniciando as funções como tenente-coronel com promoção a coronel em 18 de Setembro de 1970, e desde 1971 a 1972 foi Governador-Geral do Estado de Angola. Terminou as funções de Governador-Geral do Estado de Angola em 1972 porquanto com a mudança do estatuto de Angola, de Província a Estado, as comissões de serviço passaram de quatro anos (Província) a dois anos (Estado).

Em 1971, foi condecorado com a Medalha Militar de Ouro de Serviços Distintos com Palma e em 25 de Março de 1971 com o grau de Comendador da Ordem de Avis.

Em Outubro de 1972, tomou as suas funções de Governador-Geral do Estado de Angola o Eng. Santos e Castro, personalidade igualmente com qualidades, obra feita e de um patriotismo inquestionável.

A 12 de Setembro, quando regressou a Lisboa, foi colocado no Ministério do Ultramar, como Inspector Superior da Administração Ultramarina (ISAU), e simultaneamente foi-lhe dado o lugar de Administrador, por parte do Estado, na Empresa Diamang (Diamantes de Angola). Declinou a frequência do Curso de Altos Comandos em 1973/74 por motivos pessoais e passou à Reserva, que lhe foi concedida antes de 25 de Abril de 1974.

Em 25 de Outubro de 1972, foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Cristo (“A Ordem Militar de Cristo destina-se a distinguir destacados serviços ao País, no exercício das funções de soberania”).

Figura 1 – Major Rebocho Vaz.

 

O facto de ter desempenhado, por escolha e com brilhantismo, quatro missões em altas funções militares e civis, durante 12 anos, sem condecorações, não parece natural. Apenas quando terminou a última comissão, elas apareceram em catadupa e isso denota, quanto a mim, um sentimento de inveja que perduraria por muito tempo. Quando estive em Angola, em 1966, no RArtL, falava-se que o general do Estado-Maior, Comandante da Região Militar de Angola, Barreira Antunes, que estava a fazer um bom comando, esperava ser nomeado para Governador-Geral de Angola e acabou por ver um ‘simples’ tenente-coronel de Infantaria ser o escolhido de Salazar. O general Barreira Antunes nunca escondeu a frustração e houve até quem, porventura influenciado por ele, brincando com as palavas, explicasse a nomeação de Rebocho Vaz por ser um “Rebaixa a Voz” (corruptela de “Rebocho Vaz”. Rebocho Vaz era, de facto, uma pessoa de trato dócil e até isso servia para o atacar), mas as críticas passaram e Rebocho Vaz ficou; Marcelo Caetano voltou a confiar nele e nomeou-o para Governador-Geral do Estado de Angola.

Na década de 80 do século passado, residiu em Coimbra e foi nomeado vogal administrativo da Comissão Instaladora da ARS distrital. No entanto, passados alguns meses recebeu um telex do Ministério para comparecer em Lisboa, onde o Chefe de Gabinete o informou, em nome do Ministro Maldonado Gonelha, que não podia continuar em funções “por não ser membro do Partido Socialista nem de outro partido da coligação governamental”.

Foi autor e editor do livro ‘Norte de Angola – 1961, a verdade e os mitos’ (Coimbra 1993).

 

Comandante do Batalhão Eventual de Malange

A Guerra em Angola iniciou-se com o massacre de 15 de Março de 1961, perpetrado pela UPA; porém, esse acontecimento foi precedido por uma grave sublevação na Baixa do Cassange, a leste de Malange, iniciada a 11 de Janeiro, de motivação laboral, numa área de cultivo de algodão em regime de monocultura. A revolta teve a sua génese na resposta às condições miseráveis que a empresa Cotonang impunha aos seus trabalhadores e foi incentivada pelo PSA (Partido Solidário Africano), partido congolês com influência transfronteiriça, de um Congo ex-belga em efervescência pela recente independência. A Cotonang era uma empresa de capitais belgas e portugueses, que obtivera do Governo Português uma concessão e que, por isso, detinha o monopólio do cultivo do algodão na região. Durante anos exerceu abusos sobre as populações da área1, alimentados pela corrupção de alguns administradores e autoridades administrativas que sistematicamente fechavam os olhos às denúncias desses abusos. Foi uma revolta violenta, facilmente induzida numa região onde a feitiçaria era prática corrente e pode dizer-se que tinha motivações justas, sem ter tido a interferência de qualquer partido independentista. As FAP (Forças Armadas Portuguesas), fazendo fogo em campanha pela primeira vez desde a Grande Guerra, detiveram a revolta em cerca de 40 dias, com baixas limitadas face aos acontecimentos.

Como a situação se agravasse com a recusa das populações em trabalhar nas plantações de algodão, que inclusivamente começam a ameaçar as autoridades e a pegar em armas, gentílicas2 e caçadeiras, crescia o temor do alastrar da revolta. Para norte, a agitação podia alastrar-se ao Norte do Distrito do Congo e para sul ameaçava a área principal da empresa Diamang.

Quando ocorreu a revolta na Baixa do Cassange – vasta região entre Malange e o Congo, que se estende para norte e sul, numa área semelhante a duas vezes a de Portugal Continental – estavam em Angola a 1.ª CCE (em Cabinda, comandada pelo capitão, depois general, Soares Carneiro, que desen-
volveu de forma notável a acção psicossocial, proclamando a famosa frase: “se não os tratarmos como irmãos, teremos um dia de lhes chamar camaradas”3), a 2.ª CCE (no Toto, comandada pelo capitão Seia Ramos) e a 3.ª CCE (em Malange, comandada pelo capitão Teles Grilo). Nessa altura estava a chegar a Luanda a 4.ª CCE (comandada pelo capitão Teixeira Morais) e a 5.ª CCE (que se instalou na fazenda Tentativa, perto de Luanda. comandada pelo capitão Rui Mendonça).

Uma vez que a 3.ª CCE se desdobrava já em acções de pacificação naquela vasta área e necessitava de ser reforçada, o Comandante da Região Militar de Angola (general Libório) concebeu a ‘Operação Cassange’ que seria levada a efeito mediante a constituição de um batalhão eventual, de comando reduzido e organizado no RIL, que teria como comandante o, então, major Camilo Rebocho Vaz. O Batalhão Eventual, instalado em Malange, era constituído pelas 3.ª e 4.ª CCE, prevendo-se o reforço, se necessário, da 5.ª CCE4.

O período de cinco anos em que estivera em Angola (1950-1955) ajudou muito Rebocho Vaz, pois o seu espírito de explorador levara-o várias vezes ao Interior e fascinava-o o contacto com as populações.

Foi na Operação Cassange que o Major Rebocho Vaz começou a revelar as suas qualidades5: o conhecimento profundo das populações de Angola e a sua preparação militar aliada ao sangue frio para lidar com uma imprevista revolta. Rebocho Vaz chegou a Malange por via aérea e começou, em 3 de Fevereiro, por estudar as verdadeiras causas da revolta. A 4.ª CCE partiu de Luanda, em via-férrea a 4 de Fevereiro, no dia em que a 7.ª Esquadra da PSP de Luanda foi assaltada e esteve, por esse motivo, prestes a não ir para Malange.

Tendo a 3.ª e a 4.ª CCE ao seu dispor, Rebocho Vaz estudou a personalidade dos dois capitães e julgou ser o capitão Teixeira de Morais o mais ponderado, tendo, por isso, atribuído a missão principal à 4.ª CCE, enquanto a 3.ª CCE do capitão Teles Grilo ficou de reserva, a garantir a defesa da cidade de Malange e a patrulhar parte da área afectada. De facto, esta escolha foi fundamental, pois a situação era muito sensível e exigia ser abordada de forma calma e pacífica.

Era a primeira vez que as tropas portuguesas entravam em actividade operacional em Angola, pelo que Rebocho Vaz insistiu muito nos cuidados a adoptar, escrevendo na sua Ordem de Operações que “(...) em qualquer acção contra os nativos, com vista ao desarmamento e dispersão dos grupos, se deverá recorrer sucessivamente pela ordem indicada e com os meios seguintes:

– Meios dissuasórios, com avisos em língua local.

– Arma de fogo com disparos para o ar.

– Uso de granadas de mão ofensivas.

– Arma de fogo com o propósito de causar baixas.

– Impor a ordem a qualquer custo, sem qualquer reserva

(...)”

E assim se procedeu escrupulosamente (a 4.ª CCE levou um intérprete). Só se chegou à última destas instruções quando ”nuvens de amotinados cercaram as viaturas das tropas portuguesas desafiando-as a disparar, pois ‘Maria’ lhes havia dito que as balas de branco não matam“ (relatório militar da 4.ª CCE) e a 4.ª CCE teve necessidade de abrir fogo em autodefesa contra as centenas de nativos armados, que as cercaram imprevistamente ao observar que as tropas portuguesas não disparavam6. As operações na Baixa do Cassange duraram cerca de 40 dias ficando a área apaziguada até 1974, uma vez que não se tratava de uma revolta inserida no pan-africanismo mas antes contra uma injustiça que levara os nativos à fome. A acção das companhias ficou minuciosamente registada nos relatórios militares pelo que me limito à personalidade e acção do major Rebocho Vaz, que ali ganhou prestígio que chegou ao conhecimento das mais altas instâncias.

Em relatório de 11 de Fevereiro de 1961, o comandante do BatEvent, major Rebocho Vaz, já completamente informado sobre as verdadeiras causas que estavam na génese da sublevação, expôs a situação à 2ª Rep/QG. Corroborou tudo o que escrevera em relatórios anteriores (in ‘Angola 1961 – da Baixa do Cassange a Nabuangongo’, ed. Prefácio, 2005) e terminou escrevendo que se lhe afigurava que a Operação Cassange, em curso, seria de efeito efémero se não fosse acompanhada de uma acção eficaz de protecção aos nativos e era de exigir à Cotonang, no mínimo, o cumprimento do que se encontrava legislado sobre o algodão (relatório secreto de 11 de Fevereiro de 1961). Rebocho Vaz defendia ainda que o preço do algodão aos agricultores devia ser aumentado, explicando que a Cotonang lhes pagava apenas 3$50 pelo algodão de primeira categoria e 2$50 pelo de segunda e que depois o vendia na Metrópole por 18$00, pelo que entendia que havia margem para o aumento. Propôs, e foi apoiado pelas autoridades militares de Angola (ComRMA e Governador-Geral de Angola), que a cultura do algodão deveria ser voluntária. As condições da cultura foram melhoradas de modo a atrair voluntários, incluindo essas melhorias a substituição da captagem manual dos insectos pela desinsectação mecânica.

O relatório foi enviado ao Governo-Geral, ao Secretariado-Geral de Defesa Nacional (SGDN), ao Estado-Maior do Exército (EME) e à Repartição do Gabinete do Ministro do Exército, entidades que sobre ele se debruçaram e que com ele concordaram. A todas as entidades foi também enviado um auto de queixas apresentado pelos sobas principais e pelos sobetas, no qual se lamentavam pelo facto de terem decorrido quatro anos desde que ali estivera um branco a ouvi-los (presume-se que tivesse sido um inspector administrativo) e não só nada tinha sido feito como se iniciaram represálias contra eles, de forma ainda mais violenta; pediam a substituição de algumas autoridades administrativas e do agente da Cotonang e também referiam que os homens do Congo só tinham sido bem aceites porque viram na sua doutrina uma esperança de justiça e de salvação que punha termo à escravatura a que estavam submetidos (auto elaborado pela 4.ª CCE, em 25 de Fevereiro).

O facto de as queixas dos sobas terem sido registadas num auto parece ter sido uma forma respeitosa, mas acintosa, de fazer com que, depois da sublevação, tudo fosse diferente e mostra que os nativos tinham uma grande confiança na tropa. O Governo-Geral, em face do que lhe era exposto, concordou com tudo, nomeadamente com a substituição de algumas autoridades administrativas, e enviou para a Baixa do Cassange várias toneladas de alimentos.

Rebocho Vaz conseguiu com as suas propostas uma alteração profunda nas condições da cultura do algodão e uma paz duradoura em toda a Baixa do Cassange. No final da pacificação da sublevação – repito, de cariz laboral – o Batalhão Eventual foi dissolvido e Rebocho Vaz voltou ao RIL.

A ‘Operação Cassange’ levou a toda a espécie de acusações às Tropas Portuguesas, nomeadamente quanto ao número de mortos7.

As populações de Malange nunca se esqueceram do desempenho do Batalhão Eventual nem do seu comandante, Em homenagem a Rebocho Vaz, foi dado o seu nome a uma das principais praças da cidade, no centro da qual foi colocado o seu busto.

Com alguma sorte cheguei à fala com um ex-funcionário da COTONANG, infelizmente já falecido, o Sr. José Mendes Martins, que à época dos acontecimentos trabalhava como chefe dos capatazes, nos campos de algodão onde decorreram os distúrbios. Confirmou-me que todo se passou com o aqui descrevi e reiterou a culpa clara da COTONANG, onde a corrupção permitiu, durante muitos anos, abusos sobre os trabalhadores nativos do algodão. Recordou ainda que foi dado o nome do capitão Mendonça, o comandante da 3.ª CCE, a uma rua de Malange.

 

Comandante do Batalhão Eventual do Cuanza Norte

Pacificada a Baixa do Cassange, Angola entrou na normalidade até 15 de Março de 1961, data em que a UPA, dirigida por Holden Roberto, perpetrou por todo o Norte de Angola um generalizado massacre. A UPA incendiou povoações, cortou picadas (caminhos rudimentares), destruiu pontes, inutilizou plantações e matou barbaramente cerca de um milhar de pessoas de todas as etnias, credos e idades. Esta sangrenta revolta iniciou-se em poucas localidades, nomeadamente no Quitexe, mas rapidamente se alastrou pelo Norte de Angola, a norte do paralelo de Luanda.

Os angolanos não julgavam possível que tal viesse a suceder, tão pouco o major Rebocho Vaz, que se encontrava no RIL, onde desempenhava as funções normais de um oficial superior, enquanto a área insubordinada começava a aproximar-se perigosamente de Luanda. Perante a exiguidade de tropas para acorrer a tão vasta área, o Comando Militar de Angola determinou a organização de um novo Batalhão Eventual constituído também por pessoal do RIL e uma vez mais sob o Comando do major Rebocho Vaz. O Comando desse Batalhão seria o mesmo do da Baixa do Cassange, com o reforço, julgado conveniente, da 6.ª CCE (capitão Leandro) prevendo-se que mais tarde se lhe juntaria a 5.ª CCE e a 7.ª CCE (capitão Castelo da Silva), que estava a chegar a Angola.

Rebocho Vaz recebeu a Ordem de Operações n.º 2, com o Batalhão eventual na sua máxima força operacional (com as 5.ª, 6.ª e 7.ª CCE). Rebocho Vaz seguiria com as 6.ª e 7.ª CCE ao encontro da 5.ª CCE pelos itinerários indicados no mapa seguinte e a partir deles irradiar para as povoações limítrofes, procurando elementos da UPA e neutralizá-los8.

Foi já dito que Rebocho Vaz visitara frequentemente o interior do Norte de Angola e por isso conhecia razoavelmente bem as áreas que tinham sido afectadas, mas comandar um batalhão com três companhias naquela área era para ele de uma enorme responsabilidade, tanto mais que quando por lá andara deslocava-se de avião, não pelo perigo mas pelo piso impróprio para viaturas civis, e desta vez via-se pela primeira vez à frente de uma coluna auto: “...à nossa passagem pelas picadas o capim, de um lado e do outro, raspava pelos carros adentro. Os soldados e sargentos precariamente protegidos eram um alvo fácil; havia que ir sempre de armas apontadas”. No entanto, deve dizer-se que em geral os amotinados ainda mostravam algum respeito às tropas e, por norma, não as atacavam. Entretanto, seguindo os itinerários, o Comando do Batalhão, a 6.ª e a 7.ª CCE atingiram, no final da 3.ª fase das operações, a povoação de Quitexe, próximo a Carmona.

No dia 30 de Março, o Batalhão recebeu ordem do Quartel-General para avançar imediatamente para Caxito (4.ª fase das operações), porque urgia progredir sobre Nambuangongo, avanço que deveria executar-se com o Batalhão completo (5.ª fase das operações). A operação era faseada, exigia uma grande coordenação das forças, que se iam dispersando, e culminaria com um ataque frontal, a partir do Caxito, sobre Nambuangongo, que era considerado o santuário dos terroristas. Era muito difícil a missão que o major Rebocho Vaz ia realizar9; era a primeira vez que uma força organizada ia atravessar áreas verdadeiramente afectadas pela subversão e desconhecia-se totalmente o que podia enfrentar a cada momento. Além disso, o Comando do BatEvent não podia contar imediatamente com toda a 7.ª CCE porque ainda não desembarcara na totalidade e as 6ª e 7ª CCE não tinham qualquer experiência (alguma teoria sabiam sobre a Guerra Subversiva, pois haviam tirado o curso de Caçadores Especiais em Lamego).

A 5.ª CCE aguardava pelo resto do Batalhão na sua base, no Caxito mas, entretanto, em 18 de Março, foi a Nambuangongo e colheu preciosas mas perturbadoras informações sobre aquela mítica povoação, que se encontrava totalmente destruída com excepção da enfermaria e da casa do enfermeiro. A partir do Caxito, a 5.ª CCE patrulhava toda área até Úcua, vigiava a barragem de Mabubas, fazia operações de limpeza nas picadas e exercia uma notável actividade de acção psicológica nos arredores da sua sede (fazenda Tentativa). Muito contribuiu para estabilizar a região, grande produtora de açúcar, e tranquilizar a população de Luanda, que se localizava a apenas 60 km.

Por uma série de circunstâncias só foi possível executar a 5.ª fase no dia 4 de Abril, devido a uma ocorrência imprevista: um civil de Cólua (povoação próxima Quitexe), que por um mero acaso escapara ao massacre de 15 de Março, por se ter deslocado nesse dia a Carmona a negócios, e que tinha sobrevoado a sua pequena povoação, situada a NW de Vila Viçosa, dava notícia de que nas ruas e nas varandas das casas havia muitos mortos. Pedia protecção para voltar e enterrar as vítimas, entre as quais reconheceu a sua mulher (ver ‘Angola 1961 – Da Baixa do Cassange a Nambuangongo’).

Rebocho Vaz acedeu ao pedido e resolveu ir a Cólua antes de partir para Caxito e verificar o que se passava. As viaturas, incluindo aquela onde seguia Rebocho Vaz, sofreram uma emboscada, que foi feita com as armas capturadas a uma primeira secção que enviara e que foi chacinada, tendo sofrido quatro mortos e desaparecidos10.

O major Rebocho Vaz, que já tinha assistido a muitos horrores, ficou inesperadamente a viver um dos momentos mais violentos da sua vida, que o tocou directamente: Com o risco da própria vida, ficou a enterrar os cadáveres de cerca de 30 homens mulheres e crianças, brutalmente esquartejados dias antes e ter de transportar para a morgue de Carmona um capitão, um tenente, dois praças e um cipaio administrativo, sabendo anda que outros seis militares tinham desaparecido e haviam sido também selvaticamente assassinados11.

Figura 2 – Zona de acção do BCEvent do Cuanza.

 

O massacre de Cólua, apesar do seu horror, permitiu retirar algumas ilações: os sublevados haviam perdido o respeito às forças militares e havia a ideia de que se inicialmente tinham apenas armas gentílicas e outras que haviam roubado, em geral caçadeiras, tinham a partir daquele momento armas de guerra. Com as armas capturadas aos militares passavam a ter um poder de fogo assinalável, capaz de surpreender qualquer força armada pequena e descuidada. Os militares tiveram a noção de que o terrorismo ia passar à guerrilha, lenta mas seguramente. O massacre de Cólua, com a morte do capitão Castelo da Silva e do tenente Joffre dos Prazeres, marcou verdadeiramente o início da Guerra do Ultramar. O terrorismo passara rapidamente à fase de guerrilha e a partir desse momento começaram as preocupações da Metrópole12.

Depois da primeira vez que escrevi sobre o desastre de Cólua, um familiar do capitão Castelo da Silva enviou-me uma fotografia, que sempre publico em homenagem a todas as vítimas do desastre.

Figura 3 – Castelo da Silva com alguns familiares.

 

A partir desse acontecimento, a Metrópole finalmente acordou da sua letargia: Salazar, que descurara todos os avisos e nem reagira aos massacres, demitiu o Ministro do Exército, assumiu o Ministério da Defesa e proclamou à Nação que o fazia em nome de Angola, dando a entender que os Ministros (do Exército e Ultramar) não estavam atentos, quando eram eles que viam os seus pedidos de tropas recusados, recusa sempre justificada por “motivos orçamentais” e de ”imagem externa”. Tal manobra constitui uma das maiores mistificações sobre o início da Guerra13.

Se, na devida altura, fosse montada uma quadrícula no Norte de Angola, com um ou dois batalhões, os massacres nunca teriam corrido. A culpa foi de Salazar e apenas dele; e se foi possível a Rebocho Vaz acorrer com competência aos locais mais perigosos, tal se deve ao que o Ministro do Exército, Almeida Fernandes, fizera dentro das suas possibilidades, nomeadamente a fundação do Quartel de Caçadores Especiais em Lamego. A rapidez do embarque de tropas que ocorreu após o célebre “para Angola, rapidamente e em força” ficou a dever-se ao facto de o EME ter já tudo preparado, nomeadamente a difícil mobilização, e a pequena presença da Força Aérea em Angola deveu-se ao general Kaúlza de Arriaga. As CCE de que dispôs o Batalhão Eventual não apareceram em Angola por acaso.

Verificando o Quartel-General que a situação era muito grave, suspendeu a 5.ª fase das operações e decidiu esperar por mais tropas; o Batalhão Eventual foi dissolvido e Rebocho Vaz regressou ao RIL. De facto, a 5.ª fase foi executada uns meses mais tarde com dois Batalhões e uma companhia de Cavalaria.

Talvez porque o regime não tenha dado demasiada importância ao que acontecera no Norte de Angola, Rebocho Vaz não tenha sido condecorado: condecorar Rebocho Vaz seria admitir a gravidade de tudo o que se passara. Rebocho Vaz foi herói e vítima do seu Valor!

 

Governador do Distrito do Uige

Nas operações militares descritas, Rebocho Vaz alcançou grande prestígio por ter sido pioneiro na Guerra de África (1961-1974) e ter mostrado sempre valor, bom senso e um patriotismo inultrapassável. Era também muito apreciado no RIL e preparava-se para uma vida militar; ser militar era para ele uma honra e o desempenho operacional fora apenas o cumprimento do Dever. Rebocho Vaz a mais não ambicionava e, pela sua simplicidade, talvez nem tivesse consciência da sua valia e nem de como era apreciado em Luanda e em Lisboa, onde o haviam sinalizado no melhor sentido.

Sendo major, foi imprevistamente designado pelo Comando Militar de Angola para se deslocar a Henrique de Carvalho (no distrito de Lunda, que era governado por um tenente-coronel), para resolver um problema de ingerência sistemática do Governador no comando militar, que estava a deteriorar as relações entre eles. Com a sua reconhecida calma conseguiu fazer prevalecer a ideia de que tal não podia suceder e que o Governador, qualquer que fosse a sua patente, só podia “requisitar” serviços ao comandante militar local em caso de emergência e apenas se tivessem incidência militar, prática que afinal estava já determinada no regulamento mas que o Governador de Henrique de Carvalho não seguia.

A missão foi o prelúdio de uma senda distinta. De facto, em 1 de Maio de 1961, foi chamado pela terceira vez pelo Comandante do RIL, que lhe comunicou que recebera ordem para se apresentar com urgência no gabinete do general Monteiro Libório, o Comandante da Região Militar de Angola. Pensou de imediato que poderia ser para lhe dar de novo o comando de um terceiro Batalhão Eventual, mas também que atribuir essa tarefa pela terceira vez à mesma pessoa seria exagerado, tanto mais que ele era o major mais antigo, mas mentalizou-se para cumprir sem reclamar. Na presença do general Libório desfez todas as dúvidas: o general comunicou-lhe que estava a cumprir um pedido do Ministro do Ultramar, Prof. Dr. Adriano Moreira, e que, em seu nome, lhe endereçava o convite e pedido para aceitar o cargo de Governador do recém-criado Distrito do Uíge.

Pela primeira vez na vida pensou recusar uma missão, mas recusar um convite de Adriano Moreira (Adriano Moreira, que chegava a despachar em pleno mato, era conhecido em Angola por “nosso ministro”), que mostrava confiança nele, a seu ver, seria uma traição a Angola, e numa altura em que o próprio ministro se arriscava nas zonas martirizadas. Rebocho Vaz pensou no assunto e mais tarde, na presença do próprio Ministro, voltou a recusar. “É a pessoa indicada para o cargo e tem qualidades para o exercer com distinção”, disse-lhe Adriano Moreira; Rebocho Vaz ainda tentou ‘fugir’ dizendo que não podia aceitar, pois em 1953 e 1954 tinha sido sócio de uma empresa de café em Nova Caipemba, no Distrito que ia governar, e isso parecia-lhe impeditivo. Adriano Moreira estava já preparado para essa argumentação e respondeu-lhe que não havia qualquer problema porque nunca tinha feito parte dos Corpos Gerentes. Rebocho Vaz não teve coragem para manter a recusa e acabou por aceitar ciente das dificuldades que o esperavam.

De uma coisa Rebocho Vaz estava certo: com ele não haveria problemas como aquele que tinha ido resolver a Henrique de Carvalho, tanto mais que o Comandante do BC 3 (Carmona), o major Fernando Godofredo da Costa Freitas, que fora nomeado na mesma altura, era do seu curso. Por coincidência viajavam no mesmo avião e o major Freitas ia também apreensivo com os acontecimentos que haviam ocorrido: a própria cidade de Carmona fora cercada e atacada. Logo estabeleceram que entre eles haveria sempre uma grande colaboração e, de facto, sempre assim foi.

Dois desafios tinham de enfrentar desde logo: o mal-estar dos portugueses afectados para com as autoridades, pela demora em acorrer às regiões massacradas, e a iminente chegada das unidades militares que logo seriam enviadas para o Distrito do Uíge14. A economia local estava a definhar, pois não se estavam a realizar os tradicionais mercados. Com a experiência que tinha, Rebocho Vaz sabia que esse era o principal problema a enfrentar e para isso era necessário conquistar a confiança dos nativos que se haviam ocultado nas matas para fugir aos massacres.

O novo Governador do Uíge e o novo Comandante Militar foram recebidos no aeroporto, pela população, com grande entusiasmo e confiança no futuro.

A responsabilidade do major Rebocho Vaz não se augurava nada fácil. Para recuperar a confiança dos nativos e poder colocar a economia da região em marcha organizou uma acção psicológica profícua no Distrito, em colaboração com o BC 3 e das unidades recém-chegadas. As populações que haviam sido massacradas e viram os seus bens destruídos necessitavam de medidas de apoio urgentes e contavam, como é óbvio, com o Governador, que nunca as regateou.

Acresce que, logo que Rebocho Vaz entrou em funções, deparou-se com o acidente de um avião bombardeiro PV 2, que emocionou as gentes de Angola: o avião dava apoio à coluna militar que avançava em direcção a Quimbele e desapareceu no seu Distrito, numa zona desconhecida e desabitada, facto que muito o sensibilizou15.

O major Rebocho Vaz exerceu com grande determinação as funções inerentes ao cargo e para tal percorreu, por terra e ar todo o território do Distrito, sempre acompanhado pelos responsáveis dos serviços pertinentes, todos eles também de elevada categoria, a quem dava as ordens necessárias para prover as necessidades encontradas. Inspirava o seu modo de actuar no Ministro do Ultramar, Prof. Dr. Adriano Moreira, que também não abandonava a área e, como se disse, tomava medidas legislativas em plena mata.

Os refugiados da mata iam-se apresentando pouco-a-pouco, geralmente famílias inteiras que, na sua perspectiva e com grande risco, tomavam a iniciativa de voltar a confiar nas autoridades portuguesas e logo eram apoiadas pela Sr.ª Nelly, esposa do seu secretário pessoal.

Desde já importa referir o apoio incondicional que deu à criação do “Ninho dos Pequeninos”, que foi uma obra social idealizada pela Sr.ª Nelly para dar apoio a crianças deslocadas ou regressadas das matas; teve sede própria e acolheu algumas dezenas de crianças. Por falar fluentemente francês e inglês, fazia também de elo com os jornalistas estrangeiros que visitavam Carmona, para se inteirarem dos acontecimentos ocorridos e de como o Governo estava a reagir para normalizar a situação. Depois de esclarecerem quais eram os reais responsáveis pelos massacres, em geral voltavam às matas e convenciam outros a apresentarem-se.

Era uma época muito sensível e a desconfiança permanecia, de tal modo que por iniciativa de Rebocho Vaz, uma coluna militar que ele próprio integrou, deslocou-se à Serra do Uíge para contactar e convencer, pensava ele, 300 nativos e, numa outra ocasião, voltaram por sua interferência mais 1500.

A grande surpresa estava para acontecer. Certamente fruto da acção do Governo-Geral e de Rebocho Vaz, o líder da NTÒ BAKO16, Angelino Alberto, aceitou, sempre acompanhado por militares ou administradores, ir falar às populações fugidas e incentivava-as a voltar à vida normal. Certo dia, os refugiados da mata chegaram às centenas, cantando cânticos autóctones, com os seus haveres, transportando sacos de café e mandioca, que haviam colhido na sua área de refúgio. Abriram-se os primeiros mercados e com o dinheiro que realizaram, os refugiados compraram panos e bens alimentares. Tudo estava a correr como o previsto, mas mais lentamente que o desejado17. Em alguns dias, por todo o Distrito do Uíge apresentaram-se cerca de 300.000 (trezentos mil) nativos, com aspecto de famintos e transportando também sacos de café. Foi possível reabrir os mercados tradicionais por todo o Distrito do Uíge e dinamizar a sua economia que, passado pouco tempo, prosperava com confiança no futuro de Angola. A consequência deste êxito foi a recuperação de toda a colheita de café, na área dos massacres. Com a apresentação generalizada das populações tornou-se segura a estrada Carmona-Negaje-Puri-Caiongo-Cangola-Malange, o que levou muitas pessoas a viajar com segurança nos dois sentidos e faziam-no frequência para usufruir da lindíssima paisagem das Quedas do Duque de Bragança. Para a defesa das fazendas e algumas estradas, foi criado o Corpo de Voluntários18, com o qual o Governo do Distrito do Uíge estabelecia ligações frequentes.

Rebocho Vaz fez construir, e acompanhou de perto a construção de diversos novos aldeamentos para os nativos, com condições nunca antes vistas e dotados de escolas, postos sanitários, fontenários, chuveiros, sanitários, edifícios-sede da regedoria, casas para o regedor e monitores escolares, capela e nesses aldeamentos planeava-se ainda um campo desportivo. Foi criado o movimento ÁFRIS, dirigido por um sacerdote, para dar apoio aos jovens enquanto os aldeamentos estavam em construção. O jovem Marcelo Rebelo de Sousa, ainda estudante, visitou o Ultramar e pode comprovar, juntamente com o seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa e o Ministro das Cooperações, as condições desses novos aldeamentos. Os apresentados passaram a usufruir de tais condições que até alguns dos verdadeiros terroristas fugiram ao controlo de outros e apresentaram-se para delas usufruir.

Rebocho Vaz esteve cinco anos como Governador do Distrito do Uíge e a sua imprevista partida para uma nova missão foi revestida de grande emoção: deixou obra para todos e todos o adoravam. Chorava-se pela sua partida!

 

Governador-Geral de Angola

A imprevista saída de Rebocho Vaz do cargo de Governador do Distrito do Uíge foi uma surpresa e um desgosto para as populações de Carmona. Explicou-nos o próprio Rebocho Vaz, no livro «Norte de Angola – 1951. A verdade e os mitos»: “Estava eu ‘posto em sossego’ em Carmona, acompanhando com interesse e entusiasmo a realização dos últimos mercados de café, quando recebi da repartição do Governador-Geral uma mensagem indicando-me que três dias depois devia estar presente em Luanda, às tantas da manhã, para me apresentar e falar com o Sr. Ministro do Ultramar, Prof. Dr. Silva Cunha, que seguia para Moçambique em visita oficial”.

Chegado de Lisboa nessa manhã, o Ministro dirigiu-se a Rebocho Vaz, chamou-o à parte e, sem grandes demoras, disse-lhe de chofre que em nome do Sr. Presidente do Conselho, Prof. Dr. Oliveira Salazar, o convidava a aceitar as funções de Governador-Geral de Angola19. Ficou siderado porque a sua ideia era terminar as funções em Carmona e regressar ao RIL. Sem qualquer previsão, ser promovido à primeira figura de Angola deixou-o sem fôlego; pediu para dar a resposta no dia seguinte, para comunicar à sua esposa que ficara em Carmona, mas percebeu imediatamente que não tinha como recusar. Após a conversa com o Ministro, voltaram à sala onde estavam as restantes entidades e ao encará-las pareceu-lhe ler nas suas mentes a surpresa: “O quê? Um tenente-coronel para Governador-Geral de Angola? E de Infantaria?”. Ele próprio esteve atordoado durante alguns dias e se leu as mentes, bem as leu, porque era isso mesmo o que alguns diziam. Desde major, de escolha em escolha, eis Rebocho Vaz a alcançar o mais importante cargo de Angola.

Figura 4 – Rebocho Vaz acompanhando o Ministro do Ultramar, Prof. Dr. Silva Cunha, numa visita à cidade de Malange.

 

Mas os primeiros passos no cargo não foram muito felizes: no dia de Natal de 1966, Savimbi, que naquela altura não se sabia muito bem quem era, reuniu umas centenas de velhos e crianças, armou-os com armas rudimentares e lançou-os contra a povoação de Teixeira de Sousa. Mataram um civil, e, depois, atacaram o Quartel Militar da cidade que, estando obviamente bem armado, dizimou os atacantes. Assim nascia e morria, pelo menos temporariamente, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola). Rebocho Vaz e Savimbi haveriam de ter contactos mais tarde, como veremos. Como era seu timbre, apesar de ser Dia de Natal, Rebocho Vaz fretou um avião e convidou algumas entidades civis e militares a deslocarem-se à vila atacada para perceberem melhor o que se passara e se inteirarem das consequências do ataque.

O seu mandato foi totalmente dedicado à população. Angola entrou num período de transformação e progresso. Aludo a dois livros que foram editados pela Imprensa Nacional de Angola, «Dois anos de Governo. Discursos do Governador-Geral, tenente-coronel Rebocho Vaz-1966/1968» e «Dois anos de Governo. Discursos do Governador-Geral, tenente-coronel Rebocho Vaz – 1969/1970». São discursos muito assertivos face aos acontecimentos, sempre patrióticos mas muito curtos em que a palavra reflecte bem a simplicidade do Homem. As centenas de discursos falam de inaugurações, mensagens e comunicações às autoridades do território. Vivem a doença de Salazar e a tomada de posse do Presidente do Conselho, Prof. Dr. Marcelo Caetano, com discursos alusivos inseridos nos livros.

Em 11 de Novembro de 1968, regressado da Metrópole, disse à chegada a Luanda: “sinto-me na obrigação de vincar por forma clara, quanto foi agradável ao meu coração e ao meu espírito ouvir todos os altos responsáveis, com quem contactei, a unanimidade de opiniões com vista a que se reforce cada vez mais a luta contra a subversão no Ultramar”. Foi um discurso revelador de quanto Rebocho Vaz estava empenhado também no esforço de guerra.

Em 22 de Novembro de 1968, foi homenageado pela população de Angola, pelos seus dois primeiros anos de mandato. Nos dois anos seguintes continuou a trabalhar da mesma forma e terminada a sua comissão de serviço, em 1970, foi chamado de novo à presença do Presidente do Conselho, o Prof. Dr. Marcelo Caetano, que lhe renovou o mandato por mais dois anos (a duração do Governo-Geral passou a ser de dois anos, como disse). Foi nesses dois anos que o trabalho de Rebocho Vaz foi absolutamente formidável, fazendo dupla com o general Bethencourt Rodrigues, ao lado do general Costa Gomes.

 

Governador-Geral do Estado de Angola

No final dos anos 60 do séc. XX, a situação militar em Angola era muito crítica. Savimbi havia criado um verdadeiro partido de guerra, a referida UNITA que, com o seu chefe, Jonas Savimbi, se instalara no interior do Leste.

O MPLA atingira a força máxima e a partir da Zâmbia punha em perigo todo o Sul, aproximava-se do Bié e do planalto do Huambo (Nova Lisboa) pelas rotas dos rios Cuando e do Luena (Rota Agostinho Neto), além de outras infiltrações secundárias. Daqui, seguindo o rio Cuanza, chegaria facilmente ao planalto de Malange e atingiria as portas de Luanda pelo vale do mesmo rio, que segue o traçado da linha de caminho-de-ferro Luanda-Malange.

Não era possível continuar a estratégia de rotina que se iniciara em 1961 Em 7 de Outubro de 1967, os ministros da Defesa e do Ultramar assinaram um despacho conjunto que sintetizava os novos princípios que passariam a nortear o exercício da contra-subversão, que se fazia até então, de forma desconexa a partir da actividade militar das Forças Armadas. O despacho atribuiu a maior das prioridades à conquista da adesão das populações, elegendo-as como o objectivo a atingir por todas as Autoridades Civis e Militares (cujas competências por vezes se sobrepunham, com manifesto prejuízo para a concretização das acções em seu proveito). Impunha ainda que a contra-subversão passasse a ser responsabilidade de todos, exigindo-se para tal que houvesse uma Unidade de Comando. Foram criados: o Conselho Provincial de Contra-Subversão (CPCS), cujo presidente era o Governador-Geral (coronel Rebocho Vaz), que tinha a seu lado o Comandante-Chefe (general Costa Gomes) e os Comandantes dos três ramos das Forças Armadas; o Conselho Distrital da Contra-Subversão (CDCS), com o Governador do Distrito e Cmdt militar, e a estrutura rematava com as Comissões Locais de Contra-Subversão (CLCS). Os vários Conselhos reuniam periodicamente e os anseios e problemas das populações eram ali analisados, não podendo cada escalão remetê-los para o escalão superior sem que tivesse esgotado todos os seus meios. As populações começaram logo a sentir os efeitos desta medida.

Através da Directiva ‘Angola em Armas’, o general Costa Gomes fez alterações profundas na forma de conduzir a guerra em Angola, tendo sempre em vista as populações. Fez incidir a sua estratégia no Leste, pois todo o restante território estava sob controlo militar, com destaque e para a criação da Zona Militar Leste cujo comando entregou ao general Bethencourt Rodrigues.

Ao dirigir-se ao Conselho Especial de Contra-Subversão (exclusivo da Zona Militar Leste), o general Bethencourt Rodrigues explicitou que iria cumprir com total empenho esta missão através de manobras autónomas, simultâneas e integradas, concorrentes para o mesmo fim, as quais designava por Manobra sobre as Populações, Manobra sobre o Terreno, Manobra de Acção Psicológica, Manobra de Informação e Contra-subversão e Manobra Militar. Foi fundamentalmente o apoio firme que Rebocho Vaz concedeu às manobras sobre a população, sobre o terreno e de acção psicológica que agigantou a sua figura (ver ‘Um grande militar português. General Bethencourt Rodrigues’, ed. Tribuna da História, 2024).

A Manobra sobre as Populações que Bethencourt Rodrigues idealizara consistia em três vertentes:

a) Concretização acelerada do Plano de Desenvolvimento do Leste, aprovado ministerialmente e no qual se começaram imediatamente a investir vultuosas verbas.

b) Concentração intensiva das populações em aldeamentos.

c) Acção directa sobre os povos daquela imensa área territorial. Este último aspecto passou por três fases: na primeira fase, pretendeu-se a resolução dos problemas primários e imediatos; na segunda fase, procurou-se um desenvolvimento socioeconómico que permitisse às populações obterem bens para comercializar, participando progressivamente numa economia de mercado; na terceira fase, previa-se integrar algumas áreas seleccionadas nos Planos de Desenvolvimento Regional. Em pouco tempo, obtiveram-se resultados que ultrapassaram as expectativas. O Plano de Desenvolvimento do Leste previa 466 empreendimentos importantes, dos quais, em Dezembro de 1972, 150 estavam completados e 316 em curso em todos os sectores, como a saúde, a educação e o abastecimento de água, com óbvias vantagens para os povos. Todos estes empreendimentos começaram, de forma evidente, a fazer pender as populações para o lado das Autoridades Portuguesas, começando a desenhar-se no horizonte a vitória portuguesa no Leste de Angola. Era preciso muito dinheiro e, para isso, lá estava em Luanda o Governador-Geral, Rebocho Vaz, situado no cume da estrutura de contra subversão, mesmo acima do general Costa Gomes.

Quanto à Manobra sobre o Terreno, o Comando da ZML centrou a sua atenção nas vias de comunicação e nas pistas de aviação. Viu aprovada a construção da Grande Via do Leste, envolvente da ZML, e uma rede de itinerários conducentes a ela num total de 4.000 km de estrada asfaltada que iria diminuir o número de baixas por engenhos explosivos e minas. O panorama das vias de comunicação mudou radical e rapidamente, tornando mais rápido o afluxo à área dos bens fundamentais para o seu desenvolvimento. Poderá avaliar-se melhor a grandeza desta obra rodoviária se dissermos que os trabalhos iriam ser realizados no canto SW de Angola – as chamadas Terras do Fim do Mundo – no caso de Luiana a 1.200 km da costa e 1.500 km de Luanda, em áreas de pobres recursos materiais e de fraca ocupação humana.

Em 1973, estavam a trabalhar no Leste cinco firmas empreiteiras com a capacidade de construção anual de 700 km de estrada asfaltada e, ao mesmo tempo, a companhia de Engenharia militar procedia à abertura e reparação de picadas tácticas com interesse operacional e a JAE (Junta Autónoma das Estradas) melhorou outras vias. Esta rede de itinerários, de grande interesse militar e económico, que se previa ser alargada, começou a ser construída logo que foram superados os problemas burocráticos. Nos anos de 1972 e 1973 comentava-se já por toda a Angola a grande transformação por que estava a passar o Leste. Proclamava-se:”ninguém segura Angola”.

Em 19 de Julho de 1972, escrevia-se no diário Província de Angola: “(...) Uma pormenorizada visita ao Leste, deu-me a noção do esforço realizado nos últimos tempos (estivera lá há cerca de dois anos) das profundas e bem construídas preocupações das Forças Armadas na grande batalha do desenvolvimento que estão travando (...) Perdoe-se-me esta divagação rodoviária, mas, quando se pensa que se despendem cerca de 40 contos por cada 10 toneladas de carga transportada de Serpa Pinto para Rivungo, passando por Neriquinha (600 km), exigindo um tempo de percurso de ida e volta de 25 a 45 dias, não se pode deixar de sensível à oportunidade da construção de estradas...”.

Em resumo; o êxito da Manobra sobre as Populações, a Manobra sobre o terreno e a Manobra de Acção Psicológica, que levou o general Bethencourt Rodrigues á vitória sobre o MPLA, que se repercutiu nos outros partidos, e conduziu à Paz no Leste de Angola, teve muito apoio do Governador-Geral, Rebocho Vaz, que com ele trabalhou e deu tudo o que tinha, dentro das suas competências. E quando foi necessário pressionava a Metrópole.

Para finalizar falemos da UNITA, de Savimbi, que se aproximou das tropas portuguesas e foi apoiado por Portugal, no Leste de Angola, porque além de outros propósitos que não chegaram a ser identificados, propunha-se combater o MPLA e a FNLA.

Tendo em vista levar para o lado português, não só os combatentes da UNITA mas principalmente as populações sob sua influência, que há muito estavam deslocadas na mata, Savimbi escreveu várias vezes ao “Ministro do Estado de Angola”, coronel Rebocho Vaz, e ao Comandante-Chefe das forças Armadas de Angola, general Costa Gomes. Acresce que a relação se estabelecia entre o Presidente do Conselho Especial de Contra Subversão, general Bethencourt Rodrigues, e o Presidente do Conselho Provincial de Contra Subversão, coronel Rebocho Vaz, que estabelecia a ligação com o Governo Central. Diz-se com malícia que o coronel Rebocho Vaz deu à UNITA cerca de 30.000 contos mas tal não é verdade. Haviam, de facto, verbas, talvez desse montante, destinadas a esse fim mas Rebocho Vaz cativou-as e destinou-as, no âmbito da ligação entre todos os Conselhos de Contra Subversão, a apoiar as populações de Savimbi (ajuda alimentar, por exemplo), eventualmente levá-las a apresentarem-se às autoridades portuguesas e assim neutralizar um partido combatente. Rebocho Vaz foi, de facto, um extraordinário pilar no apoio ao esforço de guerra do general Bethencourt Rodrigues.

Entretanto, com um ritmo mais lento, o resto de Angola ia-se também desenvolvendo; por exemplo, em Cabinda a estrada alcatroada chegava já ao Miconge.

 

Como nota final, pergunto-me como é possível que se queira esconder a obra de um militar e governante desta envergadura, a quem a Pátria muito deve. O meu objectivo ao escrever este longo artigo é chamar a atenção para a figura de Rebocho Vaz. Esta é a minha homenagem a um Homem bom, um grande português e um militar e governante de grande valor.

 

Bibliografia

Vaz, Camilo Rebocho; ‘Norte de Angola, 1961. A Verdade e os Mitos’, ed.do autor, Coimbra, 1993.

Nunes, António Pires; ‘Angola 1961 – da Baixa do Cassange a Nabuangongo’, ed. Prefácio, Lisboa, 2005.

Nunes, António Pires; ‘Um grande militar português. General Bethencourt Rodrigues’, ed. Tribuna da História, Lisboa, 2024.

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1  Os agricultores, nativos, eram obrigados a semear o algodão em vastas áreas específicas indicadas pela Cotonang, que por vezes se localizavam a cerca de dez quilómetros de distância das suas casas, em geral próximo à picada (caminho rudimentar), e a trabalhar em todas as fases da preparação do algodão. Eram ainda obrigados a transportar e vender o algodão nos mercados, que eram controlados pela Cotonang. Ao estarem completamente empenhados no algodão, não podiam dedicar-se às suas próprias lavras de mandioca, que era a base da sua alimentação, que ficavam entregues às suas mulheres e aos filhos que, por muito esforçados que fossem, não conseguiam sozinhos o sustento da família. A fome tornou-se endémica por toda a Baixa do Cassange.

2  Canhangulo. Apesar de simples, era muito perigosa e a curta distância podia ser letal.

3  Referência aos perigos do avanço do Comunismo em África.

4  A 5.ª CEE ainda se deslocou a Malange, mas a revolta já havia terminado. Instalou-se em Malange, permitindo à 3.ª CCE continuar as operações de patrulhamento, na sua zona.

5  Chegara a Angola imbuído da concepção de Guerra Subversiva, que alguns camaradas observadores tinham colhido na Guerra da Argélia, cuja doutrina se pode sintetizar na frase “mais do que os corpos, interessa sobretudo conquistar as almas do inimigo”.

6  O capitão Teixeira de Morais comportou-se de forma exemplar, seguindo até ao limite o Plano de Operações. Em pelo menos uma ocasião proibiu disparar sobre as centenas de amotinados, evitando muitas baixas. Foi condecorado com a Medalha Militar de Serviços Distintos de Prata, com Palma. Foi nomeado para dar instrução sobre a Guerra Subversiva aos batalhões que nos meses seguintes chegaram a Luanda sem qualquer experiência, nomeadamente ao meu batalhão.

7  Certos círculos falavam num massacre (foi um grande massacre! dizia-se após 25 de Abril de 1974. Falava-se em mais de cinco mil mortos). Pode comprovar-se essa acusação na entrevista que Rebocho Vaz deu a um conhecido Jornalista da estação de televisão SIC: a tentativa de manipular, por várias formas, a sua intervenção, já idoso e com natural falta de memória, foi tão notória e tão facciosa que o jornalista chegou a ser desrespeitoso para com ele. Deixou no ar a afirmação de Rebocho Vaz de que os amotinados tinham tido apenas seis mortos, quando os números oficiais fornecidos na altura pelo próprio Rebocho Vaz são outros: as tropas portuguesas tiveram dois mortos enquanto os amotinados cerca de duzentos mortos e mais de uma centena feridos, quase todos com ferimentos nas pernas, que foram atendidos no Hospital de Malange. Alguns dos mortos (poucos) foram provocados pela força Aérea. A 3.ª CCE, nas suas acções de patrulhamento, também se viu na inevitabilidade de causar baixas.

8  A Ordem de Operações n.º1 era a que dizia respeito ao Batalhão Eventual de Malange.

9  Acresce que será normal admitir que o Comando de três CCE na progressão pela área afectada, como na Baixa do Cassange, não competia a um major mas a um tenente-coronel. O facto da escolha ter recaído sobre Rebocho Vaz só o abona e mostra a confiança que o Quartel-General depositava nele. De facto, sempre esteve à altura das missões que lhe foram confiadas.

10 Depois das notícias do civil, Rebocho Vaz enviou uma Secção para se inteirar do sucedido. Como já tinham passados três dias e a Secção não regressava, Rebocho Vaz enviou o Capitão Castelo da Silva, o tenente Joffre dos Prazeres e três soldados. No trajecto, o jeep encontrou-se com a Secção, que regressava com notícias alarmantes, dizendo que se demorara muito por causa dos caminhos e pontes destruídos que tivera de reconstruir. O capitão Castelo da Silva mandou a Secção regressar à base e disse-lhe que em breve a seguira.

Depois de muitas tentativas falhadas em estabelecer contacto com o capitão Castelo da Silva, o major Rebocho Vaz decidiu ir a Cólua pessoalmente; no caminho encontrou o jeep destruído e os corpos daqueles cinco militares. Sofreu, então, a referida emboscada.

11 Por coincidência, quando se iniciaram os massacres, estava em Luanda (Cabinda), em missão do Estado-Maior, chefiada pelo CEME, o general Beleza Ferraz. Regressando de imediato à Metrópole afirmou que aquela era só uma guerra de catanas.

12 Se uma ignota e insignificante aldeia no interior do mato tinham sido massacrados 30 civis e 11 militares, não era seguramente uma guerra de catanas o que esperava a Portugal. Nessa fase a guerrilha alimentava a guerrilha, que mais tarde teria também apoios externos.

13 A Pasta de Ministro da Defesa estava vazia desde que Salazar demitira Botelho Moniz. Botelho Moniz advogava a adesão de Portugal à NATO, ao que Salazar respondia: “NATO? Talvez nos defendam na Europa, mas a nossa guerra vai ser em África… e essa vai ser uma guerra de guerrilhas”. Salazar sabia bem o que se ia passar em Angola e nem a perspectiva da independência do Congo ex-belga, que existia desde meados da década de 50, levou o Governo português a mudar de atitude. A Bélgica prometera a independência do Congo para meados dos anos 60, mas logo o Congo entrou em ebulição: vendo-se a Bélgica na necessidade de ter de conceder a independência ao Congo em 1960, logo naquele país se instalou a UPA, o que a Bélgica nunca permitira. De barreira de defesa, o Congo passou a ser uma plataforma da subversão.

Antes de Salazar assumir a Pasta da Defesa, o Comandante da Região Militar de Angola, general Libório, disse para a Metrópole: “estão à espera de quê? Se não fizerem nada havemos-de pagar em sangue mil vezes mais do que o dinheiro que gastarmos agora”.

14 Para o Distrito do Uíge seguiram duas colunas de batalhão reforçadas e algumas companhias Uma coluna seguiu pelo itinerário Ngage-Quimbele-Cuango, onde eu seguia, e outra pelo itinerário Ngage-Maquela do Zombo. As Unidades depararam com um deserto humano porquanto muitos sobas haviam fugido para o interior da mata, fruto dos massacres e devastação. Com a presença da tropa começaram a enviar sinais de que se queriam apresentar e havia que conquistar a sua confiança. O estabelecimento de uma quadrícula militar, no Distrito do Uíge, pelas referidas unidades facilitou a tarefa ao major Costa Freitas. O BC 3 havia feito um extraordinário esforço nas serras do Uíge e Pingano, que lhe valeram a Comenda da Ordem da Torre e Espada e a Medalha de Ouro de Valor Militar, com Palma, concedidas pelo Comandante-Chefe das Forças de Armadas de Angola e Governador-Geral, general Venâncio Deslandes, e entrava agora nas missões normais de um Batalhão de Guarnição normal em zona de Guerra.

15 O avião era pilotado pelo tenente Carlos Alves e tinha como co-piloto (ou radiotelegrafista) o 1.º sargento Jorge Prata, meu amigo de infância e conterrâneo. Este acidente impressionou muito Rebocho Vaz, pois era necessário informar a família sobre se os seus entes queridos tinham morrido, tinham sido feitos prisioneiros ou estavam dados como desaparecidos e tal só era possível com o regresso das populações, que podiam depois ceder um guia para conduzir as tropas ao local. A pressão recaia sobre ele e sobre o major Costa Freitas Em Cangola, onde a minha Companhia estava sediada, um guia conduziu-me ao local onde caíra o PV 2 e, por ironia do destino, fui eu a descobrir o avião e a confirmar a morte do meu amigo dos bancos da escola, Havia evidentes vestígios de o avião ter sofrido uma grande explosão após a queda, o que me valeu, a mim e à minha família, alguns problemas em Castelo Branco: os seus pais nunca aceitaram a morte do filho e sempre acreditaram até à loucura que Jorge Prata estava vivo e havia sido feito prisioneiro. Só após a minha busca o Governo considerou a morte em combate. Passados dois anos regressei a casa e levei uma reprimenda dos seus pais.

16 NTÒ BAKO, Partido dos Bakongo de Angola, partido pacifista.

17 A minha companhia, que estava em Cangola, passou a depender administrativamente do BC 3 e, por isso, deslocava-me com frequência a Ngage e Carmona (para reabastecer o combustível para toda a Companhia e levantar o pré dos homens; como curiosidade pessoal acrescentarei que me fiz amigo do dono de uma gasolineira e na sua casa tive bons petiscos: era o célebre Fernandes do S.L. e Benfica, da equipa de futebol dos anos 50, da Taça Latina. Contactava o major Costa Freitas, que logo me apresentou o Governador Rebocho Vaz e passei a visitar os dois sempre que ia a Carmona. De Rebocho Vaz recebi o convite para assistir às comemorações desde um lugar privilegiado, do 45º aniversário da cidade de Uíge, depois Carmona, que tiveram a presença do fundador, o já idoso tenente Tomás Berberam a quem os companheiros de aventura tratavam por ”Tata Berberam” (Pai Berberam). Nesse dia o Governador-Geral e Comandante-Geral das Forças Armadas de Angola, general Venâncio Deslandes, fez um notabilíssimo discurso que levou lágrimas a muitos olhos. Diziam do general que era um “cavalo de raça pura”.

18 Recordo-me de nos meses iniciais a estrada Negage-Carmona ser sempre referida nos noticiários, pois ninguém passava nela sem sofrer uma emboscada. Quando Rebocho Vaz pediu ao Corpo de Voluntários para postar uma unidade a meio da estrada, comandada pelo mítico “Carvalho das Barbas”, cessou todo o perigo.

19 O Governador-Geral cessante era o coronel Silvino Silvério Marquês. Acresce que a nomeação para Governador-Geral, por um período de quatro anos, competia, de facto ao Presidente do Conselho, enquanto a nomeação para Governador de Distrito, como ocorrera com Rebocho Vaz em 1961, era competência do Ministro do Ultramar.

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2025-12-12
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REVISTA MILITAR @ 2026
by COM Armando Dias Correia