Nº 2435 - Dezembro de 2004
Luís da Câmara Pina. O Senhor e o General.
Major-general
Renato Fernando Marques Pinto
A primeira impressão de quem falava com o General Luís Maria da Câmara Pina era a de estar na presença dum Senhor. Tudo nele o mostrava: a linguagem cuidada, o aprumo natural, o apego a princípios, a fidalguia do trato, o espírito de humor e até o elegante corte dos fatos e uniformes.
 
Esta impressão era completada pelo poder de comunicação, pela afabilidade e pela capacidade de manter um ambiente descontraído e alegre.
 
Por isso, foi escolhido, sendo ainda um jovem Capitão, para fazer parte das delegações portuguesas ás conversações com autoridades britânicas, durante a II Guerra Mundial.
 
Logo no início da guerra, Portugal procurou obter ajuda britânica em material de guerra, para conseguir alguma capacidade de defesa. A derrota da França em 1940, com a chegada das tropas alemãs à fronteira espanhola, fez admitir a hipótese de uma investida germânica através da Península Ibérica para atingir Gibraltar e os portos do Atlântico.
 
 
Em 1941 houve conversações de EM em Londres sobre a defesa de Portugal Continental e das Ilhas Atlânticas. O Gabinete Britânico referiu que a situação não lhe permitia satisfazer as nossas necessidades de material de guerra e sugeriu que, em caso de ameaça o Governo Português se transferisse para os Açores, oferecendo-se apenas uma resistência simbólica no Continente e destruindo-se tudo quanto pudesse servir o inimigo. Portugal concordou.
 
A este respeito, o General Bethencourt Rodrigues, que foi Chefe de Gabinete do General Câmara Pina, refere o seguinte (1):
 
“Cabe agora entrar no planeamento de transferência dos órgãos de soberania e preparar o plano de distribuições a realizar no Continente, trabalhos que se fazem em colaboração com delegados britânicos. O plano de distribuições revestia-se de extrema sensibilidade: a par de competência técnica, requeria, da parte portuguesa, uma apurada percepção do interesse nacional de só distribuir o que tivesse influência directa na condução da guerra e a vigorosa esclarecida defesa deste ponto de vista, face ao natural desejo da Inglaterra de criar todas as dificuldades ao invasor pela “destruição em massa de tudo o que possa ser utilizado pelo inimigo”. O oficial português com o papel principal na discussão deste plano de destruição foi o Capitão Luís da Câmara Pina.
 
… em 18 de Junho de 1943, o Governo Britânico, evocando a Aliança, pede ao Governo Português que lhe sejam concebidas facilidades nos Açores… Cinco dias depois, o Gabinete de Lisboa dá a sua anuência de principio…”
 
Ainda em Junho chegou a Lisboa, em completo segredo, uma Missão Militar Britânica chefiada pelo Vice-Marechal do Ar CEH Medhurst. Um dos oficiais da Missão, o depois Comodoro do Ar (2) RE Vintras, viria a escrever um livro com um relato das conversações e acordos entre Portugal e o Reino Unido na II Guerra Mundial (3). Nele se refere:
 
“A Delegação Portuguesa tinha como chefe o Almirante Botelho de Sousa… O Exército Português era representado pelo General Craveiro Lopes e a Força Aérea (4) pelo meu amigo Coronel Humberto Delgado. O secretário era o Capitão Luís da Câmara Pina… cujo difícil trabalho consistiu em traduzir todos os nossos documentos. O seu perfeito inglês e a sua atitude, útil e profissional, foram um bálsamo em todas as sessões.
 
A nossa primeira reunião foi no apartamento de Câmara Pina (5) em 5 de Julho”.
 
Embora Vintras só refira a primeira reunião, outras se seguiram no mesmo local, por razões de segurança. Uma das reuniões foi realizada na casa de Sintra. (6) O Acordo foi assinado na manha de 17 de Agosto no Ministério da Marinha, fixando a data de 8 de Outubro para a entrada em vigor.
 
Em Outubro de 1957 o General Câmara Pina foi nomeado Director do Instituto dos Altos Estudos Militares (então em Caxias), onde era professor do Curso de Altos Comandos. Com 54 anos, tinha um aspecto mais jovem e dinâmico que os seus antecessores.
 
Nesse ano, eu tinha completado o Estágio que se seguia ao Curso Complementar de Estado-Maior, estando colocado no Estado-Maior do Exército. Um dia, fui chamado ao meu Chefe juntamente com o Capitão Ramos Jorge, meu camarada de curso… Recebemos ordens para nos apresentarmos ao General Câmara Pina num exercício de postos de comando a Norte de Lisboa. Fomos num automóvel do EME que avariou logo à saída de Lisboa. Já não me lembro como resolvemos o problema, mas chegámos atrasados mais de meia hora… Quando nos apresentámos o General, muito sério, deu-nos um grande raspanete, de pouco servindo a nossa explicação:
 
- Meu General, nós saímos do EME logo que o carro foi posto à nossa disposição, mas avariou pouco depois. Não temos culpa disso.
Resposta do General:
 
- Os senhores acabaram há pouco o vosso curso e têm que pensar como oficiais de Estado-Maior. Têm de cumprir horários. Deviam ter tido o carro com tempo, para prever todas as eventualidades!
 
Mais calmo, deu-nos então ordens para as missões que tínhamos ido desempenhar e que desconhecíamos até esse momento.
 
Foi o meu primeiro contacto com o General e não me pareceu nada agradável. Enganava-me, felizmente.
 
Quando em 1958 assumiu o cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército, o General Pina era um homem realizado e um militar experiente. Servido por uma brilhante inteligência analítica, uma invulgar capacidade de trabalho, e um grande desejo de realizar, conhecendo pessoas em cargos importantes do sector público e privado, prestou a Portugal serviços de enorme valor - mas que às vezes passam despercebidos.
 
Havia já sérias preocupações com a defesa do Ultramar. A ameaça mais provável para Portugal seria em África. As posições da ONU, a hostilidade dos países Africanos e Asiáticos recém-independentes, o apoio da URSS e satélites aos movimentos independentistas e à pressão das “nações amigas” não deixavam lugar a dúvidas: teríamos mesmo de nos bater em África.
 
Fez-se então um trabalho notável de preparação e constituição de forças, desviando-se a anterior orientação de um conflito convencional ou nuclear na Europa para operações em África. Foi criado o Centro de Instrução e Operações Especiais (CIOE), em Lamego, que começou imediatamente a preparar quadros para a guerra subversiva e Companhias de Caçadores Especiais. Quando em Angola se verificaram problemas na Baixa do Cassange (Janeiro de 1961) e os massacres dos Dembos (Março de 1961) havia já 4 destas companhias no local. Era pouco, mas foram importantes na contenção inicial na vaga terrorista, até que começassem a chegar forças mais substanciais, principalmente Batalhões de Caçadores.
 
Houve que recrutar, instruir, armar, equipar e transportar para África forças em quantidades muito grandes para um país tão pequeno, tão isolado, tão longínquo e de economia tão frágil.
 
Quando se estudam as campanhas de Angola e Moçambique durante a I Guerra Mundial e se verificam as dificuldades nos movimentos, reabastecimentos e evacuação de baixas, ficamos admirados ao fazer comparação com a organização administrativa e logística conseguida pelo Exército durante as campanhas de África de 1961 a 1974: as dificuldades iniciais de 1961 foram rapidamente ultrapassadas e as tropas passaram a dispor de apoios nos campos da alimentação, transporte, saúde, material de guerra, equipamento, fardamento, correio, etc., reflexos da organização superior definida pelo Chefe do Estado-Maior do Exército e aplicada nos Teatros de Operações.
 
Toda esta acção - logística, administrativa e de preparação e mobilização de forças - obrigou à resolução de problemas complexos. Felizmente que no Estado-Maior do Exército estava o General Câmara Pina para os ajudar a resolver. Foi um esforço enorme, uma missão histórica, que é pouco conhecida porque a este campo falta o brilho natural envolvente das operações, principalmente quando bem sucedias….
 
Em Abril de 1968, regressei a Lisboa após cerca de cinco anos em Angola como Chefe da 2ª Repartição do Quartel-General da Região Militar e, depois, Director dos Serviços de Centralização e Coordenação de informações (SCCIA).
 
Fui apresentar-me no Estado-Maior do Exercito, passando primeiro pela minha antiga 2ª Repartição, onde encontrei bons amigos como Chefes de Secção: Salazar Braga (Contra-Informação), Carvalho Teixeira (Informação) e Almiro Canelhas (Acção Psicológica). Conheci também oficiais mais jovens, que se viriam a revelar militares de valor, como Sousa Lucena, Chito Rodrigues e Figueiredo Valente.
 
Subi ao “andar dos generais” e pedi para ser recebido pelo Chefe do Estado-Maior, General Câmara Pina. Apresentei-me, sendo acolhido com a bonomia a que estava habituado. Depois de uma curta conversa sobre a situação em Angola, disse-me que me nomeava Chefe da 2ª Repartição do Estado-Maior do Exército.
 
Retorqui: - Mas, meu General, sou Tenente-Coronel moderno e sei que há dois Coronéis do Corpo de Estado-Maior apresentados no Gabinete à espera de colocação.
 
A resposta veio rápida: se as colocações dos oficiais de Estado-Maior fossem por escala, seria o meu contínuo a fazê-las. O Marques Pinto acabou de chegar dum Teatro de Operações onde chefiou Informações Militares e Civis. Por isso fica meu Chefe da 2ª Repartição.
 
Agradeci e voltei ao rés-do-chão, passando de novo pela Repartição, para comunicar aos meus amigos que me teriam de aturar… A reacção foi agradável.
 
Era este o estilo do General Câmara Pina: escolha das pessoas que considerava adequadas para os lugares, orientação sobre objectivos, cedência de liberdade de acção na conduta, ajuda e incitamento no desempenho das funções e também …palavras severas quando as coisas não corriam bem.
 
Ainda que a sua formação académica inicial fosse no campo das Ciências - licenciou-se em Matemática com 21 anos, e tirou o Curso de Engenharia Militar com 26 - Luís da Câmara Pina pendia naturalmente para as Artes e as Letras. A Literatura, as Belas Artes, a História eram áreas em que estava perfeitamente à vontade.
 
Nas suas obras escritas, discursos, conferências e até em cartas pessoais, verifica-se recorte literário de quem usa a língua portuguesas com o rigor, uma clareza e uma graça inexcedíveis. A leitura dessas obras, de que saliento Jomini - Grande Senhor da Estratégia, o Valor da Presença Militar na Difusão da Cultura Portuguesa em África, Relances da História, da Personalidade Militar de D. Afonso Henriques, A Batalha de S. Mamede, o Mistério de Vasco da Gama e Camões-Soldado, não deixa duvidas sobre a profundidade da investigação e o domínio da língua.
 
Foi um orador fluente, mesmo de improviso, que cativava e encantava quem o ouvia. E isto, não só em português, como em inglês e francês.
 
Tinha também um sentido estético muito apurado. Apreciava e conhecia pintura e escultura como se fosse um artista nestes campos.
 
Esta natural tendência para as Artes, Literatura e História explica a sua presença activa e inovadora em tantas Instituições: Revista Militar, Academia Internacional de Cultura Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Academia das Ciências de Lisboa, Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Sociedade de Geografia de Lisboa e Instituto de Alto Estudos da Defesa Nacional.
 
 
Num dia de Abril ou Maio de 1970, fui chamado ao General Andrade e Silva, que substituíra o General Câmara Pina no ano anterior. Disse-me que o seu antecessor sugeria o meu nome para o cargo de Adido Militar e Aeronáutico em Londres. Concordando com o sugerido, convidou-me para esse cargo. Agradeci e pedi dois dias para reflexão. Dois dias depois comuniquei-lhe que estava disponível.
 
Parti para Londres em Junho seguinte. Foi uma experiência inesquecível pela natureza das funções e também… porque fiquei a conhecer melhor o General Câmara Pina.
 
Explico: nas suas funções de Director do Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional, de membro honorário da Associação de Antigos Alunos do Colégio de Defesa NATO e de membro da Assembleia de Parlamentares na NATO, o General assistia a reuniões em capitais europeias e, por vezes, nos EUA. Mesmo que as reuniões fossem noutros países, procurava, sempre que possível, passar por Londres. Normalmente ficava uns dias, em que me convidava, e à minha mulher, para visitarmos museus, galerias, e exposições de pintura e escultura. Aí ele era reconhecido e tratado como um amigo. Era um prazer enorme acompanhá-lo porque conhecia muito bem a matéria, como se fosse uma enciclopédia viva, explicando estilos, escolas, técnicas e mestres com uma enorme clareza. Muito aprendi com estas “visitas guiadas”.
 
Um dia revelou-me um “segredo”. Tinha sempre um fato a fazer num dos alfaiates de Londres, na Jermyn Street. Disse-me que era uma maneira de se justificar a si próprio pelos “desvios” para Londres… Varias vezes o acompanhei ao alfaiate, onde, feita a prova, o mestre lhe dizia: “Senhor General, pode voltar dentro de 6 ou 7 meses?”. E, assim, marcavam a próxima prova. O salão do alfaiate era um verdadeiro templo, com manequins vestidos de cerimónia, de passeio, de desporto e com uniformes militares. Havia até um cavalo de pasta para prova de calções e casacas de montar.
 
Numa dessas sessões, o General contou-me uma história que ouvira quando era Adido Militar em Londres, logo a seguir à II Guerra Mundial: Um embaixador (não necessariamente português) mandou fazer um fato de categoria; em frente de um espelho disse para o mestre: “Now I am a gentleman”, ao que outro respondeu: “No, Sir, now you look like a gentleman!”. Se non è vero…
 
Uma vez, estava eu a tratar dum assunto com o Embaixador Caldeira Coelho no seu gabinete; ouvimos bater a porta … e entrou o General Câmara Pina. Surpresa… O Embaixador disse logo: “Luís, vamos almoçar os três”. Resposta do General: “Não, Gonçalo, estou só de passagem, apanhei um táxi no aeroporto e o homem está à espera à porta da Embaixada. Vim aqui apenas para abraçar dois amigos!” Esteve uns 10 ou 15 minutos connosco e lá seguiu para o aeroporto …
 
Anos depois, em fins de 1979, comandava eu a Academia Militar, quando o General me disse que gostaria de mostrar aos netos o retrato de seu Pai, General Adolfo César Pina.
 
Este tinha sido Comandante da Escola Militar (antecessora da Academia) e o seu retrato pintado por A. Conceição Silva, estava exposto na Sala do Conselho. Combinamos uma data, para os princípios de 1980, mas em Janeiro foi-me retirado o comando e em Março morreria o General Câmara Pina. Para meu desgosto, não foi possível satisfazer o desejo do meu Amigo.
 
Major-General Renato Fernando Marques Pinto
Sócio Efectivo da Revista Militar.
 
Notas:
(1) In Independência - Revista de Cultura Lusíada. Dezembro de 1980.
(2) Posto da Real Força Aérea correspondente a Brigadeiro do Exército Britânico.
(3) “The Portuguese Connection - The Secret History of the Azores Base”, Londres 1974.
(4) Trata-se da Aeronáutica Militar, porque a Força Aérea só foi constituída em 1952.
(5) Na Rua das Chagas, 20.
(6) Senhora Dona Maria Leonor da Câmara Pina, em 3 de Novembro de 2004. A casa de Sintra era uma moradia do casal Câmara Pina. 
 
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2009-06-29
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by CMG Armando Dias Correia