
A 26 de Agosto de 1071, a sul de Manzikert (atual cidade turca de Malazgirt, perto do Lago Van Gölü), o exército bizantino do co-imperador Romano IV Diógenes (1067-1071) e as tropas seljúcidas do sultão Alp Arslan (1063-1073) mediram forças em campo aberto. A batalha, que culminou com a derrota dos Romanos e com a prisão do co-imperador, abriu caminho a um período marcante de lutas intestinas e de perdas territoriais, ao ponto de vários historiadores, como Giorgio Ravegnani, considerarem que o combate marcou o princípio do fim do velho império1! Num sentido mais lato, a importância desta batalha fez-se sentir na história dos mundos oriental e ocidental.
Porém, para uma observação política e militar de Manzikert, impõe-se uma contextualização da batalha no desafortunado ciclo interno que o império atravessava desde os finais da dinastia macedónica ao mesmo tempo que se esboçava uma mudança na relação de forças entre Constantinopla e os seus vizinhos, em especial com os Seljúcidas. Tomando em linha de conta os universos militares em oposição, procuraremos analisar a campanha de Romano IV e de Alp Arslan no Próximo Oriente em 1071 até se encontrarem, em pleno verão, numa batalha campal, combate importante para a observação de dois dos maiores exércitos da Idade Média Plena frente a frente.
Segundo John Haldon, as fontes da Batalha de Manzikert podem ser dividas quanto à sua origem em três grupos: bizantinas, árabes e cristãs de leste (arménias e sírias)2. Para o nosso texto elegemos o relato de Miguel Attaleiates (c. 1025-1080), ou Ataliates, um Anthypatos (procônsul) que no terceiro quartel do século XI chegara à corte de Constantinopla após uma carreira judicial fulgurante e que, na campanha de 1071, integrava o séquito do próprio imperador! Hábil politicamente, conseguiu resistir às perturbações palacianas e manter-se próximo de Miguel VII Ducas (1071-1078) e, depois, de Nicéforo III Botaniates (1078-1081). Foi a este basileus que Attaleiates, já próximo do termo da sua vida, dedicou a obra A História, uma narrativa privilegiada dos principais acontecimentos do Império Romano do Oriente entre 1034 – começo do reinado de Miguel IV – e 1079 – já com Nicéforo III no poder3.
Quando Basílio II (976-1025) fechou os olhos, no final de 1025, o Império Bizantino apresentava a sua maior extensão territorial desde o tempo de Justiniano I (527-565) – veja-se a figura 1. O basileus macedónico, no comando de uma formidável máquina de guerra, tinha logrado êxitos em múltiplas frentes, em especial contra os Búlgaros do czar Samuel (997-1014). Agora, o sul da Península Itálica, a Dalmácia, a Sérvia, a Bulgária (com o rio Danúbio a marcar novamente a fronteira romana), a Ásia Menor até à Arménia e o litoral da Síria até às portas de Trípoli encontravam-se sob a égide de Constantinopla4. Bizâncio parecia relançar uma expansão imparável…
Porém, a morte de Basílio II deixaria a descoberto aquela que era, porventura, a maior debilidade do sistema político bizantino: a ausência de regras sucessórias reconhecidas por todos. Iniciava-se então um período de meio século de degradação da autoridade imperial, que rapidamente se tornou objecto de várias disputas. Ao “exterminador de búlgaros” sucedera num breve reinado o irmão, Constantino VIII (1025-1028), o qual, antes de sepultar consigo a linhagem masculina dos macedónicos, forçou a filha Zoé – já cinquentenária – a desposar o (já casado) eparco de Constantinopla, que assim subiu ao trono como Romano III Argiro (1028-1034). Era o primeiro dos três casamentos de Zoé – casaria ainda com Miguel IV “o Paflagónico” (1034-1041) após o assassinato do anterior basileus e, depois, com Constantino IX Monómaco (1042-1055), na sequência da deposição de Miguel V “o Calafate” (1041-1042), adotado como filho pela imperatriz, e de uma experiência mal sucedida de governo com a irmã, Teodora. Após os curtos governos de Teodora (1055-1056), que sucedera a Constantino IX, e de Miguel VI Bringas (1056-1057), um dignitário da confiança desta imperatriz, as facões da aristocracia ombrearam ferozmente pelo poder: primeiro, os aristocratas militares da Ásia Menor levaram a melhor ao sentar no trono de púrpura Isaac I Comneno (1057-1059) para, depois, a aristocracia civil da capital o substituir por Constantino X Ducas (1059-1067). A mais alta instituição do império, aquela que encarnava as virtudes de Deus5, sofria um autêntico “rotativismo”.

Figura 1 – Império Bizantino à morte do imperador Basílio II (1025).
Fonte: www.reddit.com
Todo este período de crise ficou marcado pela degradação do centralismo administrativo a favor da aristocracia fundiária, que, numa autêntica “feudalização do Estado”, viu o seu poder (particularmente) reforçado com a instituição da técnica fiscal da pronoia. Este grupo beneficiou ainda, no plano económico, de um crescimento desenfreado dos latifúndios em detrimento da pequena propriedade, resultando no agravamento das condições de vida de uma ampla fatia da população. A sociedade bizantina assistiu ainda a um atrito religioso quando, em 1054, se deu o Cisma entre as igrejas de Roma e de Constantinopla, na sequência dos desentendimentos entre o papa Leão IX (um ilustre reformador cluniacense) e o patriarca Miguel Cerulário (em grande medida, em torno da velha discussão do dogma Cristológico), acabando o poder imperial por não se conseguir impor numa querela que alteraria para sempre as relações entre a Cristandade Ocidental e Oriental. Por fim, assistiu-se por esses anos à confirmação do definhamento do exército nacional dos temas – porventura para conter a aristocracia militar, mas a este fenómeno não seria alheio a quebra das receitas fiscais necessárias ao Estado para manter uma grande força permanente devidamente organizada, adestrada e equipada – que ia dando lugar, como veremos, a um exército com grande expressão de mercenários contratados dentro e fora do espaço bizantino6.
Tirando partido das lutas civis que fragilizavam o império, os seus inimigos atacaram-no em múltiplas frentes: na Itália, os Normandos, com destaque para a família Guiscard, vinham conquistando os territórios bizantinos do sul da península desde a década de 1050, tendo contado inclusivamente com o apoio do papado na sequência do Cisma; nos Balcãs, o avanço dos Húngaros levou à queda de Belgrado em 1064, ano em que os Uzi desencadearam uma devastadora incursão até à Grécia; já no Oriente, a afirmação por meados do século dos Turcos Seljúcidas, com um claro programa expansionista, parecia representar o maior perigo para Constantinopla7.
Sob a liderança de Toghril Beg (1037-1063), os Seljúcidas, convertidos ao Islão, dominaram o Irão, reduziram o Califado Abássida a uma sombra do antigo império – conquistando inclusivamente a grande metrópole de Bagdade em 1055 – e continuaram a sua marcha para poente, em direção à Síria, para completarem o seu êxito com a eliminação do califado xiita dos Fatimidas. No plano militar, o sultão, cada vez com mais recursos ao seu dispor, contava com um poderoso exército regular, como notou Miguel Attaleiates8, ao qual se somavam tribos turcomanas que reconheciam a sua autoridade em função dos seus interesses. Era uma imensa força que, mercê do emprego generalizado da cavalaria ligeira (especialista no tiro com arco), fazia da mobilidade uma das suas armas, sendo capaz de percorrer grandes distâncias num curto espaço de tempo e de executar táticas velozes e flexíveis em campo aberto9.
Um tímido cerco a Constantinopla, em 1054, parecia anunciar o choque entre os impérios. Ao cabo de onze anos, já sob a liderança de Arl Arslan (1063-1073), sobrinho de Toghril, os Seljúcidas tomaram a Arménia e, dois anos volvidos, Cesareia da Capadócia. Na década de 1060, multiplicaram-se as incursões na Ásia Menor bizantina, com devastações de campos e saques de cidades. O exército romano, muito estático nas guarnições fronteiriças, não conseguia fazer face às velozes penetrações do inimigo, que por seu lado encontrava o centro e o ocidente da Anatólia bastante desmilitarizados. Como seria possível conter os Seljúcidas?
Em Constantinopla, morto Constantino X Ducas, a imperatriz Eudóxia, regente do filho (Miguel VII Ducas), casou com Romano IV Diógenes (1067-1071), um ambicioso general oriundo da aristocracia da Capadócia10. Desde que ascendera ao trono do Grande Palácio como co-imperador, Romano – acompanhado por Miguel Attaleiates – conduziu pessoalmente várias campanhas na Ásia Menor para atrair a uma batalha as forças turcas que penetravam pelo território imperial. Porém, os Seljúcidas acabavam geralmente por levar a melhor a sua estratégia, torneando amiúde o exército romano, mais lento e pesado – em campo aberto manobrava ainda de forma a tirar partido do poder do choque do seu núcleo, como era o caso da célebre cavalaria pesada (dotada de lança, com o cavaleiro e o cavalo completamente couraçados, segundo a tradição dos Catafractários), que, segundo John Haldon, carregava em primeiro para quebrar as formações inimigas, apoiada pelo tiro dos arqueiros desde os flancos11.
Ao cabo de dois anos (1068-1070) de operações desgastantes e pouco frutíferas, o co-imperador parecia decidido a reformular a sua ação bélica. No dizer de Paul Markham, uma vitória contra os Turcos era fundamental para afirmar a sua autoridade junto dos seus opositores internos12. A estratégia militar que Romano IV agora preconizava levava-o a assumir a iniciativa para, em território adversário, tentar a recuperação de antigas fortalezas fronteiriças de Bizâncio na Arménia, na esperança de desafiar definitivamente Alp Arslan a uma batalha. Prognosticava-se, agora, uma campanha de grande envergadura protagonizada pelos dois impérios.
Durante o inverno de 1070-1071, Romano IV preparou em Constantinopla a expedição, a qual, passada a época das chuvas, deveria ter lugar a partir da primavera13. Na margem asiática do Mar de Mármara, em Helenópolis (atual Hersek), ter-se-á concentrado progressivamente uma força imensa e heterogénea. Embora as fontes islâmicas apontem para um número entre 100 000 e 300 000 homens, estudos recentes da batalha sugerem que se atingiram os 40 000 combatentes, o que perfazia um exército de campanha numericamente considerável. Compunham-no os regimentos palatinos como os Hetaireai, os Scholai, os Stratelatai e, claro está, os Varengues, verdadeiros corpos de elite fiéis ao imperador. Seguiam-se o grosso das unidades regulares de tagmata dos territórios ocidentais mas, sobretudo, dos orientais, como a Capadócia, Coloneia, Anatólia, Trebisonda e Síria. Entre as tropas apeadas, destacaram-se um grande corpo de infantaria arménia das regiões de Sebasteia e Teodosiopólis e, provavelmente, vários contingentes de peonagem ligeira búlgaros, contratados como mercenários. Já as tropas mercenárias montadas dividiam-se, grosso modo, entre: Germânicos e Normandos, cuja cavalaria pesada havia sido bem-sucedida cinco anos antes em Hastings (1066), sob o comando de Roussel de Bailleul; e Turcos e Petchenégues, que forneceram essencialmente tropas de cavalaria ligeira (munida de arco). Por fim, juntaram-se algumas unidades de aliados e vassalos balcânicos. Não faltaram também, entre outros não combatentes, sapadores, artífices e condutores, ao lado de um imenso trem de gado muar que transportava víveres, tendas e petrechos para a guerra de cerco14.
Procurando afastar qualquer ameaça turca durante a sua marcha pela Ásia Menor, em março de 1071 Romano IV fez chegar uma embaixada com uma proposta de trégua a Alp Arslan, que se encontrava a assediar Edessa. Aceites os termos, o sultão levantou o cerco e, sentindo a retaguarda protegida, aproveitou para atacar Alepo, na Síria fatimita. O co-imperador garantiu a segurança da sua via para nascente. No fundo, tinha ganho tempo. Podia agora deixar Constantinopla para se juntar às suas forças15.
Segundo Miguel Attaleiates, Romano IV, após várias solenidades, abandonou a capital a 31 de março, pisando a Ásia Menor em Helenópolis no mesmo dia16. O exército romano iniciou então a sua (lenta) marcha para leste no sentido de Nicomédia (atual Ízimit) para, daí, se internar no território da Anatólia em direção a Sebasteia (hoje Sivas) – veja-se, mais abaixo, a figura 2. Não tardaram a levantar-se os primeiros sinais de instabilidade. Ao nível do comando refletiam-se as rivalidades palacianas: o imperador decidia deixar para trás o general Nicéforo Botaniates (futuro Nicéforo III), porventura desconfiado da sua lealdade, optando por levar junto de si o primogénito do seu opositor João Ducas (irmão do defunto Constantino X), chamado Andrónico Ducas, talvez para o dissuadir de qualquer golpe. Era então sintomático o distanciamento do imperador das tropas e dos oficiais, acampando inclusivamente à parte com a sua corte. A indisciplina não demorou a fazer-se sentir, com um corpo de mercenários germânicos a ver-se envolvido em escaramuças com a população aquando da travessia do rio Halys, próximo de Sebasteia, na sequência de saques, o que obrigou a estabelecer um acampamento vigiado para este contingente17. Por esta altura o sultão, devidamente informado, ao contrário do exército romano, encontrava-se a par da marcha e da composição das tropas inimigas. Deixando Alepo, Alp Arslan atravessou rapidamente o Eufrates acompanhado da sua guarda para, na Arménia e na Mesopotâmia, levantar uma grande força para enfrentar Romano IV18.
Seria já final de junho quando, transposto o Eufrates, os Bizantinos alcançaram Teodosiópolis (atual Erzurum), que, conforme notou Attaleiates, se encontrava bastante despovoada pela sua exposição aos ataques seljúcidas19. Ali estacionaram por algum tempo para se reabastecerem de víveres e forragens. Então as dissensões no comando acentuaram-se quanto à estratégia a seguir: alguns generais, com uma proposta mais ousada, aconselharam o imperador a levar a guerra para o interior do território turco, tomar de flanco o sultão e atraí-lo a uma batalha campal, julgando que Arslan deixara Alepo em pânico e se dirigira ao Iraque para reunir tropas; outros comandantes, como José Tarcaniotas e Nicéforo Briénio, mais prudentemente, sustentavam que Romano IV deveria esperar pelo inimigo, melhorar as defesas das cidades próximas e reforçar as suas guarnições, ao mesmo tempo que assolaria os campos aquando da aproximação do exército turco para o privar de víveres. Perante um dividido e mal informado estado-maior, o co-imperador, considerando o problema logístico de manter um grande exército estacionado por tempo indeterminado, decidiu continuar a progredir no sentido de Manzikert (actual Malazgirt) e Khliat (hoje Ahlat)20. Entre o fim de julho e o início de Agosto, os Romanos abandonaram Teodosiópolis tomando a estrada para nascente.
Por esta altura, o sultão seljúcida encontrava-se a pouco mais de 160 quilómetros dos Romanos, acompanhando a par e passo as suas movimentações através de uma rede bem montada de batedores. Ao contrário do que julgavam os comandantes bizantinos, não se tinha deslocado para a região iraquiana, mas marchado através da fronteira arménia por Mosul e daí, inflectindo para nordeste, para Khoi, um pouco a norte do Lago Urmia e a este do Lago Van Gölü. Terá sido naquela cidade que se reuniram as tropas que o seu vizir levantara no Azerbaijão, fazendo ascender o exército seljúcida a uma força 30 000 homens, destacando-se a componente da célebre cavalaria ligeira. Numa manobra que surpreenderia os Romanos, o sultão começava então a deslocar-se para poente para contornar o Lago Van Gölü pelo norte21.

Figura 2 – Leste da Ásia Menor, o teatro de operações da campanha de 1071.
Fonte: HALDON, John: Ob. Cit., p. 115.
Antes de cruzar o rio Araxes, o co-imperador, na falsa premissa do avanço de Alp Arslan pelo sul, começou a dividir as forças ao enviar na frente para a região de Khliat um corpo de Petchenégues e de Normandos sob o comando de Roussel. Ao fim de poucos dias, Romano IV reforçou este contingente com outro muito maior, que deveria auxiliar na tomada daquela fortaleza, às ordens de José Tarcaniotas – embora Miguel Attaleiates refira que o imperador ficou com menos de metade do exército às suas ordens, além de privado das melhores unidades (como os Varengues)22, estudos recentes apontam para que tenha permanecido com cerca de 20 000 homens e que não é muito crível tivesse prescindido, em território inimigo, das suas tropas de maior confiança. Então, a força de Tarcaniotas e de Roussel protagonizou aquela que é, porventura, a mais insólita de todas as movimentações: já perto de Khliat, inflectiu para oeste, cruzou o Eufrates e marchou para Melitena, abandonando a campanha! Attaleiates considera que a manobra se deveu a uma grande dose de medo do exército Tarcaniotas, que comandava a força, que reagiu assim ao deparar-se com a aproximação da grande força turca de nascente23. Mas, como comandante leal, não deveria no mínimo ter avisado o co-imperador, cerca de 50 quilómetros a norte?
Romano IV, aparentemente desinformado, chegava diante de Manzikert, que terá tomado à guarnição seljúcida no dia 23 de agosto quase sem combate. A cidade localizava-se na extremidade noroeste de uma planície rochosa que se estendia quase dez quilómetros para sudeste, antes de subir gradualmente para o sopé do vulcão Suphan, a nordeste de Khliat – um terreno que, segundo John Haldon, os Turcos dominavam bem, ao contrário dos Romanos. A este de Manzikert, junto a um afluente do Murat Su, foi construído um grande acampamento fortificado para o grosso do exército. Não demoraria para que os Bizantinos descobrissem o que os esperava24.
Logo na manhã de dia 24 terão chegado novas ao acampamento imperial de que alguns destacamentos que se deslocaram para sul em busca de forragens e víveres, pela estrada que conduzia a Khliat, haviam sido atacados por guerreiros seljúcidas. O general Nicéforo Briénio, prestigiado aristocrata militar, recebeu ordem para perseguir os inimigos. Surpreendido por uma força maior do que esperava, conseguiu retirar para o acampamento – o bizantino Ateleiates, testemunha ocular, apelidou desdenhosamente os Seljúcidas como “mestres no engano”25! Para afastar a ameaça, Romano IV enviou depois uma grande força de cavaleiros sob o comando do arménio Nicéforo Basilácio, que, ignorando as retiradas simuladas e outras manobras turcas, liderou as suas tropas numa perseguição descontrolada que culminou numa emboscada, com as suas tropas desbaratadas e ele próprio preso! Ciente de que se tratava de um exército mais poderoso do que julgava, embora ainda desconhecendo a proximidade de Arslan, o co-imperador ordenou a Briénio o avanço de toda a divisão que formava a esquerda do exército para repelir aqueles Turcos. Porém, estes recuaram rapidamente. Chegado ao local da emboscada, o general bizantino tomou contacto com o que se tinha passado através de um sobrevivente ferido. Entretanto, a meio da tarde, o inimigo atacou Briénio de surpresa tentando envolvê-lo, ao que aquele respondeu com uma retirada disciplinada, com escaramuças pontuais, acabando por sacudir a pressão seljúcida. Aliviadas, as tropas imperiais alcançaram o acampamento, no qual o próprio comandante deu entrada com duas setas cravadas na armadura26 – veja-se a figura 3 (primeira metade).
Agora consciente de se encontrar perante a principal força turca, bem como das deficientes informações obtidas sobre os movimentos de Arslan, Romano IV começou a preparar o grosso do exército para atacar ainda na tarde do dia 2427. Mas a ordem seria suspensa, dada a rápida retirada das tropas seljúcidas para as montanhas a sul. Atrás, o co-imperador enviara batedores. O cenário de uma batalha parecia mais próximo…
De facto, Alp Arslan encontrava-se a cerca de uma dezena de quilómetros. A dar conta da proximidade, nessa mesma noite, uma força seljúcida atacou de surpresa mercenários turcos do exército romano que negociavam com caravaneiros nas cercanias do acampamento fortificado. Ali acorrendo em grande desordem, terão provocado pânico entre os postos de vigia, os quais, no dizer de Attaleiates, temeram tratar-se do inimigo, tal era a difícil visibilidade ao luar. Os ruidosos ginetes, cujos característicos gritos se ouviram toda a noite no acampamento, conforme se narra n’ A História, acabaram por retirar das imediações ainda sob a escuridão28. Mas poucas horas depois, já manhã, um destacamento seljúcida estabeleceu-se na margem do ribeiro oposta ao campo romano. Mais uma ação de recolha de informação? Certo é que um contingente de infantaria, transpondo o ribeiro para norte, varreu daquela posição as tropas seljúcidas – veja-se a figura 3 (primeira metade). Porém, esta ação parece não ter sido suficiente para baixar a ansiedade entre os Bizantinos, que entretanto viam desertar para o inimigo parte dos mercenários turcos, decerto assediados29. Que outros se seguiriam?
Ainda no dia 25 de agosto, provavelmente à tarde, chegou ao acampamento bizantino uma embaixada seljúcida, segundo Miguel Attaleiates, com o pretexto de negociar uma trégua. Romano IV, crendo que se tratava de uma manobra dilatória para Arslan reunir mais tropas, se é que não mesmo de uma tentativa de (re)conhecimento mais detalhado das suas forças, exigiu condições inaceitáveis ao adversário, como a imediata retirada do exército turco30. Pronto a missão deixou, sem surpresa, a tenda imperial. Então, o co-imperador havia já expedido mensageiros para chamar a força enviada para a zona de Khliat e mostrava-se determinado a dar batalha ao inimigo em pouco tempo, aparentando muito confiança no seu potencial de combate31.

Figura 3 – Primeira metade: os combates na estrada para Khliat (24 de Agosto) e na margem do ribeiro (25 de Agosto). Segunda metade: ordens de batalha dos exércitos bizantino e turco no início da Batalha de Manzikert (26 de Agosto).
Fonte: HALDON, John: Ob. Cit., p. 123.
Na manhã de 26 de agosto, uma sexta-feira, o exército imperial abandonou o acampamento e organizou-se para avançar na direcção de Alp Arslan, então posicionado escassos quilómetros a sul. O principal corpo formou ao centro às ordens de Romano IV, que entre outras forças contava com boa parte das unidades de elite da guarda (Scholai incluídos), secundadas pela infantaria pesada arménia. A esquerda da formação bizantina era liderada pelo experiente Nicéforo Briénio, que incluía entre as suas tropas várias unidades regulares dos tagmata do oeste do império que, por várias vezes, já comandara na Ásia Menor. Já a direita do exército era constituída, entre outros contingentes, por regimentos dos tagmata da Ásia Menor, ficando às ordens de Teodoro Aliates, um comandante oriundo da Capadócia. Olhando para o conjunto da força, segundo John Haldon, somos levados a crer que a maior parte da cavalaria pesada terá tomado posição ao centro, ao passo que os arqueiros montados Petchenégues e os Turcos terão sido colocados nas alas. Porém, o co-imperador, conhecedor das tácticas seljúcidas, fez formar uma reserva por trás do centro do exército sob o comando de Andrónico Ducas (o célebre filho do seu opositor João Ducas), o qual contaria, entre outras forças de elite, com tropas dos Hetaireai, além de regimentos dos tagmata e de contingentes de Petchenégues e Turcos. Em teoria, este corpo encontrava-se pronto a acorrer à linha da frente caso houvesse que recuar, a fechar qualquer rutura e a fazer face a qualquer tentativa de envolvimento ou, mesmo, a um ataque pela retaguarda32.
Alp Arslan tinha disposto taticamente as suas tropas, com base num corpo central e duas alas, num aberto crescente virado a norte – numa primeira fase, o exército turco é definido como uma linha n’ A História, pelo que é provável que os flancos não se encontrassem muito avançados33. Na prática, esta força, constituída em grande medida pelos célebres arqueiros montados, decompunha-se em vários corpos menores que atuavam de forma independente com flexibilidade tácita. Por fim, o sultão, na iminência do combate, deslocou-se para uma elevação à retaguarda – veja-se a figura 3 (segunda metade).
Num passo cadenciado, de modo a manter a ordem de batalha, o exército bizantino pôs-se em marcha naquele terreno amplo e de solo rochoso na direção das forças Seljúcidas – Miguel Attaleiates destacou a boa organização das formações romanas à saída do acampamento34. Seria perto do meio-dia quando, sob o sol quente do verão arménio, os arqueiros montados seljúcidas começaram a atacar as formações romanas no seu típico movimento circular de vaivém. À medida que o centro turco recuava recusando qualquer contacto com a linha da frente bizantina, as alas intensificavam a sua ação, descarregando as suas flechas, acima de tudo, sobre os corpos da esquerda e da direita dos Romanos35. Deste modo, os Seljúcidas levavam o centro bizantino, atraído, a adiantar-se no terreno em relação às alas, que por sua vez se atrasavam na progressão e se afastavam em função dos ataques de flanco. O exército bizantino, em breve, começaria a apresentar uma configuração irregular36.
Passado o acampamento turco a meio da tarde, o centro romano alcançou o terreno mais áspero, já perto da cadeia montanhosa, com relativamente poucas baixas. Porém, nas alas, começava a perder-se o controlo da situação. Os chuveiros de flechas causavam um grande incómodo às tropas bizantinas, levando a que várias unidades, agastadas por aqueles ataques, descurassem cada vez mais a sua disciplina tática inicial para carregarem abertamente sobre as alas turcas. Por seu turno, estas forças, à boa maneira dos povos das estepes, simulavam retiradas para o terreno acidentado (que conheciam bem) para, depois, concretizarem as suas emboscadas – veja-se a figura 4 (primeira metade).
Ia anoitecer em breve e o co-imperador ainda não tinha enfrentado o inimigo que tinha por diante. Do lado dos Romanos, a ligação do centro às alas era já quase inexistente. Faltavam as provisões a um exército que, como testemunhou Attaleiates, acusava o cansaço de um dia de marcha37, com as condicionantes do clima do mês de agosto. A cargo de uma guarnição reduzida, o acampamento imperial encontrava-se já distante e vulnerável a um ataque por trás do exército bizantino. Continuar o avanço em terreno acidentado e desconhecido, como o que tinha pela frente, seria altamente arriscado. A retirada ordenada parecia ser então a única manobra razoável38.
De acordo com A História, Romano IV ordenou que o pendão imperial fosse voltado para trás39. O centro do exército romano começou imediatamente a recuar. Porém, na ala direita, o sinal de retirada foi mal interpretado por oficiais e soldados, que julgaram o co-imperador já tombado. O corpo da retaguarda, que seria fundamental para o sucesso desta manobra, ao cobrir o recuo das unidades da frente, foi conduzido por Andrónico Ducas na direção do acampamento romano, deixando o centro e as alas bizantinas completamente desapoiados. No dizer de Miguel Attaleiates, tratou-se de uma traição flagrante do primo de Miguel VII para com Romano IV pois, no pior cenário (para o co-imperador), ficava com o caminho aberto para a afirmação do seu clã na corte de Constantinopla. Antes de retirar, segundo o mesmo relato bizantino, Andrónico terá espalhado o boato de que Romano havia caído pelas unidades mais próximas do seu corpo a fim de as persuadir a abandonar o campo40.

Figura 4 – Primeira metade: o exército romano quando alcançava a zona do acampamento turco. Segunda metade: a retirada bizantina e a perseguição seljúcida.
Fonte: HALDON, John: Ob. Cit., p. 124.
Observando o que estava a suceder com a retaguarda bizantina, e reconhecendo a confusão instalada na sua ala direita, o sultão ordenou então um ataque generalizado do seu exército. A direita dos Romanos, completamente desligada do centro, foi desbaratada e boa parte debandou pela planície. A esquerda, às ordens de Briénio, parece ter retirado em boa ordem, ainda que tenha sofrido um ataque de flanco de unidades turcas que haviam combatido a direita bizantina e, depois, cruzado o campo. No centro, Romano IV procurou concentrar as unidades tomadas pelo pânico em torno do seu pendão, mas o gesto parece ter sido ignorado. O seu corpo de tropas, cada vez mais isolado e flagelado pela barragem incessante de flechas, começou a ceder, fragmentando-se com constantes retiradas. Totalmente cercado, o co-imperador, já ferido, viu o seu cavalo morto e acabou ele próprio derrubado em combate, embora só viesse a ser identificado no dia seguinte41 – veja-se a figura 4 (segunda metade).
Quando a noite caiu naquele dia de agosto, já tarde, o exército Turco era senhor do campo. Apesar dos relatos bizantinos contemporâneos sugerirem pesadas baixas entre as suas forças, como é o caso de Attaleiates, estudos recentes apontam para que estas, na realidade, tenham sido relativamente reduzidas42. De facto, as unidades da retaguarda escaparam intactas em direção a Constantinopla. Por seu lado, Briénio conduzira as forças da esquerda com poucas perdas, encontrando-se no ano seguinte, com os tagmata do oeste, a combater Eslavos e Petchenégues nos Balcãs. Entre as tropas da ala direita, mais acossadas, forças como os tagmata da Capadócia parecem ter retirado com alguma ordem. Até mesmo entre as tropas do corpo principal, unidades de elite como os Stratelatai abandonaram o campo em relativa composição. É sintomático que, semanas após a batalha, um número muito substancial destas unidades tenha concentrado na fortaleza de Dokeia (atual Tokat), numa das principais vias para Constantinopla. Segundo John Haldon, admitindo que 20 % dos combatentes bizantinos em Manzikert foram feitos prisioneiros, o seu total de mortos e feridos não terá ultrapassado os 10 %43.
Materialmente proveitoso parece ter sido o saque turco ao acampamento e à carriagem de apoio dos Romanos – abandonados quando as várias unidades retiraram, num primeiro momento, para Manzikert, que se conservou por algum tempo em mãos romanas. Porém, a mais importante perda do exército bizantino correspondeu à prisão de Romano IV. O co-imperador foi levado à presença de Alp Arslan, que durante uma semana o conservou com todas as honras até, por fim, lograr um princípio de trégua e o pagamento de um bom resgate44.
Porém, do outro lado do Bósforo, em Constantinopla, Andrónico e os demais opositores do clã dos Ducas não perderam em tirar partido político das circunstâncias da batalha: depressa iniciaram o processo de afastamento de Romano do poder e, ainda naquele ano, fizeram coroar o jovem Miguel VII. Uma breve luta civil determinou a cegueira e a prisão de Romano IV na ilha de Proti (atual Adalar), no Mar de Mármara, onde acabaria por morrer logo em 1072. Porém, para desgraça de Bizâncio, tinha-se iniciado um ciclo de uma década (1071-1081) de instabilidade e de contração, o qual culminaria com o estabelecimento da dinastia dos Comnenos pelo aristocrata Aleixo I (1081-1118)45.
Manzikert (1071) correspondeu, sem dúvida, a um momento fraturante da história de Bizâncio. A ascensão seljúcida sob Toghril Beg e Alp Arslan coincidiu no plano político com um período em que o trono de púrpura foi objecto da mais acicatada luta de facções aristocráticas, dinâmica a que Romano IV Diógenes, feito co-imperador em 1068, procurou resistir. Um triunfo marcial parecia fundamental para consolidar a sua autoridade e, mais ainda, para a segurança do fustigado território romano, pelo que a Ásia Menor se foi convertendo num palco privilegiado para o choque dos dois impérios.
Do ponto de vista bélico, a campanha de 1071 implicou uma grande concentração de recursos por parte de Bizantinos, em cuja estrutura militar central os heterogéneos corpos de mercenários se iam afirmando em detrimento do exército central, e de Seljúcidas, que apostavam numa enorme capacidade mobilizadora de tropas regulares e tribos aliadas. Na Ásia Menor, a marcha das forças bizantinas ficou marcada pelos casos de indisciplina dos mercenários mas, sobretudo, pela desinformação ao nível do comando, que determinou decisivamente a sua estratégia – como foi o caso da divisão de (metade das) forças com o adversário por perto! Em Manzikert, os Seljúcidas, com uma força flexível de cavalaria ligeira, levaram a melhor sobre os Bizantinos, cujo exército manobrou de modo a tirar partido do poder de choque. O momento fraturante parece ter correspondido à ordem de recuo de Romano IV, em que um caberia um papel fundamental à retaguarda, cujo comandante, Andrónico Ducas, o atraiçoou ao abandonar o campo (não seria a primeira traição na campanha, se contarmos a retirada de Tarcaniotas e a deserção de alguns mercenários).
Por tudo isto, a Batalha de Manzikert tem vindo a ser revista por investigadores como John Haldon e Paul Markham, que, acima do plano bélico, defendem que as grandes consequências da campanha foram de natureza política. Desastre militar e/ou falhanço político, certo é que Manzikert virou uma página na história bizantina. Teve lugar uma década de conturbações, com os reinados Miguel VII e Nicéforo III, e de perdas territoriais, como Bari, a Croácia e o Montenegro, além de quase toda a Ásia Menor para os Seljúcidas. Os Comnenos, chegados ao poder em 1081, procuraram relançar um império que, jamais atingindo a (grande) dimensão anterior, procurou sobreviver num processo de maior abertura ao ocidente (caso das Cruzadas), como tendencialmente se verificou na política das dinastias seguintes até à sua queda (1453).
“Enquanto os Turcos, por sua vez, tentavam negociar a paz, o imperador fez soar a trombeta de guerra e assim optou injustificadamente por dar batalha. Quando as notícias chegaram ao inimigo, este ficou assustado. Os Turcos já estavam armados e, após passarem todos os seus não combatentes para a retaguarda, tomaram a aparência de uma linha de guerreiros pronta para resistir a um ataque. Mas para a maioria, eles estavam inclinados a fugir quando viram as falanges romanas todas organizadas, numa disciplinada ordem de batalha. Eles fugiram para trás e o imperador perseguiu-os com todas as suas forças até à noite. Quando ele se consciencializou de que ninguém estava resistindo ou lutando contra si e percebeu que o seu acampamento estava desguarnecido de soldados, incluindo sentinelas de pé, porque simplesmente não tinha um exército suficientemente grande de modo a deixar uma força protetora lá também, e dado que a maior parte dos seus soldados estavam esgotados, como já foi explicado, decidiu suspender a perseguição. Estava com medo de que os Turcos fizessem uma emboscada e atacassem o acampamento desguarnecido, tendo sustentado ao mesmo tempo que, se estendesse a perseguição por muito mais a noite iria alcançá-lo e, em seguida, os Turcos iriam inverter o seu recuo e atingi-los. Por estas razões, ordenou que a bandeira imperial fosse virada como sinal para as tropas do regresso ao acampamento. Mas quando os soldados que estavam longe do corpo principal viram a bandeira imperial a ser virada para trás pensaram que o imperador havia tombado. Muitos relatam que um dos que estava à espera de uma chance para o tramar, um primo do enteado do imperador, Miguel, que já havia conspirado contra ele, espalhara este rumor entre os soldados. Este rapidamente juntou os seus homens – o imperador, com o seu bom coração, tinha confiado um grande contingente ao comando deste homem – e correu de volta para o acampamento. As unidades mais próximas seguiram seu exemplo e uma por uma retiraram sem lutar, e outras seguiram após estas. Quando o imperador viu esta retirada e deserção irracional, tomou uma posição com seus próprios homens tentando para conter a fuga de seus homens, mas ninguém o escutou.
O inimigo, que estava posicionado nas colinas, viu o inesperado infortúnio que atingiu os Romanos, informou o sultão do que se estava a passar e insistiu para que ele voltasse para trás. Ele tornou imediatamente e carregou com toda a força contra o imperador. Este último ordenou aos homens em torno de si para não cederem ou afrouxarem e por um bom bocado defendeu-se corajosamente. Entretanto, a fuga dos outros tinha-os levado a aglomerar-se do lado de fora da paliçada do acampamento, e todos gritavam caoticamente e corriam em desordem; ninguém conseguia dizer o que estava exatamente a acontecer. Alguns afirmaram que o imperador estava a resistir firmemente com o que restava de seu exército e que tinha desbaratado os bárbaros. Outros disseram que havia sido morto ou capturado. Todos tinham algo diferente para relatar, reivindicando-se vitória para cada lado e logo alternadamente contradizendo-o. Finalmente, muitos dos Capadócios que estavam com o imperador, um grupo após outro, começaram a desertar. Uma vez que eu procurava impedir muitos dos soldados de fugir e levá-los a retomar os seus postos para nos livrar da derrota, deixo isto para outros relatarem. Após isso, muitos da cavalaria imperial retornavam com os seus cavalos, e quando lhes perguntámos o que acontecera, eles responderam que não tinham visto o imperador. Foi como um terramoto com pranto, tristeza, medo repentino, nuvens de poeira, e, finalmente, hordas de turcos cavalgando à nossa volta. Na medida do que a velocidade, a ânsia e a força permitiam, cada homem procurou a segurança na fuga. O inimigo perseguiu-nos, matando certos, capturando alguns, e atropelando no caminho. Era uma visão terrivelmente triste, para além da lástima e do luto. Pois o que poderia ser mais lamentável do que todo o exército imperial em fuga, derrotado e perseguido por bárbaros desumanos e cruéis, o imperador indefeso e cercado pelos bárbaros armados, e as tendas do imperador, dos oficiais e dos soldados tomadas por homens daquela laia, e ver todo o Estado Romano derrubado, e sabendo que o próprio império pode colapsar num momento?
Assim se encontravam as coisas com o resto do exército. Entretanto, o inimigo cercou o imperador, mas não foi fácil capturá-lo rapidamente, pois ele era um guerreiro experiente e um general que enfrentara muitos perigos. Defendeu-se vigorosamente contra os seus oponentes e matou muitos deles, mas no final acabou ferido na sua mão por uma espada. O seu cavalo, além disso, havia sido atingido com muitas flechas e ele lutava a pé. Aproximando-se o anoitecer, cansado, rendeu-se e – como suportar uma coisa dessas! – foi feito prisioneiro. Naquela noite, deitou-se no chão como todos os outros em desonra e agonia, ferido por todos os lados pela miríade de vagas de miséria enviadas pelos seus pensamentos conturbados e pelos penosos locais que viu.”
Tradução para português de: ATTALEIATES, Michael: Ob. Cit., p. 291-297.
1. Fontes
ATTALEIATES, Michael: The History. Trad. Antonny Kaldellis e Dimitri Krallis. Massachusetts, Harvard University Press, 2012.
2. Estudos
Borsworth, C. E., «The Political and Dynastic History of the Iranian World». In The Cambridge History of Iran. Vol. 5. Boyle, J. A. (ed.). 6.ª ed. Cambridge, Cambridge University Press, 2007.
CHEYNET, Jean-Claude: Byzance. L’Empire Romain d’Orient. Paris: Armand Colin, 2001.
HALDON, John: The Byzantine Wars: Battles and Campaigns of the Byzantine era. Stroud, Tempus, 2001.
MARKHAM, Paul: «The Battle of Manzikert: Millitary Disaster or Political Failure?». In http://deremilitari.org/2013/09/the-battle-of-manzikert-military-disaster-or-political-failure/ (disponível online em 21 de agosto de 2025)
MONTEIRO, João Gouveia, et al.: O sangue de Bizâncio: ascensão e queda do Império Romano do Oriente. Coord. João Gouveia Monteiro. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015.
NICOLLE, David: Manzikert 1071: The breaking of Byzantium. Oxford, Osprey Publishing, 2013.
RAVEGNANI, Giorgio: Imperatori di Bisanzio. Bolonha, Il Mulino, 2008.
IDEM: Introduzione alla storia bizantina. Bolonha, Il Mulino, 2006.
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1 RAVEGNANI, Giorgio: Introduzione alla storia bizantina. Bolonha, Il Mulino, 2006, p. 56.
2 HALDON, John: The Byzantine Wars: battles and campaigns of the Byzantine era. Stroud, Tempus, 2001, p. 153.
3 ATALEIATES, Michael: The History. Trad. Antonny Kaldellis e Dimitri Krallis. Massachusetts, Harvard University Press, 2012, p. VII-XIX.
4 MARKHAM, Paul: «The Battle of Manzikert: Millitary Disaster or Political Failure?». In http://deremilitari.org/2013/09/the-battle-of-manzikert-military-disaster-or-political-failure/
5 RAVEGNANI, Giorgio: Imperatori di Bisanzio. Bolonha, Il Mulino, 2008, p. 11-20.
6 IDEM: Introduzione alla storia bizantina, p. 117-124.
7 IDEM: Ibidem, p. 124-127.
8 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 8, p. 81.
9 HALDON, John: Ob. Cit., p. 112.
10 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 16, p. 177-185.
11 HALDON, John: Ob. Cit, p. 111.
12 MARKHAM, Paul: Ob. Cit.
13 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 261.
14 HALDON, John: Ob. Cit., p. 116-117; MARKHAM, Paul: Ob. Cit..
15 MARKHAM, Paul: Ob. Cit.
16 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 261-263.
17 IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 265-269.
18 HALDON, John: Ob. Cit., p. 113-118.
19 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 271.
20 HALDON, John: Ob. Cit., p. 115.
21 IDEM: Ibidem, p.117-118.
22 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 273.
23 IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 274-275.
24 HALDON, John: Ob. Cit., p. 120.
25 IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 285.
26 HALDON, John: Ob. Cit., p. 120-121.
27 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 284-285.
28 IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 285.
29 HALDON, John: Ob. Cit., p. 121.
30 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 291.
31 HALDON, John: Ob. Cit., p. 121.
32 IDEM: Ibidem, p. 121-122.
33 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 293.
34 IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 293.
35 É interessante notar que, de acordo com narrativa d’ A História, o movimento de recuo do exército turco numa primeira fase do combate terá sido entendido por vários comandantes bizantinos como uma fuga da grande força romana que avançava disciplinadamente em boa ordem (IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 293).
36 HALDON, John: Ob. Cit., p. 122.
37 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 293.
38 HALDON, John: Ob. Cit., p. 125.
39 ATALEIATES, Michael: Ob. Cit., cap. 20, p. 293.
40 Note-se que Miguel Ataleiates concluiu a sua obra A História quando já reinava Nicéforo III Botaniates, um inimigo dos Ducas, pelo que estava à vontade para dirigir as acusações mais pejorativas contra o seu clã (IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 293-295).
41 IDEM: Ibidem, cap. 20, p. 295-297.
42 Veja-se: HALDON, John: Ob. Cit., p. 126-127; MARKHAM, Paul: Ob. Cit.
43 HALDON, John: Ob. Cit., p. 126-127.
44 IDEM: Ibidem, p. 126-127.
45 MARKHAM, Paul: Ob. Cit.
Doutor em História da Idade Média. Investigador do Centro de História da Sociedade e da Cultura e do Centro de História da Universidade de Lisboa.