
A geoeconomia mundial, até 2050, vai mudar radicalmente. E desse ponto de vista, abordo inicialmente a geoeconomia, a partir da observação de quais poderão vir a ser as quinze maiores economias do mundo. Depois, num segundo ponto, tentarei falar de algo que eu acho que é muito importante, identificar o padrão de conflitos latentes entre as grandes potências, ou os grandes poderes, que, no fundo, na minha opinião, serão eles que irão estruturar a evolução do sistema político internacional. Depois, um terceiro aspeto, constatar que entre essas grandes potências estão os Estados Unidos da América, a República Popular da China e, veremos, com algumas limitações, a Rússia.
Todas estas grandes potências têm, neste momento, ambições e planos de expansão territorial, com razões de segurança nacional e com razões geoeconómicas. Portanto, o mundo tem três grandes potências (ou duas e meia) e todas elas com planos de expansão territorial que consideram imprescindíveis de serem realizados. Neste contexto, na parte final da minha intervenção, irei aludir a quatro cenários diferentes. Cenários geopolíticos de como o mundo pode evoluir, tendo em conta estas realidades, que são as potências, que são os grandes poderes e como se articulam.
Para olharmos para a mudança radical da geoeconomia mundial, vamos usar um trabalho feito em 2023 por um grande banco de investimentos americano, a Goldman Sachs, em que esta instituição procurou analisar a evolução das quinze maiores economias do mundo desde 1980; depois, tenta antecipar como é que poderá ser a lista das quinze maiores economias do mundo em 2050. Quando nós, hoje, falamos do futuro no sistema internacional, temos que pensar no horizonte de até 2040, pelo menos, pois compreender o que pode ser o horizonte em 2040 é fundamental para definir a estratégias de hoje, porque não é possível pensar em definir estratégias se não tiver uma visão mais estruturada sobre o futuro.
Portanto, com base no PIB real, ou seja, no PIB corrigido com a inflação, vamos poder ver como este estudo foi organizado. Assim, temos em 1980 as sete maiores economias do mundo que depois evoluiu em 2000, 2022 e depois a previsão que fazem para 2050. Neste contexto em 1980, olhamos apenas para as sete maiores economias do mundo (porque da 8.ª à 15.ª é outra análise). Vemos, assim, que a lista das sete maiores economias do mundo corresponde à visão de distribuição do poder, que está na nossa cabeça. Podemos salientar que os Estados Unidos da América são a primeira economia; a segunda economia mais importante é o Japão, e, depois, seguem-se quatro economias europeias: Alemanha, França, Reino Unido e Itália; e, em sétimo lugar, já aparece a China.
Quando nós passamos para 2022, já se pode ver como é que evoluiu a lista das quinze maiores economias do mundo, quarenta e dois anos depois do início da globalização. Os Estados Unidos da América ocupam ainda o primeiro lugar, mas constatamos que a China é já a segunda maior economia e o Japão é o terceiro. A primeira potência económica europeia que aparece é a Alemanha (quarto lugar) e, a seguir à Alemanha, já está a Índia, que cresceu para se tornar já uma das maiores economias globais; depois temos o Reino Unido e a França.
Quando chegamos ao cálculo, melhor, à previsão que a Goldman Sachs faz para 2050, que é aquela para a qual eu considero que nós devemos olhar com muita atenção, já se tem a seguinte ordem: o 1.º lugar é da China; o 2.º lugar é dos Estados Unidos; o 3.º lugar é da Índia; o 4.º lugar é da Indonésia; o 5.º lugar é da Alemanha; o 6.º lugar é do Japão e o 7º lugar é do Reino Unido… ou seja, a Europa praticamente desaparece. Não é a Europa, bem entendido, mas sim países europeus que nós estávamos habituados a ver na lista das maiores economias do mundo e que já não aparecem nos sete primeiros lugares. E emerge uma variedade de atores da Ásia. E o único que se aguenta, na posição importante, ainda são os Estados Unidos.
Mesmo assim, na previsão para 2050, os EUA já estão em segundo lugar e a China já está em 1.º lugar. Portanto, esta é uma primeira ideia para a qual eu chamo a vossa atenção e que foi o meu ponto de partida – o mundo a que nós estávamos habituados durante guerra fria, com os EUA e cinco dos seus aliados,incluídos nas sete maiores economias do mundo, está a mudar.
Num segundo momento, tentei olhar para os países e tentar fazer a diferença entre uma potência e uma economia. E, portanto, eu vou escolher Estados que, simultaneamente, pertencem a esta lista de grandes economias, mas que, em paralelo, estão a desenvolver complexos militares industriais de primeira categoria, bem como programas espaciais, por forma a ter uma capacidade de autonomia estratégica no mundo, no tempo de hoje e no futuro. E não são muitos os países que estão a fazer isso com dimensão…
Neste contexto, a Rússia, que não aparece em 1980 na lista das maiores economias, pois não havia Rússia (havia União Soviética que, entretanto, implodiu), e naturalmente um estudo como este não poderia comparar a União Soviética com os outros, ao passo que a Rússia de hoje já se assume como uma economia de mercado, com muitas limitações, mas já é considerada assim pela comunidade internacional. E a Rússia já aparece na lista das maiores economias o mundo em 2022, em 9.º lugar.
Vamos agora passar para o segundo tema – que é um tema fundamental – que é a análise do padrão de conflitualidade entre as que iremos considerar como as grandes potências no horizonte de 2050. Começamos por identificar os atores principais e o padrão de conflito a liberar entre eles.

Vamos partir de uma proposta de Quadrilátero do Poder Mundial para 2050 e de uma hipótese de relacionamento de outras potências e comunidades de estados com esse quadrilátero, que vai organizar o sistema internacional até 2050. Esse quadrilátero tem os Estados Unidos da América e depois tem três potências asiáticas (China, Índia e Japão – este numa aliança com os EUA e com uma parceria com a Austrália):

Figura 1 – Um quadrilátero do Poder Mundial.
Nesta primeira aproximação, tentei indicar o padrão de conflitualidade entre as potencias que ocupam os vértices do quadrilátero.
Assim, quando o traço que une dois vértices é vermelho, existe um antagonismo. Portanto, os Estados Unidos e a China são duas potências que estão em confronto. Por sua vez, o Japão e a China acompanham os Estados Unidos nesse padrão. Depois, a relação entre os Estados Unidos da América e o Japão, e a Austrália, apesar de tudo, com tensões no tempo atual do Presidente Trump, é uma relação-chave de aliança na Ásia.
Quando se olha para o topo da figura 1, para a China, a relação entre a Índia e a China, que são as potências emergentes da Ásia, é complicada por uma questão muito simples, que envolve o Paquistão. Porque o Paquistão é o único aliado conhecido da República Popular da China, e é muçulmano. Ora, o Paquistão é o principal adversário da Índia. Portanto, a relação entre a China e a Índia está sempre sobre a sombra do Paquistão. Muito dificilmente eu posso encontrar uma parceria estratégica entre a China e a Índia. Ambas as potências têm a preocupação de nunca entrar em confronto uma com a outra, porque isso, na prática, iria destruir ambas. E elas percebem que ainda têm muito que fazer para se tornarem potências de primeiro plano. Estão em processo de construção…
Então, e onde é que está a Rússia? Nós temos aqui o quadrilátero que envolve os Estados Unidos, a China, a Índia, e o Japão e a Austrália. E qual é o “lugar” da Rússia? Para responder a essa questão é fundamental tentar perceber qual a visão do seu “lugar” no sistema internacional, tal como os seus dirigentes atuais o pensam
A Rússia definiu, em primeiro lugar, que quer continuar a ser a potência-chave da Eurásia. Eurásia é um espaço que começa pelo Mar Negro, digamos assim, e vai até ao Oceano Pacífico. E, portanto, o primeiro objetivo da Rússia é continuar a ser a potência da Eurásia, com um forte controlo sobre o Mar Negro, sobre o Cáucaso, sobre a Ásia Central, sobre a Sibéria e sobre o extremo-oriente da Rússia. A isso – e em estreita relação com isso – a segunda grande preocupação da Rússia do Presidente Putin são as duas parcerias fundamentais para o século XXI da Rússia, ou seja, as duas potências asiáticas emergentes: a China e a Índia.
E uma das coisas muito interessantes que se vê é que a Rússia, na prática, exporta principalmente duas coisas, energia e armas. E os dois maiores compradores de armas à Rússia são precisamente a China e a Índia. Ou seja, a Rússia desempenha um papel estratégico neste triângulo já que é o principal fornecedor externo de armas a ambas as potencias emergentes. Pensamos que, daqui a alguns anos, quer a Índia quer a China terão a autonomia para produzir uma parte significativa do armamento mais moderno que precisarem, mas, nesta altura, ainda precisam de equipamento militar russo. E a energia é a outra área fundamental das exportações da Rússia. Energia de que a China e Índia são grandes compradores no mercado externo.
A Rússia, a Índia e a China constituíram um triângulo – sob o comando geopolítico da Rússia – que tem vindo a mudar o sistema internacional com a criação de organizações e fóruns.
Neste cenário, coloquei a Rússia como tendo um problema, que é a guerra com a Ucrânia. A União Europeia está aqui com outra cor distinta, porque a União Europeia, como existe, não é uma potência comparável com as outras, pois não tem uma unidade de comando e não tem uma parte substancial de capacidade militar e diplomática. E, desse ponto de vista, tende a ser um ator mais normativo do que atuante. Mas não é um ator como aos outros que incluímos no quadrilátero, ainda…

Portanto, vamos ver de seguida o que é que estes três – Rússia, China e Índia –, criaram; criaram a Organização de Cooperação de Xangai (OCX). De início, que não se percebia muito bem para que é que ia servir (ainda não se percebe bem), mas, em princípio, está centrada na Ásia e tem preocupações de segurança.
E depois surgiram os BRICS – que incluem Estados do que hoje se chama o “Sul Global” – e que em conjunto representam, na prática, uma tentativa de dominar o Sul global sob a liderança deste triângulo: Rússia, China e Índia, afirmando-se perante os EUA e o G20 (que os EUA promoveram muito antes).

Portanto, a Rússia não é, na minha opinião, um vértice do Quadrilátero, porque já não tem condições para o ser. Mas, com a inteligência diplomática que caracteriza a elite russa constituíram um triângulo com a Índia e com a China, que está a tentar reformatar o sistema internacional, ampliando a capacidade de influência das partes.
Depois, nós podemos começar por ver a OCX com uma dimensão geográfica que é esmagadora por causa do tamanho das partes. Com efeito a OCX inclui a Rússia, a China, a Índia e o Paquistão, bem como os principais países da Ásia Central (que haviam integrado a União Soviética). Portanto, isto é uma massa gigantesca, em que a Rússia, a China e a Índia são as peças fundamentais.
Estes são os principais Estados-Membros, cujo número está em expansão. Mas, depois, os três fundadores fizeram uma coisa muito interessante, criaram os Parceiros de Diálogo da OCX. E se formos ver a sua composição, nela se incluem os principais produtores de petróleo do mundo – da Arábia Saudita ao Irão. Uma das preocupações fundamentais deste conjunto é o abastecimento energético. E é claro que estão muitos outros produtores de petróleo e de gás natural, para além desses dois, como, por exemplo, o Kuwait, o Catar e os Emirados Árabes Unidos, em suma, estão os principais produtores de hidrocarbonetos do mundo, com um forte impacto no mercado energético e na economia global.
Depois, passamos para os BRICS, em que se encontram a Rússia, a China e a Índia. Os BRICS também têm o Brasil, na América Latina, e têm a África do Sul, em África. Numa das últimas cimeiras dos BRICS, quem é que eles convidaram e que já aderiu? O Irão, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, ou seja, os produtores de petróleo (e de gás natural). Um dos grandes objetivos dos BRICS é contribuir para a “desdolarização” da economia mundial. E um dos aspetos da “desdolarização” é acabar com os “petrodólares”, ou seja, com o pagamento do petróleo feito atualmente em dólares dos EUA. A “desdolarização” da economia mundial é um objetivo económico, mas é um objetivo absolutamente crucial para a relação de poderes no futuro.
Isto é tudo aquilo que estivemos a ver, mas existe outro triângulo – neste caso potencial – que é o que resulta da relação entre os Estados Unidos, a Índia e o Japão/Austrália. Recorde-se que a Índia tem uma característica de que se fala pouco; a Índia é o parceiro mais confiável da Rússia; a China não é um parceiro confiável da Rússia, na minha opinião, bastando pensar que parte do Extremo Oriente da Rússia já foi território da China numa outra “encarnação”.
Mas a Índia é um parceiro confiável para a Rússia por uma razão muito simples que passo a referir: em 1971, a Rússia, ou melhor a União Soviética, apoiou a Índia quando esta interveio para derrotar o exército do Paquistão no Paquistão Oriental, que deu origem em seguida ao Bangladesh.
E desse ponto de vista, o maior inimigo da Índia – o Paquistão – perdeu em 1971 uma parte significativa do seu território, com a cobertura e o apoio da União Soviética, e com a indisponibilidade dos americanos protegerem o seu parceiro, que era também o Paquistão. E, desse ponto de vista, a Índia ficou com uma ligação estreitíssima com a URSS, e atualmente com a Rússia. E, ainda hoje, este “eixo” é uma questão muito interessante. Vejamos o seguinte:

Os Estados Unidos e a Índia estão num processo de aproximação estratégica. Aproximação com significado especial. Uma das áreas de aproximação é na conquista do espaço. Os Estados Unidos, quando falam com a Índia, não falam de “bugigangas”. Falam de coisas realmente importantes e, portanto, a conquista do espaço é uma das coisas importantes para a China, para a Índia, e para os Estados Unidos.
Atualmente, o Presidente Trump pode ter muita dificuldade em perceber a situação, pois a Índia, que tem uma parceria-chave com a Rússia, está a construir uma parceria muito forte com os Estados Unidos. Por isso, os Estados Unidos, neste momento, têm dois inimigos principais, a China e a Rússia (e, digamos que muitos nos Estados Unidos acham que a questão fundamental é enfraquecer a Rússia – e alguns até acham que o ideal era partir a Rússia “aos bocadinhos”).
Neste contexto, os Estados Unidos querem ter uma relação com a Índia, mas a Índia mantém uma relação especial com a Rússia (por exemplo, a Índia compra petróleo à Rússia.)
Recorde-se que os problemas grandes que a Rússia tem com o seu território não se passam só a ocidente (vd. relação com a Ucrânia), passa-se igualmente no extremo oriente russo. O extremo oriente russo, a seguir à Sibéria, tem cerca de 7 milhões de pessoas que são russos. Qualquer das províncias chinesas que rodeiam o extremo oriente russo, tem 60 milhões ou mais de habitantes. Portanto, há uma questão central para Rússia que é proteger o extremo oriente russo, nomeadamente protegê-lo das ambições da China. Recorde-se como o Japão, antes da Segunda Guerra Mundial, quando procurou definir onde é que se ia abastecer de petróleo (para diminuir dependência dos EUA), a primeira opção que foi tomada pelo exército, foi a seguinte: ”vamos tomar a Manchúria na China e, a partir daí, vamos conquistar o extremo oriente russo onde podemos aceder ao petróleo da Sibéria; depois. os militares japoneses foram derrotados pelo exército vermelho.
E no seio das Forças Armadas japonesas ganhou o partido da Marinha. A Marinha disse que não ia perder tempo com a Eurásia: “Vamos é conquistar toda a região marítima das colónias das potências europeias que têm petróleo – Indonésia, Malásia, Bornéu –, mas, para isso, temos uma tarefa a realizar primeiro, atacar Pearl Harbour e destruir a armada americana do Pacífico”. Assim começou a II Guerra Mundial.
Em resumo, a primeira tendência que os japoneses tiveram foi olhar para a Sibéria e para o Extremo Oriente da russo e dizer assim: “a Sibéria e o Extremo Oriente era o que nos fazia falta”. E eu penso que há chineses que pensam rigorosamente a mesma coisa.
Deste ponto de vista, percebe-se que a Índia mantenha uma ligação muito próxima à Rússia e queira ter também uma relação muito boa com os Estado Unidos da América, nomeadamente, se os Estados Unidos estiverem a atingir a Rússia. Por exemplo, agora os EUA atingiram a Rússia e disseram: “nós vamos impor tarifas às economias que compram petróleo à Rússia”. Quem é que está em primeiro lugar a comprar petróleo à Rússia? A Índia. Portanto, os Estados Unidos da América não conseguem perceber que, se querem fazer uma aproximação à Índia, têm que aceitar que a Índia tenha uma relação forte com a Rússia. Porque a Índia não é um Estado “protegido” pelos Estados Unidos. É um Estado com autonomia estratégica. E, portanto, os Estados Unidos estão a entrar num mundo multipolar com alguns atores que têm, já hoje, capacidade de autonomia estratégica. O que para os EUA é novo, quando comparado com a relação que os EUA tiveram com a Europa no período pós II Guerra Mundial.
O que se passa hoje não tem nada a ver com a Guerra Fria, porque na Guerra Fria os Estados Unidos “protegiam o Japão” da URSS e da República Popular da China e protegiam os países da Europa, que dependiam dos Estados Unidos na sua segurança face à URSS. Nada disso se passa hoje. Os Estados Unidos, no mundo multipolar, lidam com potências que são potências de direção centralizada e que têm autonomia nas suas decisões estratégicas.
No presente, as três grandes potências estão todas elas com planos ou ambições de expansão territorial por razões de segurança, complementada com razões de natureza geoeconómica.
A Rússia quer expandir-se. Ou melhor, quer reconquistar território que hoje pertence à Ucrânia, mas que já foi território russo e fora transferido para Ucrânia quando existia a URSS.
Para compreender isto temos que regressar ao século XVIII, ao tempo de Catarina II, a Imperatriz russa. Porque esta Imperatriz acabou por obter um resultado inesperado nas suas décadas de exercício do poder:
– anexou a Ucrânia em duas das três partilhas da comunidade polaco-lituana que realizou em parceria com Prússia e com o Império austro-húngaro;
– anexou o litoral do Mar Negro, ao derrotar o império otomano em duas guerras;
– obteve a Crimeia, derrotando os tártaros que a governavam.
No império russo, estes novos territórios passaram a ser designados como “Nova Rússia”. Catarina II não era russa, ela era uma aristocrata alemã e, quando foi para Moscovo, converteu-se de Protestante a Ortodoxa, aprendeu a falar russo e passou a interiorizar os interesses estratégicos da Rússia. E os interesses estratégicos da Rússia, levaram-na onde chegou.
A China, por sua vez, tem um objetivo que é controlar Taiwan. Podemos, depois, no debate, perceber que, neste momento, no topo do Partido Comunista Chinês há uma divisão ainda oculta entre duas correntes. Uma tendência favorável ao que Xi Jinping – o líder do Partido e do Estado – poderia dizer: “… até eu, Xi Jinping, acabar o meu mandato, que é em 2027, o meu terceiro (e último mandato?), Taiwan tem que estar integrado na China”; data: 2027”… E ele diz: “… a bem ou a mal…”.
E depois apareceram um conjunto de outras pessoas, chefiadas por um prestigiado general que dizem: “…você não está bom da cabeça, não é?” “E se quer – por causa de cumprir o seu objetivo de 2027, de unificar Taiwan –não pense que nós estamos disponíveis para nos lançarmos num confronto com os Estados Unidos por causa da sua preocupação com a data”.
E, portanto, desse ponto de vista, convém recordar que a China quer Taiwan e quer também toda a aquela parte do mapa que é o mar do Sul da China…
Agora, pensemos o seguinte: o Japão e a Coreia do Sul têm uma localização em que o abastecimento de petróleo, de minérios, de alimentos, que vem do mundo inteiro e sobe para o Japão e para a Coreia do Sul, passa por esta região; a partir do momento em que a China a controlasse, passava a ”ter na mão” dois aliados do Estados Unidos.
E agora viajemos para os Estados Unidos da América. O Oceano Ártico é, na prática, um Mar Mediterrâneo situado no topo do mundo. Porque, deste lado, tudo é russo. Do lado de lá do Oceano Ártico, estão o Canadá, os Estados Unidos – com o Alasca – e a Gronelândia. E do que é que o Presidente Trump se deu conta? Que a China quer entrar no Ártico. Não é por causa da economia, embora ela possa ser importante para as novas rotas. Não, a China quer entrar no Ártico para que os seus submarinos nucleares, portadores de mísseis balísticos estratégicos, estejam em frente dos Estados Unidos, e o Presidente Trump, como é natural, diz “… nem pensem nisso…”.

Mas, para fazer isso, os Estados Unidos têm que ter uma boa relação com os russos. Porque, se não, os russos vão “fazer o jeito aos chineses”. E, portanto, o que o Presidente Trump diz é, pelo menos, “…eu quero a Gronelândia, porque a Gronelândia sempre me dá maneira de estar mais presente neste Oceano e controlar estes espaços”.
Os Estados Unidos também querem a Gronelândia por causa das terras-raras, não é? Porque a Gronelândia tem uma reserva muito grande destes minérios.
Vamos tentar ver como é que o mundo pode evoluir até 2040, partindo da dinâmica do Quadrilátero do Poder.
Para se elaborarem Cenários, comecemos por definir Três Incertezas cruciais, em torno da solução das quais o mundo evoluirá de formas diferentes, conforme cada uma destas incertezas for resolvida. Começarei, pois, por definir as três Incertezas cruciais.
Uma Incerteza que tem a ver com a estratégia futura dos Estados Unidos. Uma segunda Incerteza com a estratégia futura da China. E uma terceira Incerteza com um tema que não costuma ser abordado em termos geopolíticos; esta Incerteza tem que ver com o modo como se irá procurar atingir os objetivos do “Acordo de Paris” no que respeita a reduzir drasticamente a emissão de gases com efeito de estufa. Mas o problema todo está em que, para os países do Médio Oriente e da Ásia Central – todos eles muçulmanos –, a única fonte de rendimento importante é o petróleo e o gás natural. Que vendem no mercado internacional.
Se considerarmos que para atingir a neutralidade carbónica temos que reduzir drasticamente a utilização não só do carvão, mas também do petróleo e do gás natural (porque, na prática, habituá-mo-nos a queimar o petróleo e o gás natural como forma de os utilizar). E, desse ponto de vista, os técnicos da Organização Internacional de Energia fizeram um cálculo e disseram que, até 2050, a produção de petróleo e de gás natural tem que se reduzir, e muito.
Reduzir drasticamente a produção de petróleo e gás natural é incendiar o Médio Oriente, quando uma outra questão muito mais importante era proibir a queima do petróleo e do gás natural e buscar as tecnologias que hoje permitem utilizar os hidrocarbonetos, que são uma coisa preciosa, (porque são uma combinação de hidrogénio e carbono) sem os queimar.
Vamos de seguida encontrar duas configurações muito contrastadas de resolução de cada uma destas três Incertezas. E depois da combinatória destas configurações surgem vários proto cenários possíveis:
a) Na primeira incerteza sobre a estratégia dos Estados Unidos, a questão decisiva é saber se os Estados Unidos vão continuar a assumir dois inimigos principais: a Rússia e a China. Ou se vão passar a ter uma estratégia de normalização das relações com a Rússia e de trabalho em conjunto no Ártico e, ao mesmo tempo, no Extremo Oriente russo.
Quando eu vi o Presidente Trump convidar os russos para um encontro de discussão sobre a guerra na Ucrânia a realizar no Alasca, pareceu-me que a coisa mais importante que podia acontecer no futuro seria o investimento americano no extremo oriente russo, e em parceria com os russos, para mostrar claramente aos chineses que não é do interesse americano que a Rússia seja partida, e que o extremo oriente e a Sibéria passem para a mão da China.
b) Na segunda incerteza que diz respeito à China, ela pode, com o Presidente Xi Jinping, realizar a anexação de Taiwan, mesmo que por via militar, até 2027, e tem vindo a construir parcerias estratégicas com países da ASEAN localizados no Indo-Pacífico (como o Camboja, Malásia e Indonésia), nas quais está a negociar a criação de bases militares, em contrapartida da cooperação com estes países.
O que é Taiwan? Taiwan é o local para onde o exército nacionalista, dirigido Chiang Kai-shek, que combateu na guerra civil da China contra o Partido Comunista e aí fora derrotado, se transferiu e que passou a designar-se República da China. Logo, o partido nacionalista, que é o Kuomintang, é um partido muito importante em Taiwan.
Portanto, a primeira configuração de resolução desta Incerteza que designaremos por A’, consiste em a China querer anexar Taiwan – a “bem ou a mal – até 2027 e controlar o mar do Sul da China e todo aquele espaço oceânico.
A segunda configuração de resolução desta Incerteza que designaremos por B’ consistiria em a República Popular da China chegar a um entendimento com o Kuomintang para a integração de Taiwan na China, mantendo Taiwan um grau alargado de autonomia. Em complemento, ambos, China e Taiwan, integrariam um projeto de organização no espaço do Pacífico proposto pelo Japão, que é o “Comprehensive and Progressive Trans-Pacific Partnership” 1, que é uma organização promovida pelo Japão, em que a China mostrou interesse em integra-se e à qual Taiwan também mostrou inte-
resse em participar.
c) Quanto à Incerteza C, que nos remete para o percurso para neutralidade carbónica, uma das configurações de resolução da Incerteza ´, que designaremos por A´´, será a estratégia de redução das emissões de gases com efeito de estufa que se centre – como a União Europeia pretende-na redução drástica na utilização de carvão, de petróleo e de gás natural – num investimento maciço privilegiando as energias renováveis e o armazenamento em larga escala da eletricidade produzida com base nessas energias.
A configuração alternativa de resolução da Incerteza que designaremos por B`` seria uma estratégia centrada na proibição da queima de carvão, petróleo e gás natural, e sua substituição com uma muito maior variedade de fontes de obtenção da eletricidade para além das energias renováveis, incluindo o nuclear de 4.ª geração, a produção e utilização do hidrogénio, etc.
O cruzamento das duas configurações de resolução de cada uma das três Incertezas origina a “Árvore de Decisão” representada na figura 2, que tem oito ramos, cada um representando um possível proto Cenário a desenvolver:

Figura 2 – Árvore de Decisão.
a) A primeira Incerteza é, como vimos, o que os Estados Unidos vão fazer: ou optam pela Configuração A, em que mantêm dois inimigos principais, Rússia e China; ou optam pela Configuração B, em que os EUA têm um inimigo principal, que é a China, e assumem uma normalização gradual de relações com a Rússia, centrada nos interesses comuns no Ártico e numa cooperação dos Estados Unidos no desenvolvimento do extremo oriente russo;
b) A segunda Incerteza é a China: pode optar pela Configuração A`, em que a China (República Popular da China), liderada por Xi Jinping, anexa Taiwan até 2027 e consegue ocupar o mar do sul da China; ou pela Configuração B` em que a China (República Popular da China) encontra uma forma de negociar a integração de Taiwan, com uma forte autonomia de Taiwan e com um entendimento entre o Kuomitang (o Partido Nacionalista, que foi derrotado na Guerra Civil da China), e o Partido Comunista Chinês, que venceu essa guerra civil.
As configurações A` e B` da República Popular da China podem combinar-se com as configurações A e B dos EUA.
c) A terceira Incerteza tem que ver com o Médio Oriente e com a obtenção da neutralidade carbónica até 2050. A configuração A`` é a atualmente defendida pela União Europeia; a configuração B`` é mais próxima da que o Japão propôs à Arábia Saudita "…nós estamos a desenvolver tecnologias para obter hidrogénio a partir do gás natural e do petróleo sem emissões de CO2. E o que vimos propor é uma parceria convosco, para que vocês, com o vosso petróleo, deixem de o exportar para ser queimado e o passem a exportar como hidrogénio, na forma líquida, ou como amoníaco…”. E é essa parceria entre o Japão e a Arábia Saudita que está a funcionar.
Da combinação das configurações de cada uma das três Incertezas podem surgir os oito Protocenários que já referimos.
Observemos os Protocenários 1 e 8.
Protocenário 1
Os Estados Unidos mantém a sua opção atual (A) no que respeita às suas relações com Rússia e com a China.
A China (República Popular da China) opta pela configuração A`, aquela que é atualmente defendida pelo líder do Partido Comunista da China.
Na Incerteza acerca do caminho para a neutralidade carbónica, vence a atual estratégia proposta pela União Europeia.
Pensamos que este Protocenário – que diríamos ser de CONTINUIDADE, por se manterem as estratégias dos atores fundamentais em cada Incerteza
Este Protocenário 1 é um cenário de confusão generalizada.
Com o Protocenário 8 é tudo diferente:
a) Os Estados Unidos, depois de promoverem uma proposta de paz que torne possível acabar com a guerra na Ucrânia avançariam para uma normalização de relações com Rússia;
b) Ao mesmo tempo, a evolução da posição da China sobre Taiwan e o Indo Pacífico tornariam possível uma colaboração mais forte entre os EUA e a China;
c) Enquanto no que respeita ao caminho para a neutralidade carbónica, venceria a Configuração B`` com a estratégia do Japão de parceria com países produtores de petróleo e de gás natural em direção a tecnologias que permitam utilizar os hidrocarbonetos sem emitir CO2, por exemplo através do hidrogénio a obter por via química
Este cenário marcaria uma evolução muito favorável no Sistema Internacional. O problema é que exige uma mudança nas estratégias dos EUA, da China e na questão energética.
Portanto, fiz um breve apontamento sobre dois Cenários – os mais contrastados dos oito Protocenários a que chegámos e cada cenário.
Concluindo, o mundo está a atravessar um período ótimo de tomada de decisões… só que não sabemos como é que acaba…
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1 https://en.wikipedia.org/wiki/Comprehensive_and_Progressive_Agreement_for_Trans-Pacific_Partnership
Colaborador regular do IDN – Instituto da Defesa Nacional (desde 1986) e do IUM – Instituto Universitário Militar. Tem publicado numerosos estudos e artigos, nas áreas de economia internacional e geopolítica, prospetiva e estratégias de desenvolvimento.